A Justiça Federal condenou três empresários apontados como integrantes do núcleo comercial de uma organização criminosa especializada na entrada irregular de eletrônicos do Paraguai. Além das penas de prisão, a sentença determinou o perdimento de nove imóveis e 16 veículos, entre os quais uma residência localizada no condomínio Alphaville III, em Campo Grande.
Clênio Alisson Tavares da Silva, Brendon Alisson Medeiros Tavares e Bruno Natan foram condenados a quatro anos e oito meses de prisão, cada um, em regime inicial semiaberto, pelo crime de organização criminosa.
A decisão foi proferida pelo juiz federal substituto Felipe Alves Tavares, da 3ª Vara Federal de Campo Grande, no processo decorrente da Operação Iscariotes, deflagrada em 18 de março de 2026 pela Polícia Federal e pela Receita Federal.
Embora tenha condenado os três empresários, o magistrado revogou as prisões preventivas de Clênio e Brendon, que são pai e filho, e determinou a retirada do monitoramento eletrônico imposto a Bruno. Como a sentença é de primeira instância, ainda cabe recurso.
A decisão também manteve a suspensão das atividades de seis empresas relacionadas aos investigados. Conforme os autos, os estabelecimentos estavam inseridos na estrutura utilizada para comercializar aparelhos eletrônicos e outros produtos introduzidos no País sem o recolhimento dos tributos e sem a documentação exigida.
Rota semanal saía do Paraguai
Segundo a acusação apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), o grupo estava em atividade desde pelo menos junho de 2023 e permaneceu operando até a deflagração da Operação Iscariotes, em março deste ano.
A principal atividade atribuída à organização era o descaminho em larga escala. O crime ocorre quando mercadorias cuja comercialização é permitida entram no País sem o pagamento dos impostos devidos, diferentemente do contrabando, que envolve produtos proibidos.
Os eletrônicos eram adquiridos no Paraguai, atravessavam a região de fronteira e chegavam a Campo Grande. Parte das mercadorias permanecia na Capital e era destinada à comercialização, inclusive em estabelecimentos relacionados aos investigados. Outra parcela seguia para compradores de outros estados, principalmente de Minas Gerais.
A análise dos celulares apreendidos durante a investigação permitiu reconstituir conversas sobre encomendas, contratação de transportadores, preparação dos automóveis e definição das rotas utilizadas.
Segundo os elementos apresentados à Justiça, as viagens envolvendo a fronteira, Campo Grande e Belo Horizonte aconteciam semanalmente e podiam transportar até 500 aparelhos eletrônicos em uma única remessa.
Para dificultar a fiscalização, os produtos eram colocados em compartimentos clandestinos construídos dentro dos veículos, conhecidos como “mocós”. Os esconderijos eram adaptados em diferentes pontos dos automóveis, como carroceria, bancos, painel e porta-luvas.
Um dos casos mencionados na sentença ocorreu em 20 de junho de 2024. Na ocasião, uma Toyota Hilux registrada em nome de Brendon foi apreendida transportando 295 iPhones.
Os aparelhos estavam escondidos em compartimentos distribuídos pela carroceria, bancos e porta-luvas. Alguns dos espaços possuíam até sistemas eletrônicos de abertura, segundo os elementos reunidos na investigação.
Brendon também utilizava linhas telefônicas registradas em nome de terceiros. Para os investigadores, a estratégia dificultaria a identificação das comunicações e uma eventual interceptação pelas autoridades.
No celular de Clênio, foram localizados diálogos relacionados à fabricação dos compartimentos ocultos e ao envio de mercadorias desde julho de 2023.
No aparelho de Brendon, os investigadores identificaram ainda um grupo de mensagens chamado “Acerto Mercadoria”, relacionado à organização logística das operações.
Pai e filho são apontados como responsáveis pelo comando
Na acusação, o MPF atribuiu a Clênio e Brendon funções de comando dentro da estrutura. Pai e filho negociavam com compradores, definiam quantidades de produtos, organizavam o transporte e mantinham contato com integrantes responsáveis pelas viagens.
Bruno Natan, por sua vez, foi apontado como integrante do núcleo operacional. Segundo o processo, ele recebia orientações relacionadas aos automóveis empregados nas viagens e ao armazenamento das mercadorias.
Clênio era identificado pelo apelido de “Pastor” em parte das conversas analisadas pelos investigadores. Conforme os registros apresentados no processo, ele utilizava o acesso a uma igreja localizada nas proximidades de sua residência para orientar o armazenamento de veículos empregados nas operações.
Durante o processo, as defesas questionaram a própria configuração do crime de organização criminosa. Um dos argumentos apresentados foi que a denúncia havia sido oferecida contra apenas três pessoas, enquanto a legislação estabelece a participação de quatro ou mais integrantes para caracterização desse tipo de organização.
