Artigos e Opinião

EDITORIAL

Supremo acerta ao barrar supersalários

O fim da farra dos supersalários conforme decisão de Flávio Dino é um recado político: o Estado não existe para poucos, mas para todos. E isso, por si só, já é um avanço civilizatório

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A decisão do ministro Flávio Dino de pôr freio à chamada “farra dos supersalários” na Administração pública merece elogios claros e sem rodeios.

Trata-se de um gesto institucional relevante, que recoloca o debate sobre remuneração no serviço público em bases republicanas, racionais e, sobretudo, justas para com a sociedade que sustenta o Estado por meio de impostos cada vez mais pesados.

Não se pode criar castas dentro do poder público. Não se pode naturalizar a existência de uma elite salarial blindada, que se vale de penduricalhos, verbas indenizatórias criativas e interpretações elásticas da lei para romper, mês após mês, o teto constitucional.

O servidor público existe para servir ao interesse coletivo, e não para transformar o Estado em instrumento de enriquecimento pessoal acima de qualquer parâmetro razoável.

É evidente que o servidor público deve ganhar bem. Bons quadros precisam ser valorizados, e a remuneração adequada é parte disso. Mas há um limite ético e econômico que não pode ser ignorado.

Em um país marcado por profundas desigualdades, é indefensável que determinadas carreiras do setor público tenham rendimentos que destoam brutalmente da realidade da iniciativa privada, especialmente quando se trata de funções com alta estabilidade, baixíssimo risco de demissão e benefícios que inexistem fora do Estado.

O argumento de que supersalários seriam necessários para “reter talentos” tampouco se sustenta. Bons técnicos não devem temer a iniciativa privada.

Se acreditam que seu conhecimento vale cifras muito superiores ao teto constitucional, que se lancem ao mercado, assumam riscos, enfrentem concorrência e tentem obter o mesmo faturamento sem a proteção do cargo público.

O Estado não pode ser refém dessa lógica corporativista, que transforma exceções em regra e privilégios em direito adquirido.

Flávio Dino acertou. Sua decisão reafirma que o teto constitucional não é mera sugestão, mas um limite que precisa ser respeitado. Agora, resta observar quais serão os argumentos do poderoso lobby dos supersalários, sempre pronto a reagir quando privilégios são ameaçados.

Afinal, o teto atual, de pouco mais de R$ 46 mil – e que ainda deve ser reajustado neste ano – já não é suficiente? Em um país onde milhões sobrevivem com muito menos, a pergunta se impõe, e a resposta parece cada vez mais óbvia.

Mais do que uma medida administrativa, o fim da farra dos supersalários é um recado político: o Estado não existe para poucos, mas para todos. E isso, por si só, já é um avanço civilizatório.

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Quem cuida de quem cuida?

Quando o cansaço bate forte, a gente costuma achar que a nossa força simplesmente acabou ou que não estamos dando conta

13/10/2026 07h20

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Olhar para uma tomada cheia de adaptadores e cabos ligados ao mesmo tempo ajuda a entender o que acontece com a gente no dia a dia.

Quando o cansaço bate forte, a gente costuma achar que a nossa força simplesmente acabou ou que não estamos dando conta. Mas quase nunca paramos para olhar o principal: quantas tarefas, cobranças e pessoas dependem dessa mesma fonte sem que ela tenha um tempo para respirar e se abastecer?

Essa conta pesa ainda mais para quem vive no papel de cuidar. Mães, pais, professores, profissionais da saúde e todas as pessoas que seguram a barra emocional de quem está ao redor acabam virando essa tomada central. O mundo espera que elas estejam sempre prontas, firmes e dispostas a resolver tudo.

O problema é que cuidar não pode ser um caminho de mão única. Quem cuida quase sempre guarda para si um recado silencioso: o de que o seu próprio cansaço, a sua dor e os seus limites podem esperar. O resultado disso é um esgotamento que ninguém vê, uma dor que não ganha espaço e o hábito de engolir o que se sente.

