Segundo a engenheira ambiental Kamilla Ajala, o mau cheiro verificado na região oeste de Campo Grande que afeta cerca de 100 mil moradores pode ser causado por gás que faz mal à saúde. Nesta semana, o Correio do Estado vem reportando os capítulos da situação, que seria causada pela fábrica de farelo de ossos e sangue do frigorífico JBS, localizada na Avenida Duque de Caxias.
Acerca dos impactos que a liberação desses gases podem causar ao meio ambiente e à população afetada, Kamilla cita que o cheiro de ovo podre, como descreveram alguns moradores, é causado por um gás incolor que, quando afeta a pessoa durante muito tempo, pode gerar consequências graves para a saúde.
“O cheiro forte e desagradável que pode ser liberado pela JBS, similar a ovo podre, é geralmente causado pelo sulfeto de hidrogênio [H2S]. O H2S é conhecido como o ‘gás da morte’, por ser extremamente tóxico em altas concentrações, causando perda de consciência imediata e a morte”, explica.
“O sulfeto de hidrogênio pode ter efeitos negativos no meio ambiente, principalmente devido à sua toxicidade e potencial para causar poluição atmosférica e acidificação. Na atmosfera, o H2S é convertido em dióxido de enxofre [SO2], que por sua vez pode formar ácido sulfúrico, contribuindo para a chuva ácida”, complementa.
Desde 2023, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) abriu inquérito civil para apurar as condições da unidade. Após algumas vistorias técnicas, foram constatadas inúmeras irregularidades ambientais, como vazamento de fumaças nas laterais do empreendimento.
A fim de mitigar o problema, o órgão recomendou a instalação de uma cortina arbórea, uma barreira vegetal densa, composta por árvores e arbustos, utilizada para controlar impactos ambientais. Sobre isso, Kamilla diz que a medida é importante e pode ser eficaz, mas as manutenções operacionais precisam ser feitas.
“A cortina arbórea é uma das medidas mitigadoras, porém, a manutenção do sistema operacional é de grande importância”, explica a engenheira ambiental.
A especialista disse, ainda, que um termo de ajustamento de conduta (TAC) seria uma boa alternativa, já que, em caso de descumprimento, o poder público poderia autuar a empresa. Porém, em maio do ano passado, o MPMS chegou a oferecer o acordo durante uma reunião, mas foi recusado pelos representantes da JBS.
“Já que na questão ambiental a empresa não está sendo correta, não está atendendo aos requisitos das leis ambientais, entra na parte econômica, multando, autuando a empresa. Daí ela começa a agir”, recomenda Kamilla.
Após duas matérias e a produção desta reportagem, o Correio do Estado ainda não obteve um retorno da JBS para prestar esclarecimentos sobre o caso e a possível suspensão da licença operacional da fábrica.
RELATOS
Na edição de ontem, moradores dos Bairros Nova Campo Grande e Jardim Carioca relataram ao Correio do Estado que o mau cheiro na região incomoda há anos. Eles chegaram a dizer que sentem vergonha de receber visitas e que seus imóveis desvalorizaram consideravelmente por causa deste problema.
“A minha casa, se ela estivesse em qualquer outro bairro, acho que, pelo menos, ela valeria 30%, 40% a mais. A gente constrói, a gente deseja morar no local, eu tenho um carinho imenso pelo bairro, tanto que eu comprei esse terreno vazio, eu construí a minha casa, coloquei tudo do bom e do melhor, para uma empresa fazer isso”, explica Fábia Britez, que mora no Bairro Nova Campo Grande há 24 anos.
“Uma empresa desse tamanho não tem a pachorra de resolver um problema simples. A gente não mora em invasão, a gente não se apossou de terreno que não podia, a gente tem documento, a gente comprou terreno, a gente pagou o Crea, a gente paga IPTU, então, ou seja, somos todos organizados. O poder público tem dois pesos e duas medidas: se desrespeitarmos alguma lei, o poder público vem como um leão para cima da gente, agora, vão como um gatinho para cima de uma empresa gigantesca”, complementa.
Mesmo com o problema perdurando há anos e com as consequências citadas acima, os moradores pedem que seja encontrada uma solução que não prejudique os trabalhadores da fábrica, já que muitos moram na região.
PROJETO
Além do MPMS, o caso agora está na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems), que analisa projeto de decreto legislativo, de autoria do deputado estadual Pedro Pedrossian Neto (PSD), que pretende sustar duas licenças de operação da fábrica de farelo de ossos, concedidas pelo Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), sob justificativa de que o processamento desses subprodutos está gerando danos ambientais e sociais.
Este projeto já foi distribuído à Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR) da Alems e, agora, está nas mãos do deputado estadual Paulo Duarte (PSB). Ele será o relator do projeto e vai determinar a constitucionalidade da suspensão da licença. Se aprovado, vai para o plenário, onde terá duas votações sobre seu mérito.


