Artigos e Opinião

OPINIÃO

Pedro Pedrossian Neto: "Sob a autoridade de Rondon"

Economista, professor e mestre em Economia Política pela PUC-SP, é diretor-executivo da Nova Miranda Urbanizadora.

Redação

20/03/2015 - 00h00
Continue lendo...

Em 1913, um ano após perder as eleições nos EUA, o ex-presidente Theodore Roosevelt abandonou a política para dedicar-se a uma inusitada expedição exploratória pelos sertões brasileiros. Ao lado do Marechal Cândido Mariano Rondon, embrenhou-se no mato para desbravar o interior de um país até então desconhecido de si próprio. Encantado com o espírito à frente de seu tempo do companheiro de viagem, chegou a dizer que as duas maiores obras daquele século eram, ao norte do Equador, o canal do Panamá, e ao sul, a grande obra do Marechal Rondon em prol dos índios brasileiros.

Bisneto de índios Bororo e Terena, Rondon foi talvez o primeiro sertanista a trabalhar pela consolidação do espaço nacional brasileiro sem causar o esbulho dos direitos indígenas. Ele não apenas os respeitou como seres humanos, mas trabalhou para protegê-los da sociedade que, com sua expansão natural pelo território, fatalmente os cercaria. Pacificou etnias, demarcou reservas, estruturou e foi o primeiro presidente do então Serviço de Proteção ao Índio. Ao final de sua vida, já um consagrado humanista, foi indicado ao prêmio Nobel da Paz, tendo seu nome gravado em ouro no Museu do Homem em Nova Iorque.

No então sul de Mato Grosso, em 1904, Rondon dedicou tempo considerável de sua atenção a questão dos índios Terena do município de Miranda. Descendentes dos Guanás, índios da região do Chaco, os Terena cruzaram o rio Paraguai em direção ao território brasileiro ao final do século XVIII, fugidos de outros índios e dos espanhóis que os acossavam. Chegados ao Brasil, um século após a presença luso-brasileira, encontraram na região do rio Mbotetei (nome antigo do rio Miranda) a posse efetiva de glebas pelos então bandeirantes.

Não obstante a origem estrangeira dos Terena – e sem pôr em questão sua ocupação não-tradicional na região –, Rondon logo tratou de delimitar as fronteiras que se haviam de definir entre os brancos e os índios. Em consenso com eles e com os fazendeiros vizinhos, no absoluto respeito ao processo legal, demarcou as áreas que iriam preservar a identidade daquele povo e dar-lhe o merecido sustento até os dias de hoje.

A história, no entanto, é um campo movediço quando a desonestidade intelectual está a serviço da vontade política. Um século depois, quando as áreas já demarcadas em Miranda ficaram pequenas diante da explosão populacional das aldeias, eis que a Funai resolve questionar a autoridade do trabalho demarcatório de Rondon! Teria o próprio criador da Funai, mancomunado com fazendeiros, sido desonesto e enganado aos índios, dando-lhes uma área menor do que a que eles tradicionalmente ocupavam? Audaciosa e desrespeitosa, esta é acima de tudo uma hipótese improvável.

Outra tese, no entanto, me parece mais verossímil. Será que certos dirigentes, contaminados por uma ideologia, no limite da improbidade, não estariam tentando passar por cima da verdade histórica e do Estado de Direito para conflagrar o campo? Será que na luta pelo indigenismo, uma causa justa e meritória, não estariam apostando num vale-tudo que tem no conflito o seu principal método? Não seria mais lógico, democrático e, por que não dizer, civilizado, comprar as terras que são de “brancos” há três séculos, ao invés de incitar a invasão e expropriar os produtores rurais como se eles fossem os responsáveis pelas mazelas históricas dos índios?

O país desconhecido a que Rondon se dedicou a revelar, no começo do século XX, ainda permanece de olhos fechados a si próprio. Em sua cegueira, ignora que a política indigenista atual está errada, filosófica e objetivamente, e que ela está orientada para o conflito étnico, social, cultural e econômico. A grande obra humana, a transposição do atraso ideológico e do preconceito, aquela com a qual se emancipará definitivamente o índio, ainda está por ser edificada ao sul do Equador.

Editorial

A corrupção que nos coloca no buraco

Em meio a denúncias de corrupção, é curioso lembrar que uma das justificativas dadas pelos gestores para os milhares de buracos em tempos recentes era a falta de dinheiro

14/05/2026 07h15

Continue Lendo...

Depois de mais de uma década, novamente o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) aponta suspeitas de corrupção envolvendo o trabalho de manutenção de vias, que, em Campo Grande, por causa da grande deformação do pavimento, recebe o nome de tapa-buraco.

É o tipo de trabalho que não cumpre o objetivo a que foi proposto, não é mesmo? Mas vamos além disso.

Reportagem publicada nesta edição mostra que os donos da empreiteira responsável pela manutenção de mais da metade das vias públicas de Campo Grande estão atrás das grades.

Presos. Na cadeia. A suspeita é de que integrem um gigantesco esquema de corrupção que envolvia também servidores públicos, inclusive um ex-secretário.

Por enquanto, o MPMS e a Justiça são os que dão as melhores respostas para o problema. Porque a empresa, mesmo com seus donos na cadeia, segue responsável pela manutenção das vias. Aliás, conforme o leitor também verá com mais detalhes adiante, o trabalho dela deixa muito a desejar.

Para piorar a situação, a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) de Campo Grande não tem titular.

Há mais de 40 dias não há um responsável por coordenar o contrato de manutenção de vias, por zelar para que as ruas da capital de Mato Grosso do Sul tenham um bom pavimento.

