Cidades

SAÚDE DA MULHER

Mulheres estão sobrecarregadas, ansiosas, estressadas e insatisfeitas, diz estudo

Outros fatores apontados como causa de sofrimento foram a pressão estética (26%), a pressão familiar para que façam o que não querem (21%), o machismo (21%) e o medo de sofrer violência (16%)

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Foi nos corredores de um supermercado, com uma filha no carrinho, outra ao lado, a cabeça na lista de compras e de tarefas, e o celular na mão, lotado de mensagens de trabalho, que Vera Nunes de Santana, 46, simplesmente "bugou".

"Eu apaguei. Fiquei paralisada. Precisaram chamar o gerente do mercado para me ajudar e, de lá, fui para o hospital", conta ela. A curadora e produtora cultural saiu com uma guia médica que recomendava, por ora, apenas descanso. Vera estava esgotada.

Ela não está sozinha. Estudos internacionais apontam que a prevalência de esgotamento mental, também conhecido como síndrome de burnout, é 25% maior entre as mulheres.

A sobrecarga de trabalho, dentro e fora de casa, a pressão financeira e o desafio de conciliar múltiplas tarefas e a rotina de cuidados com crianças e idosos estão entre os fatores que mais têm impactado a saúde emocional de mulheres brasileiras, segundo o relatório "Esgotadas", da ONG Think Olga.

De acordo com o documento, 86% das brasileiras consideram ter muita carga de responsabilidade, e 48% sofrem com uma situação financeira apertada, num contexto em que 28% se declaram como única ou principal provedora de seu lar e que 57% daquelas entre 36 a 55 anos são responsáveis pelo cuidado direto de alguém.

"Estamos sobrecarregadas, e existe uma normalização dessa sobrecarga e dos problemas que ela causa", avalia Vera, pelo retrovisor. "A gente é criada para ser eficiente na maternidade, no trabalho, na casa, na relação afetiva e sexual. E, além disso, brilhante, gostosa, estudiosa, boa amiga, boa filha… Uma espécie de supermulher, que não existe."

A pesquisa entrevistou 1.078 mulheres de 18 a 65 anos de todo o país e aponta que metade das brasileiras se sente ansiosa (55%) e estressada (49%), mas também irritada (39%), exausta (28%), com baixa autoestima (28%) e triste (25%).

Além disso, 45% já tiveram diagnóstico de ansiedade, depressão ou outros transtornos mentais, segundo o estudo. E 68% fez algum acompanhamento médico.

Foi o caso de Vera, que procurou ajuda depois do episódio do supermercado e recebeu o diagnóstico de síndrome do pânico. Passou por tratamento com medicamentos e incluiu a terapia na rotina.

"Não tive mais piripaques. Passei a priorizar minha saúde física e mental. Quando fico estressada, paro tudo, mas o julgamento em cima disso é pesadíssimo", avalia.

Pouco tempo depois de tirar uma semana de licença médica, Vera foi desligada do trabalho."A sensação que a gente fica é de que somos uma máquina que, quando dá um pequeno sinal de erro, é descartada", desabafa.

O desemprego, que atinge mais mulheres que homens no Brasil (10,8% contra 7,2% entre homens), e o processo de feminização da pobreza deram urgência às pressões financeiras, apontadas pelo estudo da Think Olga como a principal fonte de insatisfação e sofrimento para mulheres brasileiras.

Entre mulheres negras, que são maioria entre as chefes de família, entre as mães solo e entre as desempregadas, a situação é ainda mais grave. Não à toa, mais mulheres negras (54%) do que brancas (39%) disseram estar insatisfeitas com sua situação financeira.

"Neste contexto, a questão do cuidado fica muito mais difícil porque não é possível contratar alguém para essa tarefa, e a pressão aumenta, enquanto a maioria das mulheres brancas e de classe média alta podem pagar por uma rede de apoio para os cuidados com crianças e pessoas idosas", avalia Nana Lima, diretora do Think Olga.

Para a psiquiatra clínica e psicanalista Juliana Belo Diniz, o bem-estar das mulheres está atravessado por questões sociais, culturais e históricas que não serão resolvidas apenas com políticas públicas de saúde mental.

