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QUEIMADAS

No Pantanal, boi também é “bombeiro”

Sem o gado, fogo se alastra pelo bioma, como tem ocorrido neste ano em áreas inóspitas
27/07/2020 10:00 - Da Redação


A grande incidência de focos de calor no Pantanal, a maioria concentrada em Corumbá, é decorrente de uma sequência de fatores, como estiagem prolongada, baixa umidade relativa do ar – de 90% até 15% em algumas regiões –, queima criminosa e fenômenos naturais. 

A retirada do gado de áreas de reservas, onde a vegetação se acumula, é uma das principais causas de grandes incêndios, como os que estão ocorrendo agora, gerando uma situação crítica.

Segundo pesquisas, o fogo ocorre no Pantanal desde a sua formação, há milhares de anos, antes da chegada do homem. 

Agravou-se nas últimas décadas com o desmatamento no planalto, mudanças climáticas, descaracterização ambiental da veia hidrológica que sustenta a bacia.

É comum o fogo surgir em campos improdutivos e alagados – como ocorre atualmente –, onde a massa orgânica acumulada torna-se combustível de alta combustão, queimando no subsolo.

“O Pantanal queima desde o período Pleistoceno, não adianta o governo proibir, vai queimar sempre. O que precisamos é ocupar essas áreas vazias com o boi, que é o nosso ‘bombeiro’”, afirma o pantaneiro Armando Lacerda. Ele frisa que em alguns países, como Espanha, já se usam ovinos como pastejadores para reduzir incêndios em parques. “Depois de tanta destruição, adotou-se no Parque das Emas o que era considerado uma heresia: a queima controlada”.

Terras abandonadas

Enquanto se discute a sua origem, o fogo se alastra pela planície pantaneira. 

A Polícia Militar Ambiental investiga as causas, quando se sabe que o ribeirinho faz queimas sem controle para fazer sua roça ou abrir caminho na vegetação densa para catar iscas ou mel selvagem, atiçando esse material orgânico, geralmente na beira dos rios. 

O produtor rural também é acusado de queima criminosa, mas o Sindicato Rural de Corumbá contesta.

“O pantaneiro está dando suporte aos órgãos de combate aos incêndios cedendo seus maquinários”, diz o presidente Luciano Leite. 

“Hoje, fazemos parte do comitê de controle de incêndios e posso assegurar que, por tradição, não queimamos porque essa prática reduz ainda mais a falta de alimentação para o gado na seca. A queima descontrolada está ocorrendo onde não tem pecuária. Por que não queima na Nhecolândia?”, questiona.

O dirigente ruralista argumenta que a incidência de focos de calor ocorre anualmente nas antigas fazendas de gado, as quais foram inundadas após a grande cheia de 1974. 

Estas propriedades foram abandonadas, transformando-se em uma servidão, e somam mais de 500 mil hectares somente em Corumbá, que detém 65% do Pantanal. 

O hectare das terras vale hoje meia vaca (R$ 1.200), enquanto na Nhecolândia, centro criatório de bezerro, custa cinco vacas.

 
 

Surgido na pré-turfa, fogo queima sem chamas

A vivência secular do pantaneiro ensinou que no Pantanal se combate fogo com o boi, que se adaptou à região inóspita, assim como o homem. 

Depois de muitos questionamentos e incredulidade, pesquisadores da Embrapa Pantanal, com sede em Corumbá, adicionaram a suas teses: o pastoreio do ruminante reduz a grande quantidade de fitomassa e liteira que se acumula ao longo do tempo e favorece a propagação do fogo em campos inundáveis.

“A grande concentração dos focos de calor está em áreas de alta inundação, como a borda do Rio Paraguai próximo de Corumbá, de difícil controle. Fato que mostra a importância do gado quando bem manejado para reduzir estes incêndios”, afirma a agrônoma e meteorologista Balbina Soriano.

A terminologia “boi bombeiro” foi criada pelo catedrático em biologia Arnildo Pott, que se aposentou na Embrapa e hoje é professor na Universidade Federal (UFMS). 

Para ele, tirar o gado (por lei) dos parques e RPPNs (Reserva Particular do Patrimônio Natural), que somam mais de 500 mil hectares no bioma, foi um grande erro. 

“O Pantaneiro já sabia: o capim sobe e vem o fogo, ao contrário quando o boi foi introduzido no ecossistema sem destruí-lo”, afirma.

Pott, hoje aos 74 anos, também questiona as táticas de combate aos focos de incêndios que brotam do subsolo, das áreas de inundação, de onde surgem as fumaças brancas que aparecem nos noticiários alarmantes da TV. 

O lançamento aéreo de água nestes tipos de incêndio, segundo ele, não é o mais eficaz porque é pouco líquido para muito fogo em grande área. “Água de avião molha só por cima, o fogo continua queimando na base e reacende”, diz.

Na avaliação do pesquisador, o combate nestas condições deve ser mecânico, usando como estratégia a formação de aceiros (contrafogo) e brigadistas preparados para combater eventuais chamas que ressurgem nos arbustos. 

“Essa vegetação é como isqueiro, queima por baixo, sem chama. As árvores secas são para-raios”, explica. Para o pantaneiro Armando Lacerda, jogar água nestes incêndios aumenta a reação química; não apaga, mas atiça o fogo. 

 
 

Felpuda


Dia desses, há quem tenha se lembrado de opositor ferrenho – em público –, contra governante da época, mas que não deixava de frequentar a fazenda de “sua vítima” sempre que possível e longe dos olhos populares. Por lá, dizem, riam que só do fictício enfrentamento de ambos, que atraía atenção e votos. E quem se lembrou da antiga história garantiu que hoje ela vem se repetindo, tendo duas figurinhas carimbadas nos papéis principais. Ô louco!