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Com o aumento de incidentes, saiba como lidar com escorpiões

Segundo dados da Sesau, neste ano foram registrados 1.470 acidentes com o animal peçonhento. Veja dicas simples que podem reduzir os acidentes

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A Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que, somente em 2025, foram registrados 1.470 acidentes com escorpiões. Os mais atingidos são bebês com menos de um ano, crianças de 5 a 14 anos e idosos acima de 80 anos.

Outra faixa etária registrada no sistema é a de jovens de 20 a 49 anos.

Diante do aumento dos registros envolvendo escorpiões, animais peçonhentos e sinantrópicos , o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) realizou, entre janeiro e julho deste ano, mais de 1.300 atendimentos.

Segundo dados do CCZ, as regiões com maior incidência de aparição e acidentes de escorpiões são os bairros das áreas da Lagoa e Imbirussu, conforme a demanda de solicitações para o controle da praga.

Os acidentes resultaram em mais de 2.200 visitas de equipes técnicas, com foco na orientação e prevenção de novos casos. Após a ocorrência de uma eventual picada, durante a visita, vistorias são realizadas e, quando necessário, é feito o controle químico.

O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) pode ser acionado pelo telefone 3313-5000.

Arquivo / Agência Brasil

Como lidar com o escorpião

Sem predadores naturais - em ambientes urbanos -, e devido à alteração de hábitos, os escorpiões que costumavam aparecer apenas nos meses chuvosos, por preferência pela umidade, agora podem ser vistos durante todo o ano nas casas do campo-grandense.

Escorpiões encontrados no município:

  • Tityus serrulatus; 
  • Tityus bahiensis;
  • Tityus confluens.

Cabe ressaltar que o período reprodutivo do escorpião-amarelo inicia em agosto e se estende até setembro. Além disso, as altas temperaturas criam um cenário favorável para o avistamento, devido à busca por alimentos.

O professor doutor e pesquisador do Laboratório de Animais Peçonhentos do Instituto de Biociências da UFMS, Malson Neilson Lucena, explicou, o que é fato e mito em muitas receitas encontradas na internet para afastar escorpiões.

É comum encontrar vídeos nas redes sociais com dicas como usar água sanitária no ralo do banheiro e sanitários; entretanto, o professor indica a deixar receitas caseiras de lado e  acionar uma empresa especializada ou o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) para realizar a captura dos escorpiões no ambiente.

Por serem da família dos aracnídeos, os escorpiões são resistentes a diversos tipos de venenos usados costumeiramente para dedetizar ambientes. Conforme explicou o pesquisador, o que acontece é a eliminação de outros insetos que serviriam de alimento, o que pode forçá-los a procurar outros locais.

Outro ponto levantado em entrevista cedida anteriormente ao Correio do Estado, segundo explicou o professor, é o fato de que o escorpião, que não possui predadores naturais fora de seu ambiente, se adaptou à área urbana de Campo Grande.

Plantas afastam escorpiões?

O especialista foi categórico ao afirmar que não existe nenhuma evidência científica de que alguma espécie de planta afaste o escorpião.

"Mesmo essas plantas que são repelentes naturais, como a arruda e a citronela, elas repelem insetos como mosquitos. Mas os escorpiões nem têm um olfato tão apurado assim. Geralmente, eles usam mais o tato, a vibração e o estímulo químico de contato, mas não o olfativo. Então, não há evidências, não existiriam essas plantas."

No entanto, para os amantes de plantas, ele diz que a citronela, o hortelã e a arruda podem afastar baratas, repelindo com isso uma das principais fontes de alimento do animal peçonhento.

Infestação em casa

O sinal, de acordo com o professor, de que uma residência está passando por uma infestação é o morador encontrar mais de um escorpião por mês, seja em casa ou em apartamento.

Outros fatores que podem atrair o animal são a presença de muitas baratas ou grilos, que servem de fonte de alimento para o escorpião.

