Cidades

ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA

Tia de traficante pediu ao ex-diretor da Agepen para não transferir sobrinho

Investigação da Gaeco aponta atuação de servidores públicos e favorecimento ilícito dentro do sistema penitenciário de MS

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Uma investigação conduzida pelo Grupo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) aponta que Kleyton de Souza Silva, condenado por chefiar uma organização criminosa, teria desfrutado de diversas regalias incompatíveis com seu perfil de alta periculosidade, entre elas a permanência prolongada em unidades de segurança média e o uso recorrente de aparelhos celulares dentro dos presídios.

Segundo o relatório, as facilidades seriam fruto de um esquema de corrupção envolvendo policiais penais e da influência exercida pela tia do detento, Ivanir Fernanda dos Santos Nunes Rodrigues, identificada na agenda de contatos de Kleyton como “Tia Fernanda”. 

Conversa entre Klayton e sua tia Fernanda revelam que tramavam um pedido ao ex-diretor da Agepen, para evitar que Franscisco, chefe de transferências de Campo Grande, mudasse o detento para outro local
Conversa entre Klayton e sua tia Fernanda revelam que tramavam um pedido ao ex-diretor da Agepen

Mensagens extraídas de um dos celulares apreendidos apontam que Ivanir Fernanda teria agido para assegurar que o sobrinho cumprisse toda a pena na cidade de Aquidauana. Além disso, intercedeu para transferir um inimigo do detento para unidades de segurança máxima, como a Penitenciária Estadual Masculina de Regime Fechado da Gameleira II, a chamada “Supermáxima”.

De acordo com a investigação, apesar de sucessivas faltas disciplinares, incluindo a apreensão de celulares, Kleyton permaneceu em unidades de segurança média, evitando ser enviado a presídios de maior rigor, onde o controle sobre a entrada de ilícitos é mais rígido.

Influência em decisões internas da AGEPEN

Os diálogos analisados revelam que a tia do detento teria trânsito privilegiado dentro da Agência Estadual de Administração do Sistema Penitenciário (AGEPEN), chegando a manter contato direto com Aud de Oliveira Chaves, então diretor-presidente do órgão público.

Em uma das conversas, Kleyton questiona Ivanir sobre um servidor de prenome Francisco, que seria, segundo os autos, chefe do setor de transferências em Campo Grande. O detento demonstra temor de que Francisco determinasse sua transferência para unidades mais rígidas, o que o deixaria “fora do ar”, em referência à perda de acesso a celulares.

Nas mensagens, a tia de Kleyton afirma que ele não deveria se preocupar, pois seria um “interno sob curatela do Sr. Audi”, exonerado do cargo em fevereiro de 2023. Capturas de tela anexadas ao processo mostram conversas entre Ivanir e o ex-gestor.

Mensagem de Ivanir Fernanda para o ex-diretor-presidente da Agepen, Aud de Oliveira Chaves

 

Celulares dentro do presídio

Kleyton não só utilizava um aparelho celular dentro da unidade prisional, como também possuía um segundo aparelho reserva, obtido graças à cooptação de um policial penal ainda não identificado.

Segundo o processo, a companheira do detento, identificada como Lana da Silva Gonçalves, providenciava celulares, chips e acessórios, enquanto a entrada dos objetos no presídio era facilitada por servidores públicos. 

Iphone 11 recebido por Kleyton dentro do presídio, intermediado por um agente penitenciário
Iphone 11 recebido por Kleyton dentro do presídio, intermediado por um agente penitenciário

Mesmo após a apreensão de um Motorola Moto E40 em 15 de julho de 2022, Kleyton voltou a utilizar outro aparelho, tratando-se de um Iphone 11, evidenciando a continuidade do acesso ilícito a meios de comunicação.

Transferências de presídios

A trajetória carcerária de Kleyton também chamou atenção dos investigadores. Após ser transferido em junho de 2024 para a Gameleira II, unidade de maior controle disciplinar, o detento permaneceu apenas 27 dias no local.

O próprio detento expressou, nos diálogos, que não aceitava ser transferido para presídio de segurança máxima, demonstrando preferência por unidades de segurança média, onde supostamente possuía “rede de influência”. A rápida saída da Gameleira II teria reforçado essa estratégia.

Diante de suas preferências, no dia 18 de julho de 2024, foi transferido para a Unidade Penal Ricardo Brandão, em Ponta Porã. A escolha por este presídio de segurança média não foi aleatória. Trata-se do local onde reside e atua profissionalmente a tia Ivanir Fernanda, figura central na manutenção de seus privilégios no cárcere e articuladora direta de suas demandas junto a servidores públicos.

