Cidades

FIM DA CARREIRA

Odilon de Oliveira anuncia aposentadoria após 30 anos: "Não me arrependo de nada"

Ele é o magistrado que mais sentenciou integrantes do crime organizado em MS

VALQUIRIA ORIQUI

23/02/2017 - 16h52
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Juiz federal Odilon de Oliveira anunciou, em seu perfil no Facebook, que vai se aposentar. O magistrado que mais sentenciou integrantes do crime organizado em Mato Grosso do Sul usou uma foto com a esposa e alguns dizeres para anunciar o afastamento do cargo que ocupou por 30 anos.

Em comunicado, Odilon informa que pediu a contagem do tempo de serviço para entrar com pedido de aposentadoria. Oliveira afirma ainda que não se arrepende de nada, mesmo tendo passado mais da metade do tempo de serviço com escolta policial dentro de casa.

Conforme ele, dos 30 anos de contribuição, 18 foram vividos com escolta policial dentro de casa, já que, um dos maiores nomes da esfera federal sofreu em 2005 e 2013 tentativas de homicídio. Odilon de Oliveira é jurado de morte desde o início da década passada. Em seu currículo soma 120 traficantes condenados e mais de R$ 2 bilhões confiscado do crime organizado.

Confira na íntegra o texto publicado pelo juiz:

“Hoje, 23 de fevereiro, completo 30 anos como juiz federal, e hoje mesmo, pedi ao Tribunal a contagem de meu tempo de serviço para requerer aposentadoria. Dezoito desses 30 anos, ou seja, 2/3 com escolta policial dentro de casa. Embora tenha causado enorme constrangimento para nossa família, ainda não me arrependi de nada. Na terra, cada vida tem um propósito divino. Caloroso abraço”.

TENTATIVAS

Em dezembro de 2005, na cidade de Ponta Porã, dividida por uma rua da paraguaia Pedro Juan Caballero ocorreu a primeira tentativa. A trama envolveria chefes do narcotráfico revoltados com as decisões do juiz, sobretudo na época quando ele atuou na Vara da Justiça Federal de Ponta Porã.

Criminosos teriam criado uma espécie de consórcio pela cabeça do magistrado que, se morto, renderia ao bandido que o matasse em torno de US$ 300 mil.

A tentativa do segundo atentado contra Oliveira ocorreu no dia 4 de abril do mesmo ano. Na ocasião, o magistrado seguiu para a cidade onde iria ficar num hotel por 30 dias para substituir um colega juiz, que entraria de férias.

No dia 4 de maio, ainda em 2005, desta vez em Naviraí, cidade distante 259 quilômetros de Campo Grande, na região Cone-Sul do Estado, perto da fronteira com o Paraguai, o juiz foi retirado às pressas da cidade sob um forte aparato de segurança e a bordo de um helicóptero militar.

FILME

Para homenagear a trajetória de Odilon, foi gravado em 2015 o filme “Em nome da Lei”, que é baseado na história do juiz federal. O longa foi todo rodado em Dourados e contou em seu elenco principal com atores conhecidos do público como Chico Diaz, Paolla Oliveira e Mateus Solano.

O antigo Clube Samambaia, um dos espaços utilizados pela produtora Morena Filmes foi transformado na Justiça Federal de Mato Grosso do Sul,l onde foram feitas boa parte das imagens do filme.

A Rua Cuiabá, onde funciona a maior feira livre da cidade, um casarão na região do Jardim Girassol e as rodovias BR-163 e 463, também receberão movimentação para cenas.

Foram sete semanas de gravações que contaram com a participação de centenas de pessoas, entre atores e elenco de apoio. No dia 20 de abril do ano passado o filme pré-estreou em Campo Grande.

Para o juiz, o longa não apenas divulgou Mato Grosso do Sul, mas também despertou a consciência pela necessidade de o Brasil todo voltar os olhos para a fronteira, basicamente melhorar o relacionamento com os países vizinhos e na esfera ao combate contra o crime organizado.

Apesar de o enredo girar em torno da história de vida profissional do juiz, ele faz questão de ressaltar que todo o êxito do trabalho se deu em razão de trabalho conjunto. “Eu represento um universo de pessoas cujo trabalho inspirou a esse filme. O mérito é meu sim, mas também da Justiça Federal, da Polícia Federal, Ministério Público Federal, DOF e demais policiais que trabalharam em conjunto”, enfatizou.