"E também, se vizinhos relatarem que estão encontrando escorpiões, é sinal de infestação na vizinhança. Nesse caso, é preciso acionar o CCZ."

 

Cuidado com crianças

Como acompanhou o Correio do Estado em agosto deste ano, Mato Grosso do Sul registrou a morte de duas crianças em decorrência da picada de escorpião.

No dia 3 de agosto, uma menina de 8 anos morreu após ser picada enquanto brincava com a irmã no quintal de casa, em Chapadão do Sul.

A criança, internada desde 29 de julho, foi transferida para o Hospital Regional Rosa Pedrossian, em Campo Grande, mas não resistiu.

Em seguida, no dia 6 de agosto, um menino, também de 8 anos, foi picado por um escorpião escondido dentro do tênis durante um casamento em Naviraí.

Inicialmente atendido no hospital da cidade, ele foi transferido para a UTI do Hospital Universitário de Dourados, onde faleceu.

O tempo, nestes casos, afirma Lucena, é fundamental.

"Geralmente, a letalidade do veneno do escorpião está ligada justamente ao tempo. O Ministério da Saúde recomenda o atendimento imediato, principalmente para crianças e idosos. Nos casos moderados a graves, o atendimento deve ser o mais rápido possível, de preferência entre duas e três horas após o acidente, para que o veneno seja neutralizado e não se espalhe por todo o corpo. Se for criança pequena, mesmo em casos de sintomas leves, é recomendado levá-la a uma unidade de saúde, porque geralmente a evolução pode ocorrer rapidamente. Às vezes, a gente vê mortes de crianças no interior porque lá não havia, né, o soro, e demorou até chegar a Campo Grande", ressaltou Lucena e completou:

"Em caso de acidente, lave o local com água fria e sabão e não faça torniquete. Se for criança, idoso, gestante ou se houver sinais sistêmicos, como vômito, salivação excessiva, dificuldade para respirar, alteração nos batimentos cardíacos ou convulsões, é preciso procurar atendimento médico imediatamente. Os sinais de gravidade serão esses, mas, às vezes, mesmo em crianças e idosos, eles começam de forma discreta e logo evoluem. Então, é preciso ficar muito atento a esses sintomas e procurar uma UPA imediatamente".

Gatos caçam escorpiões?

O comportamento instintivo do felino pode até levá-lo a tentar caçar o escorpião. Neste ponto, o tutor precisa ficar atento para evitar acidentes que culminem no agravamento da situação e até na morte do animal de estimação.

"Às vezes, eles conseguem matar o escorpião, mas não são imunes ao veneno. Então, podem ser picados e apresentar dor, salivação, inchaço e até risco de morte. Vai depender da quantidade do veneno que foi inoculado e do porte do animal. Geralmente, os gatos são menores que os cachorros, então correm mais risco ainda. Os cachorros também podem ser picados e apresentar vômitos, salivação e até alteração cardíaca. Por isso, o indicado é evitar que o animal seja exposto ao escorpião e, se houver suspeita de que foi picado, é preciso levá-lo ao veterinário."

Condições que favorecem a presença do escorpião

O acúmulo de lixo em terrenos baldios e esgoto é um ambiente propício para vários tipos de insetos e, nesses lugares, a presença do escorpião é quase certa.

Por isso, Lucena pontua que a conscientização da população é fundamental, dentro e fora de casa, na gestão do lixo, desde evitar jogá-lo em locais públicos até adotar medidas que podem reduzir pragas em casa.

"É importante controlar o lixo, principalmente o lixo orgânico. Esse tipo de resíduo atrai baratas, que são a principal fonte de alimento dos escorpiões. Então, é preciso fazer uma boa gestão desses resíduos e restos de comida, além de manter as lixeiras sempre tampadas. Também é importante fiscalizar os terrenos baldios e manter uma coleta pública de lixo eficiente. A educação da população é essencial para que não jogue lixo em terrenos baldios."

