Cidades

CPI DO ÔNIBUS

Empresa de fora do Consórcio Guaicurus recebeu R$ 31 milhões durante cinco anos

A presença da Viação Cidade dos Ipês nos demonstrativos financeiros do consórcio continua a ser analisada pela agência

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O diretor de Fiscalização e Auditoria Contábil da Agência Municipal de Regulação dos Serviços Públicos de Campo Grande (Agereg), José Corsine da Silva, afirmou que, de 2016 até 2021, a autarquia percebeu nos demonstrativos financeiros do Consórcio Guaicurus movimentações de dinheiro suspeitas que envolviam uma empresa chamada Viação Cidade dos Ipês, a qual não faz parte das empresas de transporte ligadas do grupo. No período, foram repassados para ela R$ 31 milhões vindos da concessionária.

A informação foi repassada durante a oitiva de ontem da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal que investiga o contrato do transporte coletivo de Campo Grande.

“Essa empresa aparece em uma movimentação atípica, só pelo balanço do Consorcio Guaicurus nós não conseguimos identificar ela, nós a identificamos por meio das demonstrações financeiras. Eu identifiquei que a Viação Cidade Morena movimentou R$ 23,5 milhões e a Viação Campo Grande enviou R$ 8,1 milhões para essa empresa”, declarou Silva.

Desde 2021, a Agereg tem conhecimento dessa movimentação, porém, até hoje, a agência investiga essas transferências. “Esse procedimento ainda não foi finalizado, em função da complexidade dele. Então, está em análise”, complementou.

Tanto a Viação Cidade Morena quanto a Viação Campo Grande fazem parte do Consórcio Guaicurus, juntamente à Viação São Francisco e à Jaguar Transporte Urbano.

De acordo com Silva, o Consórcio Guaicurus, quando questionado pela Agereg sobre essas movimentações, informou em cartas que se tratavam de transferências de veículos de uma empresa para outras.

“Inicialmente, o consórcio pediu uma prorrogação de prazo para nos responder. Depois, eles responderam que os investimentos constantes na Cidade dos Ipês são referentes a transferências de 60 ônibus da Viação São Francisco que foi para Viação Campo Grande e para a Viação Cidade Morena. Eles responderam também que essas transferências foram feitas em anuência ao poder concedente”, afirmou.

Porém, Silva reiterou que procurou essa anuência e que não encontrou nenhum documento que comprove tal informação.

“Em 2016, tem um processo regulatório pedindo esse trâmite, mas não era da Cidade dos Ipês, e sim uma rescisão parcial da São Francisco, transferindo parte das cotas acionarias para a Viação Campo Grande e para a Viação Cidades dos Ipês”, disse Silva. 

Na CPI, o assunto foi tratado pela primeira vez na oitiva do ex-diretor da Agereg Odilon de Oliveira Júnior, realizada na semana passada, na qual ele disse ter identificado repasses à Viação Cidade dos Ipês, empresa que não integra formalmente o Consórcio Guaicurus.

“Notei um investimento em uma empresa estranha ao próprio consórcio”, afirmou Oliveira Júnior aos vereadores. Diante da suspeita, solicitou uma análise técnica da equipe da agência, que confirmou os repasses milionários.

Em consulta ao CNPJ da empresa, o Correio do Estado verificou que a Viação Cidade dos Ipês foi criada em 2016 e que encerrou suas ativadas em 2023.

Entre o quadro de sócios da empresa estão a Viação Cidade Morena Ltda., a Viação Campo Grande Ltda. e os empresários Roberto Carvalho Brandão e Helio Dalmaso Meneghin.

Brandão era sócio e administrava a Viação Campo Grande desde 1998, enquanto Meneghin é administrador e sócio na Grande Londrina, empresa especializada em transporte rodoviário coletivo de passageiros, além de também ser diretor da empresa de ônibus Pássaro Marron, localizada em São Paulo (SP), cuja atuação 
é no transporte rodoviário.

MULTAS PARADAS

Também ouvido ontem pela CPI, o procurador municipal de Regulação dos Serviços Públicos de Campo Grande, Rodrigo Koei Marques Inouye, destacou aos vereadores ter assumido o setor que fiscaliza os contratos junto ao Consórcio Guaicurus com pelo menos 3,3 mil processos “em cima da mesa”.

Servidor municipal desde 2017, ele assumiu a procuradoria jurídica da Agereg em 2018, a convite do ex-diretor-presidente Vinícius Leite Campos, período em que comentou sobre a situação administrativa da Pasta.

“No começo da gestão do prefeito Marcos [Trad], não tinha arquivos nos computadores. Não tinha nada nos computadores, pelo menos no setor jurídico, e fomos tentar entender sobre os processos parados. Cheguei em uma sala com dois computadores e uma mesa cheia de processos”, destacou Inouye.

