A comunicação dos departamentos de integridade precisa fazer uma pergunta simples e incômoda: o que estamos comunicando quando comunicamos integridade?
Durante muito tempo, falamos de integridade quase sempre a partir do que não deve ser feito: “não aceite vantagem indevida”, “não pratique assédio”, “não se envolva em conflito de interesses”, “não use bens da organização para fins particulares”, “não fraude”, “não corrompa”, “denuncie”.
Tudo isso é necessário. Organizações precisam ter regras claras, canais seguros, controles efetivos e responsabilização. Nenhuma cultura de integridade se sustenta quando o erro é ignorado.
Mas há uma questão: quando falamos de integridade apenas pela linguagem do erro, do medo e da punição, que imagem estamos formando na mente das pessoas?
Talvez estejamos tentando construir confiança usando uma linguagem que reforça a desconfiança.
A comunicação não é neutra. Ela educa, direciona atenção e ajuda as pessoas a entenderem o que é valorizado, esperado ou rejeitado.
No livro “O Jeito Harvard de Ser Feliz”, Shawn Achor menciona a chamada Síndrome da Faculdade de Medicina. Segundo ele, “no primeiro ano de faculdade de medicina, quando os alunos aprendem todas as doenças e sintomas que podem acometer uma pessoa, muitos médicos aspirantes de repente se convencem de que são vítimas de todas elas”.
A provocação é simples: aquilo que recebe a atenção repetida passa a ocupar mais espaço no nosso imaginário e, pouco a pouco, molda a forma como interpretamos a realidade.
O próprio Achor resume essa ideia ao afirmar que “o objeto ao qual dedicamos nosso tempo e focamos nossa energia mental pode de fato se transformar na nossa realidade”.
Esse raciocínio ilumina um desafio dos programas de integridade.
Quando uma organização fala o tempo todo de corrupção, fraude, assédio, punição e denúncia, pode transmitir uma mensagem não intencional: a de que aquele ambiente é naturalmente perigoso, moralmente frágil e suspeito.
Não se trata de deixar de falar sobre esses temas. Fraudes existem. Assédios existem. Conflitos de interesse e corrupção existem. E precisam ser enfrentados com seriedade.
O ponto é outro: esses temas não podem ser o único centro simbólico da comunicação de integridade.
Integridade também precisa comunicar o que se espera das pessoas: confiança, respeito, cuidado, responsabilidade, transparência, justiça, cooperação e serviço bem-feito. Precisa mostrar a conduta desejada, não apenas a proibida.
Há diferença entre dizer “não pratique conflito de interesses” e dizer “tome decisões colocando o interesse coletivo acima do interesse pessoal”. A primeira forma comunica proibição. A segunda comunica padrão de conduta.
Culturas fortes não são construídas apenas pelo medo do que não pode ser feito. São construídas também pela clareza do que deve ser vivido.
Talvez, por isso, tantas pessoas não se engajem. Ninguém se engaja profundamente com uma cultura que só aparece para proibir, ameaçar e punir.
A comunicação de integridade precisa deixar de ser apenas uma campanha contra o erro e passar a ser uma campanha a favor do acerto e da confiança.
No fim, a integridade não se consolida apenas quando as pessoas temem errar. Ela se consolida quando as pessoas compreendem, desejam e praticam o certo.
Por isso, antes da próxima campanha, vale perguntar: estamos comunicando apenas o que queremos evitar ou também a organização que queremos construir?

