Artigos e Opinião

OPINIÃO

Paulo Arns da Cunha: "O PIB e os processos migratórios do ensino superior"

Professor do grupo Positivo

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As vidas de Alexandre e Letícia se encontraram quando se conheceram em uma grande universidade particular da capital paranaense – ela cursava Comunicação e ele, Engenharia. Ambos vieram do interior – ela do Norte, ele do Oeste. De famílias de classe média alta, o casal recebia dos pais todo o custeio de alimentação, moradia, transporte, estudos e lazer. O dinheiro saía do interior e era utilizado integralmente para o consumo na capital.

No último ano da graduação, o casal trocou alianças e ambos conseguiram boa colocação no mercado de trabalho. Quando conquistaram o canudo, já ganhavam o suficiente para criar o bebê que estava por vir. Às famílias do interior, restaram as visitas nos fins de semana. As vidas de Alexandre e Letícia agora eram na capital. Essa história pode justificar os dados do Mapa do Ensino Superior no Brasil 2019, divulgado recentemente pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino superior no Estado de São Paulo (Semesp). Segundo o estudo, índices como IDH, PIB e renda média costumam ser mais altos onde há Instituições de Ensino Superior (IES).

O levantamento mostra que a presença das IES pode ser sentida principalmente no PIB dos municípios. Aqueles que contam com cursos de graduação têm PIB per capita médio de R$ 30,7 mil – enquanto nos que não contam é de apenas R$ 19,7 mil. De acordo com o Semesp, os dados reforçam a necessidade da capilarização do Ensino Superior no País, criando polos universitários para supri-la. Segundo o sindicato, mais empregos seriam gerados e o País melhoraria todos os seus indicadores. Sem dúvida, a migração de estudantes do interior, como Alexandre e Letícia, para grandes centros desloca a força de trabalho e leva mais riquezas para as cidades universitárias.

Uma saída para esse problema da debandada de estudantes universitários de pequenos municípios é a Educação a Distância (EAD), que, além de cerca de 30% mais barata, pode ser cursada sem sair da cidade natal, reforçando a economia e a população economicamente ativa da região. A EAD é capaz de modificar o mapa de concentração de riquezas nos grandes centros, popularizando o Ensino Superior no País e levando a educação até mesmo às regiões mais pobres e mais distantes.

Por outro lado, os grandes centros, que já apresentam as maiores concentrações do PIB brasileiro, são os principais focos das IES privadas. Não é à toa que as cidades mais ricas do Brasil concentram um grande número de universidades. Os dados mais recentes (2017) mostram que o número de IES representa quase metade dos municípios brasileiros, mas pouco mais de ¼ desses municípios sediam alguma IES. A instituição privada sempre vai estudar e escolher o município com o maior potencial de consumo, instalando-se em grandes centros ou oferecendo cursos específicos direcionados ao público de determinada região produtiva, como Agronomia, Engenharia Aeronáutica, Oceanografia, etc.

O que o estudo não mostra, porém, é a falta de qualidade e credibilidade das IES brasileiras – o que pode ser medido pela enorme debandada de estudantes para o exterior: uma pesquisa da Associação das Agências Brasileiras de Intercâmbio (Belta) mostra que, em 2018, 50,4 mil brasileiros foram cursar uma graduação no exterior. Isso representa um aumento de 37,7% em relação a 2017 (36,6 mil). Esses números devem nos preocupar e alertar as 2.448 IES privadas para o aumento da qualidade no corpo docente, melhorias em infraestrutura, oferta de cursos para as novas demandas do mercado, certificação com reconhecimento no exterior e adaptação didática e tecnológica para receber essa nova geração de estudantes.

Editorial

A lentidão da Justiça e o preço do tempo

O jornalismo não julga, mas tem o dever de informar o que a demora em julgar as demandas que chegam ao Poder Judiciário insiste em obscurecer

03/06/2026 07h15

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Há uma fratura exposta no sistema judiciário brasileiro que poucos têm coragem de nomear com clareza: a morosidade processual não é apenas uma falha – é, em si, uma forma de punição não prevista em lei.

O caso da Ação Penal nº 1.163, tramitada no Superior Tribunal de Justiça (STJ), ilustra com precisão esse dilema.

Uma denúncia oferecida em 2020, ratificada em 2022, percorreu quase cinco anos de andamentos processuais sem que o mérito fosse efetivamente apreciado pelos magistrados. 

Ao fim, o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a violação ao princípio constitucional da razoável duração do processo – e determinou o arquivamento da ação, como o leitor poderá saber com mais detalhes adiante, nesta edição.

Passaram-se cinco anos. Para alguns, parece pouco – principalmente para quem se submete às urnas a cada quatro anos.

Para quem aguarda o julgamento de uma demanda, trata-se de uma vida suspensa. Um intervalo que nenhuma sentença tem o poder de devolver.

É nesse vácuo de decisões em que opera o mais antigo e implacável tribunal: o da opinião pública. Sem rito, sem contraditório, sem ampla defesa, ele julga no calor da emoção e condena no impulso do compartilhamento.

Quando a Justiça formal finalmente se pronuncia – arquivando, absolvendo, trancando – o veredicto social já foi proferido há anos. E não há recurso cabível contra ele.

Não se trata de defender réus ou questionar investigações legítimas. Trata-se de reconhecer que um sistema que demora demais produz, inevitavelmente, injustiças por omissão.

A incerteza prolongada corrói reputações, paralisa vidas e alimenta narrativas que o tempo cristaliza como verdade.

Nesse cenário, instrumentos como a delação premiada – valiosos quando bem aplicados – perdem credibilidade ao serem utilizados sem o lastro probatório que a gravidade de uma acusação exige.

