Cerca de um ano após o desmantelamento da chamada "quadrilha do narcopix", o policial civil demitido diante da acusação de atuar como "motorista do tráfico de drogas", Anderson César dos Santos Gomes, foi condenado neste mês de janeiro a mais de 13 anos de reclusão.
Como bem acompanha o Correio do Estado, Anderson César dos Santos Gomes e Hugo Cesar Benites eram lotados na 1ª Delegacia de Polícia Civil de Ponta Porã, quando foram apontados como peças determinantes para o translado da droga até um entreposto do grupo criminoso, localizado em Campo Grande.
Ambos caíram durante a segunda fase da Operação Snow, que detalha a vida luxuosa, prisões e a apreensão de R$40 milhões em drogas apreendidas junto de policiais civis, acusados de integrarem essa organização criminosos que escoavam drogas da fronteira com o Paraguai até São Paulo.
Hugo Cesar Benites foi condenado ainda em setembro do ano passado, a 13 anos e cinco meses de prisão, após ser flagrado descarregando caixas carregadas de substâncias ilícitas, na prática conhecida no mundo do crime como “frete seguro”, a condenação de Anderson só veio à tona neste primeiro mês de 2026.
Sendo que esse processo de ação penal corre em segredo, a condenação de Anderson César dos Santos Gomes foi publicada na edição do Diário da Justiça Eletrônica do último dia 08, qualificando à pena de 13 anos e cinco meses de reclusão.
Além disso, conforme o Diário da Justiça, fica previsto: "950 (novecentos e cinquenta) dias-multa, à razão unitária de 1/30 do salário mínimo vigente à época do fato, corrigido monetariamente, pela prática dos crimes previstos no artigo 2º, § 4º, inciso II, da Lei n. 12.850/2013, artigo 33, caput c.c artigo 40, inciso V, ambos da Lei n.º 11.343/06 c.c artigo 29 do Código Penal, em concurso material (CP. art. 69)".
Entenda
Morador de uma mansão avaliada em R$ 2 milhões, Anderson é apontado como motorista da viatura da polícia utilizada para o descarregamento das caixas transportadas até uma casa no Jardim Pênfigo, bairro da Capital.
Essa investigação constatou que o padrão de vida do investigador de Polícia Judiciária de 1ª Classe, então morador de Ponta Porã, era incompatível com os R$9 mil mensais recebidos por ele dentro da corporação.
“Apresenta patrimônio milionário e totalmente incompatível com sua remuneração, advindo de atividades ilícitas, especialmente a traficância em larga escala e de grande quantidade”, diz trecho do inquérito.
Mais que isso, as buscas destacaram que Anderson possui uma caminhonete VW Amarok, de uso diário de mais de R$ 160 mil, enquanto sua esposa, professora da Rede Estadual de Ensino (REE), e com remuneração mensal de R$ 2 mil detém um Jeep Compass Limited com valor de R$246 mil.
Por seu padrão de vida, Anderson já havia sido alvo de denúncia anônima formulada junto à Polícia Federal de Ponta Porã no final de 2022.
Anderson tem o nome ligado à apreensão de 538,1kg de cocaína, carga avaliada em mais de R$ 40 milhões, apreendida no dia 5 de setembro de 2023, em Dourados, que resultou na prisão de Alexandre Novaes Medeiros e de Alexandre Ferreira Mavic, cuja responsabilidade era guardar a droga transportada pelos agentes públicos.
Apesar de não atribuir a droga à organização criminosa, o fato serviu para que a polícia chegasse até Anderson , que foi preso cautelarmente em setembro.
Modus Operandi
Durante a Operação Snow, foi detalhado que quadrilha ligada ao tráfico de drogas contava com uma extensa rede logística de transporte, que iam desde caminhões, até carros e rastreadores, todos utilizados para levar entorpecentes de Ponta Porã, na fronteira com o Paraguai, para outros estados do País, sobretudo São Paulo.
O grupo, segundo a polícia, era encabeçado por Joesley da Rosa.
Com a quadrilha baseada em Campo Grande, o transporte era, em regra, feito em compartimentos ocultos de caminhões frigoríficos (“mocós”), dada a maior dificuldade de fiscalização policial, já que com a carga ilícita vinham cargas perecíveis.
Cabia à organização criminosa providenciar a inserção da droga em um compartimento previamente preparado para, posteriormente, carregar o veículo com as cargas lícitas que seriam transportadas, após isso, o baú refrigerado era lacrado.
Para mascarar os devidos proprietários e evitar chamar atenção em possível fiscalização policial, geralmente, a liberação é mais rápida quando o motorista consta como proprietário do veículo, a organização criminosa promovia a transferência de propriedade dos automóveis para os motoristas e para as empresas que eram utilizadas no esquema criminoso.
A 3ª Vara Criminal de Campo Grande chegou a impor, em agosto do ano passado, pena de 23 anos e 9 meses ao operador financeiro da quadrilha, Luiz Paulo da Silva Santos, e de 18 anos e 6 meses a Joesley da Rosa, acusado de ser o chefe do esquema.
Além deles foram condenadas outras 14 pessoas pelo esquema criminoso, em penas que até 2025 já somavam 145 anos. Veja a lista dos condenados:
- Luiz Paulo da Silva Santos – 23 anos e 09 meses
- Joesley da Rosa – 18 anos e 06 meses
- Mayk Rodrigo Gama – 13 anos e 11 meses de reclusão
- Hugo Cesar Benites – 13 anos e 05 meses
- Rodney Gonçalves Medina – 12 anos e 03 meses de reclusão
- Eric do Nascimento Marques – 12 anos e 03 meses
- Jucimar Galvan – 10 anos e 08 meses
- Ademilson Cramolish Palombo – 06 anos e 5 meses de prisão
- Douglas Lima de Oliveira – 05 anos e 03 meses de prisão
- Fernando Henrique Souza dos Santos – 04 anos e 01 mês
- Bruno Ascari – 04 anos e 01 mês – 17 dias-multa
- Adriano Diogo Veríssimo – 04 anos, 01 mês
- Ademar Almeida Ribas – 04 anos, 01 mês
- Frank Santos de Oliveira – 04 anos e 01 mês
- Márcio André Rocha Faria – 04 anos e 01 mês de reclusão
- Wellington de Souza Lima – 04 anos e 01 mês
- Anderson César dos Santos Gomes - 13 anos e 05 meses de reclusão.



