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O voto para deputado federal e a governabilidade no Brasil

O voto consciente para deputado federal é a engrenagem que viabiliza ou trava o projeto de país escolhido nas urnas

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Nas eleições gerais, a atenção do eleitorado costuma se voltar prioritariamente para a disputa do Poder Executivo, em especial para a Presidência da República. Promessas de campanha para Saúde, Segurança, Economia e Educação ganham espaço em debates e conversas do dia a dia.

No entanto, há um elo indispensável para que tais promessas saiam do papel e se transformem em realidade: a composição da Câmara dos Deputados. O voto consciente para deputado federal é a engrenagem que viabiliza ou trava o projeto de país escolhido nas urnas.

No sistema presidencialista brasileiro, o chefe do Executivo não governa de forma isolada. Reformas estruturais, alterações orçamentárias e a criação de novas políticas públicas dependem da aprovação do Congresso Nacional.

Quando o eleitor vota em um candidato a presidente e não atenta para a escolha dos parlamentares, corre o risco de gerar um desalinhamento político que resulta em paralisia legislativa, concessões que desfiguram as propostas originais e gastos exorbitantes em emendas parlamentares para a negociação de apoio.

A convergência de ideais e diretrizes entre o Executivo e o Legislativo é o caminho para que a vontade popular manifestada na urna seja convertida em ações concretas.

Para exercer esse direito de forma estratégica, o eleitor deve compreender como funciona o sistema eleitoral para a Câmara dos Deputados.

Diferentemente do sistema majoritário adotado para a Presidência, no qual vence quem obtém a maioria dos votos, a escolha dos deputados segue o sistema proporcional. Nesses pleitos, o voto fortalece primeiramente o partido político ou a federação.

O pilar desse cálculo é o quociente eleitoral, obtido dividindo-se o total de votos válidos pelo número de cadeiras disponíveis para o estado.

Em seguida, calcula-se o quociente partidário, que indica quantas vagas cabem a cada partido. Isso significa que o voto concedido a um determinado candidato ajuda a eleger outros integrantes da mesma sigla, partido ou federação.

A própria estrutura do número do candidato na urna eletrônica reflete esse funcionamento, visto que a identificação para o cargo de deputado federal é composta por quatro dígitos, nos quais os dois primeiros representam o partido político ou a federação partidária e os dois últimos identificam o candidato específico no pleito.

Se o eleitor opta por digitar apenas os dois primeiros algarismos e confirmar, registra o chamado “voto de legenda”, destinado diretamente ao partido político. Quando digita os quatro números, vota no candidato e simultaneamente na legenda à qual ele pertence.

Conhecer o sistema proporcional e compreender o papel da Câmara dos Deputados é, portanto, parte essencial do exercício consciente do voto.

Se a eleição presidencial define quem ocupará a chefia do Poder Executivo, a eleição para o Legislativo define, em grande medida, o ambiente político e institucional no qual esse governo terá de atuar.

Governabilidade, em uma democracia, não nasce apenas da escolha de quem governa, mas também da capacidade de construir consensos, respeitar a independência dos Poderes, fiscalizar a atividade legislativa e transformar a vontade popular em decisões institucionais.

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A crise do STF entra na urna

A poucos dias do primeiro turno, a imagem de uma Corte incapaz de resolver seu próprio impasse passa a acompanhar o eleitor

22/09/2026 07h30

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O Supremo Tribunal Federal (STF) não disputa eleições, mas a crise que se instalou em seu interior já entrou na campanha. A sessão extraordinária de 15 de setembro mostrou ministros divididos, acusações recíprocas e divergências sobre como examinar as suspeitas surgidas no caso do Banco Master.

O plenário terminou sem decidir se Alexandre de Moraes será investigado. A poucos dias do primeiro turno, a imagem de uma Corte incapaz de resolver seu próprio impasse passa a acompanhar o eleitor.

O tribunal discutia um relatório da Polícia Federal com mensagens atribuídas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, supostamente dirigidas a Moraes. O ministro nega irregularidades e contesta a validade do documento. A Procuradoria-Geral da República pediu sua anulação.

