Artigos e Opinião

EDITORIAL

O invisível premiado: por que esconder a nota fiscal premiada?

Como o silêncio da gestão fazendária sobre o Nota MS Premiada alimenta a sonegação e sufoca a arrecadação em tempos de crise

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A relação entre o Fisco e o contribuinte sempre foi pautada pela obrigatoriedade, mas programas de estímulo à cidadania fiscal como o Nota MS Premiada deveriam subverter essa lógica, transformando o ato de pagar impostos em uma oportunidade de benefício direto.

No entanto, o que se observa atualmente no Estado é um fenômeno inverso: uma comunicação tímida que, em vez de alardear os ganhadores e incentivar o consumo formal, parece preferir o silêncio. Em tempos de “vacas magras” e economia instável, essa postura não é apenas um erro de marketing, é uma falha da gestão fazendária.

O conceito por trás de pedir o CPF na nota é brilhante em sua simplicidade. O cidadão atua como um fiscal voluntário, garantindo que o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) pago no posto de combustível ou na padaria chegue, de fato, aos cofres do Estado.

Esse mecanismo é a arma mais poderosa e eficaz contra a sonegação fiscal, uma vez que obriga à emissão do documento eletrônico.

Contudo, para que essa engrenagem funcione, é preciso haver estímulo. O consumidor precisa sentir que há uma vantagem real. Quando o governo deixa de dar publicidade aos resultados, ele quebra o ciclo de motivação.

O recente caso em que um consumidor ganhou sozinho deveria ser o estopim para uma campanha massiva, mostrando que a sorte é real e acessível. Em vez disso, a notícia circula de forma protocolar, quase escondida.

Se o Estado alega queda na arrecadação e dificuldades orçamentárias, por que não fortalecer o canal que garante a receita sem aumentar a carga tributária?

Fomentar a emissão de nota fiscal é a forma mais justa e democrática de arrecadar: não se cria um novo imposto, não se aumenta a alíquota e não se sufoca o empreendedor honesto.

Apenas garante-se que o imposto que já foi devidamente pago pelo consumidor saia do caixa da empresa e entre no Tesouro estadual para ser reinvestido.

Fica o questionamento. A quem interessa que o cidadão esqueça de pedir o CPF na nota? O desinteresse da população gera um “vácuo fiscal” que beneficia apenas os maus empresários que operam na informalidade.

Quando o governo se omite na divulgação, ele desprotege indiretamente o bom comerciante, aquele que paga seus tributos em dia e sofre com a concorrência desleal de quem não emite a nota fiscal. O prêmio em dinheiro é o chamariz, mas o benefício real é o remédio no hospital, policiais na rua.

A comunicação oficial do governo deveria estar repleta de histórias de ganhadores, de explicações simples sobre como conferir as dezenas da nota premiada. Se o cidadão não ouve falar de quem ganhou, ele passa a acreditar que o prêmio é inalcançável ou, pior, que o programa é meramente ilustrativo.

O governo e o secretário de Fazenda precisam entender que o Nota MS Premiada é uma política de Estado, não uma ação isolada. Esconder os resultados é um “barato que sai caro”. Cada nota não emitida é um prejuízo que recai sobre os ombros de toda a sociedade.

São urgentes  as campanhas de incentivo. O cidadão sul-mato-grossense quer e precisa participar, mas ele precisa ser informado. Em tempos de “vacas magras”, o fomento para emissão da nota é uma das melhores ferramentas para garantir o aumento na arrecadação.

O silêncio é o maior aliado da sonegação. Já passou da hora de o governo fazer barulho e mostrar que a honestidade fiscal, além de ser um dever, também premia.

EDITORIAL

O outro lado do agro "próspero"

É a velha mentalidade de pessoa física com fachada de pessoa jurídica. Enquanto o patrimônio cresce, a saúde financeira do negócio nem sempre acompanha

10/03/2026 07h15

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Nesta edição, mostramos que as recuperações judiciais no agronegócio de Mato Grosso do Sul dispararam. O crescimento, de 2023 para cá, é exponencial e acende um alerta que vai além da situação conjuntural do campo.

O aumento acelerado de pedidos de RJ indica que algo não vai bem não apenas na rentabilidade das atividades rurais, mas também na forma como muitos empreendimentos agrícolas têm conduzido sua gestão financeira.

É evidente que fatores de mercado pesam sobre o setor. Oscilações de preços, custos elevados de insumos, juros mais altos e riscos climáticos fazem parte da realidade de quem produz no campo.

No entanto, atribuir apenas ao preço baixo das commodities a enxurrada de recuperações judiciais seria simplificar demais um problema que parece mais estrutural. O que se vê, em muitos casos, é a fragilidade de modelos de gestão que ainda não acompanharam o grau de complexidade e de volume financeiro que hoje envolve o agronegócio.

A comparação com outros setores da economia ajuda a dimensionar essa questão. Indústria e comércio, por exemplo, enfrentam desafios semelhantes de mercado, mas contam com menos facilidades para acessar crédito.

O agronegócio, por sua vez, dispõe de instrumentos robustos de financiamento, que vão desde o Plano Safra e linhas do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) até mecanismos privados cada vez mais sofisticados, como letras de crédito do agronegócio e fundos de investimento nas cadeias produtivas, os chamados Fiagros.

