Cidades

Corrupção no Judiciário

STJ suspende 1ª decisão de esquema de venda de sentenças em MS

Golpe em compra de fazenda milionária no Pantanal, validado por magistrados alvos da Operação Última Ratio, da Polícia Federal, foi suspenso na Corte Superior

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O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Raul Araújo, reverteu o acórdão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul que validou um golpe milionário na compra da Fazenda Vai quem Quer, no município de Corumbá.

Trata-se da primeira decisão da corte superior que suspende os efeitos de decisões sob suspeitas de corrupção, investigadas pela Polícia Federal na Operação Ultima Ratio, que tem como alvo desembargadores aposentados e em atividade no tribunal sul-mato-grossense. 

O acórdão do TJMS suspenso pelo STJ indicava uma atuação conjunta dos desembargadores de Mato Grosso do Sul, Sideni Pimentel, Alexandre Bastos e Vladimir Abreu da Silva, para manter a propriedade rural de 5,6 mil hectares, no Pantanal de MS, com um casal acusado aplicar um golpe no vendedor da propriedade. A fazenda é avaliada em mais de R$ 15 milhões. 

Na liminar concedida há aproximadamente 20 dias, o ministro Raul Araújo mandou suspender o acórdão sob suspeita de corrupção que manteve a Fazenda Vai Quem Quer com os compradores Lydio de Souza Rodrigues e Neiva Rodrigues Torres, e ainda mandou averbar a existência de ação de rescisão contratual nas matrículas dos imóveis. 

O casal é acusado na esfera criminal, pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul, de crime de estelionato, justamente por omitir vícios da fazenda localizada no Vale do Ribeira, no Estado de São Paulo, no ato da permuta com Ricardo Pereira Cavassa, produtor rural vítima do golpe. 

No pedido de tutela provisória ajuizado no STJ, Ricardo Pereira Cavassa havia pedido também a reintegração da posse da fazenda Vai quem Quer, mas não houve determinação para isso na sentença do ministro Raul Araújo. Ao mesmo tempo, o magistrado do STJ também não negou o pedido do fazendeiro supostamente lesado pelo casal paulista, o que pode abrir brecha para um futuro embargo de declaração. 

“E no presente caso, ao menos aparentemente, os requeridos não forneceram informações claras e objetivas sobre o contrato, ao omitir dolosamente que não eram proprietários de uma das matrículas permutadas, que fora adjudicada a terceiros em ação judicial; pendiam gravames sobre três das matrículas que, ressalte-se, não foram registrados na matrícula dos imóveis; e pendiam sobre uma das matrículas diversas multas ambientais”, argumentou o ministro do STJ ao fundamentar a liminar.

Os indícios de corrupção na turma cível da qual faziam parte os desembargadores Sideni Pimentel (afastado após a operação e aposentado neste ano) e Alexandre Bastos (afastado desde a operação, em outubro de 2024), também foram usados por Ricardo Cavassa para fundamentar seu pedido ao ministro do STJ. 

"Para fundamentar seu pedido de efeito suspensivo, a parte requerente (...) afirma haver indícios de corrupção e “venda de sentença” no julgamento do acórdão recorrido, com referência ao Inquérito n. 4.982 no Supremo Tribunal Federal (Operação “Ultima Ratio”) e à abertura de procedimento disciplinar no Conselho Nacional de Justiça contra desembargador que participou do julgamento”, relatou o ministro Raul Araújo. 

“Alega que o acórdão teria sido proferido contra a prova dos autos, com fundamentos juridicamente insustentáveis, inovação recursal e desconsideração de fatos supervenientes (regularização das matrículas da Fazenda Vai Quem Quer em nome do requerente, apontada nos embargos de declaração), reforçando a plausibilidade jurídica do pedido”, complementou o ministro.

O magistrado da Corte Superior ainda levou em consideração o princípio do princípio da demora, por causa do risco de os compradores se desfazerem de parte da fazenda no Pantanal. 

O casal favorecido pelos desembargadores afastados por corrupção já firmaram promessa de compra e venda com terceiros envolvendo parte do imóvel e ainda anunciaram a venda de outra parte em site especializado de vendas de imóveis rurais, conforme expõe o ministro do STJ. 

Entenda o caso

A decisão de três desembargadores do TJMS reformou sentença de primeira instância que havia anulado um negócio imobiliário considerado fraudulento e contrariou uma ação criminal de estelionato movida pelo Ministério Público contra os compradores da Fazenda Vai Quem Quer. 

