Cidades

JOGO DO BICHO

Grupo de Razuk impunha terror a rivais com o uso de PMs da reserva

Investigação do Gaeco mostrou que organização criminosa tinha dois policiais militares para coagir rivais a mudarem de lado

Continue lendo...

Investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), aponta que a suposta organização criminosa voltada ao jogo do bicho da família Razuk mantinha dois policiais militares da reserva como forma de coagir trabalhadores e impor terror aos rivais.

De acordo com a investigação, o grupo, que seria comandado pelo deputado estadual Roberto Razuk Filho (PL), o Neno Razuk, tinha entre seus funcionários os policiais Gilberto Luis dos Santos (Coronel) e Manoel José Ribeiro (Manelão), e ambos faziam a segurança da organização, com o uso, inclusive, da força.

“O caráter armado da organização criminosa investigada na Operação Successione emerge de diversos elementos probatórios, desde depoimentos de vítimas até apreensões físicas e análises de mensagens. O grupo não apenas tinha armamento, mas utilizava sua ostensividade e a presença de policiais militares (da reserva) para impor terror aos rivais, coagir trabalhadores a mudarem de lado na disputa pelo monopólio do jogo do bicho e, quiçá, obrigar os chefes rivais a sentarem na mesa para negociar”, diz trecho da investigação.

“A organização não se valia de armas esporadicamente. A organização contava com um braço armado em tempo integral. Desde reuniões a operações externas, as armas estavam presentes”, completou o Gaeco.

Em outro trecho, o MPMS aponta que a organização, que tentava ocupar o espaço deixado pela família Name no jogo do bicho de Campo Grande, após a Operação Omertà, tentava tomar o território do grupo vindo de São Paulo, que teria comprado a operação de Jamil Name e Jamil Name Filho.

“A tomada do território não seria diplomática, mas sim operacionalizada por intermédio de ações à mão armada. Vítimas relatam que a exibição de armas foi o meio utilizado para subjugar a resistência”, relata o MPMS.

ROUBOS

Para essa tomada à força do território, o grupo da família Razuk teria praticado três roubos no dia 16 de outubro de 2023 contra o grupo MTS, todos à mão armada e à luz do dia, como cita trecho da investigação.

“A organização criminosa, comandada por Neno Razuk, efetuou ao menos três assaltos muito similares em desfavor dos denominados recolhes, motociclistas responsáveis pela arrecadação diária dos valores provenientes do jogo do bicho nos diversos pontos em que atuam (à época trabalhando para outra organização, conhecida por MTS e vinda de São Paulo), executados à mão armada, todos na data de 16/10/2023, à luz do dia, contando com aparato especial para a investida, o que chamou a atenção das autoridades, que iniciaram as investigações que culminaram no ajuizamento de ação penal”, destaca investigação do MPMS.

Em outro trecho de conversa entre o promotor e uma das vítimas dos roubos aos malotes do grupo rival, Paulo Augusto Alves da Silva conta que, “ao ser abordado, o autor do crime levantou a camisa propositalmente para mostrar a arma na cintura, garantindo a entrega do malote sem reação”.

“Promotor: tá. E aí, como foi a abordagem? É, como que foi? Eu queria que o senhor explicasse com detalhes para a gente, porque a gente não tava lá, né? Paulo: é. Aham. Sim. Eles pararam ali. Tem um canteirinho em frente ali do motel ali. Eles encostaram o carro ali e desceu um já com a mão na cintura e de cara limpa, não veio nem com máscara, nada. E fizeram o assalto, levaram meu malote”, conta a vítima.

Ainda segundo o MPMS, a investigação do delegado Fábio Brandolise, da Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf), confirmou, ao analisar as imagens de segurança nos roubos, que os autores utilizavam armas no momento da abordagem.

“Embora não tenham sido apreendidas no momento das ações, o que é desnecessário segundo conhecida lição jurisprudencial, não há dúvida de que Gilberto Luis dos Santos (Coronel) e Manoel José Ribeiro (Manelão) portavam armas de fogo. Jamais negaram que o faziam, precisamente porque eram policiais militares da reserva”, diz o Gaeco.

O uso de arma, inclusive, teria sido confirmado pela dupla quando o Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Banco, Assaltos e Sequestros (Garras) os abordou em um residência no Bairro Monte Castelo, onde foram encontradas 705 máquinas de cartão que seriam utilizadas para o jogo do bicho.

“Por exemplo, Gilberto Luis dos Santos relatou, em juízo, que no momento da abordagem policial na residência, Manoel José Ribeiro ‘estava com a arma na cintura’. Além disso, na fase inquisitorial, Manoel José Ribeiro declarou estar na posse de uma pistola PT100, calibre .40”, diz outro trecho da investigação.

APREENSÃO

Após a apreensão dessas maquinhas, que ocorreu em outubro de 2023, pouco antes de ser deflagrada a primeira fase da Operação Successione, matéria do Correio do Estado mostrou que o grupo da família Razuk logo se reestruturou e conseguiu retomar as atividades com ainda mais força.

