São Paulo
Hugh Laurie planejava usar um pseudônimo para lançar, em 1996, o romance de espionagem O Vendedor de Armas, de modo que sua fama como ator não interferisse na recepção do livro. Seu agente o convenceu de que não havia mal nenhum em garantir a venda de alguns exemplares entre fãs que ele já havia conquistado por mérito próprio. Com o detalhe de que, na época, o britânico era conhecido fora da Inglaterra apenas por pequenos papeis nos filmes Razão e Sensibilidade (1995) e 101 Dálmatas (1996), e, dentro dela, nos palcos e graças a séries como A Bit of Fry and Laurie e Jeeves and Wooster.
Eram de fato tempos bem diferentes. Na edição que chega agora às livrarias brasileiras (Planeta, 288 págs., R$ 39,90), o nome Hugh Laurie aparece com mais destaque inclusive que o título da obra na ostensiva capa cor de abóbora. Há também uma foto do ator ocupando toda a quarta capa, para o eventual caso de alguém não associar o nome à pessoa. Treze anos após a estreia literária, o protagonista de House - a série mais vista da tevê a cabo no Brasil, hoje na sexta temporada no Universal Channel e no quarto ano no canal aberto Record - virou uma grife que não se pode mesmo desperdiçar.
Semelhanças
Hugh Laurie escreveu roteiros de comédias desde o início de sua carreira como ator, ainda na Universidade de Cambridge, e foi coautor, com Stephen Fry, do roteiro de séries britânicas de sucesso como A Bit of Fry and Laurie. Seu nome não aparece nos créditos de roteiro de House, mas o personagem principal de O Vendedor de Armas tem inegáveis semelhanças com o médico que Laurie interpreta na série, como o cinismo que várias vezes atravessa a fronteira do mau humor.
É inevitável imaginar o próprio Hugh Laurie em cenas como aquela em que, sabendo que está sendo seguido por dois homens, Lang dá uma pausa antes de descer do ônibus e avisa a eles que é melhor saltarem com ele, para que não precisem "descer no ponto seguinte e correr". O ex-militar também destrincha nós da trama com um poder de dedução equivalente à capacidade sherlockiana que Gregory House desenvolveu para diagnosticar doenças.
Escrito bem antes de Hugh Laurie começar a fazer sucesso nos Estados Unidos, o livro trata ainda da conturbada relação entre americanos e britânicos que viria a fazer parte da vida do ator - em 2008, ele chegou a se queixar em entrevistas de estar sendo esnobado em seu país desde que os americanos se apaixonaram por House.
No romance, Laurie coloca Lang, britânico como ele, argumentando com o empresário americano: "Imagino que seja estranho para você estar aqui na Inglaterra. Sei que para vocês nós somos uma nação de caipiras, que só conseguimos água quente uns dias antes de sua chegada aqui, mas, mesmo assim, preciso dizer que já tinha ouvido tudo isso antes".
Hoje em dia, o ator de 50 anos vive com a mulher e os três filhos entre Los Angeles, onde enfim comprou uma casa, e Londres "Eu até gosto de Los Angeles. Em parte porque me disseram que eu não gostaria", disse o ator numa entrevista recente ao Daily Telegraph.

