A Secretaria Municipal de Educação de Campo Grande (Semed) assinou contrato de R$ 15,7 milhões para compra de brinquedos e parquinhos com a empresa do empresário Waldemar Ábila, que em dezembro de 2019 foi pivô de uma operação do Ministério Público da Paraíba que resultou na prisão do ex-governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, e de uma série de servidores públicos e empresários por conta de indícios de cobrança de propina.
A assinatura do contrato com a Empresa Onda Pro Importadora de Multivariedades e Suprimentos, comandada por Waldemar, foi publicada em edição extra do diário oficial de Campo Grande na tarde desta quinta-feira (29) e a previsão é de que os brinquedos e parquinhos sejam distribuídos em todas as 205 escolas de ensino infantil e fundamental de Campo Grande. Em boa parte das Emeis já existem parquinhos.
A prisão do ex-governador paraibano ocorreu em 19 de dezembro 2019, quando o MPE apontou desvios da ordem de R$ R$ 134 milhões na administração estadual. Uma das empresas envolvidas era a Brink Mobil, cujo proprietário é Waldemar Ábila, de Curitiba.
Sua empresa, conforme a investigação pontou à época, recebeu R$ 98.997.102,06 entre 2013 e 2018 do governo paraibano em contratos com a secretaria de educação, principalmente para entrega de material de robótica.
Na época, Ivan Burity, um dos delatores do esquema, relatou ao MPE que “após determinação de Livania, fui a Curitiba por meio de voo de carreira e me hospedei em um hotel próximo ao Centro Cívico (hotel Bristol). Fui até o escritório da Brink Mobil na Rua Ricardo Lemos 404, bairro Ahú, de táxi, à tarde, acertar detalhes da entrega do dinheiro e do voo de volta para João Pessoa”.
“Na oportunidade, fui informado por Waldemar que ele dispunha de um jatinho que decolaria de um aeroporto secundário em Curitiba a partir de um hangar de um amigo do genro dele (Waldemar), onde eu não precisaria me preocupar com fiscalizações. No dia seguinte, Waldemar foi ao Hotel Bristol, cedo da manhã, e me levou uma mala com aproximadamente R$ 1 milhão”, detalhou o delator.
“Esse dinheiro se referia a uma licitação realizada na Secretaria de Educação para aquisição de material de robótica. Ao encontrar com Waldemar no saguão do hotel, rumamos juntos para um aeroclube onde ele me direcionou a um hangar de onde embarquei em um jato e voei até o hangar do Estado da Paraíba em JPA. Detalhe: Fiquei preocupado com o desembarque, mas Livania me tranquilizou afirmando que o Governador Ricardo havia determinado que o chefe da Casa Militar (Coronel Chaves) iria comandar, pessoalmente, a operação. O que de fato ocorreu”.
E essa foi somente uma das viagens que Ivan Buriti diz ter feito a Curitiba para buscar propina. Em uma segunda vez, no dia 20 de dezembro de 2014, diz ter voltado da capital paranaense com uma mala contendo em torno de R$ 800 mil, que também teria sido entregue pessoalmente por Waldemar.
Levado novamente em um jatinho particular, cujo aluguel custou R$ 60 mil, chegou ao aerporto de João Pessoa e afirma ter sido recebido por uma equipe da PM e foi escoltado até passar pelo posto da Polícia Rodoviária Federal para não correr o risco de ter o dinheiro apreendido. No depoimento detalha ainda que a propina variava de 5% a 20% do valor dos contratos.
Colocado em liberdade dois dias depois da prisão, Ricardo Coutinho passou a usar tornozeleira eletrônica e não foi julgado até hoje, mas uma série de ações tramitam na Justiça. Em 2020 chegou a disputar a prefeitura de João Pessoa, mas ficou em sexto lugar, com 10% dos votos.
O empresário empresário Waldemar Ábila e os demais denunciados na Operação Calvário- Juízo Final, considerado um dos maiores escândalos na política da Paraíba, também não foram julgados ainda.
AGILIDADE NA COMPRA
No Nordeste, a empresa de Waldemar Ábila vencia as licitações por meio de pregões eletrônicos ou presenciais supostamente direcionados. Em Campo Grande, a empresa dele, a Onda Pro, foi escolhida por meio de adesão a Ata de Registro de Preços feita pelo Consórcio Público Prodnorte.
Esse consórcio é formado por 12 prefeituras da região norte do Espírito Santo, cuja sede fica a cerca de 1,8 mil quilômetros de Campo Grande
Normalmente, a compra por meio de ata de registro de preços é para produtos de uso contínuo, como merenda escolar e material escolar e medicamentos.
Por exemplo, se uma prefeitura precisa comprar canetas para as escolas, mas não sabe a quantidade exata que precisa, caso a demanda exceda o estimado, a prefeitura pode se beneficiar da Ata de Registro de Preços para adquirir um novo lote sem a necessidade de fazer um novo procedimento licitatório
Porém, em pouco mais de um mês a Semed utilizou este tipo de licitação para compras que já somam pouco mais de R$ 92,4 milhões.
Além dos 15,7 milhões para compra de parquinhos, foram outros R$ 7,44 milhões para aquisição de notebooks, R$ 27,3 milhões na compra de mobília escolar e mais R$ 42 milhões para construção de 166 salas de aula modulares.
Estes investimentos fazem parte de um pacote de quase R$ 200 milhões no setor de educação de Campo Grande. Ainda faltam ser anunciados oficialmente os fornecedores de aparelhos de ar condicionado e de equipamentos de energia solar, os quais devem demandar outros R$ 60 milhões. De acordo com a prefeitura, tudo está sendo pago com recursos próprios.
Para tentar falar com o empresário, o Correio do Estado ligou para os telefones que constam no site da empresa Onda Pro, com sede em Campina Grande do Sul, cidade a 30 quilômetros de Curitiba, mas as ligações não foram atendidas.




