Cidades

R$ 6,8 milhões

Fraude na saúde: Secretários de Nioaque receberam depósitos milionários e em espécie de clínica

Dinheiro saía da Prefeitura, ia para a clínica Prontomed e voltava em espécie para dois secretários municipais; município pagou R$ 6,8 milhões à empresa entre 2018 e 2025

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O trajeto que o dinheiro público de Nioaque teria percorrido até chegar às contas de dois secretários municipais é descrito na decisão judicial que autorizou as prisões da segunda fase da Operação Auditus, nesta quinta . 

O então secretário municipal de Governo Vagner Alves Ribeiro Guimarães recebeu R$ 936.239,00 em depósitos em espécie sem qualquer identificação de origem, feitos logo após saques realizados pelos donos da clínica Prontomed e a então secretária municipal de Saúde Márcia Cristiane Missioneira Jará recebeu repasses que passavam por uma triangulação até chegar às suas mãos pelo próprio filho, em parcelas que teriam incluído valores de R$ 10 mil, R$ 65 mil e R$ 100 mil.

A juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna decretou a prisão preventiva de cinco pessoas e a busca e apreensão contra outras sete, medidas cumpridas nesta quinta-feira (13) na segunda fase da Operação Auditus, do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), em Nioaque, Bonito, Jardim, Bela Vista e Guia Lopes da Laguna.

Do outro lado desse fluxo estão os pagamentos que a Prefeitura de Nioaque fez à empresa. A reportagem identificou 111 empenhos do Fundo Municipal de Saúde em favor da Prontomed Clínica Médica Ltda. entre 7 de novembro de 2018 e 31 de março de 2025, somando R$ 6.800.399,00, valor empenhado e, segundo os registros, liquidado e pago. Só o montante depositado na conta de Vagner Guimarães equivale a cerca de 14% de tudo o que o município pagou à clínica em quase sete anos de relação contratual.

Siga o dinheiro

O Relatório Técnico do MP cruzou os dados bancários obtidos após a quebra de sigilo autorizada em 2025. 

Logo depois de a Prefeitura pagar as faturas da Prontomed, Robson Roosevelt Ferreira Aguilar e Bianca Fernandes Leite Aguilar, sócios da empresa, faziam transferências da conta da clínica para a gerente administrativa Tatiane Barbosa de Souza Grubert. 

Ela sacava em espécie ou repassava a Derick Augusto Jará Luz, identificado como filho de Márcia Jará, que entregava o dinheiro à mãe. Segundo o documento, foram "várias parcelas de R$ 10.000,00, além das parcelas de R$ 65.000,00 e R$ 100.000,00, dentre outras". 

Com Vagner Guimarães, o método teria sido mais direto: após "vultosos saques em espécie" feitos por Robson, Bianca e Tatiane, "muitos deles imediatamente após o recebimento de recursos públicos oriundos da Prefeitura Municipal de Nioaque", foram identificados depósitos sucessivos em espécie na conta do secretário, somando R$ 936.239,00, sem origem identificada. 

Para o Ministério Público, a compatibilidade "pela forma, periodicidade e montantes" com os saques anteriores revela "nítido nexo temporal, financeiro e operacional", o que evidenciaria o pagamento de vantagem indevida. 

O valor de R$ 936.239,00 é o total de depósitos em espécie sem origem declarada na conta do investigado; a conclusão de que se trata de propina é a leitura do Ministério Público, acolhida pela juíza para fins de medida cautelar.

A decisão enquadra os investigados nos crimes de organização criminosa, fraude em contratação pública, crimes licitatórios, peculato, corrupção e lavagem de dinheiro, este último, segundo o texto, caracterizado justamente pela triangulação que ocultava a origem dos valores em contas de terceiros.

Ano a ano, o gasto salta a partir de 2022, exatamente o ano em que, segundo o MPMS, a organização criminosa passou a operar: R$ 7.200,00 (2018), R$ 48.720,00 (2019), R$ 45.120,00 (2020), R$ 229.730,00 (2021), R$ 2.650.135,00 (2022), R$ 1.861.448,00 (2023), R$ 1.874.618,00 (2024) e R$ 83.428,00 até 31 de março de 2025. 

Somente em 2022 e 2023 a Prefeitura empenhou R$ 4.511.583,00 à Prontomed, 66% de tudo o que foi pago à empresa no período. O MPMS afirma que o gasto com esses serviços teve alta de 1.713% no intervalo das "contratações fraudulentas" (2022–2025). 

Licitações

A decisão atribui a três processos administrativos de Nioaque, 018/2019, 027/2023 e 015/2024, o mesmo padrão de direcionamento.

O caso mais documentado envolve o Contrato 42/2022. Segundo o MPMS, 14 dias antes da assinatura, Vagner Guimarães enviou ao e-mail da clínica uma planilha que já continha os valores que a Prontomed deveria "cotar", sob a aparência formal de uma solicitação de orçamento. 

