Artigos e Opinião

EDITORIAL

O agro precisa de reservas e boa gestão

Construir reservas, contratar seguro, diversificar riscos e planejar o uso dos lucros são medidas tão importantes quanto investir em sementes, fertilizantes ou tecnologia

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A disparada dos pedidos de recuperação judicial entre os produtores de soja em Mato Grosso do Sul, revelada pelo Correio do Estado nesta edição, merece uma reflexão que vai muito além da conjuntura econômica.

O segmento que lidera o agronegócio estadual e responde por uma parcela significativa da riqueza produzida em MS passa por uma crise que não pode ser explicada apenas pela queda dos preços das commodities, os juros elevados ou os problemas climáticos. Esses fatores pesam, mas não contam toda a história.

Há poucos anos, durante o ciclo de valorização da soja e de forte desvalorização do real, muitos produtores viveram um período de rentabilidade excepcional.

Como a commodity é negociada em dólar, a combinação de preços elevados no mercado internacional e câmbio favorável proporcionou margens bastante confortáveis.

Era o momento ideal para fortalecer o caixa, formar reservas e preparar o negócio para os inevitáveis períodos de baixa que caracterizam qualquer atividade ligada ao mercado de commodities.

O que se observa agora, porém, é que boa parte desse excedente não foi convertida em segurança financeira.

O agronegócio brasileiro evoluiu de forma extraordinária dentro da porteira. Investiu em tecnologia, pesquisa, mecanização e produtividade.

Tornou-se referência mundial em eficiência agrícola. Entretanto, a mesma profissionalização nem sempre ocorreu fora da lavoura, especialmente na administração financeira das propriedades.

O elevado número de recuperações judiciais indica que ainda existe muito amadorismo quando o assunto é planejamento financeiro.

Em muitos casos, prevaleceu a cultura de reinvestir praticamente todo o lucro na expansão patrimonial, sobretudo na aquisição de mais terras, máquinas e outros ativos.

Embora esse movimento aumente o patrimônio, também reduz a liquidez e dificulta a formação de reservas capazes de sustentar a atividade nos momentos de retração.

A consequência é conhecida. Quando os preços recuam, o clima compromete a produção ou o crédito encarece, muitos produtores passam rapidamente da prosperidade para a dificuldade financeira.

Sem caixa, sem provisões e frequentemente com baixo nível de proteção por meio de seguros, resta recorrer à renegociação de dívidas, aos programas de subsídios governamentais ou às iniciativas da bancada ruralista para alongar, reduzir ou até perdoar débitos.

Não há dúvida de que políticas públicas voltadas ao crédito rural continuarão sendo importantes para um setor estratégico à economia nacional. Contudo, elas não podem substituir aquilo que deveria ser uma prática permanente de boa gestão.

Empresas de qualquer segmento convivem com ciclos econômicos e aprendem a reservar parte dos ganhos extraordinários para enfrentar períodos adversos. No agronegócio, essa cultura ainda precisa ser fortalecida.

Mais do que novos financiamentos ou renegociações, o campo necessita incorporar definitivamente a educação financeira como ferramenta de gestão.

ARTIGOS

O efeito bet no bolso: como o Pix para apostas redesenha a inadimplência

Tudo começa com a ilusão de poder de compra, depois vêm os juros elevados comprometendo a renda

09/07/2026 07h30

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Sempre me questionam por que a inadimplência continua crescendo, mesmo em momentos de desemprego em baixa. O cartão de crédito é apontado como o “grande vilão”, representando cerca de 60% das dívidas em aberto no Brasil. Mas será que ele está sozinho nessa?

Tudo começa com a ilusão de poder de compra, depois vêm os juros elevados comprometendo a renda. Essa “festa do descontrole” é um baile de máscaras, visto que o brasileiro tem (em média) cinco cartões de crédito diferentes. É aí que o risco real de superendividamento fica, de certa forma, disfarçado.

O que os indicadores tradicionais estão demorando a captar é uma drástica mudança no comportamento do consumidor: as bets.

Elas estão criando uma nova bola de neve no orçamento familiar e afetando a saúde mental dos apostadores (ludopatia). Por isso, as instituições financeiras, educacionais e até mesmo varejistas precisam rever o perfil do devedor no Brasil.

O Pix representa mais de 30% das transações financeiras do País, superando as com cartões de crédito e de débito. Porém, essa mesma facilidade de pagamento, combinada à recompensa quase instantânea e gamificada das plataformas de apostas, criou um ciclo vicioso de dopamina.

A digitalização fez com que o jogo passasse a morar no bolso do brasileiro, a um clique de distância. O resultado disso?

Segundo pesquisa do PoderData, em 2025, o setor movimentou R$ 37 bilhões, alcançou mais de 25 milhões de apostadores e investiu R$ 1,4 bilhão em propaganda. Efeito colateral: quase metade da população (49,7%) está inadimplente. Mais de 81,2 milhões de pessoas, de acordo com a Serasa.

O problema deixou de ser apenas a oferta de crédito. Tornou-se estrutural e psicossocial. A classe C passou a enxergar as bets como forma de mudar de classe social ou “sair da lama”.

