Cidades

ENTREVISTA - FREDERICO FELINI

"Déficit previdenciário do estado de Mato Grosso do Sul está em torno de R$ 12 bilhões"

O titular da SAD revelou também que o governo estadual já desenvolve uma política salarial para a valorização dos professores temporários

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Novo responsável pela Secretaria de Estado de Administração (SAD), Frederico Felini concedeu uma entrevista exclusiva 
ao Correio do Estado e fez um balanço do pouco tempo à frente do cargo, que é encarregado de uma parte muito sensível da gestão do governador Eduardo Riedel (PSDB).

Felini destacou que o Estado tem um corpo técnico muito capacitado e um planejamento muito benfeito sendo executado com rigor e agilidade. “Buscamos melhorar nossos processos a cada movimento, procuramos sempre inovar e trazer maior rapidez e eficiência para o serviço público”, disse.

Ele também tratou de uma questão problemática de toda administração pública: a previdência. “Atualmente, o deficit previdenciário do estado de Mato Grosso do Sul está em torno de R$ 12 bilhões. Com responsabilidade e compreensão de que a Previdência garante direitos e tranquilidade às pessoas que prestaram serviço à população sul-mato-grossense, o governo do Estado vem aportando, além da sua cota patronal, aproximadamente R$ 3 bilhões por ano a mais do que seria sua obrigação legal, para conter o aumento desse deficit”, argumentou. Confira a seguir a entrevista completa.

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Qual o principal desafio à frente da SAD?

Com o compromisso e a visão de futuro de um estado inclusivo, próspero, verde e digital, nossas metas e nossos planos estão articulados em torno de áreas estratégicas de competência da Pasta, com o propósito de promover a eficiência e o aprimoramento do serviço público.

Nossa atuação se concentra em diversas áreas-chaves, alinhadas com os objetivos estratégicos de governança e gestão para resultados. Uma das prioridades será promover uma gestão de pessoas centrada no potencial e nas demandas de futuro. Isso incluirá a modernização dos processos de gestão com o desenvolvimento de políticas de inclusão, saúde, diversidade, capacitação e habilidades para o futuro e a inovação.

A implantação da Política Estadual de Sustentabilidade é outra frente importante. Com a promoção da estruturação do plano de sustentabilidade dos órgãos e das entidades do Poder Executivo, a SAD trabalha como interlocutora para inserir a variável socioambiental nas rotinas da administração pública estadual.

Outra frente é promover a gestão de dados e informações dos bens patrimoniais do estado de Mato Grosso do Sul, oportunizando maior controle patrimonial e alcance da estrutura administrativa do governo para atendimento das necessidades da sociedade. E isso tudo com uma abordagem transversal das políticas públicas, integrando diversos órgãos e municípios, 
visando alcançar resultados mais abrangentes e efetivos na prestação de serviços.

Nesse pouco tempo à frente da SAD, qual o balanço que o senhor já pode fazer?

Até o momento, temos uma secretaria preparada tecnicamente, com pessoas comprometidas e capacitadas, que vêm executando um belo trabalho, dentro de um planejamento estratégico e com melhoramento dos serviços internos, principalmente para promover a transversalidade que a secretaria necessita realizar com os demais órgãos do governo, entregando serviços de qualidade para todas as unidades do Estado, as quais, na ponta dessa cadeia de valor, entregam as políticas públicas essenciais à população, como saúde, educação, obras, desenvolvimento econômico, segurança e todas as outras.

Podemos assegurar que temos um corpo técnico muito capacitado, um planejamento muito benfeito e sendo executado com rigor e agilidade. Buscamos melhorar nossos processos a cada movimento, procuramos sempre inovar e trazer maior rapidez 
e eficiência para o serviço público.

Há previsão de igualar os salários dos professores convocados com os dos concursados? Se sim, quando seria isso?

