Artigos e Opinião

Editorial

Mimado e muito mal-acostumado

O Rio de Janeiro é o que podemos chamar de playboy mimado com alta mesada e que, por conta disso, virou arruaceiro e criminoso

Continue lendo...

Os sucessivos governadores do Rio de Janeiro e prefeitos de uma série de municípios fluminenses são a prova mais concreta do ditado popular que diz que dinheiro que vem fácil, vai fácil.

Ontem, a retomada do julgamento sobre o destino dos royalties do petróleo no Supremo Tribunal Federal (STF) trouxe a público a informação de que uma possível mudança de regra tiraria em torno de R$ 23 bilhões anuais da administração fluminense e das prefeituras. Mesmo assim, eles manteriam o direito a um valor parecido. 

Apesar deste faturamento bilionário, que cresceu vertiginosamente nos últimos anos, o estado do Rio de Janeiro segue se endividando e já acumula dívida superior a R$ 203 bilhões com o governo federal. A dívida de Mato Grosso do Sul, para efeito de comparação, é da ordem de R$ 10 bilhões.

Mesmo com estes bilhões de reais repassados anualmente, os problemas de segurança pública só pioram, a ocupação irregular de morros não para de crescer e os escândalos de políticos envolvidos em corrupção e com o crime organizado são notícia praticamente todos os dias. Nos últimos anos, cinco ex-governadores foram presos, um foi cassado e outro, declarado inelegível.

Os índices sociais também são péssimos. O Rio de Janeiro é frequentemente classificado como um dos estados mais desiguais do Brasil, com um índice de Gini alto (aproximadamente 0,54 em dados recentes), ocupando posições próximas às de Roraima e Paraíba entre as unidades federativas mais desiguais.

Professores da Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul, por exemplo, uma das categorias mais importantes de uma administração estadual, têm salário 167% maior que os da rede estadual fluminense.

No ranking salarial nacional dos professores concursados, Mato Grosso do Sul está em primeiro, com R$ 13 mil mensais, e o Rio de Janeiro está em último, com apenas R$ 4,86 mil mensais por 40 horas semanais. 

Agora, em meio ao debate sobre uma possível redistribuição dos royalties do petróleo, os defensores dos interesses fluminenses, ou de suas benesses, alegam que os R$ 23 bilhões fariam pouca diferença para os demais estados e municípios e muita diferença para aqueles que perderiam esses repasses.

Eles podem até ter razão, porém, este argumento faria sentido se essa dinheirama fosse corretamente aplicada. Por outro lado, este pouco que alguns alegam que caberia aos demais estados e municípios está longe de ser mixaria.

Uma estimativa nada otimista aponta que prefeituras e a administração estadual de Mato Grosso do Sul fariam jus a cerca de R$ 400 milhões por ano somente da parcela que deixaria de ser repassada aos fluminenses. 

Então, entre manter o repasse destes bilhões de reais a uma unidade da Federação onde, literalmente, a bandalheira tomou conta e passar a dividi-los com estados onde se valoriza professores, por exemplo, nem mesmo é necessário muita argumentação.

O fato é que, em 2012, em meio à solidificação do chamado pré-sal, foi criada uma lei prevendo a distribuição nacional desses royalties. Até hoje ela não é cumprida, pois o Rio de Janeiro se sentiu prejudicado.

Para efeito de analogia, o Rio de Janeiro é o que podemos chamar de playboy mimado que recebe mesada alta e que, por conta disso, virou arruaceiro e criminoso. Agora, para seu bem, está na hora de cortar esta mesada. 

Assine o Correio do Estado

ARTIGOS

Por que estamos pagando para fazer amigos?

Empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez

20/07/2026 07h45

Continue Lendo...

Em 20 de julho é celebrado o Dia do Amigo e, com a aproximação da data, uma pergunta incômoda começa a ecoar nos debates sobre o comportamento contemporâneo: você pagaria para fazer amigos? A maioria das pessoas certamente de pronto diria que não, mas essa resposta tem funcionado apenas na teoria, pois já tem quem lucre com esse novo nicho de mercado.

Nos Estados Unidos, esse fenômeno vem ganhando força, e o cenário é alarmante. Segundo informações do Magnet ABA Therapy, um a cada cinco adultos americanos apresenta um estado mental de solidão crônica.

Globalmente, a geração Z é a mais afetada, com 24% das pessoas de 15 anos ou mais relatando sentimentos significativos de solidão. Diante desse deserto afetivo, o mercado encontrou uma oportunidade: a criação da chamada “economia da conexão”.

Hoje, empresas, promotores de eventos e coaches cobram centenas de dólares por fins de semana intensivos para ensinar adultos a socializarem e a perderem a timidez. Há clubes privados que oferecem uma verdadeira “curadoria” de amizades.

E se você pensa que isso é uma realidade apenas para quem mora fora do Brasil, está enganado.

Em Curitiba, por exemplo, já se multiplicam anúncios de aplicativos com convites como “jantares com desconhecidos” ou “transforme desconhecidos em amigos” – iniciativas desenhadas para ajudar pessoas a romperem o isolamento e a construírem novos laços.