Conforme a investigação do MPMS, um mês após o Garras tomar 705 maquininhas do grupo, eles já tinham conseguido adquirir outras 800 máquinas e também atuavam em outros endereços na Capital.

*Saiba

Reportagem do Correio do Estado mostrou que o grupo chamado de MTS – uma abreviação diferente para Mato Grosso do Sul – seria ligada à facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

Assine o Correio do Estado

Cidades

TCU aponta problemas na prestação de contas da Cultura e da Ancine, com passivo de R$ 22 bi

São 26.583 projetos que dependem de uma análise final no trâmite formal de prestação de costas

25/03/2026 21h00

Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil

Continue Lendo...

O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou falhas que classificou como graves na gestão de recursos transferidos a projetos culturais do Ministério da Cultura e da Agência Nacional do Cinema (Ancine) de 2019 a 2024. O montante alcança cerca de R$ 22,1 bilhões, segundo relatório da Corte. São 26.583 projetos que dependem de uma análise final no trâmite formal de prestação de costas. Além dos atrasos nas análises, há "elevado" risco de prescrição de processos.

O montante resulta da soma de R$ 17,73 bilhões em 19.191 projetos incentivados (renúncia fiscal) e R$ 4,36 bilhões em 7 392 projetos não incentivados (recurso direto do governo). De acordo com a fiscalização, o passivo de projetos nessa situação é crescente, o que fragiliza o controle sobre o uso de recursos públicos.

No caso do Ministério, o TCU apontou um cenário com acúmulo de processos pendentes e ausência de mecanismos eficazes de controle de prazos. A demora na análise, que pode ultrapassar anos, eleva o risco de perda do direito de cobrança de valores eventualmente devidos ao erário, segundo a Corte.

A Ancine também apresentou atrasos relevantes, embora o Tribunal tenha destacado iniciativas tecnológicas em curso para aprimorar a análise de prestações de contas, incluindo o uso de ferramentas automatizadas.

"O acompanhamento permite detectar omissões, atrasos e inconsistências na análise das prestações de contas", afirmou o relator do processo, ministro Augusto Nardes.

Diante dos achados, o tribunal determinou a adoção de medidas para priorizar processos com risco iminente de prescrição, implementar sistemas de monitoramento de prazos e revisar procedimentos internos, com o objetivo de reduzir o passivo e fortalecer a fiscalização.
 

Assine o Correio do Estado

testemunha-chave

Chaveiro aponta que Bernal pode ter dado 'tiro de misericórdia' em fiscal

Em depoimento disse que ocorreu apenas um disparo assim que o ex-prefeito entrou no imóvel. O fiscal tributário, porém, morreu atingido por dois tiros

25/03/2026 18h28

Nesta quarta-feira Alcides Bernal passou por audiência de custódia e o juiz entendeu que  le deve permanecer na prisão

Nesta quarta-feira Alcides Bernal passou por audiência de custódia e o juiz entendeu que le deve permanecer na prisão Marcelo Victor

Continue Lendo...

O depoimento do chaveiro Maurílio da Silva Cardoso, de 69 anos, testemunha-chave do assassinato do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, 61 anos, contradiz as declarações de Alcides Bernal e pode comprometer a tese da legítima defesa, que é o principal argumento dos advogados para tentar tirar da prisão o ex-prefeito de Campo Grande. 

O crime ocorreu no  começo da tarde de terça-feira (24) e ao se apresentar à polícia, dizendo que acreditava estar sendo perseguido, o ex-prefeito afirmou que fez dois disparos contra o fiscal tributário, que acabou morrendo no interior da casa que motivou o assassinato. 

Bernal alegou que fez os disparos para se defender, pois teria se sentido ameaçado, já que os dois homens já haviam aberto o portão social que fica no muro do imóvel e estavam tentando abrir a porta que dá acesso à casa, localizado na Rua Antônio Maria Coelho, na região central de Campo Grande. 

O chaveiro, porém, dá outra versão em seu depoimento prestado horas depois do crime. Conforme o documento oficial da Polícia Civil, o chaveiro "afirmou, de forma veemente, ter presenciado um disparo efetuado contra o senhor Roberto, relatando que ficou extremamente abalado com a situação. Declarou recordar-se de apenas um disparo ocorrido enquanto ainda se encontrava no local, não podendo, contudo, informar se o autor realizou novos disparos após sua saída da residência."

Em outro trecho o documento que que ele "informou que, de forma cautelosa, afastou-se lentamente do autor, enquanto o autor ficou vidrado na vítima Roberto, até conseguir alcançar o portão, momento em que empreendeu fuga, pois temia por sua vida, acreditando que o autor poderia também atentar contra si, especialmente após ter sido ordenado que se deitasse de bruços. Acrescentou que, após deixar o local e alcançar uma distância segura, entrou em contato com seu filho, DIEGO, comunicando o ocorrido e solicitando que acionasse a polícia". 