Trata-se de mais um indicativo de que sua transferência foi cuidadosamente planejada para recolocá-lo em ambiente onde dispõe de proteção e liberdade suficientes para seguir à frente da organização criminosa que liderava, com o mínimo de interferência do Estado.

A mudança repentina é citada pela investigação como indício de manipulação da execução penal.

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Cidades

TCU aponta problemas na prestação de contas da Cultura e da Ancine, com passivo de R$ 22 bi

São 26.583 projetos que dependem de uma análise final no trâmite formal de prestação de costas

25/03/2026 21h00

Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil

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O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou falhas que classificou como graves na gestão de recursos transferidos a projetos culturais do Ministério da Cultura e da Agência Nacional do Cinema (Ancine) de 2019 a 2024. O montante alcança cerca de R$ 22,1 bilhões, segundo relatório da Corte. São 26.583 projetos que dependem de uma análise final no trâmite formal de prestação de costas. Além dos atrasos nas análises, há "elevado" risco de prescrição de processos.

O montante resulta da soma de R$ 17,73 bilhões em 19.191 projetos incentivados (renúncia fiscal) e R$ 4,36 bilhões em 7 392 projetos não incentivados (recurso direto do governo). De acordo com a fiscalização, o passivo de projetos nessa situação é crescente, o que fragiliza o controle sobre o uso de recursos públicos.

No caso do Ministério, o TCU apontou um cenário com acúmulo de processos pendentes e ausência de mecanismos eficazes de controle de prazos. A demora na análise, que pode ultrapassar anos, eleva o risco de perda do direito de cobrança de valores eventualmente devidos ao erário, segundo a Corte.

A Ancine também apresentou atrasos relevantes, embora o Tribunal tenha destacado iniciativas tecnológicas em curso para aprimorar a análise de prestações de contas, incluindo o uso de ferramentas automatizadas.

"O acompanhamento permite detectar omissões, atrasos e inconsistências na análise das prestações de contas", afirmou o relator do processo, ministro Augusto Nardes.

Diante dos achados, o tribunal determinou a adoção de medidas para priorizar processos com risco iminente de prescrição, implementar sistemas de monitoramento de prazos e revisar procedimentos internos, com o objetivo de reduzir o passivo e fortalecer a fiscalização.
 

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testemunha-chave

Chaveiro aponta que Bernal pode ter dado 'tiro de misericórdia' em fiscal

Em depoimento disse que ocorreu apenas um disparo assim que o ex-prefeito entrou no imóvel. O fiscal tributário, porém, morreu atingido por dois tiros

25/03/2026 18h28

Nesta quarta-feira Alcides Bernal passou por audiência de custódia e o juiz entendeu que  le deve permanecer na prisão

Nesta quarta-feira Alcides Bernal passou por audiência de custódia e o juiz entendeu que le deve permanecer na prisão Marcelo Victor

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O depoimento do chaveiro Maurílio da Silva Cardoso, de 69 anos, testemunha-chave do assassinato do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, 61 anos, contradiz as declarações de Alcides Bernal e pode comprometer a tese da legítima defesa, que é o principal argumento dos advogados para tentar tirar da prisão o ex-prefeito de Campo Grande. 

O crime ocorreu no  começo da tarde de terça-feira (24) e ao se apresentar à polícia, dizendo que acreditava estar sendo perseguido, o ex-prefeito afirmou que fez dois disparos contra o fiscal tributário, que acabou morrendo no interior da casa que motivou o assassinato. 

Bernal alegou que fez os disparos para se defender, pois teria se sentido ameaçado, já que os dois homens já haviam aberto o portão social que fica no muro do imóvel e estavam tentando abrir a porta que dá acesso à casa, localizado na Rua Antônio Maria Coelho, na região central de Campo Grande. 

O chaveiro, porém, dá outra versão em seu depoimento prestado horas depois do crime. Conforme o documento oficial da Polícia Civil, o chaveiro "afirmou, de forma veemente, ter presenciado um disparo efetuado contra o senhor Roberto, relatando que ficou extremamente abalado com a situação. Declarou recordar-se de apenas um disparo ocorrido enquanto ainda se encontrava no local, não podendo, contudo, informar se o autor realizou novos disparos após sua saída da residência."

Em outro trecho o documento que que ele "informou que, de forma cautelosa, afastou-se lentamente do autor, enquanto o autor ficou vidrado na vítima Roberto, até conseguir alcançar o portão, momento em que empreendeu fuga, pois temia por sua vida, acreditando que o autor poderia também atentar contra si, especialmente após ter sido ordenado que se deitasse de bruços. Acrescentou que, após deixar o local e alcançar uma distância segura, entrou em contato com seu filho, DIEGO, comunicando o ocorrido e solicitando que acionasse a polícia". 

