Cidades

Venda de setença

Desembargadores de MS validaram golpe milionário em compra de fazenda

Celular do desembargador Sideni Pimentel apreendido pela Polícia Federal, mostra atuação dele e de Alexandre Bastos para validar compra fraudulenta de fazenda, que é alvo de ação criminal

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O conteúdo de mensagens no celular do desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) Sideni Soncini Pimentel, investigado por venda de sentença, indica uma atuação conjunta entre ele e seus colegas desembargadores Alexandre Bastos e Vladimir Abreu para manter a Fazenda Vai Quem Quer, de 5,9 mil hectares, localizada em Corumbá e avaliada em R$ 15 milhões, com um casal acusado de aplicar um golpe no vendedor da propriedade.

A decisão dos três desembargadores, que atuam na área cível, além de reformar decisão de primeira instância que invalidaria o negócio concretizado com um suposto golpe, contraria uma ação criminal de estelionato movida contra os compradores da terra – o casal Lydio de Souza Rodrigues e Neiva Rodrigues Torres – justamente pelo golpe aplicado no vendedor, Ricardo Pereira Cavassa.

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) ajuizou a ação contra o casal, que responde criminalmente por não ter informado que as quatro fazendas no estado de São Paulo, oferecidas em troca da Fazenda Vai Quem Quer, estavam com gravames e bloqueios judiciais.

O conteúdo do celular de Pimentel, ao qual a Polícia Federal (PF) teve acesso após as apreensões realizadas na Operação Última Ratio, em 24 de outubro de 2024, mostra que, entre o fim de 2022 e o início de 2023, o desembargador teve acesso à minuta do voto de seu colega Alexandre Bastos, relator do processo.

Bastos, na minuta, manteria a sentença de primeiro grau que identificava fraude na compra da fazenda e desfazia o negócio, devolvendo a posse da propriedade a Cavassa.

Ocorre que, no julgamento, Alexandre Bastos mudou a direção de seu voto e, sob um argumento que a PF considera frágil, reformou a sentença de primeira instância. Foi seguido por Pimentel e Abreu, mantendo a propriedade com o casal acusado de golpe pelo MPMS.

O golpe

Cavassa queixa-se do golpe porque as terras que o casal prometeu transferir, no município de Iguape (SP), estavam repletas de vícios, como penhoras, multas ambientais não pagas e áreas embargadas, o que inviabilizaria a fruição da propriedade. 

Além disso, as quatro fazendas, que deveriam totalizar 2 mil hectares, tinham, na verdade, apenas 1,67 mil hectares. O golpe foi descoberto após a assinatura do contrato, em que os vendedores usaram documentos falsos para encobrir os vícios das fazendas e enganar o comprador.

Cavassa então entrou com uma ação judicial para rescindir o contrato e reaver a posse da fazenda. Em primeira instância, o juiz deu ganho de causa a Cavassa, declarando a rescisão do contrato e determinando a reintegração de posse. 

No entanto, em segunda instância, a decisão foi reformada pelos desembargadores Alexandre Bastos, Sideni Soncini Pimentel e Vladimir Abreu da Silva, que julgaram improcedente a ação de Cavassa, validando o negócio com Lydio.

A investigação da PF, que culminou na Operação Última Ratio, encontrou fortes indícios de que a decisão dos desembargadores foi vendida. Em mensagens de WhatsApp apreendidas no celular de Pimentel, ele solicita ao assessor Neto que elabore uma minuta de voto divergente da do relator, Alexandre Bastos – que havia sido elaborada antes mesmo do voto ser proferido.

“Eu queria ver, eu quero contrariar, eu quero divergir dele. Eu quero... É porque a sentença, ela declarou rescindido o contrato. E eu quero mudar a sentença para não rescindir o contrato. Eu acho que não é caso de rescisão. Dá uma analisada para mim, por favor. Tá bom? Depois a gente conversa. Um abraço. Tchau, tchau”, diz Pimentel em um áudio enviado a Neto.

Reviravolta

A mudança de voto de Bastos, que votaria pela procedência da ação de Cavassa, conforme minuta encontrada nos celular de Pimentel, mas depois votou pela improcedência, também levanta suspeitas. 

Em sua minuta de voto, Bastos afirmava que “a parte autora logrou êxito em comprovar que sobre os bens permutados (entregues pelos requeridos) recaem gravames e pendências que não foram levadas ao seu conhecimento”.