Questionado, ele destacou que o montante, segundo apurou junto aos servidores à época, se caracterizava pela quantia de processos referentes a multas atreladas ao Consórcio Guaicurus entre 2012 (início do contrato) e 2018 – processos que, segundo Inouye, estavam travados em virtude da falta de competência administrativa para julgar as infrações de trânsito e possíveis multas do período.

SAIBA

Levantamento entregue à CPI mostra que a maioria dos recursos contra multas administrativas apresentados pelo Consórcio Guaicurus foi rejeitada nos últimos anos. Entre 2020 e 2025, foram analisados 4.090 recursos relacionados à concessionária – pouco mais da metade (2.344) foi desfavorável ao grupo. Cerca de 840 processos aguardam julgamento.

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Cidades

TCU aponta problemas na prestação de contas da Cultura e da Ancine, com passivo de R$ 22 bi

São 26.583 projetos que dependem de uma análise final no trâmite formal de prestação de costas

25/03/2026 21h00

Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil

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O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou falhas que classificou como graves na gestão de recursos transferidos a projetos culturais do Ministério da Cultura e da Agência Nacional do Cinema (Ancine) de 2019 a 2024. O montante alcança cerca de R$ 22,1 bilhões, segundo relatório da Corte. São 26.583 projetos que dependem de uma análise final no trâmite formal de prestação de costas. Além dos atrasos nas análises, há "elevado" risco de prescrição de processos.

O montante resulta da soma de R$ 17,73 bilhões em 19.191 projetos incentivados (renúncia fiscal) e R$ 4,36 bilhões em 7 392 projetos não incentivados (recurso direto do governo). De acordo com a fiscalização, o passivo de projetos nessa situação é crescente, o que fragiliza o controle sobre o uso de recursos públicos.

No caso do Ministério, o TCU apontou um cenário com acúmulo de processos pendentes e ausência de mecanismos eficazes de controle de prazos. A demora na análise, que pode ultrapassar anos, eleva o risco de perda do direito de cobrança de valores eventualmente devidos ao erário, segundo a Corte.

A Ancine também apresentou atrasos relevantes, embora o Tribunal tenha destacado iniciativas tecnológicas em curso para aprimorar a análise de prestações de contas, incluindo o uso de ferramentas automatizadas.

"O acompanhamento permite detectar omissões, atrasos e inconsistências na análise das prestações de contas", afirmou o relator do processo, ministro Augusto Nardes.

Diante dos achados, o tribunal determinou a adoção de medidas para priorizar processos com risco iminente de prescrição, implementar sistemas de monitoramento de prazos e revisar procedimentos internos, com o objetivo de reduzir o passivo e fortalecer a fiscalização.
 

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testemunha-chave

Chaveiro aponta que Bernal pode ter dado 'tiro de misericórdia' em fiscal

Em depoimento disse que ocorreu apenas um disparo assim que o ex-prefeito entrou no imóvel. O fiscal tributário, porém, morreu atingido por dois tiros

25/03/2026 18h28

Nesta quarta-feira Alcides Bernal passou por audiência de custódia e o juiz entendeu que  le deve permanecer na prisão

Nesta quarta-feira Alcides Bernal passou por audiência de custódia e o juiz entendeu que le deve permanecer na prisão Marcelo Victor

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O depoimento do chaveiro Maurílio da Silva Cardoso, de 69 anos, testemunha-chave do assassinato do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, 61 anos, contradiz as declarações de Alcides Bernal e pode comprometer a tese da legítima defesa, que é o principal argumento dos advogados para tentar tirar da prisão o ex-prefeito de Campo Grande. 

O crime ocorreu no  começo da tarde de terça-feira (24) e ao se apresentar à polícia, dizendo que acreditava estar sendo perseguido, o ex-prefeito afirmou que fez dois disparos contra o fiscal tributário, que acabou morrendo no interior da casa que motivou o assassinato. 

Bernal alegou que fez os disparos para se defender, pois teria se sentido ameaçado, já que os dois homens já haviam aberto o portão social que fica no muro do imóvel e estavam tentando abrir a porta que dá acesso à casa, localizado na Rua Antônio Maria Coelho, na região central de Campo Grande. 

O chaveiro, porém, dá outra versão em seu depoimento prestado horas depois do crime. Conforme o documento oficial da Polícia Civil, o chaveiro "afirmou, de forma veemente, ter presenciado um disparo efetuado contra o senhor Roberto, relatando que ficou extremamente abalado com a situação. Declarou recordar-se de apenas um disparo ocorrido enquanto ainda se encontrava no local, não podendo, contudo, informar se o autor realizou novos disparos após sua saída da residência."

Em outro trecho o documento que que ele "informou que, de forma cautelosa, afastou-se lentamente do autor, enquanto o autor ficou vidrado na vítima Roberto, até conseguir alcançar o portão, momento em que empreendeu fuga, pois temia por sua vida, acreditando que o autor poderia também atentar contra si, especialmente após ter sido ordenado que se deitasse de bruços. Acrescentou que, após deixar o local e alcançar uma distância segura, entrou em contato com seu filho, DIEGO, comunicando o ocorrido e solicitando que acionasse a polícia". 