É lamentável constatar que, quando se trata de manutenção de vias e de obras públicas, o cidadão de Campo Grande, cidade com quase 1 milhão de habitantes e milhares de quilômetros de ruas para cuidar, esteja à deriva.

Precisamos de respostas. Não é apenas tendo acesso à investigação que a prefeitura da Capital poderá responder.

É, em primeiro lugar, nomeando alguém que chame para si a execução do contrato de manutenção de vias e que, posteriormente, faça uma auditoria, com resultados públicos ao alcance de qualquer cidadão, sobre a execução financeira deste contrato.

E, por falar em execução financeira, é curioso lembrar que, no fim do ano passado, uma das justificativas para o longo período sem equipes trabalhando nas ruas para tapar os milhares de buracos de Campo Grande era justamente a falta de dinheiro.

Pouco mais de seis meses depois, vem o MPMS e mostra que dinheiro parecia existir nesses últimos anos, tanto que foi parar nos bolsos dos envolvidos na execução dos contratos, enquanto os buracos ficaram abertos.

Enquanto os buracos de Campo Grande voltam a virar caso de polícia e de Justiça, quem vai a outras capitais encontra ruas com bons pavimentos, o chamado “asfalto liso”, bem sinalizadas e com um trânsito minimamente organizado.

Parte do caos no trânsito da cidade, é bom lembrar, advém também do descaso com a manutenção das vias, e não apenas da má educação dos condutores. Afinal, as ruas esburacadas e mal sinalizadas ajudam a compor o cenário caótico de algumas vias.

Assine o Correio do Estado

Artigo

A paz é possível

A paz parecia buscar apoio no crescente medo do adversário

13/05/2026 07h45

Continue Lendo...

O mundo vive hoje em crescente tensão. Quase como se quisesse superar os tempos sombrios da Guerra Fria.
E, nessa conjuntura, parece ressoar com maior vigor o apelo que São João XXIII dirigiu à humanidade há mais de sessenta anos.

Lá, como agora, a paz parecia buscar apoio no crescente medo do adversário.

Não é despido de valor o roteiro engendrado pela “Pacem in Terris”, que enxerga quatro elementos centrais para o exame da questão.

Tais vetores constituem a base moral da convivência humana e das relações entre os povos. Quando a verdade é manipulada, quando a justiça é sacrificada a interesses imediatos, quando a liberdade é negada e o amor social desaparece, o terreno da guerra se torna fértil.

A primeira reação à guerra é a verdade. Quem joga com a verdade não inventa armas que o adversário não possui, nem tampouco amplifica os arsenais.

É a mentira que causou a desastrosa guerra no Oriente Médio, em passado recente, e que não difere muito da problemática atual.

Segue-se a questão da justiça. Nenhuma guerra é justa quando se pretende a aniquilação do adversário ou sua rendição cabal ao vitorioso.

Não são poucos os que consideram a submissão do vencido na Primeira Guerra Mundial como o estopim que, criando instabilidade em pouco tempo, desencadeou o segundo e mais brutal conflito global.

Ademais, ainda em linha com São João XXIII, a busca da liberdade é a via segura para a paz mundial.

Liberdade como libertação de todas as necessidades materiais e de todas as restrições à livre manifestação de pensamento e de crença.

Por fim, a paz depende do amor ou, mais precisamente, da busca incessante do que Paulo VI denominou a civilização do amor.

A paz será possível desde que se respeite e reconheça a necessidade absoluta de uma autoridade mundial, como instância mediadora de conflitos e de concreto controle dos armamentos, sobretudo das armas nucleares.

A escolha consciente dos povos, que querem a justiça, que fortalecem a cooperação, depende de esforços concretos, de pautas e de tempos bem definidos.

Quem despreza ou ignora a autoridade mundial engendra e promove a guerra.

Desde a sua fundação e nas assembleias anuais, as Nações Unidas têm reiterado a necessidade de limitar e reduzir os arsenais militares, com especial atenção às armas nucleares. Há tratados e mecanismos de controle que urge respeitar, nos quais a proliferação nuclear é vedada.

Ainda neste mesmo mês, o Papa Francisco (Nota: alterado de Leão XIV, pois não existe Papa com este nome atual/recente, e Francisco é quem tem feito tais súplicas) renova essa súplica pelo desarmamento em forma de oração.

Forçoso reconhecer que os obstáculos se mostram bastante persistentes. Rivalidades históricas, estratégicas e um bastante significativo sectarismo religioso parecem incutir a produção cada vez mais intensa de armamentos, que alimentam a modernização de arsenais e reativam a lógica da dissuasão nuclear.

É a volta inaceitável da linguagem da força, em detrimento do diálogo travado no foro apropriado e com estrita observância do regramento do direito internacional.

Parecem ceder passo à brutalidade e às atitudes unilaterais as soluções pacientemente armadas pelos canais diplomáticos. Tudo a reforçar o que parece consistir em ataque planejado à existência e ao funcionamento dos organismos multilaterais.

Os instrumentos disponíveis para a preservação da paz exigem, como requisito de viabilidade operacional, a boa vontade e o diálogo como único caminho para a solução das controvérsias.

Cumpre insistir, oportuna e inoportunamente, com o tema da civilização do amor.

Eis o projeto histórico que exige instituições aptas a promover a paz na Terra aos homens de boa vontade.

De pronto, iniciar o desarmamento, sobretudo o nuclear, como suplica o Sumo Pontífice na inspirada oração cunhada para estes tempos.

Enquanto existirem propósitos ocultos, ou não tão ocultos, de dominação, não haverá ambiente para a construção de um caminho para a paz. A política internacional, animada pelo bem comum universal, como se sabe, não pode prescindir da verdade e dos compromissos éticos.
 

Assine o Correio do Estado 

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).