O governo do Estado já desenvolve uma política salarial para a valorização dos professores temporários. O atual decreto em vigor foi discutido e acordado com a entidade sindical que representa a categoria. Atualmente, MS tem o maior salário do Brasil para profissionais do magistério, e o governo está comprometido em continuar trabalhando para ampliar essa política de valorização dos professores temporários. Estamos em constante diálogo com o setor e realizando estudos de viabilidade para avançar na política salarial para os profissionais do magistério estadual.

Quantos aposentados o funcionalismo público estadual tem hoje? Qual o custo disso? E qual é o deficit da Previdência em MS?

O maior patrimônio do Estado, além de um bom serviço prestado, é o corpo de servidores, incluindo os aposentados. 

Hoje, nós temos, entre ativos e inativos, aproximadamente 80 mil servidores e pensionistas. No orçamento deste ano, 
há uma previsão de gasto de mais de R$ 4 bilhões com a Previdência estadual. Estamos trabalhando em contenções nesses primeiros meses do ano, buscando maneiras de reduzir esses valores. Atualmente, o deficit previdenciário de Mato Grosso do Sul está em torno de R$ 12 bilhões.

Com responsabilidade e compreensão de que a Previdência garante direitos e tranquilidade às pessoas que prestaram serviço à população sul-mato-grossense, o governo do Estado vem aportando, além da sua cota patronal, aproximadamente R$ 3 bilhões por ano a mais do que seria a obrigação legal, para conter o aumento desse deficit. E essa é uma discussão que já está sendo feita com o parlamento estadual, até porque é necessário que isso seja posto de forma legal, com o intuito principal de não comprometer os servidores.

Mato Grosso do Sul também não pode abrir mão da Certidão Previdenciária, que é um documento emitido pelo Ministério da Previdência que permite ao Estado acessar, por exemplo, recursos federais que garantem uma série de investimentos. Em um passado recente, alguns estados brasileiros “quebraram” sua Previdência, deixaram de obter essa certidão e perderam inclusive a capacidade de investimento. Precisamos garantir a sustentabilidade da Previdência, mantendo a responsabilidade fiscal. Vale destacar a parceria da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul na busca por soluções responsáveis para a Previdência estadual.

O governo de MS estuda reduzir a alíquota de 14% para os aposentados do funcionalismo público? Caso positivo, para quanto deve cair a nova alíquota?

A questão previdenciária é muito sensível e muito importante para o governo. Justamente por entender o quão fundamental 
é garantir esse direito aos servidores inativos, nós a tratamos com muita seriedade. A SAD e a Ageprev [Agência de Previdência Social de Mato Grosso do Sul] estão totalmente alinhadas, acompanhando constantemente os dados sobre a evolução dos gastos previdenciários, buscando soluções para conter o aumento desse deficit previdenciário de R$ 12 bilhões. E essa discussão precisa ser transparente.

Nesse momento, a redução dessa alíquota comprometeria a saúde fiscal, a responsabilidade legal do Estado, e poderia levar a um rombo futuro ainda maior. Por isso, o governo aumentou sua contribuição, como mais um esforço para equacionar essa conta, zerar o deficit e, então, discutir reduzir alíquota.

Quanto o governo pretende injetar a mais na Ageprev para garantir essa nova alíquota?

Repito, a Previdência é um assunto de muita responsabilidade, principalmente do ponto de vista da gestão. Ressalto que, a todo momento, o governador nos cobra e que o grupo de estudo que foi formado para analisar a Previdência analisa cenários e busca soluções para uma possível redução futura da alíquota.

Como disse anteriormente, na situação atual, mais de R$ 3 bilhões anuais vêm sendo aportados pelos cofres do Estado, a fim de garantir uma aposentadoria àqueles que já estão na inatividade e, principalmente, para garantir o futuro dos servidores de Mato Grosso do Sul.

Em que pé está a parceria com a Superintendência do Patrimônio da União em Mato Grosso do Sul (SPU-MS) sobre a doação e a cedência de prédios e áreas públicas do governo federal ao Estado?