Esse amplo acesso a recursos tem sido um dos pilares do crescimento do setor nas últimas décadas. Porém, ele também impõe responsabilidades. Um aumento expressivo de calotes bancários e de inadimplência em contratos não afeta apenas credores privados.

Parte relevante desses financiamentos conta com subsídios ou mecanismos públicos de apoio. Quando há desequilíbrio generalizado, uma parcela desse custo acaba sendo socializada – direta ou indiretamente – entre os cidadãos que financiam essas políticas por meio de impostos.

Outro ponto que precisa entrar no debate é a forma como muitos empreendimentos rurais ainda estruturam suas finanças.

Tradicionalmente, o agro brasileiro sempre foi muito focado na formação de patrimônio – terra, máquinas, estrutura produtiva. Isso ajudou a consolidar o setor. Mas, em muitos casos, faltou a mesma atenção à preservação de caixa, à capitalização e à gestão profissional do fluxo financeiro.

É, em certa medida, a velha mentalidade de pessoa física com fachada de pessoa jurídica. Enquanto o patrimônio cresce, a saúde financeira do negócio nem sempre acompanha.

Em períodos favoráveis, o modelo funciona. Mas, quando surgem turbulências de mercado, a fragilidade aparece – e o resultado, muitas vezes, é a recuperação judicial.

O agronegócio é um dos pilares da economia brasileira e da sul-mato-grossense. Justamente por isso, precisa avançar também em governança, planejamento e gestão. A profissionalização administrativa é um passo essencial para que o setor continue crescendo com solidez.

Espera-se que o aumento recente de recuperações judiciais sirva como sinal de alerta. Mais do que um fenômeno pontual, ele deve estimular uma reflexão necessária dentro do próprio campo: produzir bem é fundamental, mas gerir bem o negócio é igualmente indispensável. Só assim será possível evitar que a atual onda de RJs se transforme em um problema estrutural para o setor.

ARTIGOS

IA: quem controla os controladores?

Algoritmos determinam o que vemos nas redes sociais, quais notícias chegam até nós, que músicas ouvimos e até mesmo quando alguém solicita um carro por aplicativo

09/03/2026 07h45

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Durante décadas, o conceito de inteligência artificial (IA) foi tratado como ficção e permeava nossa sociedade sob o prisma do imaginário. Hoje, em um salto de 4 anos, ela está silenciosamente incorporada ao cotidiano de toda a humanidade.

Algoritmos determinam o que vemos nas redes sociais, quais notícias chegam até nós, que músicas ouvimos e até mesmo quando alguém solicita um carro por aplicativo; o algoritmo decide com base em probabilidade de aceitação, tempo estimado e histórico de desempenho.

Eles não possuem consciência, mas possuem algo igualmente útil e poderoso: a capacidade analítica de prever o nosso comportamento.

Quando abrimos as redes sociais, não estamos navegando em um espaço neutro, estamos atravessando um filtro algorítmico que prioriza conteúdos com maior probabilidade de manter nossa atenção na tela. O que é apresentado como uma grande vantagem, carrega um efeito social mais complexo do que parece.

O algoritmo aprende nossas preferências, muitas das quais estão relacionadas ao nosso perfil psicológico e biológico. Nesse campo estão as nossas inclinações políticas, nossos problemas de saúde e fragilidades emocionais. Toda essa espiral de informações passa a reforçar padrões.

No mercado global, sistemas de IA já participam de decisões financeiras. Plataformas como a Amazon ajustam preços dinamicamente conforme demanda, localização e perfil de consumo.

Em 2018, no campo político, veio à tona o caso da Cambridge Analytica, que utilizou dados do Facebook para influenciar campanhas políticas, evidenciando como informações coletadas por meio das redes sociais podem ser usadas para segmentar mensagens eleitorais. O dado se tornou insumo de estratégia e micro direcionamento de massas.

Outro exemplo são as chamadas Big Techs, que concentram a capacidade de processamento e armazenamento de dados. Empresas como Meta, Google, Amazon e Microsoft monopolizam a controladoria de serviços essenciais: busca, nuvem, comunicação, armazenamento e publicidade.

A inteligência artificial é absoluta no gerenciamento em larga escala: quanto mais preciso, maior a vantagem competitiva. A discussão atual não é sobre máquinas conscientes dominando o mundo. É sobre sistemas automatizados influenciando decisões humanas globalmente.

E a grande reflexão que fica é: quem faz a regulação desses sistemas? Como proteger a privacidade e a autonomia individual? As leis referentes à IA que já vemos implementadas na União Europeia são suficientes?

O futuro aponta para sistemas cada vez mais integrados à estrutura social e eficientes, porém, invisíveis e difíceis de auditar. A tecnologia seguirá evoluindo e essa vigilância velada se enraizando cada vez mais nos dispositivos do dia a dia.

Vivemos um momento histórico em que a inteligência artificial não é mais hipótese distante e aqueles que detêm os dados, detêm capacidade de influenciar, modelar e definir o comportamento coletivo. A pergunta não é se a IA controla. A pergunta é: quem controla a IA? E, sobretudo, quem controla os controladores?

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