Artigos e Opinião

ARTIGO

Nilson Reis Boiteux: "Projeto Rondon – 52 anos - integrar para não entregar"

Coronel reformado do Exército

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A expedição do Marechal Rondon e o movimento estudantil nas décadas 60/80, que ficou conhecido como Projeto Rondon em homenagem ao seu patrono ilustre são os únicos comparáveis com a epopeia desbravadora dos bandeirantes audazes dos Sec XVII e XVIII. Assim é que, por volta de 1648, Raposo Tavares chegava aos contrafortes da Cordilheira dos Andes e Francisco Pedro Xavier em 1677 atingia algumas dezenas de léguas distante de ASSUNÇÃO.  No início do século XVIII, em 1718, Pascoal Moreira Cabral, lançava os fundamentos de Cuiabá. Com essas ações intrépidas, os nossos bandeirantes ultrapassaram o Meridiano de Tordesilhas e assenhorearam para a Coroa Lusitana desse imenso Centro-Oeste que hoje, com orgulho, avançamos o Brasil. O Projeto Rondon, no século XX impregnado da mesma energia e ideais dos nossos ancestrais indômitos e ainda, com redobrado denodo, repetiu a façanha dos Bandeirantes mas, num outro sentido. Levou da cidade para o campo um movimento de interiorização cheio de esperança, no atendimento aos milhares de brasileiros até então desassistidos. Em todos os rincões desse imenso país houve um sopro de renovação. “A ideia-força do Projeto Rondon: integrar para entregar” foi plantada no coração do Brasil.

Passada a fase heróica do Projeto Rondon e tendo o mesmo se consolidado perante a opinião pública, atingiu-se nos tempos áureos quando a sua profícua atuação mobilizou em todo país, durante 22 anos de 1967/1989 mais de 350 mil universitários e 15 mil professores, realizando ações transformadoras em comunidades carentes. Decorridos 52 anos de existência, o Projeto Rondon deixou um saldo de 23 “Campi avançados” com a efetiva participação nesses “Campis” de 55 instituições de ensino superior de todo país e mais de 500 mil universitários que vivenciaram as Operações nacionais, regionais, locais e de interiorização. Com essa soma de trabalhos o Projeto Rondon constituiu-se no mais importante programa de inserção dos universitários na vida brasileira. Em 1986 o Ministro da Educação JORGE BORNHAUSEN propôs ao Presidente JOSÉ SARNEY a extinção da Comissão Nacional de Moral e Civismo (CNMC), por entender que a matéria possuía caráter exclusivamente político e doutrinário, sendo despojada de qualquer fundamento científico e pedagógico e que servia à doutrina da Segurança (Correio Braziliense, 27 de março de 1986). Acolhendo a sugestão de seu Ministro o Presidente Sarney encaminhou ao Congresso Nacional Projeto de Lei extinguindo a COMISSÃO DE MORAL E CIVISMO, criada pelo Decreto-Lei nº 869, de 12 de setembro de 1969 (Folha de São Paulo de 17 de abril de 1986).

O Ministro da Educação de então, julgou que os nossos jovens já tinham um grau de civismo muito desenvolvido e, por isso, resolveu eliminar a cadeira de Educação Moral e Cívica em todos os Educandários brasileiros, considerando que a matéria servia à ideologia dos militares da Revolução de 1964 e que nos “novos tempos” não haveria lugar para tais coisas... Na década de 90 a Fundação Projeto Rondon, então no Ministério do Interior, foi extinta no bojo de mais 30 instituições federais. Os Rondonistas históricos, inconformados, não aceitaram o golpe que se abateu sobre eles, e muito pior, que se abateu sobre os universitários, as comunidades carentes e o país. Em vista disso, resolveram criar o Projeto Rondon - Associação Nacional dos Rondonistas, que até bem pouco tempo tinha representação em 26 Estados da Federação. De imediato o Projeto Rondon retomou o seu antigo vigor com o carisma e credibilidade conquistados em todo Brasil pelas suas profícuas e brilhantes atuações, particularmente em lugares inóspitos. Recomeçou onde começou em 1967, atuando na Amazônia em meses de trabalho na selva selvagem fazendo o registro das comunidades indígenas isoladas, trazendo como resultado milhares de certidões que possibilitaram a esses brasileiros o direito garantido na Constituição de exercer a sua cidadania. Com o êxito obtido nessa ação, o Governo Federal editou um Decreto que pudesse dar estabilidade à Associação Nacional dos Rondonistas e, para tanto sugeriu que o Projeto Rondon procurasse os Ministérios. Assim coube ao Ministério da Defesa aglutinar os demais Ministérios, pois estando estruturado iria trabalhar em consonância com o Projeto Rondon Nacional, que cedeu por 10 anos o direito do Ministério da Defesa usar a logomarca e o nome de “Projeto Rondon”, guardando a pureza dos seus ideais. Atualmente o Ministério da Defesa tem na sua estrutura o Projeto Rondon e como missão atua em diferentes áreas geográficas do País. O Projeto Rondon dos Estados, hoje Instituto Projeto Rondon, atua localmente tendo como objetivo maior interiorizar a juventude dos Estados. 