Diego é Guarda Municipal e, segundo as informações prestadas pelo pai, também faz bico como chaveiro e no dia anterior seu filho teria sido contactado pelo fiscal tributário para prestar o serviço de abertura da casa. Porém, o guarda teria repassado o serviço para o pai. Os advogados de Bernal dizem, porém, que o guarda também teria participado daquil que chama de invasão da casa. 

O revólver calibre 38 entregue por Bernal à polícia estava com três projéteis intactos e dois deflagrados. No corpo do fiscal tributário havia três perfurações. E, segundo a perícia, um dos disparos entrou pela parte frontal das costelas e saiu pelas costas. O outro, atingiu a região da cintura. 

Pelo fato de os policiais terem indagado ao chaveiro se ele escutou um segundo disparo depois que fugiu do local, os investigadores deixam claro que suspeitam que Bernal tenha dado o que se chamam de "tiro de misericórdia" contra Roberto Mazzini depois que este já estava imobilizado e depois que a testemunha-chave havia deixado o imóvel.

E, caso isto se confirme, a tese de legítima defesa cairia por terra. As versões diferentes sobre o exato momento em que foram efetuados os disparos podem ser esclarecidas pelas imagens das câmeras internas da mansão.

Estas imagens, apesar de os advogados de defesa de Alcides Bernal garantirem que existem, não haviam chegado às mãos do juiz que nesta quarta-feira decidiu manter o ex-prefeito na cadeia. O magistrado entendeu que não estava claro se realmente ocorreu legítima defesa. 

Em seu despacho, o juiz diz que "a defesa sustenta a ocorrência de legítima defesa. Todavia, para o  reconhecimento da excludente de ilicitude nesta fase processual, seria necessária prova cabal, inequívoca e indiscutível, o que não se verifica no presente momento".

Logo na sequência, diz o magistrado, "destaca-se o depoimento da testemunha Maurílio da Silva Cardoso, o qual afirmou que a vítima não teve qualquer oportunidade de reação ou explicação, tendo o custodiado se aproximado já com a arma em punho". 

Além disso, ressalta o juiz, "o  custodiado (Bernal), ao ser informado de possível invasão, poderia ter acionado os órgãos de segurança pública, como Polícia Militar ou Polícia Civil, ao invés de dirigir-se ao local armado e efetuar disparos sem oportunizar esclarecimentos. A conduta, portanto, revela elevada gravidade concreta, tratando-se de crime doloso contra a vida, praticado com violência extrema."

MANSÃO

Com quase 680 metros quadrados de área construída e um terreno de 1,4 mil metros quadrados, a casa foi arrematada pelo fiscal tributário por pouco mais de R$ 2,4 milhões em novembro do ano passado. Desde então ele tentava tomar posse. Conforme advogados de Bernal, o fiscal já havia participado de pelo menos 25 leilões e conhecia as normativas para tomar posse destes imóveis. 

Segundo nota emitida por familiares de Roberto Mazzini na manhã desta quarta-feira (25), o fiscal chamou o chaveiro para abrir o imóvel porque o cartório responsável pelo registro havia informado que a casa estava vazia e por conta disso Roberto teria ido ao local para tomar posse, já que havia comprado a mansão em um leilão realizada pela Caixa Econômica Federal. 

CARREIRA POLÍTICA

Radialista, Alcides Bernal foi vereador em Campo Grande durante dois mandatos e em 2010 elegeu-se para deputado estadual, com 20.910 votos. Em 2012 candidatou-se a prefeito de Campo Grande e acabou derrotando o então deputado federal Edson Giroto, que tinha o apoio dos principais caciques políticos da época, como André Puccinelli e a família Trad.  

Mas, em março de 2014 acabou sendo cassado pela câmara de vereadores, sendo o primeiro prefeito a sofrer a punição na história de Campo Grande. Seu vice, Gilmar Olarte, foi um dos principais articuladores da cassação e acabou herdando o cargo. 

Em maio daquele ano, um juiz de primeira instância suspendeu a cassação e concedeu liminar para a volta de Bernal ao cargo. Horas após a concessão, aliados marcharam rumo à prefeitura e a ocuparam o prédio. No entanto, a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça horas depois, reempossando Gilmar Olarte no cargo.

Bernal somente conseguiu voltar ao cargo em 25 de agosto de 2015 e permanceceu no cargo até o fim do mandato. Ele chegou a se candidatar à reeleição, mas nem mesmo chegou ao segundo turno. O pleito foi vencido por Marquinos Trad.  

Ele havia comprado a casa em 2016, já perto do fim do seu mandato como prefeito. Porém, por conta por conta de uma dívida da ordem de R$ 900 mil na Caixa, o imóvel acabou sendo levado a leilão. 

 

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