No entanto, no voto realmente proferido, ele argumenta que Cavassa não poderia exigir o cumprimento do contrato pela parte contrária, pois “se a área a ser permutada pertencerá ao autor-apelado, como pode este exigir dos réus-apelantes, nesta oportunidade, providências que serão necessárias para quando chegar o momento da transmissão do domínio dos imóveis permutados?”.

Denúncia

Processados criminalmente por estelionato e com uma ação cível para rescisão contratual por vícios ocultos, Lydio Rodrigues e Neiva Rodrigues foram rápidos em vender parte da fazenda ao advogado deles.

A propriedade foi parar nas mãos da empresa Sevilla Investimentos. O contrato de compra e venda, conforme a PF, condicionava o pagamento da primeira parcela da terra ao provimento do recurso de apelação no TJMS.

De fato, o casal foi vitorioso em segunda instância, graças aos votos de Bastos – que, segundo a Pf, mudou de ideia no decorrer do processo, conforme indicam documentos em posse de Pimentel —, Abreu e Pimentel.

Cavassa, inconformado com o golpe do qual foi vítima, elaborou uma denúncia de próprio punho à PF no ano passado, logo após a deflagração da Operação Última Ratio.

No trecho em que narra o contexto em que foi prejudicado, argumenta:

“Quem de boa-fé compraria uma propriedade em processo já perdido e com tantos gravames? Talvez o comprador já tivesse garantia de êxito, ou ciência da venda de sentença?”.

“Fiz um contrato particular de permuta de cessão de direito hereditário (anexo 01). Após seis meses, descobri que as fazendas de Iguape-SP (recebidas na permuta) tinham alguns gravames que não foram ditos pelos vendedores e corretores, os quais haviam apresentado certidões, em sua maioria, falsas”, explica Cavassa.

Entenda o esquema

As conversas de Pimentel que mostram a validação do golpe na compra da Fazenda Vai Quem Quer estão em relatório da PF entregue ao ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da Operação Ultima Ratio.

O processo tramita na Corte Suprema, em Brasília (DF), depois de suspeitas de que o esquema de venda de sentenças, que atinge o TJMS, também tinha ligações com o Superior Tribunal de Justiça (STJ). 
No relatório, a PF solicitou a abertura imediata de ação penal contra cinco desembargadores do TJMS que estão na ativa, além de dois magistrados aposentados, entre eles Pimentel. 

Um cofre foi retirado do Tribunal de Justiça durante Operação Ultima Ratio/Marcelo Victor

Segundo a investigação, os sete desembargadores estariam envolvidos em um esquema de venda de decisões judiciais na Corte sul-mato-grossense. A prática, segundo a PF, pode ser tipificada como crime de corrupção. 

Apesar da gravidade das acusações, o pedido foi encaminhado sem o indiciamento formal dos magistrados, uma vez que o STF tem entendimento consolidado de que não cabe indiciamento durante investigações envolvendo pessoas com foro por prerrogativa de função.

De acordo com o relatório, os desembargadores Alexandre Aguiar Bastos, Marcos José de Brito Rodrigues, Sideni Soncini Pimentel, Vladimir Abreu da Silva e Sérgio Fernandes Martins, além dos aposentados Júlio Roberto Siqueira Cardoso e Divoncir Schreiner Maran, participaram da suposta venda de sentenças judiciais.

A PF sustenta que há evidências de que esses magistrados cometeram atos que configuram corrupção no exercício da função pública.

Dos cinco desembargadores ainda na ativa, apenas Martins permanece em exercício. Os demais seguem afastados de suas funções por decisão mantida pelo ministro Zanin na noite do dia 22 de abril, enquanto o processo segue sob análise do Supremo.

Outro lado

Em contato com o Correio do Estado, a defesa de Sideni Pimentel enviou a seguinte manifestação: 

“Todas as decisões do Desembargador Sideni foram fundamentadas e ele jamais recebeu qualquer vantagem indevida no exercício da jurisdição. A defesa apresentou um extenso parecer técnico contábil no qual aponta a origem de todas as receitas do desembargador, todas explicadas e lícitas. O desembargador prestou depoimento na Polícia Federal e esclareceu todos os fatos, não havendo motivo para continuidade de seu afastamento” — Pierpaolo Bottini, advogado

 

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Estrutura Precária

Antes de desabar, teto de UPA acumulava anos de infiltrações em Campo Grande

Unidade acumula histórico de goteiras e alagamentos desde 2017 e teve reforma de cerca de R$ 1,7 milhão prevista antes de parte do forro cair durante temporal.

11/09/2026 16h29

Parte do teto da UPA desabou e deixou a estrutura interna exposta em Campo Grande.