A parceria entre a SAD e a superintendência sempre ocorreu. O que houve agora foi uma mudança na política da União. Um movimento que antes era de apenas fazer cessão de uso do patrimônio, que tem a validade de 20 anos, passa para uma política de doação. Dessa forma, essa parceria pode proporcionar maior estabilidade para a gestão do patrimônio ao estado de Mato Grosso do Sul e uma melhor entrega à população.

Compete aos órgãos e às entidades do governo do Estado entrarem em contato direto com a SPU-MS, para verificar e solicitar algum prédio ou área da União que atenda à política pública de cada órgão. Quando eles identificam, cabe à SAD a gestão de verificação de documentação e normas, fazer esse contato mais técnico com a SPU-MS. Nesse sentido, a atuação da SAD com as secretarias e as entidades do governo é de interlocutora e apoiadora no processo de cedência ou doação.

A SAD tem algum projeto para aumentar o controle sobre os certames do Estado?

O governador Eduardo Riedel tem uma preocupação muito grande com a isonomia e a idoneidade dos nossos processos de licitação e todos os processos administrativos que envolvam o governo do Estado. Buscando sempre melhorar nossos processos de controle, a SAD vem adotando medidas inovadoras, como a parceria com a CGE-MS [Controladoria-Geral do Estado de Mato Grosso do Sul] para a instituição do compliance no governo do Estado, que significa o compromisso de todo o Estado estar em conformidade com as normas e as regras em relação à legislação vigente. Atualmente, temos na SAD também, além de toda a assessoria jurídica, a Unidade Setorial de Controle Interno, que foi uma inovação recente, fruto dessa parceria com a CGE-MS.

Mas, principalmente, é importante destacar que a transparência e o controle são valores que permeiam a missão da SAD e, em decorrência da transversalidade da nossa atuação, toda a estrutura do Estado. Temos como premissa que orienta nossos processos estarmos sempre solícitos a todos os órgãos de controle interno e externo, para que possamos, cada vez mais, buscar a eficiência, a honestidade e a probidade em todas as nossas ações.

Como a aproximação da SAD com o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE-MS) pode melhorar a qualidade do serviço prestado ao cidadão sul-mato-grossense?

O TCE-MS, por ser um órgão auxiliar do Poder Legislativo, também muito nos auxilia enquanto Poder Executivo, quando busca soluções, quando norteia as nossas ações dentro de um princípio básico e primordial da administração pública, que é o princípio da legalidade. Buscamos sempre esse entendimento, pois o interesse do governo é fazer as coisas dentro daquilo que a legislação determina, em nossas obrigações e em nossas permissões, buscando sempre uma maior eficiência em nossos processos internos. É o nosso lema: fazer bem feito para fazer dar certo.

Em que estágio está a questão da adoção de home office no serviço público estadual?

A SAD tem um projeto-piloto de teletrabalho que está em andamento, inicialmente, na Junta Comercial do Estado de Mato Grosso do Sul. Nessa fase experimental, temos como objetivo, ainda neste ano, fazer o estudo de outras carreiras do Estado em que possam ser implementadas o teletrabalho, o que pode trazer vantagens como flexibilidade para os servidores e redução de custos para a gestão, desde que haja mais eficiência na entrega final para sociedade.

Esse programa demanda uma análise detalhada de viabilidade e requer dedicação na gestão de recursos humanos, proteção de dados e integração de sistemas administrativos da estrutura de gestão do governo, pois os servidores participantes precisarão de acesso remoto aos sistemas, processos e documentos necessários para desempenhar suas funções.

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Perfil

Frederico Felini

Formado em Direito, tem especialização em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas e pós-graduando em Governança Pública. Trabalhou na Câmara dos Deputados de 2007 a 2009 e foi secretário municipal de Governo, de Assistência Social e de Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico de Maracaju de 2013 a 2022. Depois, em 2023, foi secretário adjunto de Estado de Governo e Gestão Estratégica, quando acumulou a função de secretário-executivo de Comunicação por seis meses.

