A medida anunciada pelo governo dos Estados Unidos de classificar duas facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês), na quinta-feira, já vinha sendo coordenada anteriormente para gerar impacto na América do Sul.
Isso envolve um trabalho conjunto com a Bolívia no combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV), gerando ações com repercussões para a fronteira com o Brasil, em Mato Grosso do Sul.
Para garantir que haja enfraquecimento de diferentes setores dessas organizações criminosas, as ações na Bolívia e na fronteira com o Brasil vão mirar integrantes que têm usado o território boliviano para se esconder de ações penais brasileiras e conseguir atuar diretamente em um país com produção de cocaína.
O vice-ministro de Defensa Social y Sustancias Controladas da Bolívia, Ernesto Justiniano Urenda, foi pessoalmente aos Estados Unidos para tratar de ações coordenadas com a Drug Enforcement Administration (DEA).
Ele trabalhou em conjunto nessa agenda com o diretor-geral da Fuerza Especial de Lucha contra el Narcotráfico (Felcn), coronel Frans William Cabrera Quispe. O chefe da DEA, Daniel Salter, participou da reunião, feita em Washington (EUA) na segunda quinzena deste mês.
“Progredimos em linhas de trabalho para reforçar a investigação de estruturas criminosas transnacionais, especialmente em matéria de financiamento ilícito, rotas, logística, precursores químicos e redes de proteção. A luta contra o tráfico de droga exige coordenação, capacidades técnicas e cooperação séria entre Estados”, elencou Urenda, ao comentar sobre a agenda com os Estados Unidos.
Ele ainda pontuou que o combate ao PCC e ao CV em território boliviano envolve fortalecer as barreiras contra criminosos que acabam se escondendo no país, principalmente em regiões mais próximas de Santa Cruz de la Sierra, área considerada polo econômico da Bolívia.
“O crime organizado transnacional não pode mais ser visto apenas como um problema policial ou de apreensão de drogas. Trata-se de organizações com capacidade financeira, logística, territorial e armada que atravessam fronteiras, articulam rotas, lavam dinheiro, corrompem instituições e geram violência. Para a Bolívia, a implicância é direta: a luta antidroga deve olhar para toda a cadeia criminosa, não apenas para o carregamento final. Isso exige investigação, inteligência, controle territorial, cooperação internacional e perseguição ao financiamento ilícito”, defendeu o vice-ministro, que já deu sinais de que a DEA deve atuar em conjunto com forças de segurança do país para garantir avanços da operacionalização do combate ao crime organizado.
A Bolívia passa a contar com estruturas de inteligência que abrigam policiais da DEA e também da Polícia Federal do Brasil.
A unidade da polícia estadunidense deve ficar em La Paz, capital administrativa da Bolívia, onde Urenda despacha. Com a Polícia Federal, há o mesmo tipo de cooperação de troca de informações em Santa Cruz de la Sierra e em La Paz.
Conforme apurado, a Polícia Boliviana segue realizando investigações e operações, enquanto as autoridades estrangeiras dão suporte com troca de informações sensíveis.
Com o trabalho conjunto, as autoridades do país vizinho conseguiram expulsar alguns criminosos ligados diretamente a facções criminosas brasileiras neste ano: o uruguaio Sebastian Marset (ligação com PCC e levado para os EUA), Gerson Palermo (procurado há quase 10 anos no Brasil e com ligações com o PCC), Kleber Nóbrega Pereira, o Kekeu (ligado ao setor financeiro do CV). Todos estavam na região de Santa Cruz de la Sierra.
Nesta semana, ainda houve a apreensão de 1.156.000 bolivianos (algo em torno de R$ 578 mil) e US$ 121 mil (em torno de R$ 605 mil), que envolveu um sargento do Serviço Aéreo da Polícia Boliviana e uma aeronave que pode estar envolvida em dinheiro de atividades criminosas.
Há uma investigação em curso para identificar se o dinheiro apreendido em Santa Ana del Yacuma é oriundo do tráfico de drogas.
Em Mato Grosso do Sul há domínio do crime por parte do PCC - Foto: Gerson Oliveira / Correio do EstadoREPERCUSSÃO EM MS
O secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública, Antônio Carlos Videira, reconheceu a necessidade de um trabalho conjunto para combater a atuação de facções criminosas. Ele ponderou que Mato Grosso do Sul funciona como rota, e não como destino final da cocaína traficada.
“O PCC precisa passar pelas rodovias de Mato Grosso do Sul e pelo espaço aéreo, como o Comando Vermelho precisa passar por Mato Grosso para chegar nos portos e aeroportos para [essa droga] ser escoada. Quando o governo americano firma parceria com Paraguai, Uruguai e Argentina, aumenta a capacidade de enfrentamento a essas organizações criminosas. O maior desafio delas [facções] hoje não é repor as drogas que foram apreendidas, o maior problema é a lavagem de dinheiro dessa droga”, afirmou Videira.
Segundo o secretário, as ações coordenadas internacionalmente podem combater a lavagem de dinheiro, que acarreta também o empoderamento financeiro para a prática de corrupção de servidores.
“A droga é uma das fontes, mas há diversas outras. O PCC, por exemplo, usa as rodovias de Mato Grosso do Sul para transportar eletrônicos, celulares. Essas organizações criminosas buscam primeiro cooptar o servidor da segurança pública, se ela [organização] não consegue, aí passa para o enfrentamento”.
Por parte da Polícia Federal, em Mato Grosso do Sul, existe atualmente uma ação coordenada em que há intercâmbio de policiais brasileiros e bolivianos para tentar aumentar o trabalho investigativo, principalmente na faixa de fronteira.
Entre Puerto Quijarro, fronteira com Corumbá, e Santa Cruz de la Sierra, uma faixa de pouco mais de 600 quilômetros, conforme apurado, existem pelo menos 70 criminosos com condenação ou sob investigação no Brasil que estão escondidos na Bolívia, porém, com algum grau de monitoramento das autoridades, que não conseguiram efetivar extradições.
*Saiba
Classificar as facções brasileiras como terroristas permite que o governo dos Estados Unidos possa congelar ativos, impedir transações financeiras e impor restrições de visto a membros e pessoas consideradas como associadas ao PCC e ao CV.

