Artigos e Opinião

ARTIGO

Venildo Trevizan: "O peso da fé"

Frei

Redação

12/09/2015 - 00h00
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Existe quem confunde crer com admitir. Crer é uma conquista espiritual enquanto admitir é uma opção intelectual. Crer é sair de si para se deixar amar e conduzir por alguém ou por alguma força sobrenatural. Admitir é uma escolha de interesse intelectual.

Crer, de acordo com a doutrina cristã, é uma atitude de pessoa adulta. É opção de quem não se contenta com aquilo que alguém lhe transmite e desafia sua própria capacidade em seguir uma determinada crença. 

Muitos são os comportamentos e variadas são as escolhas para quem pensa e faz do pensar uma forma original de construir seu caminho. Respeita outros caminhos e constrói o seu próprio sem interferir no dos outros. Vive livre e satisfeito por saber que se encontra seguro em seu modo de caminhar e definir seu pensar.

Sabe ainda que pelo fato de ter optado por um determinado caminho terá que respeitar os demais que tambem conduzem a um objetivo de valor. Pois todos são iluminados pela fé e alimentados pela esperança de chegar a bom termo nesse seu caminhar.

Todo o caminhar exige convicções sérias e seguras. Não há como andar apenas sonhando ou aventurando conquistas. Tudo tem seu peso. Tudo tem seu preço e suas normas. E conduz ao sagrado. Crer será, então, caminhar para o sagrado e com o sagrado. E se concretiza nas obras.

O apóstolo Tiago dizia para seus seguidores: “Meus irmãos, se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, que adianta isso? A fé sem obras está completamente morta”. (Tg.2,14-16) A fé não é uma teoria, não é um sentimento interior. A fé é um compromisso que deve se manifestar através de atitudes e de obras que testemunhem a crença.

Esse compromisso produzirá frutos se houve desprendimento pessoal, se realizar sua tarefa com alegria e caminhar sempre no caminho do Senhor. Sabemos que nesse mundo existem muitos homens e mulheres dizendo que crêem em Deus, mas não respeitam as criaturas de Deus. São falsos e mentirosos. Podem enganar os homens, mas não enganarão a Deus.

Existem tambem homens e mulheres que, apesar das limitações pessoais, encontram energias e forças para materializar sua fé e sua comunhão com os irmãos e com Deus. São pessoas que nem sempre pertencem a alguma igreja, ou instituição espiritualista, mas amam o ser humano nas mais variadas situações. E fazem dele um altar onde imolam seus sentimentos de amor e de ternura. E garantem que retomará a esperança e a alegria.

São seres humanos sem certidão de batismo, sem carteirinha de dizimista, mas com um coração apaixonado pela vida e pela dignidade e voltados carinhosamente para o sofrimento humano transformando-o em vida nova e alegria sem limites.

São seres humanos conscientes de sua fé que corajosamente decidem colocar suas forças a serviço de quem não tem como sobreviver. São pessoas humanas de natureza e divinas por opção. São pessoas frágeis por suas fraquezas e fortes em sua fé. São pessoas limitadas em sua inteligência e mártires em sua opção.

EDITORIAL

Saúde e a falta de atendimento digno

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, falha com seus pacientes e toda a sociedade

24/06/2026 07h15

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Há algo profundamente errado quando um paciente consegue ser esquecido dentro de um hospital. Não se trata apenas de uma falha administrativa, de um problema de gestão ou de uma dificuldade financeira. Trata-se de uma afronta à dignidade humana.

E é exatamente isso que reportagem publicada nesta edição do Correio do Estado revela ao apresentar o conteúdo de um relatório da Defensoria Pública sobre a situação da Santa Casa de Campo Grande.

O documento descreve um cenário que deveria causar indignação em qualquer cidadão. Pacientes aguardam vagas e procedimentos por períodos incompatíveis com a urgência de seus quadros clínicos.

Há relatos de tratamentos inadequados, falhas no acompanhamento médico e situações em que pessoas permanecem à espera de cuidados básicos. O que se vê é um sistema que, em muitos casos, parece incapaz de oferecer aquilo que deveria ser sua missão principal: cuidar.

É preciso dizer com clareza que não estamos falando apenas de números, estatísticas ou relatórios. Estamos falando de pessoas. Homens, mulheres, idosos e crianças que chegam ao hospital em busca de ajuda e encontram uma estrutura que, frequentemente, não consegue responder às suas necessidades.

São cidadãos que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) e que, justamente por isso, tornam-se ainda mais vulneráveis.

A situação se torna mais grave porque o paciente que depende do SUS não tem alternativa. Quem tem recursos financeiros pode recorrer a hospitais particulares, buscar uma segunda opinião ou contratar um plano de saúde.

Já o cidadão pobre, quando entra em uma unidade pública ou conveniada ao SUS, entrega seu destino à capacidade do sistema de funcionar. E, conforme demonstram os relatos reunidos pela Defensoria Pública, essa confiança nem sempre é correspondida.

Existe uma ironia difícil de ignorar. Boa parte dos profissionais que atuam no sistema público de saúde e dos gestores responsáveis por hospitais conveniados ao SUS não utiliza a rede pública quando precisa de atendimento médico, recorre aos planos de saúde e aos hospitais privados.

Não há ilegalidade nisso, mas o fato expõe uma realidade desconfortável: muitos conhecem de perto as limitações do serviço que administram ou ajudam a prestar.

Outro argumento frequentemente utilizado para justificar os problemas da saúde pública é a falta de recursos. No caso de Campo Grande, porém, essa explicação não parece suficiente.

Todos os anos, mais de R$ 1 bilhão são transferidos pela União ao Município para custear ações e serviços do SUS. Trata-se de um volume expressivo de dinheiro público.

O que os fatos indicam é a necessidade urgente de melhorar a gestão dos recursos já disponíveis. Cada paciente esquecido, cada tratamento inadequado e cada demora injustificável representa não apenas sofrimento humano, mas também o fracasso na aplicação eficiente de recursos que pertencem à sociedade.

A saúde pública existe para garantir atendimento digno a todos, independentemente da renda. Quando um hospital deixa de cumprir essa missão, não falha apenas com seus pacientes, falha com toda a sociedade.

Artigo

Crise de realidade e o novo papel da ficção

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si

23/06/2026 07h45

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Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano.

Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico.

Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade?

Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.

A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções.

Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no “e se?” A ficção passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.

Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.

Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social.

Se já não conseguimos concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atravessa instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.

Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda, o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa. Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais sobre reaprender a enxergá-la.

Num mundo em que cada pessoa parece confinada à própria versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar perguntas difíceis.

A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo, não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.
 

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