Onde os escorpiões se escondem?

  • Ralos;
  • Caixas de esgoto e de gordura;
  • Atrás dos móveis;
  • Pilhas de lenha;
  • Pilhas de tijolos, telhas e entulho;
  • Troncos e folhas secas;
  • Rodapés soltos;
  • Frestas nas paredes;
  • Buracos e pisos soltos.

Cuidados básicos

  • mantenha o ambiente arejado;
  • instalar tela ou tapas em ralo e tubulações;
  • mantenha o ambiente limpo e bem iluminado;
  • localize onde os escorpiões estão se estabelecendo para que o profissional responsável os retire do espaço;
  • evite acúmulo de lixo em terrenos baldios, que atraem insetos e, consequentemente, o animal peçonhento;
  • realize verificação de cantos, rodapés, atrás de móveis e roupas no chão, especificamente à noite;
  • ao retirar objetos em locais onde o animal pode se esconder faça o uso de luvas.

Por serem animais de hábitos noturnos, os escorpiões tendem a fugir de locais claros e procurar cantos escuros.

Como acabar com a infestação?

  • evite acúmulo de entulhos, madeira, pedras e lixo;
  • realizar a limpeza de jardins e áreas externas, retirando acúmulo de folhas ou objetos que podem servir de esconderijos;
  • armazene  alimentos como ração em potes vedados para evitar a aparição de insetos como baratas que são predadas por escorpiões;

Evite acidentes 

  • Verifique cuidadosamente calçados, roupas, toalhas e roupas de cama antes de usá-los;
  • Limpe periodicamente ralos de banheiro, cozinha e caixas de gordura;
  • Mantenha camas e berços afastados, no mínimo, 10 cm da parede;
  • Evite que lençóis toquem o chão;
  • Feche frestas nas paredes, móveis e rodapés para que não sirvam de esconderijo para os escorpiões;
  • Use telas nas aberturas dos ralos, pias e tanques;
  • Não deixe acumular lixo e entulho nos quintais, jardins, e terrenos baldios e ao redor das residências;
  • Coloque o lixo em sacos plásticos fechados para evitar baratas e outros insetos;
  • Mude periodicamente de lugar materiais de construção que estejam armazenados e lembre-se de proteger as mãos com luvas grossas na realização deste trabalho;
  • Retire de paredes e muros plantas ornamentais densas, arbustos e trepadeiras;
  • Elimine fontes de alimento para os escorpiões (baratas, aranhas, grilos e outros pequenos animais invertebrados);
  • Limpe terrenos baldios situados a cerca de 2 metros (aceiro) das redondezas dos imóveis ocupados;
  • Evite a prática de queimadas em terrenos baldios, pois desalojam os escorpiões, entre outros animais;
  • Preserve os inimigos naturais dos escorpiões, especialmente aves de hábitos noturnos (corujas, joão-bobo), quati, lagartos, sapos, galinhas, gansos;
  • Evite folhagens de jardins junto às paredes externas de residências e mantenha jardins e gramados aparados e bem cuidados. 
  • Vale lembrar que pesticidas e outros produtos não são eficazes para o controle de escorpiões e podem gerar mais risco de acidente. 

Primeiros-socorros 

Em caso de acidente:

  • Lavar o local com água e sabão;
  • Se possível fotografe ou informe ao profissional de saúde o máximo possível de características do animal, como: tipo de animal, cor e tamanho;
  • Procure atendimento médico imediatamente;

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requerimento

CPI do Tapa-Buraco avança na Câmara de Campo Grande com sete assinaturas

Dentre os fatos determinados da investigação estão ausência de ações e respostas do Executivo diante das reclamações da população, prejuízos causados, redução dos investimentos, dentre outros

13/10/2026 18h14

Câmara quer CPI para investigar contratos do tapa-buraco

Câmara quer CPI para investigar contratos do tapa-buraco Foto: Marcelo Victor / Correio do Estado

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A articulação para abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) avançou na Câmara Municipal de Campo Grande, com sete vereadores assinando o requerimento. A proposta é investigar possíveis irregularidades nos contratos e na execução dos serviços de tapa-buracos na Capital.

