Artigos e Opinião

Editorial

O mito das concessões

Depois que gigante da logística assumiu a concessão, a ferrovia literalmente morreu

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Faz 11 anos que a empresa Rumo é responsável pela ferrovia entre Três Lagoas e Corumbá, que passa por Campo Grande. Mas, muito antes disso, há 22 anos, os trens deixaram de circular pela região central da Capital, uma vez que havia sido construído um contorno ferroviário depois da repercussão de um acidente no dia 29 de março de 1996, no qual morreram sete pessoas.

As mortes ocorreram depois que um comboio com 11 vagões com soja se desprendeu na estação Manoel Brandão (ao lado do local onde agora está sendo implantado um condomínio de luxo da Corpal) e silenciosamente percorreu 8 quilômetros até tombar na altura da Avenida Afonso Pena.

No cruzamento com a Avenida Costa e Silva, os vagões atingiram um ônibus da linha Roselândia e seis mulheres morreram. Mais adiante, no cruzamento com a Avenida das Bandeiras, a colisão com outro veículo fez a sétima vítima.

Oito anos depois da tragédia estava concluído o contorno e os trens foram retirados da área urbana. Até a estação Manoel Brandão, porém, os trilhos continuaram ativos por algum tempo, uma vez que no local existe um amplo “estacionamento” de trens e estrutura para carregamento de vagões graneleiros.

No entanto, faz bem mais de uma década que este pequeno ramal também está inativo. Em boa parte do trecho, os trilhos foram retirados e os únicos vestígios de que ali havia uma ferrovia são o aterro e os restos de apodrecidos dormentes.

Somente em fevereiro deste ano a concessionária responsável pela ferrovia disse ter percebido o sumiço. Foi à polícia para pedir que o caso seja investigado. Disse ter obtido informações de que a retirada ocorreu em setembro do ano passado.

Além disso, entrou na Justiça exigindo a devolução da área que supostamente foi tomada, dando a entender que estava cuidando da ferrovia.

No entanto, uma simples passada pelas imediações evidencia que a maior parte daqueles trilhos sumiu faz anos. Mas a Rumo, responsável pelo cuidado deste patrimônio público, descobriu o furto somente agora, coincidentemente depois de ter sido acionada pelo Ministério Público Federal.

A confissão da Rumo de que não sabia do sumiço dos trilhos nem mesmo chega a ser surpresa, uma vez que ela trata com o mesmo desdém o restante dos cerca de 700 km que separam Três Lagoas e Corumbá.

Depois que o gigante da logística assumiu a concessão, a ferrovia literalmente morreu. O contrato acaba em julho deste ano, e a empresa ainda entende que tem direito a indenização. 

Esta vergonhosa situação é uma espécie de resumo de boa parcela das concessões públicas. Os mais de 10 anos sem benfeitorias na BR-163 e a devolução da ponte sucateada sobre o Rio Paraguai, na BR-262, são outros exemplos clássicos de que boa parte das privatizações não passa de caça-níqueis e de que os supostos investimentos da iniciativa privada são mera promessa.

Mesmo assim, a solução para infindáveis problemas, conforme parcela da classe política, é a terceirização.

A Rumo, por exemplo, faz parte de um dos maiores grupos econômicos do País (Cosan) e, mesmo assim, não aportou um centavo para manter viva a ferrovia.

E isso mesmo diante das perspectivas de explosão na extração de minérios em Corumbá e na produção de celulose na outra extremidade do Estado.

Somente estes dois setores têm potencial para viabilizar economicamente a ferrovia. Mesmo vendo isso, a Rumo preferiu abandonar tudo porque naquele momento a demanda estava baixa.

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ARTIGOS

Quando o autismo só é descoberto na vida adulta

Sabemos pouco sobre o autismo na vida adulta. A maior parte das pesquisas é voltada para crianças, o que dificulta o diagnóstico em pessoas mais velhas

02/05/2026 07h45

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Uma das primeiras coisas que precisei desconstruir, e que vejo muitas pessoas ainda confundirem, é a ideia de que o autismo é algo restrito à infância, quando não é. O autismo não é uma doença, portanto não tem cura. Ele é uma forma de funcionamento.

Um conjunto de características que molda a forma como percebemos, processamos e reagimos ao mundo.

Crianças autistas crescem. E se tornam adultos autistas. Parece óbvio quando dito dessa forma, mas essa compreensão ainda não está totalmente incorporada na sociedade, e isso tem consequências diretas no diagnóstico e no acolhimento.

Durante boa parte da minha vida, eu desenvolvi estratégias para me encaixar. Hoje sei que isso tem um nome: masking. Basicamente, eu aprendi a observar comportamentos, treinar respostas, ajustar reações.

Era uma forma de navegar socialmente sem levantar suspeitas: nem minhas, nem dos outros. E embora funcione muito bem, tem um custo alto.

Você passa a viver em um estado constante de adaptação. E, com o tempo, isso cobra seu preço, geralmente na forma de exaustão, ansiedade ou colapsos mais intensos. No meu caso, esse limite chegou de forma física. Antes do diagnóstico, comecei a ter episódios de esgotamento extremo.

Em um desses episódios, eu simplesmente apaguei. Desmaiei e só acordei horas depois. Foi um ponto de ruptura. Um sinal claro de que algo precisava ser investigado.

Hoje entendo esses momentos como estados de shutdown, que podem acontecer quando há uma sobrecarga sensorial ou emocional.

Porque essa é outra característica importante do autismo: a hipersensibilidade. Luz, barulho, cheiros, estímulos visuais… tudo pode ser mais intenso. O que para muitos é tolerável, para nós pode ser exaustivo. Se não há gestão disso, o sistema entra em colapso.