Parte do teto da UPA desabou e deixou a estrutura interna exposta em Campo Grande. Foto: Reprodução.

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“Vai cair o mundo todo”. A frase, dita por uma paciente assustada enquanto registrava os estragos provocados pelo temporal desta quinta-feira (10), resumiu os momentos de tensão vividos dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Universitário, em Campo Grande. Parte do forro da recepção veio abaixo, vidros laterais caíram e pacientes tiveram de deixar o local.

O episódio, porém, não foi o primeiro em que a chuva colocou à prova a estrutura da unidade. Um levantamento feito pelo Correio do Estado mostra que há pelo menos nove anos existem registros de infiltrações, alagamentos e problemas relacionados ao teto e ao escoamento da água na UPA.

Ao longo desse período, houve reparos emergenciais, interdição da farmácia, investigação do Ministério Público, manutenção de telhado, laje e calhas e até uma licitação de R$ 1,69 milhão que previa expressamente a reforma do telhado. O procedimento licitatório acabou suspenso em 2023.

Mais recentemente, em fevereiro deste ano, outra tempestade voltou a provocar infiltrações e alagamentos dentro da unidade. Na ocasião, a Prefeitura informou que a UPA estava passando por “reforma e manutenção estrutural”, inclusive com intervenções em pontos de infiltração.

Sete meses depois, o temporal desta quinta-feira terminou com parte do forro no chão.

“Vai cair o mundo todo”

A tempestade que atingiu Campo Grande no fim da tarde desta quinta-feira teve rajadas que chegaram a 84 km/h e deixou um rastro de estragos pela cidade.

Na UPA Universitário, localizada na região sul da Capital, parte do forro de PVC caiu justamente sobre a área de espera da recepção. As ferragens que sustentavam a estrutura ficaram retorcidas e vidros laterais também se desprenderam.

Pacientes foram retirados do local. Apesar da dimensão dos danos, não houve registro de feridos.

 

Vídeos feitos durante o temporal mostram a situação dentro da unidade e o susto de quem estava no prédio. Enquanto registrava os estragos, uma paciente reagiu: “Vai cair o mundo todo”.

O episódio desta quinta-feira é o capítulo mais recente de um problema que atravessa diferentes administrações municipais.

Problemas aparecem pelo menos desde 2017

Há registros públicos de problemas relacionados à chuva na UPA Universitário desde pelo menos janeiro de 2017.

Naquele ano, uma chuva deixou a unidade alagada e levou equipes das secretarias municipais de Saúde e Infraestrutura a realizarem uma vistoria. Funcionários relataram que a situação era recorrente e prejudicava os serviços.

A inspeção identificou problemas no teto e no sistema de escoamento da água. Também foram constatadas infiltrações em diferentes setores da UPA, entre eles a classificação de risco, farmácia, auditório e áreas administrativas. Reparos emergenciais foram anunciados.

O problema, contudo, reapareceria nos anos seguintes.

Chuva destruiu teto da farmácia

Um dos episódios mais graves ocorreu em fevereiro de 2021. Durante uma forte chuva, a água passou pelo teto da farmácia da UPA e transformou o interior do espaço em uma espécie de “cachoeira”.

O problema comprometeu a estrutura e levou à interdição da farmácia. A consequência se prolongou muito além daquela tempestade.

Em março de 2022, mais de um ano depois do alagamento, pacientes ainda precisavam procurar outras unidades de saúde para retirar os medicamentos prescritos após atendimento na UPA Universitário.

A situação chegou ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Em 2022, foi instaurado inquérito civil para apurar irregularidades estruturais e sanitárias na unidade. Inspeção realizada pela Vigilância Sanitária constatou que a farmácia apresentava teto e paredes com infiltrações, umidade, mofo e pintura danificada.

A farmácia somente seria reaberta em maio de 2024, cerca de três anos depois do episódio que levou à sua interdição.

Prefeitura mexeu em telhado, laje e calhas

Antes disso, em dezembro de 2022, a própria Prefeitura de Campo Grande anunciou uma frente de manutenção preventiva e reparos emergenciais em unidades de saúde.

Na UPA Universitário, segundo comunicado oficial da administração municipal, foram realizados reparos na tubulação de drenagem pluvial, revisão do telhado e da laje e manutenção das calhas.

As intervenções, entretanto, não encerraram os registros de problemas relacionados às chuvas.

Reforma de R$ 1,69 milhão previa telhado

Em julho de 2023, a Prefeitura abriu a Concorrência nº 21/2023 para contratar uma empresa responsável pela reforma e ampliação da UPA Universitário. O investimento máximo previsto era de cerca de R$ 1,7 milhão.