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Prisão Preventiva

Justiça mantém vereador preso após acidente e suspeita de suborno em MS

Parlamentar teria fugido sem prestar socorro após colisão que deixou adolescente de 17 anos em estado grave e é acusado de tentar subornar e ameaçar policial.

20/09/2026 17h54

Dionaldo Morinigo (PDT), vereador de Ponta Porã e subtenente do Corpo de Bombeiros, teve a prisão preventiva mantida pela Justiça neste domingo (20)

Dionaldo Morinigo (PDT), vereador de Ponta Porã e subtenente do Corpo de Bombeiros, teve a prisão preventiva mantida pela Justiça neste domingo (20) Foto: Reprodução.

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A Justiça manteve preso preventivamente, neste domingo (20), o vereador de Ponta Porã Dionaldo Morinigo (PDT), de 49 anos, que também é subtenente do Corpo de Bombeiros. Ele é investigado após se envolver em um acidente de trânsito que deixou um adolescente de 17 anos gravemente ferido e, segundo os autos, fugir do local sem prestar socorro.

O caso ganhou novos contornos após a colisão. Conforme as informações reunidas na investigação, um escrivão da Polícia Civil que presenciou o acidente seguiu o parlamentar e conseguiu abordá-lo cerca de dois quilômetros depois.

Durante a abordagem, Dionaldo teria tentado convencer o policial a resolver a situação sem acionar os órgãos de segurança.

A prisão em flagrante foi convertida em preventiva a pedido do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Durante audiência de custódia realizada na manhã deste domingo (20), no plantão judicial da VI Região, o juiz Rafael Vieira de Leucas manteve o vereador preso ao considerar que, diante das circunstâncias apresentadas no caso, medidas cautelares mais brandas não seriam suficientes.

O acidente ocorreu na noite de sexta-feira (18), em Ponta Porã, município localizado na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai.

Segundo os autos, Dionaldo conduzia uma Toyota Hilux quando passou em alta velocidade por uma lombada e atingiu lateralmente uma Volkswagen Saveiro.

O veículo atingido era conduzido pelo adolescente de 17 anos. Com o impacto, o jovem ficou desacordado e precisou ser encaminhado ao Hospital Regional.

Conforme informações apresentadas ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), o adolescente sofreu ferimentos graves. Depois da colisão, entretanto, o vereador teria deixado o local sem prestar socorro à vítima.

Abordagem e suspeita de suborno

A saída do vereador do local foi presenciada por um escrivão da Polícia Civil, que decidiu acompanhar a caminhonete. A perseguição se estendeu por aproximadamente dois quilômetros até que o policial conseguiu abordar Dionaldo.

Foi nesse momento que, conforme o relato registrado nos autos, o parlamentar teria se apresentado como integrante do Corpo de Bombeiros e agente político.

Durante a conversa, Dionaldo teria perguntado ao escrivão se existia alguma maneira de “resolver ali” a situação, sem que os órgãos policiais fossem envolvidos.

A declaração foi interpretada como uma possível tentativa de suborno. Ao analisar o caso, a Justiça também considerou que a conduta pode indicar, em tese, uma tentativa de interferência na atuação dos agentes públicos responsáveis pela ocorrência.

Ainda segundo as informações da investigação, a abordagem teria sido marcada por momentos de tensão. Dionaldo é acusado de xingar e ameaçar o escrivão, afirmando que iria “pegá-lo depois”.

Sinais de ingestão de álcool

As circunstâncias verificadas após o acidente também passaram a integrar a investigação. Dionaldo se recusou a realizar o teste do bafômetro.

Apesar da recusa, policiais que participaram da ocorrência relataram sinais de possível consumo de bebida alcoólica, entre eles cheiro de álcool, roupas desarrumadas, agressividade e exaltação.