Receber o diagnóstico na vida adulta é, ao mesmo tempo, desafiador e libertador. Desafiador, porque exige revisitar a própria trajetória. Libertador, porque traz clareza. Depois do diagnóstico, comecei a reorganizar minha rotina. Não porque eu tenha mudado, mas porque passei a me respeitar mais.

Hoje faço pausas ao longo do dia, reduzo estímulos sempre que possível, e busco ambientes mais tranquilos. É uma lógica simples: se eu não consigo mudar o mundo, eu adapto o meu dia a dia para que ele seja menos agressivo.

No meu caso, o diagnóstico também trouxe à tona outras condições que coexistem comigo: TDAH, hipomania e doenças autoimunes, como a doença de Crohn e o vitiligo. Muitas vezes, o desgaste não vem de um único fator, mas da combinação deles. E entender esse conjunto é fundamental para qualquer estratégia de cuidado.

Ainda sabemos pouco sobre o autismo na vida adulta. A maior parte das pesquisas é voltada para crianças, o que dificulta o diagnóstico em pessoas mais velhas. Muitos passam décadas sem entender o que vivem, como aconteceu comigo. Ao mesmo tempo, a percepção social ainda é limitada.

O autismo costuma ser associado a estereótipos, muitas vezes, baseados em personagens de filmes, mas o espectro é amplo. Cada pessoa tem suas características, suas dificuldades e suas formas de lidar com o mundo.

Se existe algo que eu gostaria que mais pessoas soubessem é isso: o diagnóstico não é um rótulo limitador, mas uma ferramenta de compreensão. Quando você entende o que está acontecendo, muda a forma como você se enxerga. Muda a forma como você organiza sua vida. Muda, inclusive, o nível de autocobrança.

Para mim, o diagnóstico não foi um ponto final. Foi um ponto de partida. E, talvez, o mais importante: um convite para olhar para mim mesmo com mais clareza e menos julgamento.

ARTIGOS

Desafio da educação não é gerar dados, é governá-los

O recomendado é estabelecer critérios claros, responsabilidades bem definidas e alinhamento institucional sobre como os dados devem ser produzidos, utilizados e protegidos

02/05/2026 07h30

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A educação pública ocupa um papel central no desenvolvimento social e econômico do País. Nos últimos anos, o setor educacional brasileiro avançou de forma consistente na produção e disponibilização de dados, constituindo um patrimônio informacional cada vez mais relevante para o planejamento, a execução e a avaliação de políticas públicas.

Bases como o Censo Escolar, as avaliações do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), as estatísticas e os indicadores produzidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), além dos sistemas estaduais e municipais de gestão educacional, reúnem informações sobre matrículas, fluxo escolar, desempenho acadêmico, infraestrutura das escolas e perfil dos docentes.

Quando analisados em conjunto com dados socioeconômicos e territoriais, esses registros ampliam significativamente a capacidade de compreensão da realidade educacional brasileira.

Esse cenário cria uma oportunidade concreta de utilizar dados de forma mais estruturada para qualificar as decisões públicas em educação. Para que isso ocorra de maneira sustentável, porém, não basta ter acesso à informação.

O recomendado é estabelecer critérios claros, responsabilidades bem definidas e alinhamento institucional sobre como os dados devem ser produzidos, utilizados e protegidos.

Neste ponto, a Governança de Dados se consolida como um elemento estratégico, especialmente em um setor no qual os dados são produzidos de forma contínua e possuem ampla cobertura nacional, refletindo a complexidade do sistema educacional brasileiro.

O desafio, então, está menos na geração de novos dados e mais na harmonização conceitual dos indicadores, na integração entre sistemas e no uso coordenado das informações em um ambiente federativo que envolve União, estados e municípios.

Indicadores educacionais com nomenclaturas semelhantes podem assumir definições distintas conforme a base de origem ou a finalidade do sistema.

Na educação pública, a Governança de Dados contribui para a definição clara de responsabilidades sobre dados estratégicos, a padronização conceitual de indicadores educacionais, a melhoria contínua da qualidade da informação e o uso ético e responsável dos dados, em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Ao criar esse alinhamento, a Governança potencializa o valor dos sistemas e bases já existentes, sem exigir rupturas estruturais ou investimentos desproporcionais.

Diversas iniciativas educacionais demonstram, na prática, como o uso sistemático de indicadores e o acompanhamento estruturado de resultados contribuem para decisões mais qualificadas.

Ao incentivar o uso contínuo desses dados na tomada de decisão, o programa reforça práticas orientadas por evidências, ainda que não se configure formalmente como um programa de Governança de Dados. No quesito equidade, o uso estruturado de dados amplia a capacidade do Estado de identificar desigualdades regionais, sociais e territoriais, apoiando políticas educacionais mais equitativas.

Ao mesmo tempo, a Governança de Dados estabelece salvaguardas éticas essenciais, protegendo estudantes, famílias e profissionais da educação contra usos indevidos da informação e criando bases para a adoção responsável de análises avançadas e soluções de inteligência artificial.

A educação pública brasileira já dispõe de um conjunto valioso de dados. O desafio está em organizar, integrar e utilizar essas informações de maneira estratégica e contínua, fortalecendo a capacidade do Estado de tomar decisões mais justas, eficazes e transparentes.

Para isso, a Governança de Dados deve ser compreendida como um instrumento permanente de aprimoramento da gestão educacional, criando bases sólidas para políticas públicas orientadas por evidências e alinhadas às necessidades da sociedade.

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