Artigos e Opinião

EDITORIAL

O cidadão merece atendimento digno

O cidadão não pode ser tratado como variável secundária na execução de política pública; se há recursos para atendimento gratuito, é preciso que esse atendimento seja digno

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Nesta edição, mostramos mais um pente-fino realizado pela Controladoria-Geral da União (CGU) em Mato Grosso do Sul. Desta vez, o foco está no Brasil Sorridente, programa que tem como objetivo melhorar o atendimento odontológico da Rede Pública por meio da oferta gratuita de serviços à população.

Em Campo Grande, porém, os auditores encontraram uma série de inconsistências que comprometem justamente aquilo que o programa deveria assegurar: o atendimento adequado e o acesso mais amplo à saúde bucal. A CGU realiza auditorias para avaliar a gestão, os controles e os resultados das políticas públicas.

O primeiro problema está nas condições oferecidas ao cidadão. Foram identificadas deficiências na infraestrutura dos locais de atendimento, além da falta de manutenção de equipamentos básicos. Não se trata de uma questão meramente administrativa.

Quando a estrutura não recebe os cuidados necessários, quem está na ponta é o cidadão, que depende exclusivamente do serviço público para ter acesso ao tratamento.

Há ainda um segundo problema, relacionado à falta de profissionais. Segundo o levantamento, uma das razões está no grande número de atestados médicos emitidos.

A consequência é previsível: com menos servidores disponíveis, a capacidade de atendimento diminui e a demanda que deveria ser absorvida pela Rede Pública acaba se acumulando.

Mas o quadro não termina aí. A CGU também identificou baixa produtividade no programa. Ou seja, não basta existir uma estrutura formalmente destinada ao atendimento odontológico.

É necessário que ela funcione adequadamente, tenha profissionais disponíveis, equipamentos em condições de uso e produza resultados compatíveis com os recursos empregados.

Esse ponto merece a atenção especial porque o Brasil Sorridente é uma política financiada pelo governo federal. Recursos públicos são destinados para que os municípios ofereçam serviços à população.

Portanto, é razoável esperar que a aplicação desse dinheiro resulte em atendimento eficiente e em uma oferta de serviços compatível com as necessidades dos cidadãos.

O trabalho dos órgãos de controle tem justamente essa finalidade: identificar falhas, apontar problemas e permitir que a Administração pública corrija aquilo que não está funcionando como deveria.

A fiscalização não deve ser vista apenas como uma forma de apontar erros, mas como instrumento para melhorar a qualidade do serviço público e fazer com que o dinheiro destinado às políticas públicas cumpra sua finalidade.

O que se espera, portanto, é que o município faça os ajustes necessários. As deficiências apontadas pela CGU precisam ser enfrentadas com medidas concretas, desde a manutenção adequada da estrutura e dos equipamentos até a organização dos recursos humanos e a melhoria da produtividade.

O cidadão não pode ser tratado como variável secundária na execução de uma política pública. Se há recursos para oferecer atendimento odontológico gratuito é preciso que esse atendimento seja digno, regular e acessível.

EDITORIAL

A sociedade falou nas urnas

Não basta identificar que existe insatisfação. É necessário compreender as suas causas. A população quer emprego? Quer renda maior? Quer serviços públicos melhores?

07/10/2026 07h15

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Em mais uma eleição, parte da sociedade foi pega de surpresa com os resultados das urnas. O resultado surpreendeu, inclusive, setores da direita, que esperavam uma votação expressiva, mas não imaginavam a dimensão do desempenho verificado.

É importante destacar que a eleição atual, sobretudo a disputa pela Presidência da República, que acaba pautando as demais, foi uma das que menos debateu projetos nas últimas décadas.

Em 2018, também prevaleceram a polarização, as acusações e as disputas em torno de nomes, muito mais do que propostas para o País.

O eleitor foi chamado a escolher em um ambiente no qual pouco se falou sobre o que cada candidato pretende fazer caso chegue ao poder. Faltaram discussões mais profundas sobre economia, saúde, educação, segurança, infraestrutura e emprego.

É verdade que reportagens, pesquisas e análises ajudaram a calibrar uma realidade que não era exatamente a esperada por muitos. Pesquisas são retratos de determinados momentos e podem errar.

Reportagens procuram interpretar fatos e tendências, mas não substituem a decisão do eleitor. O eleitor se expressa nas urnas, e não necessariamente nas ruas todos os dias. É ali que revela a sua escolha.

Cabe aos políticos compreender esse princípio e, mais do que tentar explicar o resultado depois que ele acontece, procurar ouvir a sociedade antes de tomar decisões.

Por isso, acreditamos que precisam ir mais às ruas, estar mais presentes nas redes sociais e conversar mais com os eleitores. Não apenas em períodos eleitorais. É preciso entender o que as pessoas estão vivendo, as suas angústias.

