A crise financeira que atinge o Município de Campo Grande está se refletindo diretamente na operação tapa-buraco. Com as empresas sem receber e atuando em “operação tartaruga”, as crateras estão surgindo por causa das chuvas.
Ontem, o atual chefe da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), Marcelo Miglioli, foi até a Câmara Municipal da Capital com o intuito de apresentar informações ligadas a obras, serviços públicos e finanças do Executivo de Campo Grande para os vereadores.
Antes da reunião com os parlamentares começar, o secretário fez questão de esclarecer que os buracos na Capital não serão resolvidos em até dois anos, visto que são um “problema histórico” que atinge a cidade há quase três décadas.
“Você não corrige problemas históricos de mais de 30 anos em apenas um ano, dois anos. Mas é, sem dúvida nenhuma, o maior problema que Campo Grande tem na parte de zeladoria da cidade”, reforça.
Sobre as empresas que fornecem o tapa-buraco para a prefeitura, Miglioli afirma que sete têm contrato firmado com o Executivo, uma para cada região do Município. Porém, em função da crise financeira e do corte de gastos recentes, há dificuldade de captar recursos para que estas empresas consigam trabalhar no ritmo esperado pela Sisep.
“O nosso planejamento executivo está pronto. Nós temos hoje uma deficiência, nós precisamos aportar recursos para que a gente possa potencializar esses contratos. Não que eles estão parados, mas eles não estão no ritmo que nós precisamos. A execução necessita de financeiro. Quando você não tem o financeiro, você trabalha com o que você tem, que foi o que nós fizemos”, destaca.
Por causa das dívidas com as empresas, o secretário explica que há revezamento de dias e regiões onde realizam o serviço.
“Como o contrato é continuado e a gente está com essa dificuldade [financeira], eu posso dizer que hoje tem uma empresa trabalhando e amanhã ela está parada. Como o inverso também, ela pode estar parada hoje e amanhã ela ir para outro trecho e fazer um serviço. A hora que nós colocarmos em ordem essa questão financeira, nós vamos ter todas trabalhando simultaneamente e em ritmo acelerado”.
Após a reunião realizada com os vereadores, Miglioli afirmou que foi apresentada uma “solução real” para o tapa-buraco, que seria o projeto de recapeamento continuado, que já estaria em licitação.
Em suma, esta proposta é um programa de manutenção urbana de longo prazo, que visa à recuperação sistemática e contínua do pavimento asfáltico das vias, em vez de intervenções pontuais ou de emergência.
Todavia, ele enfatiza que o plano precisa de recursos e parcerias financeiras, seja com o governo do Estado, seja com o governo federal, além dos próprios meios municipais.
Importante ressaltar que, além do secretário, Márcia Helena Hokama, chefe da Secretaria Municipal da Fazenda (Sefaz), também foi convidada a comparecer na audiência com os vereadores, porém, não se fez presente à Casa de Leis.
RELATOS
Quem passa na Avenida Ricardo Brandão já está acostumado com a presença de um grande buraco no meio do asfalto, o que dificulta ainda mais o tráfego na região. Rosivaldo Cruz, proprietário de um centro automotivo próximo ao buraco, relata que todos os dias clientes chegam com seus carros com problemas em decorrência das crateras.
Para Rosivaldo, os buracos são lucrativos, já que seu ganha-pão vem por meio de veículos quebrados. Porém, ele diz que deseja ver os buracos tapados.
“Faz parte da minha profissão, mas tem coisas que chateiam a gente, a pessoa não está preparada para aquele gasto e acaba gastando. Eu quero ganhar meu dinheiro, não nessa buraqueira de Campo Grande. Eu quero ver o cliente gastar comigo um balanceamento, um alinhamento, mas com um sorriso no rosto. Não sentado e reclamando numa cadeira, igual acontece”, diz.
A vulcanização de um pneu, processo técnico que conserta danos como furos e cortes, unindo as partes danificadas do pneu com calor, pressão e produtos químicos, é o serviço mais comum realizado por profissionais nessas situações. Rosivaldo disse que cobra entre R$ 80 e R$ 120 pelo serviço, a depender se será acompanhado de balanceamento ou não.
Outros dois buracos que chamam atenção em Campo Grande, justamente pelo diâmetro e a profundidade, estão localizados na esquina da Rua José Maria Hugo Rodrigues com a Cora Coralina e na Avenida Nelly Martins.
O primeiro fica próximo a uma praça e cercado de residências de alto padrão e “aumenta cada dia mais”, segundo os moradores, que inclusive já celebraram o “aniversário” da cratera, que existe no local há mais de um ano.
CRISE
Desde o dia 1º, começou a valer a jornada de trabalho reduzida de 6 horas diárias em todas as repartições públicas, determinação válida por 120 dias, ou seja, até fevereiro de 2026.
Além disso, a prefeita Adriane Lopes (PP) também anunciou um corte de 20% no próprio salário e no do primeiro escalão. Ainda, cada secretaria municipal foi incumbida de apresentar, nos próximos dias, um plano de redução de 20% nos custos com folha de pagamentos.
Vale lembrar que este não é o primeiro corte do ano, já que em março foi decretado uma espécie de moratória nos gastos públicos, que ficou válida até o fim de junho. Porém, chegado o término do prazo, o decreto foi prorrogado por mais 90 dias, ou seja, até setembro.
De acordo com o último relatório bimestral divulgado, as despesas com folha de pagamento alcançaram 57,73%, totalizando R$ 3,022 bilhões nos últimos 12 meses, R$ 185 milhões acima do teto legal, ultrapassando o limite de gastos com pessoal previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que é de 54% da Receita Corrente Líquida.
No mesmo período, a arrecadação foi de R$ 5,9 bilhões, com destaque para o Imposto sobre Serviços (ISS), de R$ 704 milhões, e o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), de R$ 650 milhões.