O casal Lydio de Souza Rodrigues e Neiva Rodrigues Torres é acusado de aplicar um golpe no vendedor, Ricardo Pereira Cavassa.

Segundo o MPMS, as quatro fazendas em Iguape (SP) oferecidas na permuta estavam carregadas de gravames, bloqueios judiciais e passivos ambientais, além de terem área menor do que a anunciada. 

Após descobrir as irregularidades e o uso de documentos falsos, Cavassa acionou a Justiça na área cível e obteve vitória em primeira instância, com rescisão do contrato e reintegração de posse da fazenda.

Em segunda instância, porém, os desembargadores Alexandre Bastos, Sideni Soncini Pimentel e Vladimir Abreu da Silva mudaram o desfecho do caso e validaram o negócio. A Polícia Federal aponta que Bastos havia elaborado uma minuta de voto mantendo a sentença de primeira instância, que anulava a permuta das fazendas e devolvia a propriedade à Ricardo Cavassa, mas alterou seu posicionamento no julgamento, sob fundamentos considerados frágeis pelos investigadores.

Minutas de votos divergentes do próprio Alexandre Bastos foram encontrados pela Polícia Federal nos áudios apreendidos no celular de Sideni Pimentel, durante a Operação Última Ratio. O conteúdo indica possível articulação prévia para reverter a decisão. Em um dos áudios, o desembargador pede a elaboração de um voto divergente para evitar a rescisão do contrato, antes mesmo da sessão de julgamento, o que reforça suspeitas de venda de sentença.

No outro processo que responde, o criminal, o casal se recusou - em outubro último - a devolver a fazenda à Ricardo Cavassa, condição estabelecida pelo Ministério Público para livrá-los de uma condenação por estelionato. 

O caso só será julgado daqui a um ano, segundo decidiu o juiz da 1ª Vara Criminal Residual.

“Considerando a recusa do acusado e seu defensor à proposta de suspensão condicional do processo, dou seguimento ao feito e designo audiência de instrução e julgamento para o dia 12 de novembro de 2026”, decidiu o juiz criminal de Campo Grande, Roberto Ferreira Filho.

Operação

Desencadeada em 24 de outubro de 2024, a Operação Ultima Ratio investiga esquema de corrupção no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Ela resultou, na época, no afastamento de Sideni Pimentel, Alexandre Bastos, Vladimir Abreu, Marcos José de Brito Rodrigues e Sérgio Martins. Os aposentados, Divoncir Schreiner Maran e Júlio Roberto Siqueira Cardoso, também estão entre os alvos. 

Dentre os envolvidos, somente Sérgio Martins voltou ao trabalho. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Cristiano Zanin, levou em consideração a informação de que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) não noticiou transações suspeitas em relação ao desembargador e que não houve registros de outras transações fraudulentas que corroborassem a hipótese inicial da investigação.

Neste ano, o caso voltou ao Superior Tribunal de Justiça. Os magistrados também foram alvos de representações no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e são elas que mantêm Bastos, Abreu e Brito Rodrigues afastados de seus gabinetes.

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PROMESSA ANTIGA

Shopping Cidade Morena não sai do papel após quase 10 anos em Campo Grande

Empreendimento já teve diferentes prazos para início das obras e inauguração, mudou de endereço e chegou a receber alvará, mas construção segue sem se concretizar na Capital.

01/10/2026 18h29

Área onde está prevista a construção do Shopping Cidade Morena, na Avenida Gury Marques, em Campo Grande.

Área onde está prevista a construção do Shopping Cidade Morena, na Avenida Gury Marques, em Campo Grande. Foto: Reprodução Instagram Shopping Cidade Morena.

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Anunciado como um novo polo de compras, lazer e serviços para uma das regiões mais populosas de Campo Grande, o Shopping Cidade Morena atravessa anos de anúncios, mudanças no projeto e adiamentos sem que a estrutura prometida tenha se consolidado no terreno da Avenida Gury Marques.

A história do empreendimento atual remonta, oficialmente, a fevereiro de 2017. Naquele ano, representantes do grupo paulista Ícone Costa Hirota (ICH) apresentaram à Prefeitura de Campo Grande um projeto inicialmente batizado de Plaza Moreninhas, com capacidade para 124 lojas e previsão de construção em quatro etapas.