INSPIRAÇÃO

Com custo de aproximadamente R$ 7 milhões, “Em Nome da Lei” narra a busca por justiça comandada pelo juiz federal Vitor Ferreira (interpretado por Mateus Solano), que chega à região de fronteira e se depara com o império do crime liderado pelo traficante Gomez (Chico Diaz). Com ajuda da promotora Alice (Paolla Oliveira) e do delegado Elton (Eduardo Galvão), Vitor trava uma guerra contra Gomez e seu esquema criminoso.

O diretor Sérgio Rezende idealizou o roteiro após ler uma matéria sobre o juiz federal Odilon de Oliveira, que ficou conhecido por sua atuação na fronteira Brasil-Paraguai, onde condenou 120 traficantes e confiscou mais de R$ 2 bilhões do crime organizado e, por isso, há dez anos vive sob escolta permanente de policiais federais. “Eu fiquei sabendo que ele enfrentava aqueles reis da fronteira, os criminosos, e achei uma história incrível. É uma parte do Brasil que a gente conhece pouco”, disse.

Animado com o projeto, o diretor iniciou visitas a Campo Grande, Ponta Porã e Pedro Juan Caballero. Vários encontros e conversas com o juiz e os policiais que fazem sua escolta ajudaram a dar forma ao argumento da obra. Contudo, Sérgio deixa claro que quanto mais se aprofundou no roteiro, mais se distanciou da realidade.

certeza de fuga

Pivô de escândalo no TJ paulista, megatraficante negociava retorno a MS

Romilton Hosi, que teria garantido R$ 1 milhão a desebargador paulista pela sua transferência, já comprou duas fugas dos presídios de Campo Grande

24/06/2024 10h50

Na última sexta-feira, o desembargador Ivo de Almeida foi afastado por um ano do TJ por suposta venda de sentença negociada com traficante

Na última sexta-feira, o desembargador Ivo de Almeida foi afastado por um ano do TJ por suposta venda de sentença negociada com traficante

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Pivô de um escândalo que na sexta-feira (21) da semana passada resultou no afastamento do desembargador Ivo de Almeira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, por suposta venda de sentença, o narcotraficante Romilton Aparecido Queiroz Hosi, 55 anos, tem longo histórico de fugas escandalosas do sistema prisional de Mato Grosso do Sul e tentava voltar para um presídio de Campo Grande a fim de conseguir escapar novamente.

Preso após a apreensão de 449 quilos de cocaína em Rio Verde em 2002, desembolsou em torno de R$ 1 milhão para que policiais militares facilitassem sua fuga do presídio de Segurança Máxima de Campo Grande em novembro de 2003. No ano anterior, já havia saído pela porta da frente do Instituto Penal de Campo Grande, também mediante pagamento de propina.

A “Operação Churrascada”, desencadeada na última sexta-feira (21) no estado de São Paulo, desmontou um suposto esquema de venda de sentenças não somente para traficantes, mas também para envolvidos em um esquema de desvios de recursos da saúde, que deu rombo de pelo menos R$ 40 milhões em prefeituras paulistas. 

Mas, uma das descobertas mais escandalosas feitas pela Polícia Federal na "Operação Churrascda" é que o desembargador Ivo de Almeida teria negociado o recebimento de R$ 1 milhão para que Romilton Hosi fosse transferido de São Paulo para Campo Grande e após essa transferência seria providenciada a sua fuga, uma vez que já havia obtido sucesso duas vezes em Mato Grosso do Sul. 

Porém, o desembargador não conseguiu convencer seus colegas de Câmara e por isso a transferência e a fuga ainda não haviam sido concretizadas até agora. A Polícia Federal chegou a pedir a prisão do desembargador, mas o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido e o afastou por um ano.

A operação recebeu o nome de Churrascada porque era essse termo que os advogados usavam para indicar o dia em que Ivo de Almeida estava de plantão e nestas datas aproveitavam para protocolar seus recursos.

LIBERDADE COMPRADA

Mas, no dia 17 de novembro de 2003, os planos de Romilton Hosi haviam dado certo e ele sumiu depois de prestar depoimento no fórum de Campo Grande. Ele estava em um ônibus com outros 32 detentos e só quando o veículo voltou ao presídio de segurança máxima é que foi descoberta a sua fuga. Ele foi liberado ainda dentro do fórum, fugiu para o Paraguai e rotomou suas atividades no narcotráfico.

A suspeita é de que tenha pagado propina para nove policiais que eram responsáveis pela escolta para que o liberasse no meio do caminho. Por conta da fuga, três deles foram condenados a 3,5 anos de prisão e outros dois, a um ano e 11 meses. Os outros quatro foram absolvidos.

