Artigos e Opinião

EDITORIAL

Os fantasmas e o dever de controle

Investigações dessa natureza são essenciais para preservar o interesse público e reforçar a ideia de que o serviço público não é território livre para desvios, acomodações ou fraudes

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Governar e administrar recursos públicos impõe responsabilidades que vão muito além da assinatura de atos e da ocupação de cargos. O dinheiro que sustenta a máquina pública não pertence a governos, gestores ou servidores.

Ele é resultado do esforço coletivo da sociedade e, por isso mesmo, exige vigilância permanente, regras claras e fiscalização constante.

Nesta edição, mostramos que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) abriu ao menos duas investigações para apurar a existência de funcionários fantasmas na administração pública. O fato, por si só, merece atenção.

De saída, é justo registrar o reconhecimento ao promotor responsável pelas apurações. Ainda que se trate de atribuição de ofício, investigações dessa natureza são essenciais para preservar o interesse público e reforçar a ideia de que o serviço público não é território livre para desvios, acomodações ou fraudes.

O simples anúncio de apurações já cumpre um papel pedagógico relevante: sinaliza que há controle e que irregularidades, quando detectadas, não serão ignoradas.

Casos de funcionários fantasmas são mais do que meras irregularidades administrativas. Representam uma afronta direta ao princípio da moralidade, um prejuízo concreto aos cofres públicos e um desrespeito com os servidores que cumprem jornada, funções e responsabilidades.

Cada salário pago indevidamente corrói recursos que poderiam ser destinados à saúde, à educação, à infraestrutura ou a políticas públicas essenciais. Não se trata de detalhe burocrático, mas de uma distorção grave do uso do dinheiro público.

Chama atenção, entre os casos citados, a situação curiosa – para não dizer absurda – de um servidor que, ao menos no papel, consegue desafiar as leis da física.

Como alguém pode exercer funções em dois locais distintos ao mesmo tempo, com jornadas incompatíveis, e ainda assim receber salários de ambas as fontes? A resposta não está na ciência, mas na fragilidade dos mecanismos de controle e, eventualmente, na conivência de quem deveria fiscalizar.

Investigações como essas precisam ocorrer com regularidade. O patrimônio público não pode ficar à mercê da vontade de quem ordena despesas ou de brechas administrativas convenientes.

Há normas, há limites legais e há princípios constitucionais que precisam ser respeitados. Quando isso não acontece, cabe aos órgãos de controle agirem.

O combate a funcionários fantasmas não é caça às bruxas, nem perseguição política. É uma medida básica de boa gestão. Transparência, controle e responsabilização não são obstáculos à administração pública – são condições mínimas para que ela funcione de forma correta e justa.

Que as investigações avancem, produzam resultados e sirvam de alerta: o dinheiro público precisa ser tratado com seriedade, porque não é de ninguém em particular, mas de todos.

ARTIGOS

Genética a serviço da vida: o Brasil na vanguarda da conservação da biodiversidade

Em apenas dois anos, mais de 800 genomas de 413 espécies da fauna brasileira foram sequenciados

19/01/2026 07h45

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O Brasil é o país mais Biodiverso do planeta, e também um dos que mais sofrem com a perda acelerada de espécies. Diante desse paradoxo, surge uma boa notícia: a ciência brasileira está abrindo um novo capítulo na história da conservação.

O projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB), uma parceria entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Instituto Tecnológico Vale (ITV), apresenta resultados que colocam o País na fronteira do conhecimento genético aplicado à natureza.

Em apenas dois anos, mais de 800 genomas de 413 espécies da fauna brasileira foram sequenciados, incluindo animais emblemáticos e ameaçados, como a onça-pintada, a ararajuba e o peixe-boi da Amazônia.

O projeto também já gerou 30 genomas de referência de altíssima qualidade, algo inédito em escala nacional. Esses “mapas genéticos” permitem compreender como as espécies vivem, se adaptam e respondem a desafios como doenças e mudanças climáticas.

Mas o GBB vai além do laboratório. As informações genéticas estão sendo usadas para aprimorar estratégias de manejo, apoiar planos de ação para espécies ameaçadas e ampliar o monitoramento em unidades de conservação.

Um exemplo é o uso do DNA ambiental, técnica que identifica vestígios genéticos deixados por animais e plantas em amostras de solo e água. Essa inovação permite detectar a presença de espécies sem precisar capturá-las, tornando o monitoramento mais eficiente e menos invasivo, uma revolução silenciosa, mas transformadora.