Há um sinal importante nesta eleição: o que caminha para definir a disputa é a base da pirâmide social. E essa base não está bem. Se estivesse, provavelmente não haveria uma disposição tão significativa por mudanças.

O voto por mudança não surge do nada. É consequência da percepção de que alguma coisa precisa ser diferente.

É justamente aí que está a questão que parece não ter sido debatida o suficiente até agora: o que precisa ser feito? Não basta identificar que existe insatisfação. É necessário compreender as suas causas.

A população quer emprego? Quer renda maior? Quer serviços públicos melhores? Está preocupada com o custo de vida, segurança, saúde ou educação? Provavelmente quer um pouco de tudo isso.

O próximo passo deveria ser ouvir essas demandas e transformá-las em propostas. O segundo turno deveria ser uma oportunidade para os candidatos explicarem como pretendem melhorar a vida de quem está na base da pirâmide.

A surpresa das urnas pode ser uma oportunidade. Em vez de justificar o seu resultado, é hora de olhar para ele como um recado. A sociedade falou. Agora cabe aos políticos ouvir.

ARTIGOS

O Brasil entre dois caminhos

O voto constitui uma das mais importantes manifestações da cidadania e a forma pela qual o povo participa da construção dos destinos do País

06/10/2026 07h20

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Como é de conhecimento geral, voto e democracia caminham lado a lado. A relação é intrínseca, um não existe sem o outro. No Brasil, segundo garante a Constituição Federal de 1988, todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente.

O voto constitui, portanto, uma das mais importantes manifestações da cidadania e a forma pela qual o povo participa da construção dos destinos do País.

No domingo, dia 4 de outubro, o Brasil foi novamente às urnas. Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva, 45,16%. Nenhum alcançou a maioria absoluta e, no dia 25, o eleitor brasileiro será novamente chamado a escolher o presidente da República.

Dois candidatos, dois projetos e visões distintas sobre os caminhos que o Brasil deverá percorrer nos próximos quatro anos. A pequena diferença nas urnas revela um País politicamente dividido e aumenta a responsabilidade do eleitor neste segundo turno.

Mas outro número merece especial atenção. O Brasil tinha 158,7 milhões de eleitores aptos a votar. Mais de 33 milhões não compareceram às urnas, uma abstenção de 21,08%, a maior desde 1998.

Em outras palavras, mais de um em cada cinco eleitores deixou de participar da escolha. É um número que preocupa e convida à reflexão.

Em 2018, escrevi neste mesmo jornal o artigo “A festa fúnebre da democracia brasileira”. Naquela oportunidade, chamava a atenção para o distanciamento de parcela considerável da população da vida política e para o descrédito provocado por sucessivos escândalos, denúncias e decepções.

Oito anos se passaram. Mudaram personagens e circunstâncias, mas a elevada abstenção demonstra que permanece o afastamento de milhões de brasileiros do processo político. É compreensível a decepção.

O que não podemos permitir é que a indignação com a política se transforme em indiferença com a democracia. Quando o cidadão deixa de escolher, outros escolhem por ele.

Vivemos também um período de intensa polarização. Divergir faz parte da democracia. Transformar quem pensa diferente em inimigo, não. Famílias, amizades e relações pessoais não podem ser destruídas porque existem opiniões políticas distintas.

Democracia exige liberdade para escolher e maturidade para respeitar a escolha do outro. Nas próximas semanas assistiremos a uma disputa intensa. Mais importante do que acusações e ataques pessoais será apresentar propostas concretas para os problemas que afetam a vida das pessoas.

O Brasil precisa mudar. Não podemos continuar adiando decisões importantes nem tratando problemas históricos como se o tempo fosse capaz de resolvê-los sozinho.

Segurança pública, saúde, educação, equilíbrio das contas públicas, geração de empregos, redução das desigualdades, eficiência do Estado e desenvolvimento econômico exigem coragem para enfrentar pautas sensíveis, planejamento e, sobretudo, responsabilidade com as próximas gerações.

Não existem soluções fáceis para problemas complexos. Por isso, o segundo turno não deve ser apenas uma disputa entre nomes ou paixões políticas, deve ser uma oportunidade para discutir o Brasil que queremos construir.

Aos candidatos cabe apresentar seus caminhos, ao eleitor, pesquisar, comparar propostas, conhecer trajetórias e distinguir informação de propaganda, verdade de mentira e convicção de fanatismo.

Que aqueles que se abstiveram no primeiro turno reflitam sobre a importância de sua participação e que todos exerçam livremente, no dia 25, o direito de escolher, segundo sua consciência. No fim haverá um vencedor e um vencido. É da democracia.

O que não pode haver é um Brasil vencido pela intolerância, pelo radicalismo, pela indiferença ou pela incapacidade de mudar. Governos passam, adversários se alternam no poder e eleições terminam. O Brasil permanece acima de todos. E é a ele que devemos nossa maior lealdade.

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