Dias depois da fuga, três integrantes da cúpula do sistema penitenciário também foram afastados dos seus cargos. Eles simplesmente ignoraram um ofício enviado semanas antes pelo juiz federal  José Paulo Cinotti  para que fosse providenciada escolta especial para Romilton, pois a Justiça Federal havia descoberto que ele teria pagado R$ 1 milhão para bancar sua fuga no dia da audiência.

Ele estava preso em Campo Grande desde setembro de 2022 e condenado a 20 anos de prisão por ser um dos proprietários de um carregamento de 449 quilos de cocaína apreendido em um avião na cidade de Rio Verde de Mato Grosso (MS), cidade a 200 quilômetros ao norte de Campo Grande. 

Na época, Romilton foi apontado como integrante da quadrilha de Leonardo Dias Mendonça, um dos mais poderosos traficantes de cocaína do Brasil na época e um dos chefes do Comando Vermelho, facção que tinha como chefe maior o narcotraficante Fernandinho Beira Mar.

 Atualmente, segundo a Polícia Federal,  Romilton faz parte do bando comandado pelo traficante  Sérgio de Arruda Quintiliano Neto, o Minotauro, do Primeiro Comando da Capital (PCC), que também está preso. 

Pouco antes de ser preso com com os 449 quilos de cocaína, Romilton já havia escapado pela porta da frente do Instituto Penal de Campo Grande. Por conta desta fuga, que também foi à base de pagamento de propina a servidores públicos, um agente penitenciário chegou a ser demitido.


Histórico de Romilton Hosi

Depois da segunda fuga, o Comandante Johnnie, como é conhecido Romilton, ficou 16 anos desaparecido. Condenado a quase 40 anos de prisão por tráfico internacional de cocaína, ele não é um traficante comum. Além da PF, polícias dos Estados Unidos, Inglaterra, Paraguai e outros países caçavam Hosi.

Em 2019 o piloto foi preso novamente pela Polícia Federal. Ele usava o nome falso de Robson Magalhães Neto, que era apenas uma das cinco identidades falsas que utilizava. Com ele foram descobertos mais de 300 quilos de droga e diversas armas de grosso calibre..

Nessa época, já stava associado a outro chefão do pó: o Minotauro, que assumiu posto chave do PCC no tráfico internacional, a partir de 2016, após a morte de Jorge Rafat, que até então era o chefão do narcotráfico na fronteira entre Mato Grosso do Sul e o Paraguai.

Foi a partir da prisão de Hosi, em março de 2019, em Jundiaí (SP), feita pela PF e pela National Crime Agency (NCA), do Reino Unido, que no ano seguinte foi deflagrada a Operação Além-Mar.

Minotauro foi o alvo central. Foram apreendidas mais de 11 toneladas de cocaína que o grupo movimentou, no Brasil e na Europa, de 2018 a 2021. Na Além-Mar, foram identificados e sequestrados pela Justiça de Pernambuco sete aviões, nove helicópteros, 42 caminhões, 35 imóveis (mansões e fazendas) e R$ 100 milhões.
 

INTERIOR DO ESTADO

Usina de R$ 900 mil do 'prefeito mais novo do MS' está na mira do Ministério Público

Gestor de Rio Brilhante virou alvo após comprar e 'estacionar' modelo semelhante ao que a Capital precisou de consórcio, com outros quatro municípios, para operacionalizar e bancar os custos

24/06/2024 10h42

Maquinário abandonado estava dividido em dois terrenos diferentes no município

Maquinário abandonado estava dividido em dois terrenos diferentes no município Reprodução/MPMS

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Eleito aos 26 anos, Lucas Centenaro Foroni, "o prefeito mais novo do MS" que chefia o Executivo em Rio Brilhante, está na mira do Ministério Público após aquisição de uma usina de asfalto pelo preço de R$ 900 mil virar alvo de notícia crime, isso porque o município queria "bancar" sozinho a produção de concreto, em um modelo em que a Capital, por exemplo, precisou de consórcio com outras quatro cidades para tocar em frente.

Como bem destacou o prefeito ainda na época da compra, em junho de 2021, a "usina processadora de concreto asfáltico usinado a quente, e espargidor rebocável", deveria reduzir em 40% o custo da pavimentação em Rio Brilhante.

Entretanto, ainda no final de 2022 o maquinário já era alvo de notícias entre a mídia local, que apontavam que esse maquinário sequer chegou a ser usado e estaria "estacionado" por cerca de 12 meses consecutivos sem uso desde a compra.

"A máquina adquirida nunca foi usada pelo Poder Público e encontra-se em lamentável estado de deterioração, conforme faz prova os documentos em anexo, em evidente ato de improbidade administrativa devido a efetiva lesão ao erário, perda patrimonial e dilapidação do bem público", aponta trecho da notícia de fato. 