Não se tratava apenas de pintura ou de pequenas adequações. O projeto anunciado pela própria administração municipal previa melhorias em toda a estrutura e mencionava expressamente a reforma do telhado, além da revisão das redes hidráulica e elétrica e de adequações às normas sanitárias.

As empresas interessadas deveriam entregar a documentação e as propostas até 21 de agosto daquele ano. No mesmo dia em que terminaria o prazo, porém, a licitação foi suspensa.

A reportagem solicitou à Prefeitura esclarecimentos para saber se o procedimento foi posteriormente retomado ou substituído por outra contratação e, principalmente, se a reforma do telhado prevista naquele projeto chegou a ser efetivamente executada.

Meses depois, água entrou pelas luminárias

Pouco mais de três meses após a suspensão da licitação, a chuva voltou a causar problemas na unidade. Em novembro de 2023, durante outro temporal, a água entrou pela região de uma luminária na sala de observação.

Imagens daquele episódio mostram água caindo dentro do ambiente e uma funcionária retirando um paciente que estava em uma maca próxima ao ponto atingido.

Na ocasião, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) informou que uma árvore havia caído durante o temporal e destelhado parte da unidade, provocando a infiltração.

Pacientes precisaram ser remanejados e equipes de manutenção foram acionadas para executar reparos paliativos. Na mesma resposta, a Sesau informou que a UPA estava incluída em um cronograma de intervenções destinado ao reparo de problemas estruturais.

Em outubro de 2024, a cena se repetiu. Durante mais um temporal em Campo Grande, água entrou pelas luminárias da UPA Universitário e pacientes tiveram de ser retirados de algumas salas.

Problemas continuaram em 2026

O histórico chegou a 2026. Em janeiro, uma fiscalização do Conselho Municipal de Saúde encontrou uma série de irregularidades na UPA Universitário. O relatório encaminhado à Secretaria Municipal de Saúde descreveu um “quadro persistente e grave de fragilidades” e apontou que os problemas observados não eram apenas pontuais, mas estruturais e sistêmicos.

Um mês depois, em 19 de fevereiro, a chuva voltou a entrar na unidade. Vídeos gravados durante o temporal mostraram água escorrendo por paredes de uma sala destinada ao atendimento de pacientes acamados, goteiras próximas à entrada e pontos do piso alagados.

Uma paciente que registrou a situação chegou a reclamar que parecia chover mais dentro da unidade do que do lado de fora.

Questionada naquele momento, a Prefeitura informou que a UPA Universitário já estava "em processo de reforma e manutenção estrutural, incluindo intervenções em pontos com infiltração". 

Segundo a administração municipal, equipes de manutenção foram acionadas para vistoriar o prédio assim que a intensidade da chuva diminuísse e medidas corretivas e preventivas estavam sendo adotadas. Isso ocorreu há menos de sete meses.

De infiltrações ao forro no chão

A sequência dos acontecimentos coloca agora novas questões sobre as condições da unidade. O problema que em diferentes momentos apareceu na forma de goteiras, infiltrações, água passando por luminárias e alagamentos terminou, nesta quinta-feira, com parte do forro da recepção no chão e pacientes sendo retirados durante uma tempestade.

Correio do Estado questionou a Prefeitura de Campo Grande sobre o destino da licitação de R$ 1,69 milhão aberta em 2023, se a reforma do telhado prevista naquele processo chegou a ser executada por meio daquela ou de outra contratação e quais intervenções foram realizadas desde então.

A reportagem também solicitou informações sobre a última vistoria e manutenção do telhado, cobertura e sistema de drenagem pluvial da unidade antes do temporal desta quinta-feira, além dos serviços realizados depois das infiltrações registradas em fevereiro deste ano.

A Prefeitura foi questionada ainda sobre a extensão dos danos provocados pelo temporal, eventual comprometimento estrutural, custo dos novos reparos e prazo para recuperação das áreas atingidas.

Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

Rescaldo Chuva

Sem luz há quase 24 horas, moradores da Capital improvisam rotina

Famílias enfrentam falta de água, risco de estragar alimentos e comércio funcionando com caixas térmicas após temporal

11/09/2026 15h30

Até o início da manhã já haviam sido contabilizados mais de 100 registros de árvores caídas

Até o início da manhã já haviam sido contabilizados mais de 100 registros de árvores caídas Leo Ribeiro/Correio do Estado

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Moradores de diferentes pontos de Campo Grande passam por uma sexta-feira (11), daquelas  tentando manter a rotina possível depois de completarem quase 24 horas sem energia elétrica. Na Vila Olinda, famílias precisaram recorrer a caixas térmicas para preservar alimentos e bebidas, enquanto em outras casas a falta de luz também interrompeu o abastecimento de água. O problema é consequência dos estragos provocados pelo temporal que atingiu a Capital na tarde de ontem, quinta-feira (10).