Latas de cerveja também foram encontradas dentro da caminhonete conduzida pelo parlamentar.

Diante do conjunto de elementos reunidos, o vereador foi preso em flagrante e indiciado por crimes que incluem lesão corporal no trânsito, corrupção ativa, desacato e ameaça. O processo também registra a fuga do local do acidente.

Posteriormente, o MPMS pediu ao TJMS a conversão da prisão em flagrante em preventiva.

O pedido foi acolhido. A avaliação judicial foi de que a adoção de medidas cautelares menos severas não seria suficiente diante das circunstâncias apresentadas no processo.

Vereador relata violência durante prisão

A audiência de custódia realizada neste domingo também abriu uma nova frente de apuração. Durante o procedimento, Dionaldo relatou ter sido vítima de violência no momento da prisão.

Diante da declaração, o juiz determinou o encaminhamento do caso ao Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gacep), ligado ao Ministério Público, para que os fatos sejam apurados.

A medida não altera, neste momento, a decisão de mantê-lo preso preventivamente. Além da prisão, a Justiça determinou a suspensão do porte de arma do vereador. Uma pistola Sig Sauer calibre 9 milímetros permaneceu apreendida.

O Comando-Geral do Corpo de Bombeiros também foi comunicado sobre o caso para que sejam adotadas as medidas administrativas cabíveis em relação ao subtenente.

 

Contratos Sob Suspeita

Documentos revelam contratos que colocaram Santa Casa na mira do MPMS

Investigação aponta pagamentos sem comprovação, suspeita de concorrência simulada e quase R$ 10 milhões repassados a empresas ligadas a um dos núcleos apurados pelo Gecoc.

20/09/2026 17h25

Agentes do Gecoc estiveram na Santa Casa durante a Operação Antidotum, que investiga contratos e pagamentos milionários da instituição.

Agentes do Gecoc estiveram na Santa Casa durante a Operação Antidotum, que investiga contratos e pagamentos milionários da instituição. Foto: Marcelo Victor/Correio do Estado.

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A investigação que levou à prisão de integrantes da cúpula da Santa Casa de Campo Grande aponta para uma estrutura que teria se instalado em diferentes setores da instituição e de sua operadora de planos de saúde, envolvendo contratos considerados fraudulentos pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), pagamentos sem comprovação da efetiva prestação dos serviços e sucessivas tentativas de impedir o acesso de órgãos de controle a documentos.

Enquanto o Ministério Público investiga contratos milionários e suspeitas de desvios dentro da Santa Casa, pacientes continuam enfrentando dificuldades para conseguir procedimentos no maior hospital de Mato Grosso do Sul.

Um caso recente expõe esse contraste: Neusa Epifânia de Castro de Almeida, de 59 anos, permaneceu por mais de uma semana internada à espera de uma cirurgia para colocação de prótese após fraturar o fêmur.

Segundo a família, ela chegou a ser submetida a jejum cinco vezes diante da expectativa de realização do procedimento, que acabou sendo sucessivamente adiado pela falta de liberação do material necessário.

O episódio ocorreu justamente no período em que a Operação Antidotum atingiu a cúpula da instituição.

A família chegou a questionar se as dificuldades administrativas provocadas pela investigação teriam relação com a demora, mas, até o momento, não há comprovação de que os supostos desvios ou a operação tenham causado diretamente o atraso da cirurgia.

O caso, no entanto, evidencia o contraste entre os milhões de reais colocados sob suspeita pelo Ministério Público e as dificuldades enfrentadas por pacientes que dependem da estrutura hospitalar.

Os detalhes da investigação aparecem nos autos que embasaram a Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc).

A apuração começou após uma denúncia recebida pela 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande e resultou na abertura de um Procedimento de Investigação Criminal.

No centro da apuração está a gestão de Alir Terra Lima, que assumiu a presidência da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande em fevereiro de 2023 e, segundo o MPMS, passou a exercer também influência sobre a Operadora Santa Casa Saúde.

