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O que "Pluribus" e "Ensaio sobre a Cegueira" revelam sobre nós

Ver essas obras é observar duas faces da mesma crise: vivemos simultaneamente em um mundo superexposto, onde vozes competem e se misturam, e em um mundo obscurecido, onde a abundância de informações não garante lucidez

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Em “Pluribus” e “Ensaio sobre a Cegueira”, duas perspectivas distintas sobre o ser humano se tornam portas de entrada para pensar a sociedade atual: de um lado, a multiplicidade como condição essencial da experiência contemporânea; do outro, a cegueira literal e simbólica como metáfora do colapso ético e institucional.

Ver essas obras é observar duas faces da mesma crise: vivemos simultaneamente em um mundo superexposto, onde vozes competem e se misturam, e em um mundo obscurecido, onde a abundância de informações não garante lucidez. Somos “plurais”, mas também “cegos”.

“Pluribus” nos apresenta um sujeito fragmentado, em constante dispersão, atravessado por múltiplos discursos, identidades e afetos.

Não há centro fixo, estabilidade, unidade. Essa estética da multiplicidade ecoa com força na era digital, em que todos somos construídos por fluxos incessantes: timelines, redes sociais, narrativas instantâneas e contraditórias que capturam nossa atenção.

A obra parece antecipar ou traduzir esse tempo de vozes sobrepostas, em que a identidade já não é uma essência, mas um mosaico em movimento.

Já Saramago, em “Ensaio sobre a Cegueira”, expõe o risco extremo desse mesmo cenário: se a pluralidade não é acompanhada de consciência, reflexão e responsabilidade coletiva, ela se dissolve num caos voraz. A epidemia de cegueira branca é mais do que uma metáfora: é um aviso.

Os personagens, privados de visão, revelam o quanto dependiam de estruturas externas: instituições, leis, vigilância para manter uma aparência de civilidade. Quando essas estruturas colapsam, emerge a brutalidade, mas também a ternura resistente daqueles que, mesmo no escuro, não se rendem à lógica do descarte.

A única mulher que enxerga funciona como a memória ética que tenta sobreviver no meio da ruína.

Entre “Pluribus” e “Ensaio sobre a Cegueira”, forma-se um arco de reflexão sobre a condição humana na contemporaneidade. Vivemos uma era de múltiplas vozes, mas nem sempre de múltiplas consciências; somos bombardeados por informação, mas não necessariamente iluminados por ela.

A sociedade atual vive a tensão entre o hiperconectado e o desorientado, entre o excesso de dados e a ausência de direção. Há muito de pluralidade, mas também muito de cegueira coletiva.

A tecnologia, por exemplo, ampliou nossa capacidade de ver o mundo, mas também expandiu nossas zonas de sombra. Sabemos mais sobre tudo e ao mesmo tempo compreendemos menos. A multiplicidade de discursos, se não mediada por senso crítico, pode se transformar em ruído, alienação, polarização.

A cegueira do romance de Saramago se atualiza hoje na forma de desinformação, intolerância, extremismos e em uma espécie de anestesia moral: vemos tudo, mas não enxergamos nada profundamente.

E, ainda assim, a pluralidade de “Pluribus” nos lembra que não estamos condenados. A fragmentação pode ser fonte de potência quando reconhecemos que o outro é parte constitutiva da nossa própria existência. A multiplicidade não precisa significar confusão; pode significar interconexão.

Da mesma forma, “Ensaio sobre a Cegueira” revela que mesmo em meio à escuridão é possível preservar dignidade, cuidado e solidariedade. A humanidade que se recusa a se tornar feral no caos é a mesma que pode reinventar o mundo quando a tempestade passa.

Para onde vamos?

Provavelmente, para um lugar que depende menos das tecnologias que criamos e mais das consciências que formamos. A questão não é se o mundo será plural, ele já é, mas se aprenderemos a lidar com essa pluralidade sem perder de vista aquilo que nos faz humanos.

Se não quisermos repetir a cegueira de Saramago, precisamos reconstituir nossa capacidade de ver o outro com profundidade, de construir sentido comum, de restabelecer vínculos coletivos que não se desfaçam na primeira crise.

A sociedade atual está num limiar: ou escolhe a multiplicidade com responsabilidade, ou permanece na cegueira confortável do automatismo. Entre esses extremos, há espaço para um futuro mais lúcido, capaz de unir as vozes dispersas de “Pluribus” com a ética vigilante da mulher que enxerga no romance de Saramago.

Se há um caminho possível, ele passa pela coragem de enxergar e pela humildade de saber que nunca enxergamos sozinhos.

Editorial

Transparência nas emendas é essencial

Ao estabelecer parâmetros mais claros para a prestação de contas das emendas parlamentares, o TCE-MS cumpre seu papel e sinaliza que é preciso mais transparência

01/04/2026 07h30

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A decisão do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS) de exigir que as prefeituras prestem contas da aplicação de recursos provenientes de emendas parlamentares é não apenas acertada, mas necessária.

Trata-se de uma medida que reforça um princípio básico da administração pública: todo dinheiro público precisa ser acompanhado de transparência, controle e resultados.

Em um cenário no qual as emendas têm ganhado cada vez mais peso nos orçamentos municipais, o acompanhamento rigoroso desses recursos deixa de ser opcional e passa a ser indispensável.

A iniciativa do órgão de controle também aponta para uma direção que deveria ser regra em todos os níveis da federação: a transparência na aplicação de emendas deve ser adotada de cima para baixo.