Diego é Guarda Municipal e, segundo as informações prestadas pelo pai, também faz bico como chaveiro e no dia anterior seu filho teria sido contactado pelo fiscal tributário para prestar o serviço de abertura da casa. Porém, o guarda teria repassado o serviço para o pai. Os advogados de Bernal dizem, porém, que o guarda também teria participado daquil que chama de invasão da casa. 

O revólver calibre 38 entregue por Bernal à polícia estava com três projéteis intactos e dois deflagrados. No corpo do fiscal tributário havia três perfurações. E, segundo a perícia, um dos disparos entrou pela parte frontal das costelas e saiu pelas costas. O outro, atingiu a região da cintura. 

Pelo fato de os policiais terem indagado ao chaveiro se ele escutou um segundo disparo depois que fugiu do local, os investigadores deixam claro que suspeitam que Bernal tenha dado o que se chamam de "tiro de misericórdia" contra Roberto Mazzini depois que este já estava imobilizado e depois que a testemunha-chave havia deixado o imóvel.

E, caso isto se confirme, a tese de legítima defesa cairia por terra. As versões diferentes sobre o exato momento em que foram efetuados os disparos podem ser esclarecidas pelas imagens das câmeras internas da mansão.

Estas imagens, apesar de os advogados de defesa de Alcides Bernal garantirem que existem, não haviam chegado às mãos do juiz que nesta quarta-feira decidiu manter o ex-prefeito na cadeia. O magistrado entendeu que não estava claro se realmente ocorreu legítima defesa. 

Em seu despacho, o juiz diz que "a defesa sustenta a ocorrência de legítima defesa. Todavia, para o  reconhecimento da excludente de ilicitude nesta fase processual, seria necessária prova cabal, inequívoca e indiscutível, o que não se verifica no presente momento".

Logo na sequência, diz o magistrado, "destaca-se o depoimento da testemunha Maurílio da Silva Cardoso, o qual afirmou que a vítima não teve qualquer oportunidade de reação ou explicação, tendo o custodiado se aproximado já com a arma em punho". 

Além disso, ressalta o juiz, "o  custodiado (Bernal), ao ser informado de possível invasão, poderia ter acionado os órgãos de segurança pública, como Polícia Militar ou Polícia Civil, ao invés de dirigir-se ao local armado e efetuar disparos sem oportunizar esclarecimentos. A conduta, portanto, revela elevada gravidade concreta, tratando-se de crime doloso contra a vida, praticado com violência extrema."

MANSÃO

Com quase 680 metros quadrados de área construída e um terreno de 1,4 mil metros quadrados, a casa foi arrematada pelo fiscal tributário por pouco mais de R$ 2,4 milhões em novembro do ano passado. Desde então ele tentava tomar posse. Conforme advogados de Bernal, o fiscal já havia participado de pelo menos 25 leilões e conhecia as normativas para tomar posse destes imóveis. 

Segundo nota emitida por familiares de Roberto Mazzini na manhã desta quarta-feira (25), o fiscal chamou o chaveiro para abrir o imóvel porque o cartório responsável pelo registro havia informado que a casa estava vazia e por conta disso Roberto teria ido ao local para tomar posse, já que havia comprado a mansão em um leilão realizada pela Caixa Econômica Federal. 

CARREIRA POLÍTICA

Radialista, Alcides Bernal foi vereador em Campo Grande durante dois mandatos e em 2010 elegeu-se para deputado estadual, com 20.910 votos. Em 2012 candidatou-se a prefeito de Campo Grande e acabou derrotando o então deputado federal Edson Giroto, que tinha o apoio dos principais caciques políticos da época, como André Puccinelli e a família Trad.  

Mas, em março de 2014 acabou sendo cassado pela câmara de vereadores, sendo o primeiro prefeito a sofrer a punição na história de Campo Grande. Seu vice, Gilmar Olarte, foi um dos principais articuladores da cassação e acabou herdando o cargo. 

Em maio daquele ano, um juiz de primeira instância suspendeu a cassação e concedeu liminar para a volta de Bernal ao cargo. Horas após a concessão, aliados marcharam rumo à prefeitura e a ocuparam o prédio. No entanto, a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça horas depois, reempossando Gilmar Olarte no cargo.

Bernal somente conseguiu voltar ao cargo em 25 de agosto de 2015 e permanceceu no cargo até o fim do mandato. Ele chegou a se candidatar à reeleição, mas nem mesmo chegou ao segundo turno. O pleito foi vencido por Marquinos Trad.  

Ele havia comprado a casa em 2016, já perto do fim do seu mandato como prefeito. Porém, por conta por conta de uma dívida da ordem de R$ 900 mil na Caixa, o imóvel acabou sendo levado a leilão. 

 

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