Também há questionamentos à atuação de André Mendonça na investigação. Suspeitas exigem apuração; não constituem prova de culpa. Essa distinção, essencial para a Justiça, tende a desaparecer no calor da campanha.

Antes de chegar ao mérito, os ministros se dividiram sobre o procedimento. Fachin, Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia defenderam a análise separada dos casos de Moraes e Mendonça. Gilmar Mendes, Moraes e Cristiano Zanin apoiaram o julgamento conjunto. O placar provisório ficou em quatro a três.

Flávio Dino pediu vista, interrompendo a votação. Dias Toffoli declarou-se suspeito, e Kassio Nunes Marques, impedido.

A discussão sobre Mendonça está prevista para 23 de setembro; a questão submetida à vista permanece sem decisão final.

O plenário expôs, assim, dois conflitos: o das suspeitas e o das regras para examiná-las. Houve críticas à condução dos processos e acusações diretas entre colegas. Cármen Lúcia pediu desculpas à população pela intranquilidade produzida pela crise.

Sua manifestação reconhece um dano que não depende do desfecho das investigações: quem procura no Supremo uma referência de serenidade viu um tribunal em confronto público.

O primeiro impacto eleitoral é sobre a confiança nas instituições. Pesquisa Datafolha realizada entre 8 e 10 de setembro mostrou que 71% consideram o STF essencial para a democracia, enquanto 76% atribuem poderes excessivos a seus ministros e 77% acreditam que a população confia menos na Corte hoje do que no passado.

O eleitor parece formular uma exigência: preservar o Supremo como instituição e cobrar limites, transparência e responsabilidade de seus integrantes.

A repercussão direta sobre o voto presidencial, até agora, é restrita. No mesmo levantamento, 85% disseram que as revelações envolvendo Moraes não mudaram nem deverão mudar sua escolha; 7% passaram a ter dúvidas e 4% afirmaram ter trocado de candidato.

Quanto às suspeitas relativas a Mendonça, 86% não alteraram a preferência, 7% ficaram em dúvida e 2% disseram ter mudado o voto. A pesquisa ouviu 2.002 eleitores em 125 municípios. Foi concluída antes da sessão do plenário e, portanto, não mede a reação ao que ocorreu no dia 15.

Seria precipitado concluir que a crise não terá efeito eleitoral. A dúvida declarada por uma parcela dos entrevistados indica um espaço de disputa em uma eleição apertada. E o voto raramente muda por um único episódio.

Novos fatos podem reforçar percepções anteriores sobre favorecimento, abuso de poder e desigualdade perante a lei. A crise funciona como amplificador de sentimentos já existentes.

Pesquisa Quaest divulgada no dia 14 de setembro mostrou Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 40% numa simulação de segundo turno, empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos. No primeiro turno, Lula aparecia com 36% e Flávio com 31%.

O levantamento não permite atribuir esses números ao caso do Master. Permite afirmar que a turbulência no STF ocorre quando a disputa presidencial está sensível a pequenos deslocamentos.

A oposição tentará vincular o desgaste da Corte ao governo de Lula e apresentar-se como defensora de uma limpeza institucional. O governismo argumentará que as relações investigadas atravessam diferentes campos políticos e que parte da oposição pretende usar a crise para enfraquecer o Supremo.

O plenário forneceu imagens e falas para ambas as narrativas. A batalha eleitoral simplificará fatos que o processo judicial ainda precisa esclarecer.

O efeito mais visível poderá aparecer na disputa pelo Senado. Este ano, serão renovadas 54 das 81 cadeiras da Casa. Pelo artigo 52 da Constituição, compete aos senadores processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade.

Candidatos poderão defender investigações, mudanças nas regras da Corte ou o afastamento de ministros. O voto para senador, muitas vezes menos acompanhado que o presidencial, ganhará o peso de uma escolha sobre a fiscalização do Judiciário.

Há também um risco para a aceitação dos resultados eleitorais. O STF e o Tribunal Superior Eleitoral participam da solução dos conflitos que cercam uma eleição. Se a confiança nos julgadores diminuir, decisões tomadas durante ou depois da votação poderão ser apresentadas como interferência política.

