Cidades

SE A MODA PEGA

Investigação mira "milagreiro" anônimo, mas ignora pastores bilionários

Em 2016 um pastor paulista, que prometia série de milagres, veio a MS e recebeu R$ 1.680,00 de ajuda. Na semana passada ele virou réu em Dourados

Continue lendo...

Ver pastores multimilionários prometendo milagres e pedindo dinheiro em templos religiosos ou em programas de rádio e TV faz parte do cotidiano brasileiro nas últimas décadas, tudo em nome da liberdade religiosa.

Na última semana, porém, o pastor David Tonelli Mainarte, que mora em Bebedouro, no interior de São Paulo, ganhou notoriedade nacional ao ser denunciado pelo promotor de Justiça João Linhares, de Dourados, por suposto estelionato religioso, que teria causado prejuízo de R$ 1.680,00 a uma moradora da segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul. 

A ação judicial está disponível para consulta a revela que em maio de 2016 o pastor “induziu a erro a vítima Vanessa dos Santos, mediante ardil, consubstanciado em se passar por pastor evangélico e prometer-lhe cura por meio da fé, obtendo, para si, vantagem ilícita de R$ 1.680,00”. 

Ainda segundo a denúncia, que foi aceita no último dia 22 pelo juiz  Marcelo de Silva Cassavara, da 1ª Vara Criminal de Dourados, em vídeos postados no facebook e Youtube à época o pastor prometia, entre outros milagres, fazer "dentes das vítimas nascerem", além de possibilitar a "reconstrução de seios", garantir que "paralíticos andem" e "cegos voltem a enxergar".

A comerciante Vanessa dos Santos acreditou nas promessas que viu na internet e entrou em contado com o pastor para se livrar de cicatrizez numa perna. Porém, as orações de cura, segundo ele, teriam de ser presenciais. 

E, como ele morava em São Paulo, a comerciante aceitou pagar hospedagem de três dias em um hotel de Campo Grande para ele, a mulher e três filhos do casal, num total de R$ 630,00.

Além disso, mandou R$ 750,00 por meio de depósito bancário para bancar despesas de viagem e mais R$ 300,00 em espécie, quando se encontraram em Campo Grande.

Mas, como as cicatrizes não sumiram, ela resolveu denunciar imediatamente o pastor à polícia. Policiais chegar a ir ao hotel Paris para prender o pastor, mas após checarem seus antecedentes ele nem mesmo foi levado à delegacia. 

Em agosto do ano passado, mais de oito anos depois daqueles fatos, o pastor finalmente prestou depoimento na Polícia Civil de Bebedouro e afirmou ser missionário, confirmou que postou os vídeos nos quais mostra varios os supostos milagres. 

Em sua defesa, alegou que a comerciante compareceu somente em duas das três sessões de orações e por isso o resultado não teria sido satisfatório. além disso, afirmou que foi ela que se ofereceu a bancar as despesas da viagem e da estadia para ele e a família.

A mulher, porém, em seu depoimento em 2016, garantiu que participou dos três dias de orações e mesmo assim as cicatrizes não desapareceram. 

Depois disso, afirmou a comerciante à polícia, não conseguiu mais contato com o pastor, o que fez com que registrasse denúncia da Polícia Civil em Dourados. 

"A vítima, desesperada com seu problema e acreditando na veracidade da promessa de cura, efetuou o pagamento exigido", afirmou o promotor de Justiça João Linhares, autor da denúncia. 

PROMESSAS 

Em um vídeo publicado no YouTube em 2012, intitulado "Missionário David Mainarte - Dente nascendo na hora", o pastor aparece cercado de pessoas enquanto mexe na boca de uma mulher idosa. Virada de costas para a câmera, ela permanece imóvel, e o pastor pergunta para as pessoas que observam a cena o que elas veem. "Está crescendo", diz um homem no microfone ao ser questionado por David. Ao fundo, são ouvidos gritos de "aleluia".

Em outra gravação compartilhada na plataforma, ele ora próximo a uma mulher, que fica protegida atrás de um tecido. Em seguida, ele afirma que a cicatriz no corpo dela sumiu durante a prece. Também em um terceiro vídeo, publicado sem áudio, o título sugere que a fiel teve "o seio reconstruído na hora".

O Correio do Estado ligou e mandou mensagens para o número de telefone do pastor que aparece em seu depoimento à polícia em São Paulo para indagar se a investigação e a denúncia não seriam uma espécie de perseguição religiosa. Porém, ele não atendeu e não deu retorno.