Os valores devolvidos pela empresa eram idênticos, a única diferença estava nos totais, porque a planilha enviada pelo secretário fora calculada para 12 meses, o dobro da vigência de seis meses do contrato efetivamente assinado. 

Para manter a aparência de disputa, Tatiane Grubert teria fabricado a cotação de uma suposta concorrente, a Duocor Cardiologia Clínica e Diagnóstica, com falsificação da assinatura de seu responsável; a perícia em um notebook apreendido localizou a planilha editável com os valores "da Duocor", criada em 26/04/2022 e enviada a Vagner dois dias depois.

O mesmo método teria se repetido no Pregão 005/2023, em que os peritos encontraram, no notebook apreendido na sede da Prontomed, um arquivo criado em 17/02/2023 com três abas nomeadas "PRONTOMED", "DUOCOR" e "PARTMED", contendo os três orçamentos usados no certame. 

Nesse processo e no Pregão 004/2024, segundo os autos, foram falsificadas as assinaturas dos responsáveis pelas duas empresas "concorrentes".

Vencida a licitação, o desvio continuaria na execução. A decisão descreve listas de consultas, exames e procedimentos produzidas pela Prontomed e encaminhadas à Secretaria Municipal de Saúde, onde Márcia Jará autorizava o pagamento integral "sem qualquer conferência, controle administrativo ou validação mínima da efetiva realização dos serviços declarados".

As irregularidades apontadas nessas listas são, nas palavras do próprio documento, "muitas das vezes grosseiras": assinaturas divergentes do mesmo paciente em listas de especialidades diferentes, registros duplicados, nomes de pessoas falecidas em datas anteriores à consulta, crianças de 3 anos e de 11 meses que teriam assinado a lista de atendimento, e inserção de DIU em pacientes de 57 e 53 anos, faixa etária em que o método deixa de ser recomendado. 

Mães de crianças que constam de listas de teste da orelhinha declarados como realizados em novembro de 2022 depuseram afirmando que seus filhos nunca fizeram o exame pela empresa. É exatamente esse exame, a triagem auditiva neonatal, que dá nome à operação.

O Anexo de Procedimentos do Contrato 42/2022, obtido pela reportagem, traz a linha "TESTE DA ORELHINHA (executado pela fonoaudióloga)", com 30 unidades estimadas por mês, 180 em seis meses, a R$ 160,00 cada, R$ 28.800,00 no período. Constam também "teste do olhinho" e "teste da linguinha", R$ 16.200,00 cada em seis meses. São exames de baixo custo unitário e alto volume, e o contrato municipal não prevê nenhum mecanismo de auditoria, glosa ou conferência in loco.

Com base nesse conjunto, o MPMS estimou em R$ 1.262.211,00 o valor desviado por meio de serviços simulados, o equivalente a "cerca de 83% de todo o valor desembolsado". 

RECORDE

Chuva desta quinta-feira foi a maior do mês de outubro em Campo Grande

No acumulado do mês, já foram registrados 197,1 mm na Capital, superando a média de 164,2mm

16/10/2026 08h45

Alagamento na Rua da Divisão, no bairro Aero Rancho, em Campo Grande

Alagamento na Rua da Divisão, no bairro Aero Rancho, em Campo Grande Foto: Gerson Oliveira / Correio do Estado

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A chuva que atingiu Campo Grande durante toda esta quinta-feira (15) teve o maior volume da história de outubro em um só dia. Das 6h às 20h, choveu 143,1 mm, segundo os dados do meteorologista Natálio Abrahão. A média histórica do mês, analisada entre os anos de 1980 a 2010, é de 165,2 mm.

A região que mais teve acumulado de chuva foi a do Carandá Bosque/Shopping, onde foram registrados os 143,1 mm. Depois desta, a área da Embrapa teve 83,2 mm, seguido pelo distrito de Anhanduí com 81, 2 e, por fim, o centro teve 73,2 mm.

No acumulado do mês, já foram registrados 197,1 mm na Capital sul-mato-grossense, superando a média de 164,2mm. Na região do Carandá Bosque/Shopping choveu 253,8mm durante outubro, 89,6 mm acima do esperado.

Conforme os dados obtidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) desde 2002, nos primeiros 15 dias de outubro nunca houve um acumulado maior que o deste ano. Até então, o ano mais chuvoso neste período foi em 2011, quando foram registrados 158,8 mm de precipitação.

Segundo a previsão do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec-MS), há previsão de chuvas para hoje, em decorrência da atuação de uma frente fria, associada à formação de um ciclone extratropical sobre o oceano Atlântico.

As chances de chuva são maiores nas regiões norte, nordeste e leste do Estado, onde as precipitações podem ser mais intensas, além de tempestades acompanhadas de raios e rajadas de vento pontuais.

