Artigos e Opinião

Editorial

Repensar o Hospital Municipal

A segunda licitação sem interessados deve ser encarada como um alerta. Quando uma estratégia não produz os resultados esperados, cabe ao gestor público ter a humildade de revê-la

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A construção de um hospital municipal em Campo Grande é uma necessidade há muito debatida e que dificilmente encontra oposição.

Em uma cidade que concentra atendimentos de alta complexidade e recebe pacientes de praticamente todas as regiões de Mato Grosso do Sul, ampliar a estrutura de saúde pública é uma demanda permanente.

O problema não está no objetivo, mas no caminho escolhido para alcançá-lo.

Nesta edição, mostramos que a licitação lançada pela Prefeitura de Campo Grande para viabilizar o Hospital Municipal ficou deserta pela segunda vez.

Nenhuma empresa apresentou proposta. O fato, por si só, merece uma reflexão mais profunda. Quando o setor privado não demonstra interesse em participar de um projeto dessa magnitude, é preciso compreender as razões.

O Município apostou no modelo BTS, sigla para built to suit. Nesse formato, a iniciativa privada constrói a estrutura e depois recebe pagamentos por meio de um contrato de aluguel de longo prazo.

Em teoria, trata-se de uma alternativa capaz de acelerar investimentos sem exigir que o poder público desembolse imediatamente os recursos necessários para a obra.

Mas a realidade mostrou que algo não está funcionando. Se duas tentativas consecutivas terminaram sem interessados, é sinal de que o mercado não enxerga, nas condições atuais, uma oportunidade suficientemente atrativa para assumir os riscos do empreendimento.

Diante desse cenário, insistir no mesmo modelo sem promover ajustes pode significar apenas mais atraso. O momento exige que a administração municipal reavalie a estratégia adotada e examine outras possibilidades.

Uma delas é seguir um caminho semelhante ao utilizado pelo governo do Estado em empreendimentos hospitalares.

Em vez de limitar a parceria à construção do prédio, seria possível estruturar uma parceria público-privada mais ampla, envolvendo também a gestão de atividades-meio e a operação de serviços de apoio.

Esse formato pode aumentar o interesse dos investidores e melhorar a sustentabilidade econômica do projeto.

Outra alternativa é buscar recursos federais, emendas parlamentares e linhas de financiamento específicas para executar diretamente a obra.

Embora seja improvável que o Município disponha de recursos próprios suficientes para construir sozinho um hospital desse porte, existem mecanismos institucionais que podem ajudar a viabilizar o empreendimento.

O que não pode acontecer é a paralisação da ideia. Campo Grande continua precisando ampliar sua rede pública de saúde.

A população não está preocupada com a modalidade contratual adotada, o cidadão quer mais leitos, atendimento mais rápido e serviços de qualidade.

A segunda licitação sem interessados deve ser encarada como um alerta, e não como um ponto final. Quando uma estratégia não produz os resultados esperados, cabe ao gestor público ter a humildade de revê-la.

O importante não é defender um modelo específico, mas encontrar a solução mais eficiente para entregar à população uma estrutura que há anos é considerada necessária.

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Velhices no plural: combater o etarismo começa pelo olhar

Os velhos, os indivíduos que estão na fase da velhice, têm uma história vivenciada, de suas experiências, de suas relações

19/06/2026 07h45

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Quais são os lugares dos velhos na nossa sociedade? Sim, lugares, pois não há uma única forma de se viver a velhice, mas diversas: são velhices.

Os velhos, os indivíduos que estão na fase da velhice, têm uma história vivenciada, de suas experiências, de suas relações.

Têm também um futuro, no qual podem constituir projetos e viver a velhice com uma potência criativa. Ser quem se é, a partir do que se constituiu ao longo da vida, e poder se recriar mantendo a sua autenticidade.

Vou perguntar de outro jeito, mais pessoal: O que é a velhice para você? Qual é o seu olhar destinado aos velhos? As suas respostas foram positivas? Ou foram estereotipadas e generalizadas, a partir de concepções negativas? Lá no fundinho, você encontra em si uma série de preconceitos que se manifestam nas piadas, olhares de pena ou de intolerância, uma falta de paciência, uma grosseria, uma violência? A isso chamamos etarismo: estereótipos, preconceitos e discriminação em relação à idade, segundo o Relatório Mundial sobre o Idadismo (2022) e o Relatório da Comissão da Organização Mundial da Saúde sobre Conexão Social (2025).