O plano era instalar o centro comercial na Moreninha II. Na apresentação feita ao então prefeito Marquinhos Trad, os responsáveis afirmaram que os projetos de arquitetura e marketing já estavam desenvolvidos e que o empreendimento se encontrava na fase de obtenção das licenças e demais documentos.

Na ocasião, o lançamento oficial estava previsto para o segundo semestre de 2017. Depois disso, seriam necessários 42 meses para a execução das etapas até a inauguração. O cronograma, porém, não se concretizou.

Projeto mudou de endereço

Com o passar dos anos, o empreendimento sofreu uma alteração importante. O shopping deixou de ser planejado para o terreno originalmente escolhido na região das Moreninhas e foi transferido para uma área na região do Bairro Centro Oeste, na Avenida Gury Marques, nas proximidades da Avenida dos Cafezais.

O próprio projeto também cresceu e passou a ser divulgado como Shopping Cidade Morena.

Em 2020, o empreendimento voltou a ganhar visibilidade. Outdoors instalados na região anunciavam a chegada do centro comercial, enquanto o terreno permanecia sem obras.

Naquele momento, a proposta divulgada previa um terreno de aproximadamente 63 mil metros quadrados e estrutura significativamente maior do que aquela apresentada à Prefeitura três anos antes.

A mudança de terreno exigiu ainda uma nova etapa de projetos e licenciamentos. Em 2021, registros relacionados ao licenciamento ambiental já apontavam a implantação no novo endereço.

Segundo explicação dada posteriormente por representantes do empreendimento, a localização na Gury Marques foi escolhida principalmente pela maior visibilidade e possibilidade de atender não apenas as Moreninhas, mas bairros de toda a região sul da Capital.

Promessa de inauguração em 2025

Uma nova expectativa surgiu no começo de 2023. Naquele momento, a administração do Shopping Cidade Morena informou que as negociações comerciais haviam começado em outubro de 2022 e que cerca de 20 lojas já estavam confirmadas.

A previsão anunciada era ambiciosa: iniciar a construção nos meses seguintes e inaugurar o empreendimento no primeiro semestre de 2025.

O projeto apresentado naquele período previa aproximadamente 150 operações, entre lojas âncoras, megalojas, restaurantes, fast-foods e lojas satélites.

Também estavam previstos cinema, praça de alimentação com 1,5 mil lugares, estacionamento com cerca de 860 vagas, espaço de eventos e áreas de entretenimento.

Área onde está prevista a construção do Shopping Cidade Morena, na Avenida Gury Marques, em Campo Grande.Projeção mostra como deverá ficar o Shopping Cidade Morena, previsto para a Avenida Gury Marques, em Campo Grande. Foto: Reprodução Instagram Shopping Cidade Morena.

A construção, entretanto, continuava dependendo das autorizações necessárias.

Alvará chegou em 2023

Um dos principais entraves burocráticos parecia ter sido superado em 2023. Em julho daquele ano, o projeto recebeu alvará de construção da Prefeitura de Campo Grande.

A autorização permitia que a empresa avançasse para a implantação efetiva do empreendimento.

Em setembro, a expectativa divulgada era de que as obras começassem ainda no segundo semestre daquele ano.

A ICH chegou a informar que apresentaria, dentro dos três meses seguintes, um cronograma detalhado para a execução da construção.

Isso também não aconteceu dentro do período inicialmente anunciado.

Em janeiro de 2024, meses depois da autorização, o terreno continuava sem um canteiro de obras efetivamente instalado.

À época, a Prefeitura informou que documentos como o alvará de construção e a licença prévia ambiental haviam sido emitidos e que, do ponto de vista dessas autorizações, os trabalhos poderiam começar.

Datas foram novamente adiadas

Em março de 2024, a empresa apresentou outra estimativa. O início da construção ocorreria dentro de nove a 12 meses, entre o segundo semestre daquele ano e o começo de 2025.

A previsão de inauguração também mudou: passou para o segundo semestre de 2026.

Poucos meses depois, em agosto, veio outro adiamento.

A ICH atribuiu a postergação a dificuldades para obter liberações necessárias e informou que projetos complementares de elétrica, hidráulica, exaustão e sistema de ar-condicionado estavam sendo contratados.

O início das obras foi então projetado para o fim de 2024, com a possibilidade de avançar para 2025 caso os projetos exigissem mais tempo.

No entanto, em novembro daquele ano, na área havia vegetação e um outdoor anunciando as “futuras instalações” do empreendimento. Naquele momento, havia ainda uma nova questão burocrática.