Já em 31 de agosto do ano passado, foi determinado que o técnico da promotoria de Justiça encontrasse e constatasse por foto as atuais condições do maquinário, o que foi feito e assinado pelo profissional Valter Ribeiro dos Santos Júnior, em 04 de setembro de 2023. 

Conforme o técnico, a "usina de asfalto quente" foi localizada, dividida e armazenada em dois espaços diferentes, sendo que enquanto dois toneis estavam no terreno da chamada "oficina da Prefeitura", a parte central estava no terreno ao lado em uma propriedade particular. 

'Mirou no que viu'

A promotoria de Justiça solicitou ao município que fosse informada a situação do bem adquirido, se vem sendo realizadas manutenções periódicas, bem como se vem sendo utilizado. 

Em outubro do ano passado, o então secretário Municipal de Infraestrutura, Hugo Koji Suekame, detalhou que a ideia do Executivo ainda na época da compra era que a Prefeitura, através da pasta, "iria operacionar o equipamento com seu quadro profissional e aquisição de insumos para seu processamento". 

O município então buscou estudo ambiental e, em paralelo, realizou uma licitação para comprar os insumos necessários, com a ideia de produzir por conta própria o chamado Concreto Betuminoso de Usina à Quente (CBUQ), a que não atraiu interesse de nenhuma empresa e deu deserta. 

Com isso, o município partiu em busca de novos estudos de viabilidade de mercado, comparando as seguintes soluções: 

  1. | Produção por conta própria, equipe e materiais
  2. | Contratação de mão de obra qualificada para a produção do CBUQ
  3. | Concessão do espaço e equipamento.

Com base em uma produção estimada de 14.265 toneladas de concreto anualmente, o valor estimado a ser gasto pela Prefeitura para a produção seria de 8.424.909,00, segundo levantamento feito pelo setor de engenharia do município de Rio Brilhante. 

Se comparada com a terceirização da mão de obra, o gasto anual previsto nesse segundo, conforme o município, seria de R$ 9.976.085,1. 

Já para o 3º caso, o Executivo frisa que "não é possível calcular o lucro da empresa" pelos diversos fatores, que vão desde quantidade; demanda; variação de preços e custos.

"Porém, a Administração considerando o investimento na aquisição da usina, de R$ 766.869,81, estimam-se 5% de porcentagem mínima para a concessão, calculados sobre o valor estimado de produção", expõe o documento do secretário de infraestrutura. 

Levando em conta a estimativa de concessão de 5%, o valor médio anual previsto pela prefeitura é de R$ 421.245,45, fato que faria o município recuperar o investimento na compra da usina em aproximadamente 2,2 anos. 

"A alternativa da concessão é a solução mais viável, na qual estamos procedendo o processo administrativo licitatório, conforme, intenção de compra já enviado via memorando pelo Sistema 1doc", cita o documento assinado por Hugo Koji Suekame em outubro do ano passado. 

Enquanto isso...

Como mostrado pelo Correio do Estado, para adquirir um modelo dessa usina móvel de pavimentação asfáltica, mais pá carregadeira, a cidade de Campo Grande precisou aderir ao chamado "Consórcio Central MS", ao lado de outros quatro municípios. 

Através da união da Capital; Jaraguari; Dois Irmãos do Buriti; Terenos e Sidrolândia no Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento Sustentável da Região Central de Mato Grosso do Sul, os municípios desembolsaram R$ 5 milhões. 

Isso porque, por meio dessa usina, a promessa que vem junto, além de reduzir os custos, é "asfaltar uma rua inteira em dois dias". 

Nesse caso Campo Grande foi quem arcou com a maioria dos custos (80%), destinando R$ 4 milhões, enquanto os demais municípios desembolsaram: 

  • R$ 494,1 mil - Sidrolândia
  • R$ 224,1 mil - Terenos 
  • R$ 156,6 mil - Dois Irmãos do Buriti
  • R$ 125,2 mil - Jaraguari

Nessa empreitada é somado R$ 1,4 mi, destinados pela então Senadora, Tereza Cristina, para compra da máquina que espalha e nivela o asfalto enquanto acontece a pavimentação, conhecido como "vibro acabadora", fechando o ciclo de produção. 

Nessa estratégia do consórcio, a projeção de economia de 35% se dá ao fato de não ter incidência de impostos na transação - diferente do que seria com fornecedor privado - e como o consórcio não busca lucro há entrega do material ao preço menor. 

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