Campo Grande viveu mais um episódio de caos diante de uma grande chuva que atingiu a cidade esta semana. Por conta disso, o Correio do Estado conversou com Enéas José de Carvalho Netto, coordenador da Defesa Civil do Município, para entender o que está sendo feito nos últimos 30 dias e os planos para os próximos meses com a intensificação do El Niño.
Na quinta-feira, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), choveu 71 milímetros em Campo Grande durante o dia todo.
Na sexta-feira, a Capital superou os 200 mm no mês, o maior volume já registrado na cidade para o período. O acumulado é muito acima do que era esperado para todo o mês, que tem uma média histórica de 150,6 mm na Capital.
Como era de se esperar, diversos pontos da cidade sofreram prejuízos com as chuvas. Confira a entrevista.
Campo Grande chegou ao recorde de chuvas para outubro em 15 dias. Como a Defesa Civil vê essa situação?
Nós havíamos comunicado essa situação, nós fazemos um acompanhamento prévio de todas as fontes, de todos os institutos.
Nós temos o Noaa [National Oceanic and Atmospheric Administration], que é um instituto norte-americano que traz a previsibilidade já antecipada de possíveis eventos climáticos que possam vir a atingir e de que maneira eles vão atingir.
O fato desse super-El Niño foi muito descredibilizado, ele foi colocado como uma coisa que estava sendo alarmante demais.
A região sul, por exemplo, imediatamente decretou situação de emergência prévia, para poder assegurar que os impactos dessas alternâncias climáticas pudessem ser superados, tanto pela administração pública municipal, quanto pela estadual e até mesmo pelo governo federal.
Nesse sentido, nós já tínhamos o La Ninã lá atrás e nós oficiamos ao gabinete da prefeita, com o super-El Niño, a possibilidade dele chegar a Campo Grande. E realmente [chegou], hoje nós tivemos uma atividade que choveu no mês inteiro de outubro.
Agora, durante esses 15 dias já dobrou quase esse volume, podendo triplicar até o fim do mês. Em outubro do ano passado choveu 88 milímetros.
Até o presente momento, outubro deste ano já chegou a 202 milímetros. Então, assim, é um volume muito considerável.
O alerta emitido, porém, o que havia de previsibilidade, extrapolou o seu volume problemático.
Quantos chamados a Defesa Civil recebeu na quinta-feira? Já conseguiu atender a todos? Tem previsão de quanto tempo pode levar para atendê-los?
Nós tivemos mais de 50 chamados realizados. Estamos identificando um a um, porque o papel da Coordenadoria [Municipal] de Proteção e Defesa Civil é fazer o gerenciamento da crise, ou seja, gestão e coordenação, com as demais secretarias.
Aquilo que estava dentro da nossa alçada foi resolvido, que foram 26 [chamados], por desobstrução de via, o que nós pudemos atender.
O grande gargalo de Campo Grande hoje, e especialmente no dia de ontem [quinta-feira], foi a questão das inundações. Isso aí é o que trouxe um grave problema para nós. E ainda existem demandas chegando.
É a segunda grande chuva que a Capital tem em dois meses, como tem sido a atuação da Defesa Civil?
Os nossos grupos trabalham de 24 horas para 48 horas, porém, quando o agente vem para a Defesa Civil, ele entende que não tem essa.
A partir do momento que eu acionar eles, independente do que esteja sendo feito, exceto quando há uma questão de saúde, obviamente, respeitando isso, eles estão todos em sobreaviso e a postos para poder atender.
Os chamados das chuvas de setembro foram concluídos? Quanto tempo levou?
Todos foram resolvidos. Ainda existem pontos que devem ser feitos; a questão da limpeza urbana, que está sendo feita pela Sisep [Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos], mas ainda não temos uma previsão de quando deve ser finalizada.
Nós tivemos três momentos entre o mês de setembro e o mês de outubro que nós tivemos um alto índice pluviométrico com ventania, que impactaram também. Então, automaticamente, sobrecarrega também a Sisep.
Além do super-El Niño, as mudanças climáticas também são problemas enfrentados atualmente. Como a Defesa Civil tem se preparado para esses eventos extremos?