Nenhuma estrutura aguenta o tranco sem queimar quando é exigida além da conta. Por isso, olhar para quem cuida e oferecer suporte não é uma gentileza opcional, é o básico para que essa pessoa continue bem e de pé.

Essa missão não pode ficar nas costas de uma pessoa só. A família, o ambiente de trabalho e os amigos precisam enxergar o cuidador além da figura forte que resolve tudo. Ele também precisa de escuta, de momentos de pausa, de ajuda prática e de colo.

Antes de cobrar presença e entrega o tempo todo, precisamos abrir espaço para o descanso. Desconectar algumas tomadas, dizer não para o excesso e colocar limites não é egoísmo. É o único jeito de não deixar a nossa própria luz apagar.

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Voto feminino é uma história que vai além da eleição presidencial

Hoje, as mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são aproximadamente 83,9 milhões de eleitoras em 2026, equivalentes a 52,84% do total

13/10/2026 07h15

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O debate sobre o voto feminino reúne questões de cidadania, autonomia e participação nas decisões públicas. No Brasil, esse direito foi reconhecido pelo Código Eleitoral de 1932 e incorporado à Constituição de 1934, após um processo de mobilização em que participaram mulheres como Bertha Lutz, bióloga, educadora, diplomata e política brasileira. Conhecer essa trajetória permite compreender que a presença feminina na política tem uma história de organização e reivindicação.

Hoje, as mulheres constituem a maioria do eleitorado brasileiro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), são aproximadamente 83,9 milhões de eleitoras em 2026, equivalentes a 52,84% do total.

Essa maioria numérica, porém, reúne experiências, condições econômicas e posições políticas diversas. Não é um contingente homogêneo.

Também há diferenças na definição do voto. Em pesquisa do Datafolha divulgada em setembro, a pergunta espontânea sobre a eleição presidencial encontrou indecisão entre 32% das mulheres e 19% dos homens.

Paralelamente, as redes sociais deram visibilidade ao fenômeno das tradwives, influenciadoras que apresentam modelos de vida centrados na dedicação doméstica e em papéis tradicionais de gênero.

Pesquisas sobre essas criadoras de conteúdo examinam a tensão entre a promoção da dependência feminina e o trabalho comercial desenvolvido por elas próprias nas plataformas digitais. A escolha pessoal de se dedicar ao lar e a defesa de restrições à autonomia das mulheres são questões distintas.

A discussão sobre participação política, entretanto, abrange mais do que a disputa presidencial, pois as eleições em 2026 também abrangem os governos estaduais, o Senado, a Câmara dos Deputados e as assembleias estaduais e a Câmara Legislativa do Distrito Federal. Cada uma dessas instituições exerce atribuições próprias.

Na esfera federal, o Legislativo participa da elaboração das leis e da fiscalização do Executivo. A Câmara dos Deputados, por exemplo, atua no acompanhamento de despesas, na análise de contas e na fiscalização financeira e orçamentária. Essas funções ajudam a explicar por que a composição do parlamento tem consequências para a administração pública, independentemente de quem ocupa a Presidência.

A história do voto feminino e o funcionamento das instituições oferecem, assim, duas dimensões complementares para compreender as eleições: quem participa das escolhas públicas e quais poderes serão exercidos pelos representantes eleitos. Há um campo de discussão sobre cidadania e representação que vai além da polarização presidencial.

Madeleine Albright, política e secretária de Estado dos EUA entre 1997 e 2001, dizia que “há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam outras mulheres”. A frase incomoda e talvez seja justamente esse o seu valor: colocar sob exame a distância entre defender a igualdade e abrir espaço para que outras participem das decisões.

Ser maioria entre quem vota e ter acesso aos espaços de poder são coisas diferentes. Essa distância merece atenção para além da disputa presidencial. Que obstáculos ainda limitam a participação feminina? Como a solidariedade entre mulheres convive com nossas diferenças políticas? E o que significa representação em uma sociedade na qual as experiências das mulheres são tão diversas?

Uma sociedade mais justa e equitativa passa também pela qualidade dessas respostas. O voto feminino tem uma história de conquistas, mas igualdade na participação pública continua sendo uma questão do presente.

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