Em reportagem do jornal O Globo, porém, ele informou que não é mais pastor, embora tenha se declarado missionário em agosto do ano passado no depoimento à polícia.

"Trata-se de imputado que habitualmente manipula vítimas, passando-se por detentor de poderes sobrenaturais para empreender curas milagrosas, explorando a vulnerabilidade de pessoas que estão muito enfermas e em situação de extrema vulnerabilidade e aflição”, escreveu o promotor no documento enviado à Justiça .

A denúncia foi aceita na semana passdo pelo juiz Marcelo de Silva Cassavara, que deu um prazo de 10 dias para o acusado apresentar a sua defesa. 

ROTINA

Ao mesmo tempo em que o “anônimo” pastor  David foi investigado pela polícia e o Ministério Público, sendo finalmente denunciado, procedimentos semelhantes ao dele ocorreram às centenas e estão acessíveis a qualquer pessoa que se interessar.

No último dia 7 de setembro, por exemplo, o apóstolo Valdemiro Santiago atraiu uma pequena multidão ao templo de sua igreja na Avenida Eduardo Elias Zahran, em Campo Grande. 

A fila de fiéis chamou a atenção porque se estendia ao longo de algumas quadras da avenida. Uma delas era composta principalmente por cadeirante e pessoas com muletas. Estavam todas em busca dos prometidos milagres anunciados pelo apóstolo. 

No dia 7 de setembro de 2024, multidão enfrentou fila em templo de Campo Grnade em busca de prometidos milagres

Enquanto isso, um grande telão e potentes caixas de som exibiam a pregação do religioso. O sermão era interrompido seguidas vezes por seus discípulos para anunciarem e festejarem toda vez que algum pix superior a mil reais caía na conta da instituição. 

E, em meio às comemorações, o apóstolo desafiava os fiéis da fila dos milagres e aos que assistiam à transmissão pela TV a superarem os valores que haviam sido depositados até então.

Depois que a multidão entrou no templo, uma antiga loja de materiais de construção, uma série de supostos milagres foi anunciada e os pedidos de doação passaram a ser ainda mais constantes. Sobraram cadeiras de rodas e muletas no interior da igreja.

Embora um pouco mais discretos, líderes religiosos de outras igrejas têm procedimento semelhante e os resultados financeiros deixam claro a eficácia deste modelo de pregação, que tem a promessa de prosperidade financeira como o principal “milagre” a ser oferecido àqueles que fizerem doações. 

PATRIMÔNIO

Valdemiro Santiago, que se auto-denomia apóstolo, cursou somente até a quinta série do ensino básico e inicialmente fazia parte da Igreja Universal do Reino de Deus, comandada por Edir Macedo, que o expulsou de sua instituição.

Por isso, em 1998 fundou sua própria igreja e hoje, segundo a revista Forbes, seu patrimônio chega a R$ 1,4 bilhão e a Igreja Mundial do Poder de Deus conta com mais de 4 mil templos espalhados por todo o Brasil 

Entre os pastores famosos, sua fortuna é menor somente que a de Edir Macedo, que tem R$ 5,6 bilhões, também segundo a Forbes. Está à frente inclusive do missionário RR Soares, da Igreja Internacional da Graça, que, segundo a Forbes, acumula R$ 736 milhões.

Boa parte do patrimônio de Romildo Soares, porém, não está em seu nome, como é o caso das duas TVs (SBT MS e Guanandi) e de inúmeros terrenos de alto valor na região central de Campo Grande. 
 

Cidades

TCU aponta problemas na prestação de contas da Cultura e da Ancine, com passivo de R$ 22 bi

São 26.583 projetos que dependem de uma análise final no trâmite formal de prestação de costas

25/03/2026 21h00

Crédito: Valter Campanato / Agência Brasil

Continue Lendo...

O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou falhas que classificou como graves na gestão de recursos transferidos a projetos culturais do Ministério da Cultura e da Agência Nacional do Cinema (Ancine) de 2019 a 2024. O montante alcança cerca de R$ 22,1 bilhões, segundo relatório da Corte. São 26.583 projetos que dependem de uma análise final no trâmite formal de prestação de costas. Além dos atrasos nas análises, há "elevado" risco de prescrição de processos.