O requerimento para a criação da CPI foi apresentado pela vereadora Luiza Ribeiro (PT), na sessão do dia 13 de agosto deste ano. 

Nesta terça-feira (13), dois meses depois, ela afirmou que o documento já reúne sete assinaturas, dos vereadores Jean Ferreira (PT), Landmark (PT),  Marquinhos Trad (PV), Maicon Nogueira (PP), André Salineiro (PL) e Vererinário Francisco (União Brasil), além dela.

O requerimento estabelece como fatos determinados da investigação a ausência de ações e respostas do Executivo diante das reclamações da população, os prejuízos causados pela falta de manutenção adequada, a redução dos investimentos, os casos de possíveis irregularidades e a ausência de resposta ao requerimento aprovado pelo Plenário.

Um dado apresentado no requerimento é que, das 24.673 indicações encaminhadas pela Câmara ao Executivo no primeiro semestre de 2026, quase 9 mil foram destinadas à realização de serviços de tapa-buraco em diferentes regiões do Município.

Outro ponto destacado no documento é a redução da dotação destinada ao projeto de Modernização e Requalificação das Vias Urbanas, cujos investimentos previstos passaram de mais de R$ 132 milhões em 2025 para pouco mais de R$ 40 milhões em 2026, uma redução de quase 70%.

O requerimento também aponta que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul investiga ações relacionadas ao serviço de tapa-buracos em Campo Grande e cita a Operação “Buraco Sem Fim”, que apurou suspeitas de fraudes em contratos, incluindo possíveis irregularidades em medições de serviços e pagamentos por obras parcialmente executadas ou não realizadas.

Por fim, é mencionado o acompanhamento do tema pelo Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS).

“Não estamos falando apenas de buracos nas ruas. Estamos falando de dinheiro público, de qualidade dos serviços prestados à população e da necessidade de saber por que Campo Grande chegou a essa situação. A Câmara precisa cumprir seu papel de fiscalização e investigar”, defende Luiza Ribeiro.

A proposta solicita a criação da CPI pelo prazo inicial de 120 dias, com a definição dos fatos a serem investigados, composição da comissão e prazo para conclusão dos trabalhos após a adoção das providências regimentais.

Para que a CPI seja aberta, é necessário o apoio de no mínimo um terço dos vereadores. Como a Câmara de Campo Grande tem um total de 29 vereadores, o cálculo resulta na necessidade de, no mínimo, 10 assinaturas.

Para Luiza Ribeiro, a questão central é garantir transparência. “A população de Campo Grande precisa saber quanto está sendo gasto, como os serviços são executados e por que os problemas persistem. Afinal, a manutenção das ruas é um serviço público essencial, e a população tem o direito de saber como seu dinheiro está sendo aplicado ", argumenta. 

O vereador André Salineiro, que assinou o requerimento, defendeu a abertura da CPI e cobrou cobrou transparência e fiscalização sobre os novos contratos anunciados pela Prefeitura, que somam R$ 46,3 milhões, e a promessa de ampliar os serviços para até 3 mil buracos tapados por dia, com várias frentes de trabalho, a partir desta terça-feira (13).

“Sou favorável à abertura de uma CPI do Tapa-Buraco. A população espera uma posição dos vereadores. Nós vamos investigar o que aconteceu ou deixar esse assunto passar sem que esta Casa cumpra o seu papel? Não estou aqui para condenar ninguém antes da conclusão das investigações. Investigar não é condenar”, afirmou Salineiro.

O vereador Veterinário Francisco cobrou, independentemente da abertura da CPI, providências do Executivo municipal para a realização da operação tapa-buracos no bairro  Coophasul e em outras regiões de Campo Grande, cujas solicitações já foram apresentadas várias vezes, mas sem solução do problema.