Nas redes sociais, documentos autênticos, interpretações apressadas e falsidades circularão lado a lado. A polarização tentará impor ao eleitor uma escolha entre a impunidade e o ataque ao Supremo, quando é possível defender a instituição e exigir apuração rigorosa da conduta de seus membros.

A resposta necessária começa pelo devido processo: acesso às informações juridicamente disponíveis, exame das provas, respeito à defesa e atenção aos conflitos de interesses.

A sessão de 15 de setembro mostrou a dificuldade de alcançar esse caminho, mas também sua urgência. O STF não preservará a própria autoridade deixando dúvidas sem resposta.

A crise talvez não mude imediatamente o voto da maioria. Já alterou, porém, o ambiente da eleição e valorizou a disputa pelo Senado. O Supremo não estará impresso na urna eletrônica. Sua credibilidade, depois do que se viu no plenário, acompanhará o eleitor até a cabine de votação.

EDITORIAL

Os táxis, as regras e a mudança tardia

Não é que todo taxista praticasse preços altos, mas é inegável que os aplicativos alteraram a percepção do consumidor sobre quanto está disposto a pagar por uma corrida

22/09/2026 07h15

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O serviço de táxi é uma das formas mais tradicionais de transporte individual nas cidades. Durante décadas, foi praticamente sinônimo de deslocamento rápido e personalizado para quem não tinha carro ou precisava chegar a algum destino sem depender do transporte coletivo.

A tradição, porém, não é suficiente para garantir a sobrevivência de um serviço quando o comportamento do consumidor muda.

É nesse contexto que devem ser observadas as novas regras anunciadas pela Prefeitura de Campo Grande para a atividade dos taxistas. As medidas ampliam as possibilidades de operação e procuram adequar a regulamentação a uma realidade que já mudou há algum tempo.

Entre as novidades estão a autorização para caminhonetes integrarem a frota, especialmente para atender passageiros da zona rural e transportar volumes maiores, a regulamentação do táxi executivo, com veículos de padrão superior, e a possibilidade de o permissionário continuar trabalhando em determinadas situações quando seu veículo estiver temporariamente indisponível.

Há ainda outras mudanças, como a possibilidade de circulação dos táxis nos corredores destinados ao transporte coletivo, além da prorrogação do prazo para substituição de veículos que atingiriam a idade máxima permitida neste ano.

São alterações que, em conjunto, procuram dar maior flexibilidade ao serviço e criar condições para que os profissionais enfrentem as dificuldades econômicas e a concorrência que se intensificou nos últimos anos.

O ponto central, contudo, não está apenas nas regras para caminhonetes, veículos executivos ou substituição de carros. Está na necessidade de reconhecer que o mercado de transporte individual mudou profundamente com a chegada dos aplicativos.

O táxi, que durante muito tempo ocupou posição praticamente consolidada nesse segmento, passou a disputar passageiros com empresas que colocaram preço, conveniência, localização em tempo real e facilidade de pagamento na palma da mão.

Essa transformação impôs uma lição à categoria. O consumidor passou a comparar preços, tempo de espera, conforto e qualidade do atendimento.

O que antes parecia um mercado com pouca margem para escolha tornou-se altamente competitivo. A concorrência mostrou, inclusive, que havia espaço para uma parcela muito maior da população utilizar regularmente o transporte individual quando o preço das viagens se tornou mais acessível.

Não se trata de afirmar que todo táxi era caro ou que todos os profissionais praticavam preços inadequados, mas é inegável que a chegada dos aplicativos alterou a percepção do consumidor sobre quanto está disposto a pagar por uma corrida. O mercado respondeu à mudança, e os taxistas precisam continuar respondendo a ela.

Por isso, a modernização da legislação deve ser acompanhada por uma modernização ainda mais importante: a do próprio serviço. Não basta permitir novos tipos de veículos ou flexibilizar regras.

É preciso que os taxistas estejam presentes nas plataformas digitais, sejam capazes de receber chamadas por aplicativos e ofereçam ao passageiro a mesma praticidade que ele encontrou nos novos concorrentes.

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