A crise do transporte coletivo de Campo Grande voltou ao centro do debate público nesta terça-feira (2), audiência promovida pela Prefeitura para apresentar os resultados da análise do contrato do Consórcio Guaicurus.
Dados apresentados pela comissão instituída pela Procuradoria-Geral do Município (PGM) apontam que o sistema registrou 12.279 autuações por descumprimento de horários e outras 3.444 por omissão de viagens, quando o início, o fim ou todo o percurso programado deixou de ser registrado pelos sistemas de monitoramento.
Os números revelam mais de 15 mil autuações aplicadas ao sistema entre 2021 e 2025, encontro foi marcado por críticas de usuários, especialistas e vereadores, que cobraram providências do Executivo Municipal.
Os dados são da Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) com base em documentos e processos de fiscalização que englobam a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Transporte Coletivo.
Durante a audiência, as críticas foram direcionadas à qualidade e fiscalização do serviço prestado pelo Consórcio Guaicurus.
"Eu sou professor aposentado, tenho 80 anos. (...) não é só o Consórcio Guaicurus que tem falhado, o órgão público de fiscalização do transporte coletivo tem falhado", afirmou o professor aposentado Odilio Cavalcanti.
Já o professor, cientista e ex-conselheiro municipal de Desenvolvimento Urbano, Lazaro da Silva, avaliou que uma nova licitação dificilmente atrairia interessados diante da situação financeira do sistema.
"Empresa para assumir uma operação nesse porte é a mesma coisa que carregar água na peneira. Ninguém vai querer essa bomba. Que administração é essa, gente? Então, se não tem dinheiro para tapar os buracos, vai ter para administrar? Gente, não podemos brincar com a cara dos usuários, da população. Vocês foram eleitos para nos representar com dignidade e trabalhar", declarou.
Lazaro também defendeu a criação de novas fontes de financiamento para o transporte coletivo. Entre as sugestões apresentadas está a cobrança de uma taxa adicional sobre combustíveis, com o objetivo de subsidiar o sistema e garantir sua sustentabilidade financeira.
Segundo ele, a queda no número de passageiros e a baixa remuneração das empresas operadoras estão entre os principais fatores que agravam a crise.
A vereadora Luiza Ribeiro (PT) destacou que a Câmara Municipal já realizou debates e levantamentos sobre o tema, mas reforçou que a decisão sobre o futuro do sistema cabe ao Executivo.
"Nós achamos que todo aquele trabalho que a Câmara fez (CPI) foi muito valioso. Era muito importante que o Executivo cuidasse de analisar aquelas questões trazidas. Nós estamos numa crise que se arrasta, mas quem tem a caneta para a decisão dessa situação é o Executivo Municipal, que é quem costumeiramente detém a responsabilidade pelo serviço do transporte público urbano", afirmou.
Junior Coringa (MDB) também fez críticas à atuação do consórcio e à qualidade do serviço oferecido à população.
"Essa empresa que hoje perdeu a metade dos seus clientes 'eles' se chamam de usuários, mas eu chamo de clientes, porque eles pagam a passagem na roleta. Se fossem clientes, poderia ter certeza absoluta que nós teríamos um transporte coletivo de qualidade. Os empresários, juntamente com toda a sua diretoria, brincam com a população campo-grandense", disse.
A audiência integra a fase final dos estudos conduzidos pela Prefeitura sobre o contrato de concessão do transporte coletivo. O relatório deve ser entregue à prefeitura na próxima semana e deverá subsidiar futuras decisões sobre a continuidade, revisão ou eventual reformulação do modelo adotado na Capital.