O Instituto Projeto Rondon /MS - Associação Nacional dos Rondonistas de Mato Grosso do Sul continua atuante, estimulado pelo trabalho e dedicação de seus componentes. É uma OSCIP séria, registrada nos órgãos federais de controle e por eles fiscalizada. Mais do que isto, desenvolve nos universitários sentimentos de brasilidade, de princípios éticos e de respeito aos valores morais e materiais da nacionalidade. Impregna todos esses princípios com aspectos práticos de suas diversas profissões – a verdadeira Extensão Universitária – mostra-lhes o Brasil desconhecido, o seu Brasil; levando às populações que são assistidas a cultura de onde vieram. Por intermédio do Projeto Rondon tornam-se melhores profissionais, melhores cidadãos e sobretudo melhores homens e mulheres com alta consciência nacional.

EDITORIAL

Uma âncora em tempos de incerteza

O acordo entre Mercosul e União Europeia aponta uma direção: mesmo em um mundo mais instável, a cooperação econômica ainda pode ser um caminho

06/03/2026 07h15

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O mundo atravessa um momento de inflexão. A globalização que marcou as últimas décadas, baseada em cadeias produtivas integradas e relativa estabilidade geopolítica, já não parece tão sólida quanto antes.

Conflitos armados voltam a ganhar espaço Fna cena internacional e rivalidades estratégicas entre grandes potências passam a influenciar diretamente a economia global.

O confronto recente envolvendo os Estados Unidos e o Irã no Oriente Médio é apenas um dos sinais dessa nova realidade. Somam-se a ele as tensões comerciais persistentes entre os Estados Unidos e a China, que vêm reorganizando fluxos de comércio e investimentos ao redor do planeta.

Nesse cenário, cresce a percepção de que o mundo caminha para uma fase mais fragmentada, em que interesses nacionais e disputas estratégicas tendem a se sobrepor às dinâmicas de cooperação econômica que prevaleceram por décadas.

É justamente em períodos como este que os acordos comerciais amplos e estruturantes se tornam ainda mais relevantes. Eles funcionam como âncoras de previsibilidade em um ambiente internacional cada vez mais volátil.

O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia se insere exatamente nessa lógica. Mais do que um instrumento para ampliar trocas comerciais, ele representa um compromisso de longo prazo entre dois grandes blocos econômicos.

Ao estabelecer regras claras, reduzir barreiras e criar um ambiente mais estável para o comércio, o tratado fortalece laços que podem passar por períodos de turbulência global.

Não se trata apenas de abrir mercados. Trata-se de consolidar uma relação econômica estratégica entre regiões que compartilham valores institucionais importantes, como a previsibilidade jurídica e o respeito às normas internacionais. Em tempos de instabilidade, esse tipo de parceria ganha peso ainda maior.

Para o Brasil, e particularmente para os estados com forte vocação exportadora, o acordo surge como uma oportunidade relevante de expansão econômica. Mato Grosso do Sul é um exemplo claro dessa perspectiva.

Com uma base produtiva consolidada no agronegócio e uma indústria em processo de fortalecimento, o Estado reúne condições para ampliar sua presença em mercados exigentes e de alto valor agregado.