Exatamente na questão dos alertas, na questão da prevenção. Automaticamente quando você coloca também a possibilidade de ter essa previsibilidade de um fenômeno desse atingir o Brasil, nós já nos adiantamos.
Então, por exemplo, você pode observar que houve uma menor incidência de quedas de árvore em vias de alto fluxo, que são as leucenas, [foi] porque houve um trabalho em conjunto, tanto da Defesa Civil quanto da Sisep.
Há algum ponto da cidade que gere maior preocupação para o seguimento dessas chuvas? Por quê?
Não, todas elas. Cada uma tem a sua particularidade, cada uma tem a sua especificidade. Nós temos a região do Anhanduizinho, por exemplo, que nós temos o Córrego Anhanduí.
Ontem, ele saiu fora da caixa dele, que é algo que, nos últimos anos, ao longo de 16 anos que eu estou na prefeitura, não tinha visto algo daquela natureza.
A Capital vive uma emergência por conta das fortes chuvas e dos ventos que chegaram mais cedo esse ano. A Defesa Civil já tem perspectiva de como deve ser o verão, que geralmente é a estação mais chuvosa?
Chuva já começou, já está começando agora na primavera, que é uma época que comumente não acontecia isso. E, automaticamente, ela se intensificava na época do verão.
Então, com esse fenômeno agora, é o que eu coloco sempre para a população, ter a devida cautela e quando a gente sinaliza aqui pela Defesa Civil, ou seja, quando a gente coloca o alerta, não é que a gente está querendo provocar pânico, há um descrédito, a população não escuta, não ouve, isso é um fato. Quando nós emitimos um alerta, é exatamente falando para a população tomar cuidado.
Ontem nós estávamos na rua, por exemplo, durante o evento e eu sempre falo: não enfrenta a enxurrada. Mas, mesmo assim, as pessoas enfrentavam, passavam, acreditam que nada vai acontecer.
Então, o que nós estamos fazendo? Acompanhando todos os institutos. A gente acompanha em tempo real com câmeras e tudo mais. [Acompanhamos] os institutos, os centros de monitoramento e também mediante pesquisas a fim de que a gente possa programar, ou seja, conversar também com as secretarias [para analisar] como a gente pode trabalhar isso de tal maneira a haver um impacto menor para a população. E o impacto vai existir, não tem como.
Em razão da atual situação e a previsão de novas chuvas, tem alguma orientação para a população, para evitar acidentes?
Tem um pedido que eu faço: a população precisa acionar o 199. Se não acionar o 199, nós não temos capacidade de coordenar o trabalho das pastas responsáveis por cada uma das suas atuações. Ou seja, eu não tenho como acionar a Secretaria [Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos].
Eu não tenho como acionar a Secretaria [Municipal] de Assistência Social para poder falar: olha, determinado ponto foi atingido e expôs uma vulnerabilidade maior.
Vamos começar por aqui, depois passamos para cá, depois para cá. Eu não tenho como atender às demandas com as concessionárias, ou seja, Águas Guariroba ou Energisa.
E também quero explicar que a Defesa Civil é uma coordenadoria, ela não é uma paisagista, ela não é uma podadora de árvores, ela não é uma jardineira de Campo Grande, ela é uma instituição estabelecida por um regramento federal, por um pacto federativo, que traz a ela a competência de gestão de crise.
Então, a partir do momento que a população, com todo o respeito, aciona primeiro a imprensa, a imprensa chega com mais informação do que nós temos aqui.
Por exemplo, hoje [sexta-feira] cedo, às 7h, eu estava recebendo árvore caída, mas pela imprensa, não porque acionaram pelo 199, porque se tivesse acionado pelo 199, durante a madrugada as equipes já teriam feito esse trabalho, porque já tinha parado a chuva.
Então, pedir a sensibilidade da população de tal maneira que eles acreditem que a Defesa Civil tem sim o seu papel e o protagonismo em cima de toda a ação que ela deve fazer.
{ PERFIL }
Enéas José de Carvalho Netto
Formado em Direito pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp), atua como coordenador da Defesa Civil de Campo Grande desde novembro de 2024.
Antes, foi secretário-adjunto da Sisep e também chegou a atuar na Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários (Emha).