Mas como chegamos a esse ponto? Culpar a pandemia, as telas ou o home office é a saída mais fácil, mas a verdade é mais profunda. Estamos imersos em uma cultura que estimula o sujeito a se desvincular do coletivo.

Sob a ilusão de que “você pode ser o que quiser” e amparados pela promessa de felicidade imediata que vem em cápsula, desaprendemos a conviver e criamos uma sociedade com baixíssima tolerância à frustração.

Afinal, fazer amigos de verdade exige paciência, concessões e o risco de se machucar, habilidades que fomos desaprendendo a usar em nossa busca por uma vida sem atritos. Assim, o efeito colateral tem sido nos isolarmos em nossas próprias bolhas de autossuficiência.

É aí que a lógica do mercado entra: se você não tem tempo ou habilidade para cultivar laços organicamente, o sistema monetiza essa carência, transformando a vulnerabilidade humana em mais um serviço por assinatura.

O problema é que, ao fazer a amizade seguir a lógica mercantil, passamos a tratá-la sob a regra do descarte: “se der problema”, eu simplesmente cancelo.

O resultado são relações voláteis, sem consistência e sem capacidade de superar dificuldades, o oposto da real condição humana, que é caótica e imperfeita, mas profundamente viva e transformadora.

Ao terceirizarmos nossa sociabilidade para algoritmos e jantares pagos, estamos anestesiando o sintoma sem curar a doença. Estamos trocando o calor do afeto espontâneo pela conveniência de um produto com garantia de satisfação.

Se o afeto vira mercadoria, o outro deixa de ser um igual para se tornar um bem de consumo.

Diante desse cenário em que até o carinho tem preço e a solidão virou modelo de negócios, resta uma última e incômoda reflexão: se passarmos a pagar para que as pessoas nos ouçam e nos aceitem, o que nos garante que o que estamos comprando é mesmo amizade, e não apenas o fim temporário da nossa solidão?

ARTIGOS

A odisseia eleitoral brasileira

Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento

20/07/2026 07h30

Continue Lendo...

A estreia de “A Odisseia”, adaptação do clássico de Homero, convida a refletir sobre a permanência dos grandes arquétipos da civilização ocidental. Mais do que um relato da Grécia Antiga, a obra permanece atual porque aborda temas universais, como poder, liderança, legitimidade e pertencimento.

Conceitos como democracia, política, cidadania, justiça e oikos continuam estruturando a forma como compreendemos o Estado e o exercício do poder, permitindo que a política brasileira também seja interpretada a partir de uma atualização do que vem a ser um novo épico político.

Após a prisão de Jair Bolsonaro, a direita iniciou uma longa travessia em busca de uma nova centralidade política.

Nesse percurso, Flávio Bolsonaro se tornou o personagem encarregado de conduzir essa jornada. Como Ulisses, seu desafio não consiste apenas em derrotar adversários externos, mas, sobretudo, em sobreviver às próprias tempestades internas.

A campanha atravessa disputas regionais, conflitos entre lideranças, divergências sobre candidaturas ao Senado e dificuldades para consolidar um projeto nacional unificado.

As tensões envolvendo Michelle Bolsonaro, os desgastes provocados pelas denúncias que atingiram seu entorno político e a fragmentação crescente do campo conservador funcionam como os monstros da narrativa homérica: obstáculos que retardam a chegada ao destino.

Seu maior desafio, porém, é retornar ao oikos político. Na tradição grega, o oikos não representa apenas a casa física, é o lugar da legitimidade, da autoridade reconhecida e da ordem restaurada. Enquanto Flávio enfrenta sua travessia, Luiz Inácio Lula da Silva ocupa uma posição distinta.

Diferentemente do filho de Jair Bolsonaro, que ainda percorre o caminho tortuoso da legitimidade, Lula já habita o espaço do poder. Seu maior ativo político, neste momento, talvez não seja a expansão de sua força, mas a incapacidade de seus adversários de concluir a própria jornada.

É justamente nesse ponto que a analogia com Homero revela sua principal inversão. Na epopeia, Ulisses retorna, derrota os pretendentes e restaura a ordem de Ítaca.

Na política, contudo, não existe destino garantido. Quanto mais longa se torna a travessia da direita, maiores são as possibilidades de permanência daquele que já ocupa o oikos. A demora transforma-se em vantagem estratégica para quem governa.

Essa talvez seja a principal contradição do atual cenário político brasileiro. A cultura política parece conservar uma inclinação mais favorável ao campo de centro-direita em temas como segurança pública, responsabilidade fiscal e valores conservadores, entretanto, essa maioria cultural ainda não conseguiu se converter em unidade política.

A dialética se torna evidente: existe uma tese social favorável à direita, mas uma antítese produzida pela fragmentação de suas lideranças. Sem uma síntese capaz de reorganizar esse campo, o resultado tende a favorecer justamente aquele que ocupa a posição que muitos pretendem conquistar.

Talvez a principal lição de Homero permaneça atual: antes de vencer o adversário, é preciso concluir a própria viagem.

Na política, muitas vezes, o maior obstáculo não está do lado de fora, mas na incapacidade de construir unidade antes de alcançar o destino. E, enquanto a travessia continua, quem já está em casa permanece, ao menos por enquanto, senhor do próprio oikos.

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).