Temos noticiado, tanto em nosso portal quanto nesta edição impressa, que a ponte sobre o Rio Paraguai, ligando Porto Murtinho, no Brasil, a Carmelo Peralta, no Paraguai, está muito próxima de ser concluída.
A imagem é simbólica: duas frentes de trabalho avançam, cada uma a partir de uma margem, separadas agora por pouco mais de 100 metros. Quando esses trechos se encontrarem, não será apenas concreto que se unirá, mas dois países e um projeto de integração aguardado há décadas.
A ponte é peça central da Rota Bioceânica, sonho antigo de integração logística entre o Centro-Oeste brasileiro e os portos do Pacífico.
No entanto, enquanto a estrutura principal avança de forma visível, há um silêncio preocupante em torno de outra etapa igualmente estratégica: a alça de acesso sob responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
Trata-se de obra complexa, que não se resume a um simples acesso viário, mas inclui a implantação de uma grande alfândega, fundamental para o funcionamento pleno do corredor internacional.
Sem a alça e sem a estrutura aduaneira operando adequadamente, a ponte perde parte relevante de sua utilidade prática. Logística não se faz apenas com grandes marcos de engenharia; depende de conexões eficientes, sistemas integrados e planejamento detalhado.
A falta de atualizações claras sobre o andamento dessa etapa gera apreensão e alimenta o temor de novos atrasos em um projeto que já levou tempo demais para sair do papel.
Infelizmente, quando o assunto é infraestrutura logística, o Brasil – e boa parte da América Latina – carrega um histórico de morosidade. Projetos estratégicos enfrentam entraves burocráticos, indefinições orçamentárias e lentidão administrativa.
O resultado é previsível: regiões inteiras aguardam anos, às vezes décadas, para se integrar plenamente às rotas comerciais globais, perdendo competitividade e oportunidades de desenvolvimento.
Temos inegável valor como povo, capacidade técnica e potencial produtivo. Evoluímos em diversos aspectos institucionais e administrativos, mas ainda precisamos perseguir a eficiência com mais determinação. Grandes obras exigem não apenas vontade política inicial, mas constância, transparência e rigor na execução.
Se, por um lado, é lamentável qualquer atraso adicional na consolidação da Rota Bioceânica, por outro, é prudente aproveitar esse tempo para nos prepararmos melhor. A nova rota trará fluxo de cargas, pessoas e riquezas, mas também desafios.
Reforçar as forças de segurança, estruturar serviços públicos e aprimorar a infraestrutura ao longo de todo o trajeto é medida de responsabilidade. Que a ponte, ao finalmente unir suas duas pontas, encontre também um país mais preparado para atravessá-la com eficiência e visão de futuro.