Na Vila Olinda, Izabella Gomes Escobar, 22 anos, estudante, conta que a rua onde mora permanece sem energia desde as 18h de quinta-feira. A família vive sobre um comércio e também mantém outro estabelecimento na mesma região, ambos foram afetados pela falta de luz.

Segundo ela, a principal dificuldade é a falta de uma previsão precisa para o restabelecimento. “Cada hora eles dão uma previsão diferente. Ontem falaram que ia voltar às 6h da manhã de hoje, depois falaram às 9h e agora disseram que até 16h poderia voltar, mas havia chances de não voltar hoje.”

Sem energia para carregar os aparelhos em casa, Izabella precisou sair do bairro para conseguir recarregar os celulares dela e dos pais. O problema também chegou diretamente ao comércio da família. No restaurante, alimentos que precisam de refrigeração, como carnes e sorvetes, estão entre as maiores preocupações. No bar, as bebidas foram colocadas em caixas térmicas com gelo e sal para tentar preservar a temperatura. “É meio que se virar com o que dá, mas não saber se vai ou não voltar a energia hoje complica tudo”, relata.

Mesmo com as limitações, a família decidiu abrir o restaurante nesta sexta-feira na expectativa de que o fornecimento fosse normalizado. Sem energia, porém, o buffet não pôde ser utilizado para manter a comida aquecida. “O plano B que era possível nós fizemos. Fizemos almoço hoje com o que dava e, mesmo sem luz, tivemos um movimento bom. Colocamos as bebidas em caixas térmicas com gelo para manter refrigerado. Agora resta esperar e torcer para voltar logo essa energia!, disse a jovem em entrevista ao jornal Correio do Estado. 

A preocupação aumenta diante da possibilidade de novas chuvas. “Preocupado a gente fica, ainda mais que tem outro alerta de chuva para hoje. Fica difícil quando as coisas não estão no nosso controle”, afirma Onivaldo Mandacari, 57 anos, proprietário do comércio.

Na casa da servidora pública Lindalva Gomes de Lima, 53 anos, o problema ganhou uma dimensão ainda maior. A residência utiliza água de poço, bombeada para a caixa d'água por meio de um sistema elétrico. Com a falta de energia, o abastecimento também foi interrompido.

Ela conta que, durante o temporal, houve um curto-circuito na rede elétrica em frente à residência. Depois de um período sem energia, o fornecimento voltou parcialmente, mas com oscilações que impedem o uso dos aparelhos.

“De repente voltou meia fase e permanece até hoje. Só que essa meia fase está assim: a geladeira não liga, todos os eletrodomésticos têm que ficar desligados porque está oscilando muito."A situação, segundo Lindalva, afeta tarefas básicas do dia a dia. Sem ventilador, a família enfrenta o calor e o aumento dos mosquitos. Sem a bomba elétrica, também ficou sem água.

O contato com a concessionária já foi feito, mas a moradora afirma que ainda não recebeu uma solução para o problema.

“Ficaram de dar um retorno, que a cidade toda está em um caos, porém acredito que não fizeram nada até agora para ajudar a amenizar a nossa situação. Porque do jeito que está, ficou ontem e está até hoje. Permanece da mesma forma, a meia fase oscilando, não tem como ligar nada. Sem energia, está um caos!, lamenta a servildora.

Temporal

Os relatos são consequência direta dos estragos provocados pelo temporal que atingiu Campo Grande no fim da tarde de quinta-feira. Segundo dados citados pelo Correio do Estado, foram registrados 24,4 milímetros de chuva em apenas 28 minutos e 3.095 raios em um intervalo de 36 minutos. As rajadas chegaram a 83 km/h.

A força da tempestade derrubou árvores em diferentes regiões, atingiu postes, provocou alagamentos, danos em imóveis e deixou dezenas de bairros com interrupções no fornecimento de energia. Até o início da manhã desta sexta-feira, mais de 100 registros de árvores caídas haviam sido contabilizados.

A Energisa informou que, até as 5h30 desta sexta-feira, havia restabelecido o fornecimento para 77% dos consumidores afetados. A concessionária ampliou as equipes e trouxe trabalhadores de outros estados para atuar na recuperação da rede, incluindo a substituição de postes e reparos em estruturas danificadas.

 

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