Em 1913, um ano após perder as eleições nos EUA, o ex-presidente Theodore Roosevelt abandonou a política para dedicar-se a uma inusitada expedição exploratória pelos sertões brasileiros. Ao lado do Marechal Cândido Mariano Rondon, embrenhou-se no mato para desbravar o interior de um país até então desconhecido de si próprio. Encantado com o espírito à frente de seu tempo do companheiro de viagem, chegou a dizer que as duas maiores obras daquele século eram, ao norte do Equador, o canal do Panamá, e ao sul, a grande obra do Marechal Rondon em prol dos índios brasileiros.
Bisneto de índios Bororo e Terena, Rondon foi talvez o primeiro sertanista a trabalhar pela consolidação do espaço nacional brasileiro sem causar o esbulho dos direitos indígenas. Ele não apenas os respeitou como seres humanos, mas trabalhou para protegê-los da sociedade que, com sua expansão natural pelo território, fatalmente os cercaria. Pacificou etnias, demarcou reservas, estruturou e foi o primeiro presidente do então Serviço de Proteção ao Índio. Ao final de sua vida, já um consagrado humanista, foi indicado ao prêmio Nobel da Paz, tendo seu nome gravado em ouro no Museu do Homem em Nova Iorque.
No então sul de Mato Grosso, em 1904, Rondon dedicou tempo considerável de sua atenção a questão dos índios Terena do município de Miranda. Descendentes dos Guanás, índios da região do Chaco, os Terena cruzaram o rio Paraguai em direção ao território brasileiro ao final do século XVIII, fugidos de outros índios e dos espanhóis que os acossavam. Chegados ao Brasil, um século após a presença luso-brasileira, encontraram na região do rio Mbotetei (nome antigo do rio Miranda) a posse efetiva de glebas pelos então bandeirantes.
Não obstante a origem estrangeira dos Terena – e sem pôr em questão sua ocupação não-tradicional na região –, Rondon logo tratou de delimitar as fronteiras que se haviam de definir entre os brancos e os índios. Em consenso com eles e com os fazendeiros vizinhos, no absoluto respeito ao processo legal, demarcou as áreas que iriam preservar a identidade daquele povo e dar-lhe o merecido sustento até os dias de hoje.
A história, no entanto, é um campo movediço quando a desonestidade intelectual está a serviço da vontade política. Um século depois, quando as áreas já demarcadas em Miranda ficaram pequenas diante da explosão populacional das aldeias, eis que a Funai resolve questionar a autoridade do trabalho demarcatório de Rondon! Teria o próprio criador da Funai, mancomunado com fazendeiros, sido desonesto e enganado aos índios, dando-lhes uma área menor do que a que eles tradicionalmente ocupavam? Audaciosa e desrespeitosa, esta é acima de tudo uma hipótese improvável.
Outra tese, no entanto, me parece mais verossímil. Será que certos dirigentes, contaminados por uma ideologia, no limite da improbidade, não estariam tentando passar por cima da verdade histórica e do Estado de Direito para conflagrar o campo? Será que na luta pelo indigenismo, uma causa justa e meritória, não estariam apostando num vale-tudo que tem no conflito o seu principal método? Não seria mais lógico, democrático e, por que não dizer, civilizado, comprar as terras que são de “brancos” há três séculos, ao invés de incitar a invasão e expropriar os produtores rurais como se eles fossem os responsáveis pelas mazelas históricas dos índios?
O país desconhecido a que Rondon se dedicou a revelar, no começo do século XX, ainda permanece de olhos fechados a si próprio. Em sua cegueira, ignora que a política indigenista atual está errada, filosófica e objetivamente, e que ela está orientada para o conflito étnico, social, cultural e econômico. A grande obra humana, a transposição do atraso ideológico e do preconceito, aquela com a qual se emancipará definitivamente o índio, ainda está por ser edificada ao sul do Equador.