“Desde o início do meu mandato, tenho cobrado a operação tapa-buracos na nossa Capital.  Foram várias vezes o mesmo pedido para o Coophasul, mas até agora nada foi feito”, afirmou, acrescentando que  a operação tapa-buracos precisa chegar aos bairros que aguardam atendimento.

Ação Policial

Polícia barra festa infantil atribuída ao Comando Vermelho em MS

Duas mulheres foram presas em Pedro Gomes durante operação que impediu evento de Dia das Crianças supostamente financiado pela facção; investigação aponta ações semelhantes em outras cidades do Estado.

13/10/2026 18h01

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.

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Uma festa de Dia das Crianças que, segundo a Polícia Civil, seria utilizada pelo Comando Vermelho para conquistar a simpatia de moradores e ampliar sua influência em comunidades de Mato Grosso do Sul foi impedida pelas forças de segurança na segunda-feira (12), em Pedro Gomes, município da região norte do Estado.

A operação terminou com duas mulheres presas e revelou uma suposta estratégia da organização criminosa para utilizar a distribuição de alimentos, doces e brinquedos como forma de aproximação com a população.

As investigações apontam que a iniciativa não seria isolada. Informações obtidas pelos setores de inteligência das polícias Civil e Militar indicaram que a facção planejava promover eventos semelhantes em pelo menos três municípios sul-mato-grossenses: Pedro Gomes, Sonora e Coxim.

A suspeita é de que as comemorações, apresentadas como iniciativas comunitárias, fossem financiadas por integrantes do Comando Vermelho com o objetivo de fortalecer a presença do grupo nas localidades, estabelecer vínculos com moradores e construir uma imagem de proteção e assistência social, especialmente entre famílias em situação de vulnerabilidade.

Em Pedro Gomes, os policiais identificaram antecipadamente o local e o horário da festa, além de pessoas que estariam envolvidas na organização do evento. O encontro estava previsto para as 15h, no campo de futebol do Bairro São Luís.

Segundo o levantamento policial, também foi identificada uma pessoa apontada como liderança externa da organização criminosa, que mantinha contato direto com as responsáveis locais e com fornecedores contratados para a realização da festa.

Polícia identificou pagamentos e organização da festa

As investigações começaram dias antes da data prevista para as comemorações. A partir do compartilhamento de informações entre os setores de inteligência, as forças de segurança passaram a acompanhar os preparativos dos eventos e os possíveis vínculos dos organizadores com a facção criminosa.

Um dos elementos que chamaram a atenção dos investigadores foi a forma de pagamento dos serviços contratados.

Conforme as informações levantadas, os brinquedos infláveis que seriam disponibilizados às crianças deveriam ser pagos em dinheiro, diretamente no local da festa. Para a polícia, a utilização de valores em espécie poderia dificultar o rastreamento dos recursos empregados na organização do evento.

Além disso, foram identificadas pessoas responsáveis pelos preparativos e contatos que, segundo os investigadores, indicariam a participação de integrantes da organização criminosa no planejamento das atividades.

A partir desses indícios, as equipes intensificaram o acompanhamento da movimentação no Bairro São Luís, com o objetivo de impedir a realização do evento caso fosse confirmada a ligação com a facção.

Duas mulheres foram presas em Pedro Gomes

Durante a intervenção policial, duas mulheres foram encontradas no campo de futebol enquanto montavam uma estrutura destinada à distribuição de alimentos para as crianças da comunidade.

Polícia Militar acompanha abordagem durante operação que impediu festa de Dia das Crianças supostamente financiada pelo Comando Vermelho, em Pedro Gomes, no norte de Mato Grosso do Sul.Policiais abordaram organizadoras de festa infantil que, segundo a investigação, seria financiada pelo Comando Vermelho em Pedro Gomes. Foto: Divulgação Policia Civil.

