Além da violência física do homem contra a mulher, que atinge diversas classes sociais, alguns casos não deixam hematomas visíveis, mas causam marcas profundas por agressões psicológicas, financeiras e sexuais.
No Agosto Lilás, mês dedicado a quebrar o silêncio, a psicóloga Simone Cougo, professora universitária, explica que, entre os sinais mais comuns, está o ciúme excessivo.
O ciúme que nasce disfarçado de “cuidado” ocorre em situações em que o companheiro passa a controlar a roupa da mulher. Inicialmente, pode passar despercebido, mas, a partir desse gesto, outras formas de controle vão sendo praticadas na vida dela.
Existe o ciclo de críticas constantes, que lentamente vão minando a autoestima da mulher. Também é um método de exercer controle; em seguida, ocorrem chantagens, e o indivíduo exige monitorar redes sociais e seguir a rotina da vítima.
Com esse comportamento, o agressor consegue afastar a vítima de familiares e amigos, mas tudo vai sendo retirado aos poucos, conforme frisou a especialista.
“Em geral, a agressão começa de forma sutil e se intensifica gradualmente. O agressor alterna momentos de violência com gestos de carinho, criando confusão emocional e gerando o ciclo da violência. Estereótipos românticos, como considerar que ‘ciúmes é amor’, dificultam que a vítima perceba o controle como algo nocivo”, explica.
O chamado “ciclo de violência” se repete em três fases:
- Tensão: quando surgem sinais de irritação;
- Críticas e agressões verbais;
- Explosão: marcada por atos de violência.
O momento da explosão pode envolver violência psicológica, física ou até patrimonial. Na sequência, a psicóloga disse que é muito comum a reconciliação ser marcada por um ritual de “lua de mel”, com pedidos de desculpas, promessas de mudar e retorno de demonstrações de afeto que causam confusão na cabeça da mulher, que está suscetível.
“A vítima acaba permanecendo na relação por dependência emocional, por esperar que o agressor mude ou por dependência financeira. Muitas vezes, há também pressão social ou familiar para manter o relacionamento”, afirma.
A mulher afastada da família e dos amigos, que encontra nessa figura papéis confusos, termina com consequências emocionais e físicas que vão desde:
- transtornos de ansiedade e depressão;
- baixa autoestima;
- estresse pós-traumático;
- sentimento de culpa e vergonha.
“No longo prazo, isso pode gerar dificuldade para estabelecer relações de confiança, problemas no ambiente de trabalho, baixa produtividade, absenteísmo e até doenças físicas relacionadas ao estresse crônico, como dores persistentes e problemas cardiovasculares”, detalha.
Violência patrimonial
O controle da renda do casal é outro ponto em que a mulher vulnerável se encontra em um caminho silencioso. Pode ocorrer do agressor usar o dinheiro sem consentimento.
Em situações mais graves, Simone diz que bens pessoais são escondidos ou destruídos. Em casos mais drásticos, os filhos são usados como forma de chantagem.
“O controle não é só sobre o dinheiro ou a rotina, é sobre a vida da vítima como um todo. Ela passa a depender dele para tudo”, ressalta Simone.
Rede de apoio
“Família, amigos, colegas de trabalho e instituições podem oferecer suporte emocional, orientação jurídica, acesso a abrigos e serviços sociais, além de ajudar na elaboração de um plano seguro de saída do relacionamento abusivo”, aponta.
Nesse sentido, o Agosto Lilás reforça o papel de canais de denúncia e proteção, como a Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180, que funciona 24 horas por dia, gratuitamente, oferecendo informações sobre leis e direitos, localizando serviços especializados e encaminhando denúncias.
O canal também pode ser acionado pelo WhatsApp, no número (61) 9610-0180. Em casos de risco iminente, o contato deve ser feito pelo 190.
Para Simone Cougo, a conscientização precisa ser contínua.
“Campanhas como o Agosto Lilás ajudam a divulgar a Lei Maria da Penha, a incentivar a denúncia e a divulgar ONGs e coletivos de apoio. Mas é preciso ir além: educação sobre igualdade de gênero desde cedo, treinamentos para profissionais da saúde, educação e segurança pública, ampliação de canais de denúncia anônima e campanhas permanentes. Não basta falar sobre violência só em agosto”, conclui.




