Notícias recentes retrataram o notável crescimento da indústria de celulose na região centro-oeste do país. As reportagens trouxeram a boa notícia, no entanto, atrelada ao desafio da escassez de mão de obra e de moradia — um potencial entrave ao desenvolvimento.
A preocupação me fez relembrar dos tempos da implantação da Aracruz Celulose no Espírito Santo ainda na década de 70. Àquela época, a cidade de Aracruz tinha pouco mais de 24 mil habitantes e a base de sua economia era a agricultura. A cidade tinha uma precária ligação à BR101, com metade da distância até Vitória feita por estradas de terra. Evidentemente, para se estabelecer uma indústria nova era necessária uma infraestrutura melhorada.
Hoje, Aracruz já passou dos 100 mil habitantes, tem um IDH entre os mais elevados da região e formou uma base de empresas fornecedoras da indústria de celulose e de outras. Entre essas duas realidades, estradas foram aprimoradas, pontes construídas, um porto para exportação instalado e novos empreendimentos chegaram à cidade, instigados pelo salto de desenvolvimento.
A indústria brasileira de árvores cultivadas hoje goza de maior produtividade e prestígio. Mas os exemplos de 1970 podem servir de norte para a superação dos desafios atuais. Relembro, aqui, alguns dos fatores de sucesso.
Naquele tempo, ficou evidente que a questão salarial é fundamental para a atração de pessoas com experiência e competência. Utilizamos como comparação salarial empresas de porte localizadas em São Paulo e definimos pelo posicionamento no terceiro quartil de mercado. Ainda assim, entendemos que não bastavam bons salários. Os melhores profissionais querem residir em locais em que seus cônjuges também tenham oportunidades e seus filhos tenham boa educação.
Enfrentamos a escassez de habitação construindo um bairro para cerca de 830 residências, com água tratada, clínica médica, clubes — investimento feito com financiamentos do BNDEs. Nos certificamos de ter ali pelo menos uma escola de primeira linha, trazendo professores de Vitória.
Para a formação de mão de obra, investimos em uma escola técnica própria, além de realizarmos parceria com o Senai para a formação de profissionais diversos. Enviamos pessoal para estudar no exterior. Foi ainda criado em conjunto com a Federação das Indústrias do Espírito Santo e outras grandes empresas o PRODFOR (Programa de Desenvolvimento de Fornecedores), que ajudou no surgimento de saudáveis empreendimentos de pequeno e médio porte. Neste processo, é fundamental o papel do governo estadual como articulador e mobilizador dessas ações, assim como de prefeituras e agências públicas locais.
As grandes empresas que já estão no centro-oeste poderiam realizar parcerias em áreas não competitivas para formar conjuntamente mão de obra. No início, formar mais gente que a necessidade imediata ajuda a desenvolver a região, propiciando o surgimento de empreendedores que atendam às necessidades da indústria. A questão habitacional poderia ser amenizada com a aquisição de terrenos no momento de formação das florestas, antecipando-se à especulação imobiliária e atraindo investidores para a construção de condomínios próximos às instalações.
Profissionais bem treinados, com boa moradia e educação para os filhos, permanecem nas empresas. Vale ressaltar que esse tipo de experiência bem-sucedida não é uma exclusividade da Aracruz Celulose. Em tempos mais longínquos tivemos a Riocel, em Guaíba (RS), a Bahia Sul, em Mucuri (BA) ou a Klabin, no Paraná. Adaptando esses exemplos aos tempos atuais as empresas poderão resolver em parte as dificuldades que ressurgem. Antes e agora, oferta de trabalho deve estar aliada ao crescimento da qualidade de vida.