A presunção de inocência não é privilégio de poucos: é a muralha que nos protege a todos.

A reforma que o Brasil precisa não passa apenas por mudanças em leis, como sempre ocorre todos os anos, movida pelos parlamentares que dependem do voto popular.

A reforma também deve ser pedagógica e cultural – a compreensão de que julgar antes do tempo é também uma forma de condenar, antes que o processo percorra seu curso e a Justiça, ela mesma, diga a última palavra.

A Justiça quando tarda pune duas vezes: uma vez ao réu, outra vez o próprio Estado Democrático de Direito, porque a demora em se aplicar a lei, em vez de se fazer Justiça, pode gerar injustiça. 

Neste caso, quando há muita demora em se aplicar a lei, a injustiça é para todas a partes envolvidas.

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Artigo

A vida é um sopro

A saúde não é um patrimônio definitivo. Não é uma conquista obtida na juventude e garantida para sempre. Ela exige manutenção, disciplina e cuidado permanente

02/06/2026 07h30

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Recentemente, a notícia chegou pelo celular e me parou no meio do expediente. Despedi-me de mais um amigo da minha geração aqui em Campo Grande. Na juventude, ele parecia indestrutível.

Forte, atlético, saudável, daqueles homens que transmitem a impressão de que o tempo terá dificuldade para alcançá-los. Seu apelido era “Animal”. E não era por acaso.

Mas o tempo alcança todos nós. Sua partida me fez refletir, mais uma vez, sobre uma verdade que costumamos ignorar enquanto a vida segue o seu curso normal.

A saúde não é um patrimônio definitivo. Não é uma conquista obtida na juventude e garantida para sempre. Ela exige manutenção, disciplina e cuidado permanente.

Nos últimos anos, tenho visto partir alguns amigos e conhecidos da minha faixa etária. Pessoas com quem estudei, trabalhei, convivi ou compartilhei momentos importantes da vida. E isso produz um efeito inevitável.

A morte deixa de ser uma notícia distante. Ela ganha rosto. Ganha história. Ganha nome. Talvez essa seja uma das marcas da maturidade.

Chega um momento em que deixamos de ler obituários de desconhecidos e começamos a nos despedir de pessoas que fizeram parte da nossa caminhada.

Próximo aos 50 anos, a percepção do tempo muda de marcha. A morte, que durante décadas parecia uma realidade reservada aos outros, passa a caminhar pelas mesmas ruas que percorremos todos os dias.

Impossível não me lembrar das sábias palavras do meu avô Nico. Já ultrapassando os 90 anos, com aquela serenidade que apenas a experiência é capaz de conceder, ele me disse algo que jamais esqueci: “Meu filho, eu pisquei os olhos e a vida passou.”

Na época ouvi aquelas palavras com o respeito de um neto jovem. Hoje as escuto com outra profundidade. Os cabelos começam a embranquecer.

Os filhos crescem. As décadas passam com uma velocidade que a juventude simplesmente não consegue compreender. A vida é um sopro.

Os antigos já alertavam para duas verdades desconfortáveis. A primeira é que coisas ruins também podem acontecer conosco.

A segunda é que nenhum de nós permanecerá aqui para sempre. Curiosamente, passamos boa parte da vida tentando esquecer ambas.

Adiamos exames. Negligenciamos sinais do corpo. Convencemo-nos de que sempre haverá tempo para começar a atividade física, controlar o estresse, melhorar a alimentação ou cuidar da saúde mental. Nem sempre haverá.

Os estoicos chamavam de premeditatio malorum a capacidade de antecipar racionalmente os males possíveis da existência. Não para viver com medo, mas para agir antes que eles nos alcancem. No mundo atual, essa filosofia talvez seja mais simples do que parece.

Ela está na caminhada diária, no treino que insistimos em adiar, no exame preventivo realizado em tempo oportuno, no cuidado com o corpo e com a mente.

Outro ensinamento igualmente poderoso é o memento mori: lembre-se de que você vai morrer. A frase pode soar dura, mas encerra uma profunda sabedoria.

Quando aceitamos que o tempo é limitado, a régua das prioridades muda. Família, amigos, fé, saúde e momentos simples passam a ocupar o espaço que lhes pertence.

O trabalho continua sendo fundamental. Sempre acreditei no valor do trabalho humano adequado. O trabalho dignifica, gera realização, propósito e sustenta nossas famílias. Contudo, a vida não se esgota nele.

Nenhuma carreira compensa uma saúde negligenciada. Nenhum patrimônio substitui a autonomia perdida. Nenhum sucesso profissional justifica uma existência vivida em permanente desequilíbrio.

A maturidade nos impõe uma verdade inescapável: longevidade, por si só, não basta. O que desejamos é qualidade de vida.

Queremos chegar aos 70, 80 ou 90 anos preservando a lucidez, a independência e a capacidade de desfrutar a companhia daqueles que amamos.

Talvez o maior investimento que possamos fazer não esteja apenas na Bolsa de valores, no mercado imobiliário ou nos negócios. Está em nós mesmos.

Cada caminhada. Cada treino. Cada exame preventivo. Cada noite bem-dormida. Cada momento dedicado ao equilíbrio emocional. Pequenas decisões que produzem grandes consequências ao longo dos anos.

Meu avô Nico tinha razão. Um dia somos os jovens do grupo. No outro, começamos a nos despedir deles. A verdadeira questão nunca foi quanto tempo Deus nos concederá de vida.

A questão é outra. Quando chegar o momento de olhar para trás, teremos apenas acumulado anos ou teremos construído uma vida digna de ser vivida?

A vida não pede licença. Ela passa. A vida é um sopro.

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