Diego é Guarda Municipal e, segundo as informações prestadas pelo pai, também faz bico como chaveiro e no dia anterior seu filho teria sido contactado pelo fiscal tributário para prestar o serviço de abertura da casa. Porém, o guarda teria repassado o serviço para o pai. Os advogados de Bernal dizem, porém, que o guarda também teria participado daquil que chama de invasão da casa. 

O revólver calibre 38 entregue por Bernal à polícia estava com três projéteis intactos e dois deflagrados. No corpo do fiscal tributário havia três perfurações. E, segundo a perícia, um dos disparos entrou pela parte frontal das costelas e saiu pelas costas. O outro, atingiu a região da cintura. 

Pelo fato de os policiais terem indagado ao chaveiro se ele escutou um segundo disparo depois que fugiu do local, os investigadores deixam claro que suspeitam que Bernal tenha dado o que se chamam de "tiro de misericórdia" contra Roberto Mazzini depois que este já estava imobilizado e depois que a testemunha-chave havia deixado o imóvel.

E, caso isto se confirme, a tese de legítima defesa cairia por terra. As versões diferentes sobre o exato momento em que foram efetuados os disparos podem ser esclarecidas pelas imagens das câmeras internas da mansão.

Estas imagens, apesar de os advogados de defesa de Alcides Bernal garantirem que existem, não haviam chegado às mãos do juiz que nesta quarta-feira decidiu manter o ex-prefeito na cadeia. O magistrado entendeu que não estava claro se realmente ocorreu legítima defesa. 

Em seu despacho, o juiz diz que "a defesa sustenta a ocorrência de legítima defesa. Todavia, para o  reconhecimento da excludente de ilicitude nesta fase processual, seria necessária prova cabal, inequívoca e indiscutível, o que não se verifica no presente momento".

Logo na sequência, diz o magistrado, "destaca-se o depoimento da testemunha Maurílio da Silva Cardoso, o qual afirmou que a vítima não teve qualquer oportunidade de reação ou explicação, tendo o custodiado se aproximado já com a arma em punho". 

Além disso, ressalta o juiz, "o  custodiado (Bernal), ao ser informado de possível invasão, poderia ter acionado os órgãos de segurança pública, como Polícia Militar ou Polícia Civil, ao invés de dirigir-se ao local armado e efetuar disparos sem oportunizar esclarecimentos. A conduta, portanto, revela elevada gravidade concreta, tratando-se de crime doloso contra a vida, praticado com violência extrema."

MANSÃO

Com quase 680 metros quadrados de área construída e um terreno de 1,4 mil metros quadrados, a casa foi arrematada pelo fiscal tributário por pouco mais de R$ 2,4 milhões em novembro do ano passado. Desde então ele tentava tomar posse. Conforme advogados de Bernal, o fiscal já havia participado de pelo menos 25 leilões e conhecia as normativas para tomar posse destes imóveis. 

Segundo nota emitida por familiares de Roberto Mazzini na manhã desta quarta-feira (25), o fiscal chamou o chaveiro para abrir o imóvel porque o cartório responsável pelo registro havia informado que a casa estava vazia e por conta disso Roberto teria ido ao local para tomar posse, já que havia comprado a mansão em um leilão realizada pela Caixa Econômica Federal. 

CARREIRA POLÍTICA

Radialista, Alcides Bernal foi vereador em Campo Grande durante dois mandatos e em 2010 elegeu-se para deputado estadual, com 20.910 votos. Em 2012 candidatou-se a prefeito de Campo Grande e acabou derrotando o então deputado federal Edson Giroto, que tinha o apoio dos principais caciques políticos da época, como André Puccinelli e a família Trad.  

Mas, em março de 2014 acabou sendo cassado pela câmara de vereadores, sendo o primeiro prefeito a sofrer a punição na história de Campo Grande. Seu vice, Gilmar Olarte, foi um dos principais articuladores da cassação e acabou herdando o cargo. 

Em maio daquele ano, um juiz de primeira instância suspendeu a cassação e concedeu liminar para a volta de Bernal ao cargo. Horas após a concessão, aliados marcharam rumo à prefeitura e a ocuparam o prédio. No entanto, a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça horas depois, reempossando Gilmar Olarte no cargo.

Bernal somente conseguiu voltar ao cargo em 25 de agosto de 2015 e permanceceu no cargo até o fim do mandato. Ele chegou a se candidatar à reeleição, mas nem mesmo chegou ao segundo turno. O pleito foi vencido por Marquinos Trad.  

Ele havia comprado a casa em 2016, já perto do fim do seu mandato como prefeito. Porém, por conta por conta de uma dívida da ordem de R$ 900 mil na Caixa, o imóvel acabou sendo levado a leilão. 

 

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).