A investigação se divide principalmente em duas frentes. A primeira envolve a contratação da Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda., empresa responsável pela digitalização do acervo documental da Santa Casa.

O trabalho contratado incluía a organização e preparação dos documentos físicos, a digitalização das páginas, a indexação dos arquivos, processo que permite classificá-los e localizá-los posteriormente, e o armazenamento digital.

O serviço abrangia prontuários médicos de pacientes e outros documentos administrativos mantidos pela instituição.

A execução e o controle desses serviços passavam pelo Serviço de Arquivo Médico e Estatística (Same), setor responsável pelos prontuários e coordenado por Monique Gregório de Oliveira, uma das seis pessoas presas preventivamente na Operação Antidotum.

Segundo o Ministério Público, era justamente ali que ficavam registros necessários para conferir quantas páginas haviam sido efetivamente digitalizadas e comparar essa produção com os valores cobrados e pagos à Redvalue.

Foi nesse ponto que surgiram alguns dos questionamentos do Conselho Fiscal. Conforme os autos, em março e abril de 2025, foram encaminhados a Monique pedidos de informações sobre os procedimentos utilizados para medir, conferir e fiscalizar os serviços de digitalização. Segundo o MPMS, as solicitações não foram respondidas.

A falta dessas informações, sustenta o Gecoc, dificultou a conferência da quantidade efetivamente digitalizada, dos períodos de execução, dos lotes processados e, principalmente, da correspondência entre os serviços realizados e as notas fiscais pagas pela Santa Casa.

As suspeitas, porém, não ficaram restritas à execução do contrato. Os investigadores também passaram a analisar como a Redvalue havia sido escolhida.

Segundo o Gecoc, a contratação, formalizada em outubro de 2024, teria ocorrido sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantagem econômica.

A cotação utilizada para justificar a escolha também entrou na mira do Ministério Público. Conforme a investigação, empresas apresentadas como concorrentes teriam vínculos entre si e com o mesmo núcleo empresarial relacionado a Maurício Aparecido Benites, empresário ligado à Redvalue e um dos seis investigados presos preventivamente na Operação Antidotum.

Para o Gecoc, esses vínculos levantaram a suspeita de que a disputa de preços apresentada no processo de contratação poderia não ter representado uma concorrência efetiva entre empresas independentes.

Conselho apontou diferença de R$ 511 mil

Uma análise realizada pelo Conselho Fiscal da própria Santa Casa identificou divergência entre aquilo que teria sido efetivamente produzido pela Redvalue e os valores pagos pela instituição.

De acordo com o documento, a diferença chegou a aproximadamente R$ 511,3 mil. Diante das inconsistências, o Conselho Fiscal recomendou a apuração das responsabilidades pelos pagamentos e a suspensão imediata do contrato. 

Mesmo após a recomendação, porém, o contrato permaneceu vigente. O MPMS atribui a decisão a Alir Terra Lima e afirma que a então presidente tinha poder para determinar a suspensão da contratação. 

A investigação também aponta que não foi encontrada documentação que demonstrasse a qualificação técnica da Redvalue para atuar em hospitais de grande porte nem certificações que, conforme o Ministério Público, seriam necessárias para a execução dos serviços.

Também não teriam sido identificados estudos sobre custos operacionais ou a economia que a contratação poderia proporcionar à Santa Casa. 

Empresas teriam vínculos entre si

Outro ponto considerado relevante pelo Gecoc está nas empresas utilizadas para a cotação de preços. Embora o procedimento administrativo registrasse propostas de quatro empresas, a investigação afirma ter encontrado vínculos entre participantes da concorrência.

Para o Ministério Público, os elementos levantam suspeita de que a disputa tenha sido simulada para conferir aparência de concorrência a uma contratação previamente direcionada. 