O impacto é tanto científico quanto social. O projeto já colabora com cerca de 290 pesquisadores de 107 instituições e concedeu 75 bolsas de pesquisa, formando uma nova geração de profissionais capazes de unir biotecnologia e conservação.

Além disso, o investimento previsto, US$ 25 milhões até 2028, mostra que apostar em ciência é também apostar em soberania e futuro.

A genômica da biodiversidade não é um luxo acadêmico: é uma necessidade estratégica. Em um mundo em que a perda de espécies ameaça a estabilidade dos ecossistemas e a própria sobrevivência humana, compreender o DNA da vida é compreender o DNA do nosso futuro.

O Brasil, com sua imensidão biológica, tem o dever, e a oportunidade, de liderar essa nova fronteira do conhecimento. O GBB é a prova de que, quando parcerias estratégicas, ciência, tecnologia e conservação se unem, o País pode oferecer ao mundo não apenas dados, mas esperança.

ARTIGOS

Crise na Reag Investimentos reacende debate sobre segurança dos fundos no Brasil

A resposta, embora técnica, é fundamental para reduzir ruídos, ansiedade e decisões precipitadas em momentos de crise

19/01/2026 07h30

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A liquidação extrajudicial envolvendo a Reag Investimentos trouxe novamente ao centro do debate uma dúvida recorrente entre investidores brasileiros: o que acontece com os recursos aplicados em fundos quando a gestora ou a administradora enfrenta problemas graves?

A resposta, embora técnica, é fundamental para reduzir ruídos, ansiedade e decisões precipitadas em momentos de crise.

Conforme noticiado, o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., instituição ligada ao grupo Reag e responsável pela administração de diversos fundos de investimento.

A medida ocorreu após a identificação de irregularidades relevantes no funcionamento da instituição, no âmbito de investigações em curso.

Apesar da gravidade da decisão, é importante destacar que a liquidação da administradora não implica, automaticamente, perda dos recursos dos cotistas.

O sistema financeiro brasileiro prevê a chamada segregação patrimonial, princípio segundo o qual o patrimônio dos fundos é juridicamente separado do patrimônio da gestora ou da administradora. Em outras palavras, os recursos dos investidores não se confundem com os ativos da instituição em liquidação.

Na prática, isso significa que os valores aplicados nos fundos não podem ser utilizados para pagar dívidas da administradora nem integrar a massa liquidanda.

O BC nomeia um liquidante responsável por conduzir o processo, levantar informações, preservar os ativos e, quando necessário, convocar assembleias de cotistas para deliberar sobre a transferência da administração dos fundos para outra instituição habilitada.

Esse procedimento é comum em situações semelhantes e tem como objetivo assegurar a continuidade da gestão dos fundos, preservar direitos dos investidores e minimizar impactos operacionais.

Ainda assim, o processo pode gerar atrasos, suspensão temporária de resgates e aumento da volatilidade, especialmente em fundos com menor liquidez ou ativos mais complexos.

O episódio também evidencia um ponto sensível do mercado de capitais: a confiança. Embora o arcabouço regulatório ofereça proteção jurídica relevante, crises institucionais afetam a percepção de risco, influenciam decisões de alocação e podem provocar movimentos defensivos por parte dos investidores.

Governança, transparência e qualidade dos controles internos passam a ser tão relevantes quanto rentabilidade passada.

Para os cotistas diretamente afetados, a recomendação é acompanhar atentamente os comunicados oficiais, participar das assembleias quando convocadas e evitar decisões precipitadas baseadas apenas em ruído informacional. Cada fundo possui características próprias de liquidez, estratégia e composição de ativos, o que exige análise individualizada.

Mais do que um caso isolado, a crise envolvendo a Reag reforça uma lição estrutural para o investidor brasileiro: diversificação não deve se limitar a ativos, mas também a instituições.

Avaliar quem administra, quem custodia e quais são os mecanismos de governança de um fundo é parte essencial de uma estratégia de investimento madura.

Em um mercado cada vez mais sofisticado e regulado, episódios como esse mostram que o sistema possui instrumentos para mitigar riscos, mas também deixam claro que educação financeira e diligência continuam sendo as melhores ferramentas para a proteção do patrimônio no longo prazo.

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