Ao serem questionadas pelos agentes, uma delas afirmou que estava organizando uma comemoração infantil, mas não apresentou autorização para a realização do evento.

Segundo a polícia, a jovem já era conhecida das forças de segurança e havia sido mencionada em um registro anterior por supostamente ameaçar moradores da vizinhança em nome de uma organização criminosa.

A investigação apontou ainda que a estrutura preparada para a festa estaria sendo financiada por integrantes do Comando Vermelho, com movimentações financeiras realizadas principalmente por meio de contas bancárias de uma das investigadas.

As duas mulheres foram presas em flagrante, sob suspeita de envolvimento com a organização criminosa e de participação em atividades destinadas a favorecer sua atuação na comunidade.

A polícia também apreendeu aparelhos eletrônicos que, conforme o relatório investigativo, continham informações consideradas relevantes para a identificação dos responsáveis pelo planejamento e financiamento da festa.

Mensagens e transferências via Pix são investigadas

A análise preliminar dos aparelhos apreendidos revelou, segundo a Polícia Civil, conversas que mencionavam diretamente o Comando Vermelho e indicavam a existência de grupos de mensagens utilizados para organizar as atividades.

Entre os registros identificados estaria um grupo destinado especificamente às finanças do chamado "projeto Dia das Crianças", expressão utilizada nas comunicações analisadas pelos investigadores.

Também foram encontradas referências a transferências bancárias realizadas por meio do Pix entre as mulheres investigadas, o que reforçou as suspeitas sobre a existência de uma estrutura financeira por trás da organização dos eventos.

Para os policiais, os elementos reunidos indicam que a comemoração não seria apenas uma iniciativa espontânea das organizadoras, mas parte de uma atividade articulada e financiada por pessoas ligadas à facção.

A investigação busca identificar a origem dos valores movimentados, a participação de outros envolvidos e a extensão da estrutura responsável pelas comemorações planejadas no norte do Estado.

Operação semelhante ocorreu em Sonora

A atuação em Pedro Gomes aconteceu após uma intervenção policial realizada em Sonora, onde as forças de segurança já haviam interrompido um evento semelhante, também relacionado às comemorações do Dia das Crianças.

Na ocasião, duas mulheres foram presas e aproximadamente 200 brinquedos, além de doces, foram apreendidos.

Segundo os investigadores, as características do evento em Sonora apresentavam semelhanças com a iniciativa planejada em Pedro Gomes, o que fortaleceu a suspeita de uma atuação coordenada entre pessoas vinculadas ao Comando Vermelho.

A identificação desse padrão levou os policiais a concentrar esforços na segunda cidade, onde já haviam sido identificados o horário, o local e parte dos responsáveis pelos preparativos.

Coxim também apareceu nas informações de inteligência como um dos municípios onde a facção pretendia promover atividades voltadas ao público infantil. Entretanto, o material divulgado não detalha se houve intervenção policial ou realização de evento semelhante na cidade.

Alimentos foram descartados por falta de garantia sanitária

Além das suspeitas relacionadas ao financiamento da comemoração, a operação levantou questionamentos sobre as condições de preparo e armazenamento dos alimentos que seriam distribuídos às crianças.

A pedido da autoridade policial, a Vigilância Sanitária municipal foi acionada para avaliar os produtos encontrados no local.

Segundo as informações repassadas pelo órgão, não foi possível atestar a segurança dos alimentos, uma vez que as condições de higiene empregadas durante o preparo eram desconhecidas.

Diante da impossibilidade de garantir que os produtos estavam próprios para consumo, o material foi considerado inadequado para distribuição e acabou descartado.

A medida também impediu o reaproveitamento dos alimentos apreendidos, já que não havia garantias suficientes sobre a procedência e as condições sanitárias.

O episódio acrescentou uma preocupação à ocorrência: além da suspeita de utilização da festa para favorecer uma organização criminosa, os produtos seriam destinados a crianças sem que sua segurança sanitária pudesse ser comprovada.