O montante resulta da soma de R$ 17,73 bilhões em 19.191 projetos incentivados (renúncia fiscal) e R$ 4,36 bilhões em 7 392 projetos não incentivados (recurso direto do governo). De acordo com a fiscalização, o passivo de projetos nessa situação é crescente, o que fragiliza o controle sobre o uso de recursos públicos.

No caso do Ministério, o TCU apontou um cenário com acúmulo de processos pendentes e ausência de mecanismos eficazes de controle de prazos. A demora na análise, que pode ultrapassar anos, eleva o risco de perda do direito de cobrança de valores eventualmente devidos ao erário, segundo a Corte.

A Ancine também apresentou atrasos relevantes, embora o Tribunal tenha destacado iniciativas tecnológicas em curso para aprimorar a análise de prestações de contas, incluindo o uso de ferramentas automatizadas.

"O acompanhamento permite detectar omissões, atrasos e inconsistências na análise das prestações de contas", afirmou o relator do processo, ministro Augusto Nardes.

Diante dos achados, o tribunal determinou a adoção de medidas para priorizar processos com risco iminente de prescrição, implementar sistemas de monitoramento de prazos e revisar procedimentos internos, com o objetivo de reduzir o passivo e fortalecer a fiscalização.
 

Assine o Correio do Estado

testemunha-chave

Chaveiro aponta que Bernal pode ter dado 'tiro de misericórdia' em fiscal

Em depoimento disse que ocorreu apenas um disparo assim que o ex-prefeito entrou no imóvel. O fiscal tributário, porém, morreu atingido por dois tiros

25/03/2026 18h28

Nesta quarta-feira Alcides Bernal passou por audiência de custódia e o juiz entendeu que  le deve permanecer na prisão

Nesta quarta-feira Alcides Bernal passou por audiência de custódia e o juiz entendeu que le deve permanecer na prisão Marcelo Victor

Continue Lendo...

O depoimento do chaveiro Maurílio da Silva Cardoso, de 69 anos, testemunha-chave do assassinato do fiscal tributário Roberto Carlos Mazzini, 61 anos, contradiz as declarações de Alcides Bernal e pode comprometer a tese da legítima defesa, que é o principal argumento dos advogados para tentar tirar da prisão o ex-prefeito de Campo Grande. 

O crime ocorreu no  começo da tarde de terça-feira (24) e ao se apresentar à polícia, dizendo que acreditava estar sendo perseguido, o ex-prefeito afirmou que fez dois disparos contra o fiscal tributário, que acabou morrendo no interior da casa que motivou o assassinato. 

Bernal alegou que fez os disparos para se defender, pois teria se sentido ameaçado, já que os dois homens já haviam aberto o portão social que fica no muro do imóvel e estavam tentando abrir a porta que dá acesso à casa, localizado na Rua Antônio Maria Coelho, na região central de Campo Grande. 

O chaveiro, porém, dá outra versão em seu depoimento prestado horas depois do crime. Conforme o documento oficial da Polícia Civil, o chaveiro "afirmou, de forma veemente, ter presenciado um disparo efetuado contra o senhor Roberto, relatando que ficou extremamente abalado com a situação. Declarou recordar-se de apenas um disparo ocorrido enquanto ainda se encontrava no local, não podendo, contudo, informar se o autor realizou novos disparos após sua saída da residência."

Em outro trecho o documento que que ele "informou que, de forma cautelosa, afastou-se lentamente do autor, enquanto o autor ficou vidrado na vítima Roberto, até conseguir alcançar o portão, momento em que empreendeu fuga, pois temia por sua vida, acreditando que o autor poderia também atentar contra si, especialmente após ter sido ordenado que se deitasse de bruços. Acrescentou que, após deixar o local e alcançar uma distância segura, entrou em contato com seu filho, DIEGO, comunicando o ocorrido e solicitando que acionasse a polícia". 

Diego é Guarda Municipal e, segundo as informações prestadas pelo pai, também faz bico como chaveiro e no dia anterior seu filho teria sido contactado pelo fiscal tributário para prestar o serviço de abertura da casa. Porém, o guarda teria repassado o serviço para o pai. Os advogados de Bernal dizem, porém, que o guarda também teria participado daquil que chama de invasão da casa. 

O revólver calibre 38 entregue por Bernal à polícia estava com três projéteis intactos e dois deflagrados. No corpo do fiscal tributário havia três perfurações. E, segundo a perícia, um dos disparos entrou pela parte frontal das costelas e saiu pelas costas. O outro, atingiu a região da cintura. 