O que parecem ser somente ideias inofensivas, bobagens, produzem efeitos reais deletérios para os velhos: adoecimento, isolamento, sentimentos de exclusão e de solidão (OPAS, 2022; OMS, 2025). As ideias se propagam em ações discriminatórias às quais os velhos se identificam.

E então, por onde ir? Como mudar essa situação? Temos algumas alternativas. Diante o desrespeito, a mudança pelo reconhecimento, nas relações pessoais mais próximas, da família, dos amigos e dos amores; na inclusão de pertencimento comunitário e social, pois a ideia de que os velhos querem descansar é errônea, não se confirma na vida real.

E, por fim, o espaço de reconhecimento pelo acolhimento, pela escuta, pelo diálogo e pelas trocas de experiências entre todas as gerações.

Enfrentar o etarismo exige, antes de tudo, torná-lo visível. É um fenômeno que se sustenta em práticas cotidianas e, por isso mesmo, precisa ser reconhecido, nomeado e compreendido para que possa ser efetivamente combatido.

O caminho passa pela educação, pelo desenvolvimento da empatia e pela construção de relações que favoreçam a convivência entre as gerações e a troca de experiências.

Não se trata apenas de uma mudança individual, mas de um compromisso coletivo com uma sociedade que reconheça a velhice em sua diversidade, potência e dignidade. 

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O perigo do esquecimento histórico para a democracia

Somadas às tradições orais, a paleontologia e a arqueologia contribuem também para a formação da identidade dos povos, com suas diferenças e características próprias

19/06/2026 07h30

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Hoje, podemos acessar as histórias e lutas de muitos de nossos ancestrais europeus, africanos e indígenas graças à tradição oral que tinham, de repassar suas lendas, crenças, culturas, leis e memórias de geração em geração, e, com o surgimento da escrita, algumas foram registradas posteriormente em livros.

Somadas às tradições orais, a paleontologia e a arqueologia contribuem também para a formação da identidade dos povos, com suas diferenças e características próprias, definindo de fato quem são: a sua personalidade, às quais tribos pertencem, quais lutas empreenderam, quais erros cometeram e que levaram a tragédias, principalmente contra a própria liberdade, a vida e a autorrealização.

Na ponta encontram-se os museus. Dados da Unesco mostram que hoje existem cerca de 104 mil museus em todo o mundo. Em 1975, eram apenas 22 mil.

Esse crescimento tem demonstrado a importância de se lutar contra o esquecimento e preservar a memória não só com acervos artísticos, documentos e coleções científicas, mas também com peças de passados obscuros.

É o caso do museu de Auschwitz-Birkenau (Polônia), instalado no local onde existiu o maior campo de extermínio nazista, hoje transformado em memorial para que ninguém se esqueça das atrocidades ali cometidas em nome do totalitarismo, recebendo atualmente mais de 2 milhões de visitantes por ano.

Sobre o totalitarismo, a filósofa e escritora Hannah Arendt (1906–1975), nascida alemã, mas de origem judaica, escreveu em seu livro “As origens do totalitarismo”: “O ideal do governo totalitário é transformar os homens em algo de tal modo desumanizado que eles se tornam incapazes de distinguir entre fato e ficção, entre verdade e mentira”. 

No Brasil, temos o Memorial da Resistência de São Paulo, localizado no mesmo edifício onde funcionou o Departamento de Ordem Política e Social (Deops), fundado em 1924 e extinto aos poucos ao longo da década de 1980. Em 2015 foi criado o Memorial da Democracia, um museu virtual que registra casos de repressão política no Brasil e que trata o golpe militar de 1964 como “a maior tragédia histórica da política brasileira com mais de 400 brasileiros mortos pelos órgãos de repressão e outros milhares torturados, com direitos de expressão e de manifestação suprimidos”.

Enfim, deixo aqui a reflexão de um filósofo da atualidade, o Elias Dourado, mestre em Filosofia e doutor em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB): “O esquecimento é perigoso porque ele não apaga apenas fatos antigos. Ele reorganiza o presente. Quando uma sociedade esquece suas violências, ela perde a capacidade de reconhecer os sinais de sua repetição. O passado não volta exatamente igual, mas retorna por máscaras novas: discursos autoritários, naturalização da desigualdade, desprezo pelos direitos humanos, perseguição de minorias, violência política, racismo, revisionismos e ataques às instituições democráticas. Por isso, preservar a memória histórica não é culto ao passado. É uma forma de proteger o futuro”.

Eis, portanto, porque o esquecimento histórico é muito perigoso para a democracia. 

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