O trânsito de Mato Grosso do Sul se transformou, há muito tempo, em um dos principais retratos da insegurança cotidiana vivida pela população.
Em um Estado que frequentemente exibe indicadores econômicos comparáveis aos de países desenvolvidos, além de avanços importantes em setores como educação e agronegócio, é inadmissível conviver com um cenário viário tão desorganizado, perigoso e ineficiente.
Basta circular por Campo Grande ou percorrer algumas rodovias estaduais para perceber que o trânsito se tornou uma ameaça permanente.
Não se trata apenas de imprudência individual. O problema é estrutural. O próprio ecossistema urbano e rodoviário contribui diretamente para o caos.
Há ruas esburacadas, sinalização precária, cruzamentos inseguros e vias que parecem abandonadas pelo poder público.
Soma-se a isso uma frota crescente de motocicletas em situação irregular, motoristas sem habilitação, veículos sem condições mínimas de circulação e um ambiente generalizado de desrespeito às regras.
Em Campo Grande, atravessar um cruzamento semaforizado durante a noite, mesmo com o sinal verde, virou exercício de sobrevivência.
O cidadão correto aprendeu a desconfiar do próprio direito de passagem. O receio de que alguém avance o sinal vermelho é permanente.
E, infelizmente, com razão. O trânsito deixou de ser apenas um espaço de circulação para se transformar em um território de tensão e medo.
Diante desse quadro, é evidente que o Estado precisa agir com rigor. A fiscalização severa é necessária. A presença ostensiva dos órgãos de trânsito também.
O problema é que, na prática, a chamada “mão pesada” do poder público parece atuar quase exclusivamente para arrecadar.
Ela costuma alcançar justamente o motorista regularizado, documentado e com capacidade financeira para pagar multas e impostos. Enquanto isso, grande parte da informalidade e da ilegalidade segue circulando livremente pelas ruas.
É impossível ignorar a sensação crescente de seletividade. O cidadão que cumpre as regras percebe radares, notificações e cobranças.
Já aqueles que trafegam sem habilitação, sem documentos ou em veículos irregulares, muitas vezes, permanecem invisíveis ao sistema. Não por acaso, as estatísticas de acidentes, mortes e insegurança continuam alarmantes.
Estamos no Maio Amarelo, campanha nacional voltada à conscientização no trânsito. Mas conscientização sem eficiência prática se transforma apenas em discurso publicitário.
Nesta série de reportagens que iniciamos, mostramos justamente essa contradição: o número de multas aumenta, a arrecadação cresce, mas o trânsito continua perigoso.
Isso revela que as políticas públicas adotadas até aqui falharam em seu objetivo principal, que deveria ser salvar vidas.
Não basta multar. É preciso organizar o trânsito, recuperar vias, melhorar a sinalização, combater a informalidade e fiscalizar de verdade os focos de insegurança.
Segurança viária não se mede pela quantidade de notificações emitidas, mas pela redução de acidentes e pela capacidade de garantir tranquilidade à população.
E, neste aspecto, Mato Grosso do Sul ainda está muito distante do padrão de desenvolvimento que tanto ostenta em outras áreas.