Um dos exemplos apresentados envolve a Redvalue e a Ex Be Finance & Tecnology. O MPMS afirma que a Ex Be também mantinha vínculo com Maurício Benites e que, na época das cotações, pertencia formalmente ao empresário.

Posteriormente, a empresa passou para o nome de Fernanda de Freitas Diniz, apontada no documento como companheira dele. 

Os investigadores destacaram ainda semelhanças entre as propostas comerciais apresentadas pelas empresas, com estrutura, expressões e organização textual consideradas praticamente idênticas.

Na avaliação do MPMS, isso indicaria a possibilidade de os documentos terem sido produzidos a partir de um mesmo modelo ou fonte. 

Segunda frente envolve Santa Casa Saúde

A investigação avançou também sobre contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde. Conforme o Ministério Público, empresas formalmente controladas por Paulo da Cruz Duarte, descrito nos autos como sócio e parceiro profissional de Alir Terra Lima, passaram a prestar uma série de serviços à operadora.

As atividades contratadas iam desde assessoria jurídica, atendimento, cobrança e emissão de boletos até comercialização de planos, administração de beneficiários, entrevistas qualificadas, telemedicina, publicidade e trabalhos relacionados à implantação da filial de Dourados.

O volume de recursos movimentado por essas contratações chamou a atenção dos investigadores. Segundo os autos, somente em 2025, cerca de R$ 9,6 milhões foram repassados às empresas vinculadas a Paulo Duarte pelos diferentes serviços prestados à operadora.

No mesmo ano em que esses contratos movimentaram quasee 10 milhões, a Santa Casa Saúde registrou resultado negativo de aproximadamente R$ 3,6 milhões.

Além dos valores, o Gecoc passou a analisar a relação profissional existente entre Paulo e Alir antes mesmo das contratações.

Segundo a investigação, os dois já mantinham atuação conjunta na advocacia, aparecendo como advogados em processos nos quais representavam clientes em conjunto, além de compartilharem estrutura profissional instalada em imóvel pertencente a Alir.

Para o Ministério Público, esses vínculos integram o conjunto de elementos analisados para apurar as circunstâncias em que as empresas ligadas a Paulo passaram a prestar serviços à operadora.

MPMS fala em ocultação de documentos

Além dos contratos e pagamentos, uma parte significativa da investigação é dedicada ao que o Ministério Público classifica como uma “ocultação sistemática de documentos”.

Na prática, o Gecoc sustenta que informações consideradas essenciais para fiscalizar contratos e conferir pagamentos não eram entregues, eram fornecidas de maneira incompleta ou permaneciam fora do alcance dos órgãos de controle, mesmo após pedidos formais.

Entre os materiais cobrados estavam contratos e anexos, propostas comerciais, critérios usados para definir preços, memórias de cálculo, ordens de serviço, notas fiscais detalhadas e relatórios capazes de demonstrar quais serviços haviam sido efetivamente executados.

Segundo os investigadores, documentos necessários para reconstruir contratos, pagamentos e serviços teriam sido reiteradamente negados ou apresentados de forma incompleta ao Conselho Fiscal.

Um dos episódios citados pelo Ministério Público para sustentar essa suspeita envolve justamente o setor comandado por Monique.

No caso da Redvalue, o Conselho Fiscal encaminhou ofícios em março e abril de 2025 solicitando informações sobre a medição, conferência e fiscalização dos serviços de digitalização. Conforme os autos, os pedidos não foram respondidos.

Já na Operadora Santa Casa Saúde, o MPMS atribui a Beatriz Lemes da Silva a responsabilidade pela entrega de documentos relacionados às empresas vinculadas a Paulo Duarte.

A investigação afirma que, mesmo depois de sucessivas cobranças, teriam sido apresentados apenas documentos selecionados, permanecendo ausentes contratos originários, propostas comerciais, notas fiscais detalhadas, memórias de cálculo e relatórios de execução. 