Não faz sentido exigir rigor apenas na ponta, enquanto outras esferas permanecem com níveis distintos de prestação de contas.

Se o recurso é público, independentemente de sua origem, deve estar sujeito aos mesmos critérios de publicidade, rastreabilidade e avaliação. A sociedade precisa saber quanto foi destinado, onde foi aplicado e quais benefícios efetivos foram gerados.

Lamentavelmente, ainda há resistência quando o assunto é prestar contas. E essa resistência levanta uma pergunta inevitável: quem não gosta de transparência prefere o quê? O questionamento é duro, mas necessário.

A ausência de controle abre espaço para distorções, desperdícios e, em casos mais graves, práticas que ferem a ética e a legalidade.

Não se trata de suspeitar previamente de gestores, mas de criar mecanismos que previnam irregularidades e fortaleçam a confiança da população.

Mais do que divulgar números, é fundamental avançar para a avaliação da eficiência. Não basta informar que determinada emenda foi aplicada; é preciso demonstrar o que mudou com aquele investimento.

Houve melhoria no atendimento à população? O serviço público foi ampliado? A obra entregue atende às necessidades da comunidade? O dinheiro público não pode ser medido apenas pela execução orçamentária, mas pelos resultados concretos que produz.

Espera-se, portanto, que as prefeituras sul-mato-grossenses – mais da metade dos municípios do Estado – se adaptem às determinações do órgão de controle.

O cumprimento das exigências não deve ser visto como obstáculo burocrático, mas como oportunidade de aprimorar a gestão e fortalecer a credibilidade das administrações locais. Transparência não é punição; é instrumento de boa governança.

Ao estabelecer parâmetros mais claros para a prestação de contas das emendas parlamentares, o TCE-MS cumpre seu papel e sinaliza que a gestão pública precisa avançar em qualidade e responsabilidade.

Quem ganha com isso é a população, que tem o direito de saber como cada centavo do dinheiro público é aplicado e, sobretudo, quais benefícios reais são entregues à sociedade.

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Artigo

China captura a OMC avanço autoritário contamina estruturas multilaterais

A retirada da delegação de Taiwan, após a tentativa deliberada do país-sede de designar a ilha como uma "província da China"

31/03/2026 07h45

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A diplomacia, em sua essência, sempre foi o terreno da palavra empenhada e do reconhecimento mútuo como bases para a prosperidade. Contudo, o que testemunhamos na 14ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), sediada em Yaoundé, Camarões, sugere uma era sombria, em que a hospitalidade multilateral deu lugar à “geopolítica de guichê”.

A retirada da delegação de Taiwan, após a tentativa deliberada do país-sede de designar a ilha como uma “província da China”, não é um erro burocrático; é o sintoma da erosão institucional frente a pressão do capital autocrático.

Como alguém que liderou diretrizes estratégicas no comando da ApexBrasil, vejo este episódio com gravidade. Taiwan não é um ator periférico que pode ser apagado por conveniência de uma potência autoritária. Membro da OMC desde 2002, o país consolidou-se como um “membro modelo”, adotando padrões de transparência e propriedade intelectual que muitos de seus detratores ainda relutam em seguir. Tentar silenciá-lo é agredir o mérito comercial que a organização deveria proteger.

A hostilidade de Camarões explica-se pelos balanços financeiros de Yaoundé. Trata-se de uma “captura de Estado” via endividamento. Em 2025, os investimentos chineses na África atingiram US$ 61 bilhões – do Porto de Kribi à infraestrutura digital –, a soberania camaronesa foi dada como garantia.

Em Yaoundé, Camarões não exerceu soberania, mas pagou um “juro político” a Pequim, oferecendo a cabeça de um ator legítimo no xadrez global em troca da rolagem de sua dívida externa. Tem método.

Esta manobra ignora a realidade incontestável deste ano: os semicondutores são o motor do mundo. Com exportações superiores a US$ 640 bilhões e o domínio de 90% da produção de chips de última geração (2nm e 3nm), Taipei detém a “soberania do silício”.

Discutir cadeias de suprimentos ou inteligência artificial em uma mesa onde o principal produtor é impedido de negociar é uma encenação de absoluta irrelevância técnica. Sem Taiwan, os debates da OMC tornam-se conversas irrelevantes.

O prejuízo é sistêmico. Ao permitir que um país-sede manipule designações para satisfazer credores, a OMC deixa de ser regida por regras e torna-se um feudo de influência.

Esse “gaslighting institucional” acelera a fragmentação do comércio global, empurrando as democracias liberais para fóruns paralelos e esvaziando a utilidade das organizações multilaterais.

É imperativo que lideranças, especialmente no Brasil, reconheçam Taiwan e casos como o de Kosovo pelo que são: nações soberanas na prática e parceiras indispensáveis na teoria.

A soberania moderna se mede pela essencialidade na estrutura produtiva. Enquanto Taipei é soberana, porque o mundo não funciona sem sua inovação e tecnologia, Camarões mostrou que sua política externa está à venda.

Exclusões diplomáticas são o maior erro estratégico da atualidade. Ao tentar apagar a ilha do mapa institucional, Pequim e seus prepostos não unificam territórios, apenas submetem fóruns internacionais aos desejos de autocracias em detrimento de democracias prósperas.

O comércio exige pragmatismo e clareza. Sob o sol deste ano, a independência de democracias robustas brilha com uma intensidade que nenhuma burocracia financiada por bancos chineses será capaz de obscurecer.

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