A Serasa pesquisou e constatou: 44% apostaram como uma tentativa desesperada de ganhar dinheiro para pagar débitos preexistentes.

Por outro lado, 57% dos endividados não tinham restrições no CPF antes de começar a jogar. Fica claro que, quando a sobrevivência vira jogo, dignidade é a primeira moeda a sair de circulação.

Na Monest, eu sempre defendo a premissa de que ninguém deve porque quer. Quem deve intencionalmente tem outro nome. A grande maioria entra em inadimplência por falta de condições, desorganização ou, como vemos agora, por armadilhas comportamentais.

Muito se fala sobre educação financeira. Mas tentar educar alguém no momento em que a pessoa já está em desespero não funciona; afinal, você não ensina alguém a nadar enquanto a pessoa está se afogando.

A busca por dinheiro rápido impacta diretamente no poder de consumo, na capacidade de pagamento, e até mesmo no orçamento de saúde pública.

É hora do mercado acordar e adotar uma nova estratégia. Afinal, a inadimplência atual, impulsionada pelas bets, não se resolve ajustando taxas de juros ou acionando chat bots comuns. Neste ponto, não pretendo ditar uma “solução” única e universal, mas sugerir alguns movimentos.

1º passo: reconhecer que bet não é mero entretenimento e mapear estrategicamente os diferentes tipos de devedores para adaptar o tom.

2º passo: atualizar as ferramentas de relacionamento e buscar tecnologias conversacionais com IA e que sejam profundamente analíticas; principalmente, quanto ao comportamento.

Com isso em mente, temos um fato que todo líder concorda: a nova abordagem de cobrança requer dados dinâmicos e fluidez no diálogo. Nesse contexto, a verdadeira inovação é preservar o vínculo com o cliente, em vez de constrangê-lo ainda mais.

É sempre bom lembrar: conversar com qualidade é construir uma ponte enquanto se caminha sobre ela.

EDITORIAL

Emendas precisam de mais critérios

Ainda hoje, é difícil explicar por que municípios vizinhos, com população semelhante e demandas parecidas, recebem volumes tão distintos de recursos

09/07/2026 07h15

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O Orçamento sempre foi um dos principais espaços de disputa de poder no Brasil. Afinal, é por meio dele que se define onde serão aplicados os recursos arrecadados da sociedade. Nos últimos anos, essa disputa ganhou novos contornos.

O Poder Executivo, que até o início da década concentrava maior controle sobre a execução orçamentária, passou a dividir esse protagonismo com o Congresso Nacional, impulsionado pelo crescimento das emendas parlamentares e pela criação de diferentes modalidades de destinação de recursos, nem sempre marcadas pela mesma transparência que deveria nortear a administração pública.

Nesta edição, o Correio do Estado mostra que Mato Grosso do Sul recebeu mais de R$ 350 milhões em emendas parlamentares liberadas às vésperas do período eleitoral. Do ponto de vista técnico, existe uma justificativa plausível para esse calendário.

A legislação impõe restrições à liberação de recursos durante o período eleitoral, justamente para evitar o uso da máquina pública em benefício de candidaturas. Antecipar os pagamentos, portanto, atende às exigências legais.

Entretanto, seria ingenuidade ignorar o contexto político que envolve essas liberações. O governo federal poderia postergar parte desses repasses para depois das eleições, mas dificilmente abrirá mão de um instrumento que também fortalece sua relação com a base parlamentar.

Essa dinâmica revela como as emendas se consolidaram não apenas como mecanismo de financiamento de obras e investimentos, mas também como importante moeda na articulação política entre Executivo e Legislativo.

O verdadeiro debate, porém, não deve se limitar a quem controla mais recursos. A questão central é como esses recursos são distribuídos. O Brasil precisa reduzir o peso das decisões estritamente políticas e ampliar o espaço para critérios técnicos e programáticos.

Políticas públicas estruturantes não podem depender exclusivamente da capacidade de articulação de parlamentares ou da influência política de determinados grupos.

Saúde, educação, infraestrutura e assistência social devem seguir prioridades definidas por planejamento, indicadores e necessidades objetivas da população.

Também é necessário aperfeiçoar os critérios de distribuição das emendas. Ainda hoje, é difícil explicar por que municípios vizinhos, com população semelhante e demandas parecidas, recebem volumes tão distintos de recursos.

Em muitos casos, a diferença decorre muito mais da representação política do que de indicadores sociais ou econômicos. Essa lógica contribui para ampliar desigualdades regionais e compromete a eficiência do gasto público.

A transparência também precisa avançar. O cidadão tem o direito de saber quem destinou cada recurso, qual foi o critério utilizado, qual obra será executada, quanto custará e quais resultados produzirá. A publicidade dessas informações fortalece o controle social e reduz o espaço para distorções.

As emendas parlamentares cumprem papel relevante ao aproximar o Orçamento das necessidades locais. O desafio está em impedir que elas substituam o planejamento governamental ou se transformem em instrumento permanente de negociação política.

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