"As reações das mulheres às condições que elas vivem não são patológicas, mas algo esperado para esse contexto. Temos uma questão social e humanitária porque as mulheres foram assumindo novas responsabilidades sem abandonar seus papéis tradicionais", explica ela. "A psiquiatria e a psicologia não vão resolver esse problema. Precisamos trazê-lo para a discussão pública."

Outros estudos já apontaram que a saúde mental feminina está mais pressionada do que a masculina. A taxa de mulheres brasileiras que já tiveram diagnóstico de ansiedade (27%) e depressão (20%) é o dobro da registrada entre os homens (14% e 10%, respectivamente), segundo pesquisa Datafolha recente.

Mesmo em relação aos dados globais, as mulheres do Brasil aparecem com saúde mental mais comprometida. Enquanto a taxa de homens brasileiros com transtornos mentais ou por uso de substância é 21% maior que a taxa masculina global, entre as brasileiras ela é 42% mais alta que a média feminina no mundo.

Durante a pandemia, a situação se agravou, e mulheres representaram 67% dos novos casos de transtorno depressivo e 68% dos novos casos de transtorno de ansiedade em 2020, segundo estudo publicado na revista Lancet.

"Se está aumentando a prevalência de certos transtornos entre mulheres, não é porque o cérebro delas está ficando mais doente, mas porque as pressões a que estão submetidas não estão permitindo a elas encontrar saídas viáveis", avalia a psiquiatra Diniz.

As mulheres que procuram seu consultório, afirma, muitas vezes estão em busca de ajuda porque querem continuar aguentando essa sobrecarga. "Elas acham que precisam segurar as pontas até o final porque são a última fonte de resistência da estrutura familiar", explica. "E o nosso trabalho é muitas vezes abrir espaço para elas admitirem que não estão aguentando."

Para aliviar uma parte dessas pressões, Vera conta que conseguiu distribuir tarefas que eram só sua responsabilidade. "Enquanto estamos fazendo reuniões e queremos mudar o mundo, precisamos nos preocupar se a roupa não está mofando dentro da máquina de lavar, se a criança está bem na escola, se tem comida na geladeira, se a casa está limpa", afirma.

"A carga mental das mulheres é surreal. E o homem ainda é altamente poupado disso. Mas, agora, combinamos que é meu companheiro o responsável pela faxina e compra desses produtos", respira, diante de, ao menos, esse livramento.

O desequilíbrio entre homens e mulheres na divisão do trabalho doméstico e parental e nos cuidados com outras pessoas é um dos fatores que pressiona desproporcionalmente as mulheres. Elas dedicam, em média, 21,4 horas semanais às tarefas domésticas enquanto eles, quase a metade disso (11 horas).

A sobrecarga de trabalho doméstico e a jornada excessiva de trabalho foi a segunda causa de descontentamento mais apontada por mulheres na pesquisa do Think Olga.

"Os resultados da pesquisa reforçaram o que já sabemos sobre a exaustão das mulheres e o trabalho feminino, e sua dupla ou tripla jornada. É tanta ansiedade, que o corpo pifa", afirma Jaqueline Gomes de Jesus, professora de psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

"Sob um ideário de heroína, mulheres acumulam o trabalho fora de casa, em que ganham menos do que os homens, com as tarefas domésticas, que não são reconhecidas como trabalho e, portanto, não são remuneradas."

Outros fatores apontados como causa de sofrimento pelas brasileiras foram a pressão estética (26%), a pressão familiar ou da comunidade para que façam algo que não querem (21%), o machismo (21%) e o medo constante de sofrer violência (16%).

Diagnosticada com depressão há dez anos, a bombeiro civil Amanda Nunes de Oliveira, 29, percebeu, durante as sessões de terapia, que a criação em uma família cristã de doutrina rígida, cheia de restrições, foi fonte de muito sofrimento.

"Sempre fui muito julgada porque ia na contramão da igreja e do que meu pai dizia que não era para fazer. E apanhava muito por causa disso", diz.

Amanda conta ter enfrentado preconceitos por ter um corpo fora de padrão, por ser negra e ter uma orientação sexual não heteronormativa. "Não é fácil ser mulher, gorda, lésbica e preta. E tudo isso contribuiu para a minha saúde mental se deteriorar", avalia.