Facção tentaria conquistar apoio da população

Para a Polícia Civil, o caso revela uma estratégia que ultrapassa a atuação tradicional das organizações criminosas no tráfico de drogas e em outros delitos.

Segundo a investigação, as chamadas "ações sociais" funcionariam como instrumentos de aproximação entre integrantes das facções e moradores de comunidades onde esses grupos pretendem ampliar sua influência.

A distribuição de alimentos, brinquedos e outros benefícios permitiria que a organização se apresentasse como uma espécie de protetora da população, criando vínculos e buscando reconhecimento social.

Essa atuação, conforme a avaliação policial, pode contribuir para estabelecer relações de dependência e gratidão, especialmente em localidades marcadas por dificuldades econômicas e acesso limitado a determinados serviços.

Ao mesmo tempo, os investigadores apontam que a estratégia pode prejudicar a relação entre moradores e autoridades, uma vez que a presença das forças de segurança passa a ser apresentada pela organização criminosa como um obstáculo à realização de atividades comunitárias.

De acordo com a Polícia Civil, esse comportamento está associado à chamada narcocultura, fenômeno caracterizado pela normalização e valorização de símbolos, práticas e lideranças de organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas.

Nesse contexto, eventos aparentemente beneficentes poderiam funcionar como ferramentas para fortalecer a imagem das facções, ampliar sua influência territorial e reduzir a disposição de moradores para colaborar com investigações policiais.

Para as autoridades, a utilização de comemorações destinadas a crianças é particularmente preocupante, porque pode aproximar o público infantil de ambientes influenciados por organizações criminosas e contribuir para a naturalização de sua presença na comunidade.

Nova legislação prevê até 20 anos de prisão

As prisões realizadas em Pedro Gomes também estão relacionadas à aplicação da Lei Federal nº 15.358/2026, que instituiu o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado no Brasil.

A legislação passou a tipificar, entre outras condutas, o crime de favorecimento ao domínio social estruturado, que abrange determinadas formas de apoio e colaboração com organizações criminosas ultraviolentas, grupos paramilitares e milícias privadas.

A pena prevista para esse crime varia de 12 a 20 anos de reclusão, além de multa.

Segundo a Polícia Civil, os elementos identificados durante a investigação fundamentaram a prisão em flagrante das suspeitas e o enquadramento das condutas na nova legislação.

As investigadas também são apontadas como suspeitas de envolvimento com organização criminosa. A responsabilização penal dependerá da análise das provas reunidas e dos desdobramentos do procedimento judicial.

A autoridade policial solicitou ao Poder Judiciário a manutenção das prisões, com a decretação da prisão preventiva, medida que permite manter investigados presos durante o andamento das investigações quando estão presentes os requisitos previstos em lei.

Investigações continuam no norte de MS

Mesmo com a interrupção das comemorações em Pedro Gomes e Sonora, as investigações continuam para identificar outras pessoas que possam ter participado da organização ou do financiamento dos eventos.

Segundo a Polícia Civil, outras pessoas também são investigadas por suspeita de envolvimento na organização e no financiamento dos eventos, incluindo indivíduos que teriam contribuído financeiramente ou mantido contato com as organizadoras locais.

Os investigadores também buscam esclarecer a extensão do planejamento das chamadas ações sociais e identificar eventuais vínculos entre os envolvidos nos diferentes municípios.

O caso chama atenção para uma possível mudança na estratégia de atuação das facções em Mato Grosso do Sul, que, além de disputarem influência por meio de atividades criminosas, também estariam tentando conquistar espaço nas comunidades mediante iniciativas apresentadas como beneficentes.

Para as forças de segurança, impedir a utilização dessas atividades por organizações criminosas é uma forma de enfrentar não apenas os delitos atribuídos às facções, mas também as tentativas de ampliar sua influência sobre a população.

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