Chuva em MS

Outras cidades do Estado também tiveram acumulados elevados durante a quinta-feira (15). Em Dois Irmãos do Buriti, que fica a 115 km de Campo Grande, a chuva atingiu os 45,4 mm. 

Em Nova Alvorada do Sul, município que integra a região geográfica imediata de Campo Grande, o acumulado foi de 35,8 mm. Em Santa Rita do Rio Pardo, também foram registrados 35,8 mm.

Já na região leste, no município de Água Clara choveu 32,2 mm na área do Cemaden.

 

CRIME FRUSTRADO

Bando que invadiu banco pelo telhado é condenado a 46 anos de prisão

Grupo tentou chegar ao cofre de agência em Água Clara, mas foi surpreendido por sistema de segurança

16/10/2026 08h30

Criminosos tentaram acessar o cofre de uma agência bancária em Água Clara pelo telhado, mas fugiram após acionamento do sistema de segurança

Criminosos tentaram acessar o cofre de uma agência bancária em Água Clara pelo telhado, mas fugiram após acionamento do sistema de segurança Divulgação

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Uma tentativa de furto a uma agência bancária em Água Clara, município localizado a cerca de 190 quilômetros de Campo Grande, terminou com seis homens condenados a penas que, juntas, ultrapassam 46 anos de prisão. O grupo tentou acessar o cofre do estabelecimento pelo telhado, mas teve a ação frustrada pelo sistema de segurança do banco.

Conforme informações divulgadas pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), as condenações somam 46 anos, 7 meses e 20 dias de reclusão, pelos crimes de furto qualificado e tráfico de drogas. A decisão judicial também determino o pagamento de 2.817 dias-multa.

O crime aconteceu na madrugada de 8 de janeiro de 2025. Para entrar na agência, os envolvidos utilizaram uma escada posicionada ao lado de uma igreja vizinha. Dois homens subiram até o telhado e começaram a serrar o forro do imóvel, enquanto um terceiro permaneceu no chão, responsável por entregar as ferramentas.

Os outros três integrantes ficaram encarregados de vigiar a região e avisar sobre uma possível aproximação policial. Dois circulavam de motocicleta e o terceiro monitorava as ruas a pé.

A primeira tentativa de entrada foi interrompida pelo disparo do alarme. Apesar do alerta, os suspeitos decidiram continuar a ação ao perceberem que nenhuma equipe policial havia chegado ao local.

Na segunda investida, quando tentavam alcançar o dinheiro, o sistema de cortina de fumaça da agência foi acionado, obrigando o grupo a fugir antes de conseguir abrir o cofre. 

Sem acesso aos valores armazenados, os criminosos levaram apenas um notebook. Na fuga, deixaram para trás ferramentas utilizadas na tentativa de invasão, aparelhos celulares, além de um colete à prova de balas e munições pertencentes à agência.

As pistas abandonadas no banco foram fundamentais para que a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul (PCMS), com apoio do Grupo Armado de Repressão a Roubos, Assaltos e Sequestros (Garras), chegasse aos envolvidos.

Por meio das etiquetas encontradas nas ferramentas e de um chip de celular, os investigadores conseguiram identificar o comprador dos equipamentos utilizados no crime e o titular de uma das linhas telefônicas.

O primeiro suspeito localizado confessou a participação na tentativa de furto e forneceu informações sobre os demais integrantes. A partir do depoimento, a polícia avançou nas diligências até identificar os seis participantes.

Durante a prisão de um dos investigados, os policiais também encontraram 89,2 gramas de cocaína e uma balança de precisão na residência dele. A apreensão resultou na inclusão da acusação de tráfico de drogas no processo. 

Justiça mantém prisão preventiva

A ação penal foi conduzida pela 1ª Promotoria de Justiça de Água Clara. Ao analisar o caso, a Justiça acolheu os pedidos apresentados pelo MPMS e rejeitou os argumentos das defesas que buscavam afastar ou reduzir a responsabilização pelos crimes.

As maiores penas foram aplicadas a dois homens condenados por furto qualificado e tráfico de drogas. Um recebeu 16 anos, 2 meses e 15 dias de reclusão, enquanto o outro foi condenado a 12 anos e 6 meses. Ambos deverão cumprir as penas inicialmente em regime fechado.

Outros três integrantes receberam penas de cinco anos de prisao cada, em regime semiaberto, pelo crime de furto qualificado. 

Já o sexto condenado recebeu a menor pena do grupo: 3 anos, 5 meses e 20 dias de reclusão, em regime aberto. A redução considerou a confissão do crime e o fato de ele ter menos de 21 anos na data da ocorrência. 

Além das penas de prisão, os seis condenados deverão pagar multas estabelecidas pel Justiça. A decisão também manteve a prisão preventiva de dois dos envolvidos. 

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