A tese não foi acolhida
Segundo o entendimento registrado na sentença, a existência da organização deve ser determinada pelo número de pessoas que efetivamente integravam a estrutura criminosa, e não somente pela quantidade de réus reunidos em uma determinada ação penal.
Além dos três empresários julgados nesse processo, a investigação identificou pelo menos outros oito integrantes com atribuições específicas. As acusações foram divididas pelo MPF em ações diferentes, circunstância que, conforme a decisão, não descaracteriza a existência da organização.
Casa no Alphaville entra na lista de bens
O alcance patrimonial da sentença é um dos pontos de maior impacto da decisão. A Justiça determinou o perdimento de nove imóveis e 16 veículos relacionados aos condenados. Entre os bens está uma residência localizada no condomínio Alphaville III, em Campo Grande.
O imóvel foi adquirido por Brendon em 19 de fevereiro de 2024, quando ele tinha 24 anos.
Ao analisar a evolução patrimonial do empresário, a Justiça considerou, entre outros elementos, a ausência de vínculos formais de emprego e informações financeiras obtidas durante a investigação.
A sentença registra ainda que Brendon recebeu 17 parcelas do auxílio emergencial, benefício criado durante a pandemia para trabalhadores em situação de vulnerabilidade econômica.
Outro elemento considerado foi a constituição da BK Comércio de Eletrônicos Eireli. Conforme os autos, a empresa foi aberta em 13 de janeiro de 2021, com capital social declarado de R$ 150 mil.
Na avaliação judicial, a aquisição posterior de um imóvel de alto padrão, somada aos demais elementos financeiros e às provas produzidas na investigação, contribuiu para demonstrar uma evolução patrimonial considerada incompatível.
Além dos nove imóveis, a ordem de perdimento alcança 16 veículos. A relação inclui modelos como Chevrolet Classic, Renault Logan, Renault Sandero, Volkswagen Kombi, Toyota Hilux, Toyota Corolla, Volkswagen Fusca, Fiat Palio, Volkswagen Voyage e Fiat Uno Mille, além de reboques.
A sentença estabeleceu ainda R$ 15,5 milhões como limite de referência para eventual confisco por equivalência.
Esse instrumento permite que outros bens de valor correspondente sejam atingidos quando o patrimônio considerado produto ou proveito das atividades criminosas não é localizado.
Como ainda existe possibilidade de recurso, o destino definitivo dos imóveis, veículos e demais valores dependerá do encerramento do processo e de eventuais decisões das instâncias superiores.
Seis empresas continuam com atividades suspensas
A Justiça Federal manteve a suspensão das atividades econômicas de seis empresas relacionadas ao esquema investigado: C.A.T. Comércio e Acessórios Telecom Eireli, Metav Informática Eireli, BK Comércio de Eletrônicos Eireli, Eletroking Comércio Atacado e Varejo Ltda., King Importados Comércio Atacado e Varejo Ltda. e Velocell Celulares e Acessórios Ltda.
A restrição havia sido determinada durante a investigação como forma de impedir a continuidade das atividades atribuídas ao grupo e preservar patrimônio que poderia ser alcançado pelo processo.
A Operação Iscariotes surgiu a partir de outra investigação. Conforme consta no caso, a apuração avançou depois da prisão de um policial federal por tráfico de drogas.
A análise do material apreendido revelou indícios de uma estrutura paralela voltada à entrada irregular de eletrônicos e à posterior distribuição das mercadorias em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
Quando foi deflagrada, em 18 de março, a operação mobilizou mais de 200 policiais para o cumprimento de aproximadamente 90 ordens judiciais em Campo Grande, Dourados, Belo Horizonte, Vespasiano e Montes Claros.
Foram cumpridos 31 mandados de busca e apreensão e quatro de prisão preventiva, além de uma ordem de monitoramento eletrônico, dois afastamentos de funções públicas e seis suspensões de porte ou posse de armas.
Na ocasião, a Justiça também determinou a indisponibilidade de aproximadamente R$ 40 milhões em patrimônio pertencente a 12 pessoas físicas e jurídicas investigadas.
Agentes de segurança também entraram na investigação
A apuração identificou ainda suspeitas envolvendo agentes de segurança pública da ativa e aposentados.
De acordo com a Polícia Federal, integrantes desse núcleo teriam utilizado acesso privilegiado a informações de sistemas policiais para acompanhar fiscalizações e auxiliar nas operações de transporte das mercadorias.
A situação desses investigados, entretanto, foi separada da ação penal que resultou agora na condenação dos três empresários.
O nome da operação faz referência a Judas Iscariotes e à ideia de traição. A denominação está relacionada justamente à suspeita de que agentes públicos tenham utilizado informações e estruturas de órgãos de segurança para favorecer atividades criminosas.