Para Nana Lima, diretora do Think Olga, a pesquisa mostra que "todos esses fatores estão interconectados e vão se acumulando sobre as mulheres, gerando uma insatisfação feminina muito alta".

A solução, diz, passa por políticas públicas que enfrentem as causas da sobrecarga e do sofrimento das mulheres. "Que tipo de sociedade nós estamos construindo quando as mulheres estão tão abaladas e desesperançosas?", questiona a diretora do Think Olga.

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Varejo em Crise

Casas Bahia fecha lojas em MS em corte que atinge 298 unidades no Brasil

Quatro unidades encerraram as atividades em Dourados, Naviraí e Nova Andradina; reestruturação nacional também prevê a demissão de cerca de 1,9 mil trabalhadores.

14/08/2026 19h03

Casas Bahia fecha quatro unidades em Mato Grosso do Sul em meio à reestruturação que atinge centenas de lojas no País.

Casas Bahia fecha quatro unidades em Mato Grosso do Sul em meio à reestruturação que atinge centenas de lojas no País. Foto: Divulgação/Casas Bahia.

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Pelo menos quatro lojas das Casas Bahia em Mato Grosso do Sul fecharam as portas nesta sexta-feira (14), em meio a uma ampla reestruturação promovida pela varejista em todo o País. Duas unidades atingidas ficam em Dourados, enquanto as outras estão localizadas em Naviraí e Nova Andradina. O fechamento no Estado ocorre no mesmo dia em que a companhia promove uma das maiores reduções recentes de sua rede física.

Conforme informações publicadas pelo jornal Valor Econômico, 298 estabelecimentos estão sendo encerrados em diferentes regiões brasileiras, acompanhados do desligamento de aproximadamente 1,9 mil trabalhadores.

O número chama atenção pela dimensão da operação. Ao final de 2025, as Casas Bahia mantinham 1.042 lojas em funcionamento. Com isso, os 298 pontos atingidos pela atual reestruturação equivalem a aproximadamente 28,6% desse total.

Em Mato Grosso do Sul, os primeiros reflexos foram percebidos já nas primeiras horas desta sexta-feira.

Funcionários são surpreendidos em Dourados

Em Dourados, as duas lojas físicas das Casas Bahia localizadas na Avenida Marcelino Pires, na região central da cidade, amanheceram fechadas. Conforme informações, funcionários teriam sido surpreendidos pela medida e tomaram conhecimento do encerramento das atividades somente quando chegaram aos locais para trabalhar.

Até o momento, não foi informado oficialmente quantos empregados das duas unidades foram desligados nem se existe possibilidade de aproveitamento de parte dos trabalhadores em outras operações da companhia.

O impacto também chegou a Naviraí, onde a unidade da rede encerrou as atividades nesta sexta-feira. Ainda não há detalhamento sobre o número de funcionários atingidos pela decisão.

Em Nova Andradina, outra loja das Casas Bahia entrou na lista de estabelecimentos fechados. Informações divulgadas pela imprensa local apontam que os trabalhadores da unidade foram desligados com o encerramento das operações.

Com os casos identificados até agora, Mato Grosso do Sul contabiliza ao menos quatro lojas atingidas pela reestruturação nacional, distribuídas por três municípios.

O número, entretanto, ainda poderá aumentar caso outras unidades existentes no Estado estejam incluídas no plano de redução da rede física.

Quase 300 lojas fechadas de uma vez

A dimensão da mudança ganha ainda mais peso quando comparada ao movimento recente da companhia. No fim de 2023, a rede possuía 1.078 lojas. O número caiu para 1.064 em 2024 e chegou a 1.042 estabelecimentos ao término de 2025.

Diferentemente de ajustes graduais realizados ao longo dos últimos anos, desta vez a redução estaria concentrada praticamente em um único movimento.

Aproximadamente 600 funcionários teriam sido desligados já na quinta-feira (13), enquanto outros 1,3 mil a 1,4 mil cortes estavam previstos para esta sexta. O enxugamento poderia chegar a 3 mil trabalhadores.

A companhia deve apresentar ao mercado mais detalhes sobre a estratégia de redução de despesas e reorganização de suas operações.