CGE também teria enfrentado resistência

A dificuldade de acesso aos documentos, segundo o Ministério Público, não teria ficado restrita ao Conselho Fiscal. A Controladoria-Geral do Estado (CGE) realizou auditoria especial na Santa Casa com foco na aplicação de recursos financeiros provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS) durante 2025.

Quando requisitou informações sobre despesas da Santa Casa e da operadora, entretanto, a CGE não teria recebido todo o material solicitado. O relatório citado pelo MPMS registra problemas no fornecimento das informações.  

A controvérsia chegou ainda ao Poder Judiciário. Em uma ação de produção antecipada de provas movida pelo Instituto Artigo Quinto, a Justiça determinou a apresentação de documentos relacionados às contas, contratos e pagamentos da instituição. A determinação foi posteriormente confirmada pelo Tribunal de Justiça.

Segundo os autos da investigação criminal, Alir Terra Lima e Beatriz Lemes da Silva não apresentaram a documentação e recorreram da decisão.

Ao tratar da resistência da instituição, o juiz Eduardo Lacerda Trevizan registrou nos autos seu “espanto” com a resistência da Santa Casa em apresentar suas contas.  

Operação Antidotum

A partir do conjunto de elementos reunidos, o Ministério Público pediu à Justiça prisões preventivas, buscas e apreensões e o afastamento cautelar de investigados ligados à Santa Casa e à operadora. O requerimento foi apresentado pelo Gecoc, vinculado à 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande.

A Operação Antidotum foi deflagrada em 11 de setembro e levou à prisão preventiva de seis investigados. Segundo o Ministério Público, as condutas atribuídas a eles são diferentes e estariam relacionadas às diversas etapas das contratações e pagamentos apurados.

Alir Terra Lima, então presidente da Santa Casa, é apontada pelo Gecoc como figura central da estrutura sob investigação.

O órgão sustenta que ela teria permitido a manutenção de contratos sob suspeita mesmo após questionamentos de órgãos de fiscalização, além de exercer influência sobre decisões administrativas e financeiras da instituição.

Alessandro Dias Junqueira, que atuava na área administrativa e como fiscal do contrato da Redvalue, teria participado da contratação e atestado serviços cuja execução, segundo o MP, não estava suficientemente comprovada.

Rinaldo Hakme Romano, ligado à direção financeira, teria participado da condução do contrato, recebido de Maurício uma minuta do acordo antes da formalização do negócio e atuado na viabilização dos pagamentos.

Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa, que exercia função na área financeira e presidia o Comitê de Contratos, é apontado como participante da formalização do negócio e da programação e autorização de pagamentos que, conforme o Ministério Público, teriam ocorrido sem a comprovação integral dos serviços correspondentes.

Monique Gregório de Oliveira, já mencionada por comandar o setor relacionado à medição da digitalização dos prontuários, teria, segundo o Gecoc, conhecimento das falhas apontadas na aferição dos serviços.

A apuração também registra que pedidos de informações encaminhados pelo Conselho Fiscal ao setor não foram respondidos e analisa documentos posteriormente produzidos para justificar a execução dos serviços e os pagamentos.

Já o empresário Maurício Aparecido Benites é apontado pelo Ministério Público como responsável pelo núcleo empresarial relacionado à Redvalue.

Segundo a apuração, ele teria participado das tratativas do contrato, encaminhado previamente uma minuta do acordo e mantido vínculos com outras empresas que participaram da cotação utilizada na contratação.

Essas relações estão entre os elementos usados pelo Gecoc para sustentar a suspeita de que a concorrência entre as empresas teria sido apenas aparente, ou seja, de que as propostas apresentadas como alternativas para a contratação não representariam uma disputa efetiva entre empresas independentes.

As acusações fazem parte da investigação conduzida pelo Ministério Público e ainda serão submetidas ao contraditório e à análise da Justiça. Não há condenação dos investigados pelos fatos apurados na Operação Antidotum.

 

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