Pelo fato de os policiais terem indagado ao chaveiro se ele escutou um segundo disparo depois que fugiu do local, os investigadores deixam claro que suspeitam que Bernal tenha dado o que se chamam de "tiro de misericórdia" contra Roberto Mazzini depois que este já estava imobilizado e depois que a testemunha-chave havia deixado o imóvel.

E, caso isto se confirme, a tese de legítima defesa cairia por terra. As versões diferentes sobre o exato momento em que foram efetuados os disparos podem ser esclarecidas pelas imagens das câmeras internas da mansão.

Estas imagens, apesar de os advogados de defesa de Alcides Bernal garantirem que existem, não haviam chegado às mãos do juiz que nesta quarta-feira decidiu manter o ex-prefeito na cadeia. O magistrado entendeu que não estava claro se realmente ocorreu legítima defesa. 

Em seu despacho, o juiz diz que "a defesa sustenta a ocorrência de legítima defesa. Todavia, para o  reconhecimento da excludente de ilicitude nesta fase processual, seria necessária prova cabal, inequívoca e indiscutível, o que não se verifica no presente momento".

Logo na sequência, diz o magistrado, "destaca-se o depoimento da testemunha Maurílio da Silva Cardoso, o qual afirmou que a vítima não teve qualquer oportunidade de reação ou explicação, tendo o custodiado se aproximado já com a arma em punho". 

Além disso, ressalta o juiz, "o  custodiado (Bernal), ao ser informado de possível invasão, poderia ter acionado os órgãos de segurança pública, como Polícia Militar ou Polícia Civil, ao invés de dirigir-se ao local armado e efetuar disparos sem oportunizar esclarecimentos. A conduta, portanto, revela elevada gravidade concreta, tratando-se de crime doloso contra a vida, praticado com violência extrema."

MANSÃO

Com quase 680 metros quadrados de área construída e um terreno de 1,4 mil metros quadrados, a casa foi arrematada pelo fiscal tributário por pouco mais de R$ 2,4 milhões em novembro do ano passado. Desde então ele tentava tomar posse. Conforme advogados de Bernal, o fiscal já havia participado de pelo menos 25 leilões e conhecia as normativas para tomar posse destes imóveis. 

Segundo nota emitida por familiares de Roberto Mazzini na manhã desta quarta-feira (25), o fiscal chamou o chaveiro para abrir o imóvel porque o cartório responsável pelo registro havia informado que a casa estava vazia e por conta disso Roberto teria ido ao local para tomar posse, já que havia comprado a mansão em um leilão realizada pela Caixa Econômica Federal. 

CARREIRA POLÍTICA

Radialista, Alcides Bernal foi vereador em Campo Grande durante dois mandatos e em 2010 elegeu-se para deputado estadual, com 20.910 votos. Em 2012 candidatou-se a prefeito de Campo Grande e acabou derrotando o então deputado federal Edson Giroto, que tinha o apoio dos principais caciques políticos da época, como André Puccinelli e a família Trad.  

Mas, em março de 2014 acabou sendo cassado pela câmara de vereadores, sendo o primeiro prefeito a sofrer a punição na história de Campo Grande. Seu vice, Gilmar Olarte, foi um dos principais articuladores da cassação e acabou herdando o cargo. 

Em maio daquele ano, um juiz de primeira instância suspendeu a cassação e concedeu liminar para a volta de Bernal ao cargo. Horas após a concessão, aliados marcharam rumo à prefeitura e a ocuparam o prédio. No entanto, a decisão foi revertida pelo Tribunal de Justiça horas depois, reempossando Gilmar Olarte no cargo.

Bernal somente conseguiu voltar ao cargo em 25 de agosto de 2015 e permanceceu no cargo até o fim do mandato. Ele chegou a se candidatar à reeleição, mas nem mesmo chegou ao segundo turno. O pleito foi vencido por Marquinos Trad.  

Ele havia comprado a casa em 2016, já perto do fim do seu mandato como prefeito. Porém, por conta por conta de uma dívida da ordem de R$ 900 mil na Caixa, o imóvel acabou sendo levado a leilão. 

 

NEWSLETTER

Fique sempre bem informado com as notícias mais importantes do MS, do Brasil e do mundo.

Fique Ligado

Para evitar que a nossa resposta seja recebida como SPAM, adicione endereço de

e-mail [email protected] na lista de remetentes confiáveis do seu e-mail (whitelist).