Prejuízo bilionário aumenta pressão sobre varejista

A reestruturação ocorre em um momento de forte pressão financeira sobre as Casas Bahia. No primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou prejuízo líquido de R$ 1,06 bilhão, resultado influenciado principalmente pelas despesas financeiras.

Apesar do prejuízo, a receita líquida avançou 6,1% na comparação anual e alcançou R$ 7,4 bilhões. As despesas com vendas, gerais e administrativas, por sua vez, cresceram 5,4%, chegando a aproximadamente R$ 1,7 bilhão.

O cenário econômico também representa um obstáculo para a companhia. Juros elevados, endividamento das famílias e pressão sobre a renda disponível afetam diretamente um segmento fortemente dependente das vendas parceladas e da concessão de crédito.

A própria direção das Casas Bahia vinha indicando ao mercado uma estratégia de maior disciplina financeira, com prioridade para rentabilidade, geração de caixa, controle do crédito e aumento da eficiência operacional, em vez da expansão das vendas a qualquer custo.

O grupo ainda carrega os efeitos do processo de recuperação extrajudicial iniciado em 2024, que envolveu aproximadamente R$ 4 bilhões em obrigações financeiras.

Balanço foi adiado

Em meio à reestruturação, a varejista também adiou a divulgação dos resultados referentes ao segundo trimestre de 2026. O balanço, inicialmente previsto para quarta-feira (12), foi transferido para esta sexta-feira (14), enquanto a teleconferência da administração com investidores está programada para segunda-feira (17).

A expectativa é de que os próximos comunicados da companhia esclareçam a dimensão completa do corte de despesas, os impactos financeiros do fechamento das lojas e os próximos passos para a operação física da rede.

 

caso lívia

Discord aponta que responsáveis por estimular suicídio em MS teriam se unido no TikTok e no Telegram

Menina de 13 anos teve a morte transmitida ao vivo na plataforma Discord, incentivada por grupo extremista que agia online

14/08/2026 19h00

Lívia foi induzida a tirar a vida em live transmitida no Discord

Lívia foi induzida a tirar a vida em live transmitida no Discord Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

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O Discord afirmou que há evidências de que os grupos que incitaram a adolescente de 13 anos, que se matou em Naviraí, a praticar violência contra si mesma teriam se articulado previamente no TikTok e no Telegram. A afirmação foi feita pela plataforma em resposta enviada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Nesse mesmo documento, o Discord também admite falhas em seu sistema automatizado para alertas de risco. A reportagem questionou o TikTok e o Telegram, mas ainda não obteve resposta.

Nesta semana, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), responsável por fiscalizar o cumprimento do ECA Digital, determinou a suspensão do recurso de transmissão ao vivo do Discord até que a plataforma implemente medidas para garantir a segurança de crianças e adolescentes. As lives devem estar fora do ar a partir da próxima semana.

No documento de 20 páginas enviado às autoridades brasileiras, a plataforma afirma que "as evidências disponíveis também indicam possível coordenação prévia ou paralela em outros serviços digitais, incluindo Telegram e TikTok, antes do ingresso no servidor investigado."

Na carta enviada às autoridades brasileiras para prestar explicações sobre o caso da adolescente de 13 anos que se suicidou, o Discord afirma que é relevante reconstruir a cronologia do fato e diz:

"A Discord não apresenta essa informação para deslocar responsabilidades, mas para delimitar tecnicamente os dados que seus sistemas poderiam processar antes do ingresso dos usuários no servidor."

O argumento da plataforma é de que medidas de incitação à violência podem ter começado antes de que o grupo criminoso começasse a transmissão nos canais do Discord. A empresa afirma que "a capacidade da Discord de identificar ou intervir proativamente depende dos sinais disponíveis na plataforma e das salvaguardas técnicas e de privacidade aplicáveis".

Neste mesmo documento, o Discord admitiu que seu sistema automático de alertas falhou em identificar potencial risco na transmissão ao vivo envolvendo a incitação de violência à adolescente. O sistema classificou a live com uma pontuação de risco que era apenas 1/8 da nota necessária para ativar as travas da rede. Procurado para comentar o documento, a plataforma não falou.

O Discord sustenta que não chegou a transmitir o suicídio, pois conseguiu derrubar o servidor antes da morte, ao ser alertada pela polícia. E afirma ainda que a transmissão da morte ocorreu em outras plataformas.

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