Ao mesmo tempo, a aproximação econômica com a Europa também pode favorecer investimentos, transferência de tecnologia e modernização industrial – fatores essenciais para sustentar ciclos de crescimento mais duradouros.

Nada disso elimina os desafios que ainda cercam o cenário internacional. A volatilidade nos preços de energia, as incertezas em cadeias de suprimento e os riscos geopolíticos continuam presentes.

No entanto, justamente por causa dessas incertezas, iniciativas que ampliem parcerias econômicas e reforcem a integração entre mercados tornam-se ainda mais valiosas.

O acordo entre Mercosul e União Europeia não resolve todos os dilemas do comércio global contemporâneo. Mas aponta uma direção importante: mesmo em um mundo mais instável, a cooperação econômica ainda pode ser um caminho para gerar prosperidade.

E, diante das turbulências que se desenham no horizonte internacional, essa pode ser uma das decisões mais acertadas para o futuro econômico da região.

ARTIGOS

O efeito colateral do mercado paralelo na guerra contra a obesidade

Anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos

05/03/2026 07h45

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Depois de décadas de inércia, a medicina finalmente começa a oferecer respostas mais consistentes para uma das doenças crônicas mais prevalentes do planeta: a obesidade.

Foram anos de pesquisas, ensaios clínicos e avaliação regulatória até que uma nova geração de medicamentos chegasse ao consultório com resultados inéditos. Hoje, fala-se em perdas de 15% até 25% do peso corporal com fármacos aprovados.

A expectativa agora se volta para a retatrutida, triplo agonista ainda em estudo que, em fases clínicas, mostrou perdas de até 30% do peso corporal, superiores às da tirzepatida, comercializada como mounjaro. Mas há um detalhe essencial: a retatrutida ainda não foi aprovada em nenhum país.

Ainda assim, surgiu a notícia de que a empresa Éticos, conhecida por já ter produzido medicamentos proibidos no Brasil, anunciou o lançamento de uma suposta retatrutida com o nome comercial ReduFast.

Pouco depois, a Dirección Nacional de Vigilancia Sanitaria informou que não concedeu aprovação oficial para o produto nem mesmo no Paraguai.

É aqui que mora o verdadeiro perigo.

Já conhecemos os danos do mercado paralelo das chamadas “canetas emagrecedoras”: produtos sem rastreabilidade, sem garantia de armazenamento adequado e sem comprovação da composição. Há relatos de efeitos adversos graves, contaminações e substâncias diferentes das prometidas, um risco sanitário evidente.

Mas existe um efeito colateral ainda mais perverso: a difamação do tratamento da obesidade.

Quando alguém usa um produto clandestino, sofre um efeito adverso e associa o problema à “caneta para emagrecer”, não é apenas aquele produto que perde credibilidade. É toda a classe terapêutica. É a ciência. É o tratamento desenvolvido dentro das regras. É o paciente que passa a ouvir: “Viu? Essas injeções fazem mal”.

A obesidade já carrega estigma suficiente e ainda é tratada como falha moral ou falta de força de vontade.

Trata-se, porém, de uma doença crônica, complexa e multifatorial, associada a maior risco de infarto, acidente vascular cerebral e diversos tipos de câncer. Negar tratamento adequado é perpetuar sofrimento e custos humanos e econômicos.

Se permitirmos que o mercado paralelo avance antes da eventual aprovação oficial da retatrutida, o cenário é previsível: produtos de origem duvidosa, eventos adversos graves, manchetes alarmistas e uma população cada vez mais desconfiada. O medo se espalha. O preconceito se reforça. E quem realmente precisa do tratamento fica sem acesso, seja por receio, seja por restrição futura mais rígida.

É urgente conscientizar a população sobre a importância de respeitar os trâmites oficiais e reforçar a vigilância sanitária e o controle de fronteiras para evitar a entrada de produtos não aprovados que exploram a esperança de quem luta contra a obesidade.

Quando o atalho vira regra, a conta chega, não apenas em efeitos colaterais físicos, mas em descrédito social. O risco maior não é a molécula em si, e sim transformar uma das maiores conquistas recentes da medicina em mais um capítulo de desinformação e medo.

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