A então Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano informou que o licenciamento ambiental havia vencido e que um novo pedido havia sido protocolado em 7 de outubro de 2024.

O alvará de construção, por sua vez, havia sido renovado.

A empresa informou que pretendia apresentar o cronograma oficial na segunda quinzena de janeiro de 2025 e apontou que o começo dos trabalhos dependeria também do encerramento do período de chuvas.

Terreno chegou a ser cercado

No fim de dezembro de 2024, o terreno apresentou uma das primeiras mudanças visíveis dos últimos anos.

A área foi cercada e recebeu uma placa da construtora Maksoud Rahe, apontada como uma das empresas envolvidas na construção.

À época, o investimento previsto foi estimado em cerca de R$ 300 milhões, com expectativa de geração de aproximadamente 2 mil empregos diretos.

Ainda assim, a colocação da estrutura de isolamento não significava, por si só, que a construção do prédio havia começado.

A última previsão pública localizada para o cronograma apontava conclusão no último trimestre de 2026.

O prazo havia sido divulgado em 2024, quando a expectativa ainda era de início das obras entre o fim daquele ano e o começo de 2025.

Atualmente, o site oficial do Shopping Cidade Morena continua ativo e apresenta o endereço do empreendimento como Avenida Gury Marques, 7.176, em Campo Grande.

A página utiliza a expressão “construção em andamento” e mantém aberta a captação de interessados em instalar lojas no futuro centro comercial.

A ficha atualmente divulgada pelo empreendimento prevê 19,4 mil metros quadrados de Área Bruta Locável (ABL) na abertura, com possibilidade de expansão para 28,1 mil metros quadrados.

Outro Cidade Morena também ficou no papel

O nome Shopping Cidade Morena, porém, já havia aparecido em Campo Grande antes do empreendimento da região sul, em um projeto completamente diferente.

Em 2011, um grupo empresarial anunciou a construção de um shopping com o mesmo nome no quadrilátero formado pela Avenida Calógeras e pelas ruas Cândido Mariano, Dom Aquino e 14 de Julho, na região central.

O projeto previa aproximadamente 300 lojas, 85 mil metros quadrados de área construída e 1,3 mil vagas de estacionamento.

Naquele momento, a previsão era começar as obras ainda em 2011 e inaugurar o shopping no início de 2013.

O empreendimento nunca foi construído. Anos depois, o terreno passou a funcionar como estacionamento.

Apesar do nome idêntico, não se trata do mesmo empreendimento atualmente projetado para a Avenida Gury Marques. 

O atual shopping está ligado ao projeto apresentado pelo grupo Ícone Costa Hirota à Prefeitura em 2017, inicialmente denominado Plaza Moreninhas.

Região aguarda empreendimento

A expectativa em torno do Shopping Cidade Morena está diretamente relacionada ao tamanho da população atendida na região sul de Campo Grande.

Desde a apresentação inicial, o projeto é defendido pelos responsáveis como uma alternativa para criar um polo estruturado de comércio, alimentação, serviços e entretenimento distante dos principais centros comerciais já existentes na Capital.

No site oficial, os responsáveis estimam uma área de influência de aproximadamente 250 mil moradores e destacam a distância de cerca de 10 quilômetros até a região central como um dos fatores que justificariam a implantação do empreendimento. Os números são estimativas apresentadas pelo próprio shopping.

Enquanto a construção não avança, moradores da região seguem na expectativa pela concretização do empreendimento.

Além de ampliar as opções de comércio e serviços, o Shopping Cidade Morena é projetado para oferecer espaços de lazer, entretenimento e convivência, com cinema, praça de alimentação e outras operações.

Para uma região distante dos principais shoppings de Campo Grande, a abertura representaria também uma nova alternativa de lazer mais próxima de casa, reduzindo a necessidade de deslocamento para outras áreas da Capital.

Entre apresentação de projetos, mudança de terreno, licenciamento, alvará, renovação de documentos e sucessivas previsões para início dos trabalhos, passaram-se quase dez anos desde a apresentação oficial do Plaza Moreninhas, em 2017.

Agora, em 2026, o empreendimento chega justamente ao período que já foi anunciado como prazo para sua conclusão.

A concretização do projeto, entretanto, depende do avanço efetivo das obras e de um cronograma atualizado dos responsáveis pelo Shopping Cidade Morena.

O que dizem os envolvidos

O Correio do Estado procurou a Prefeitura de Campo Grande para obter informações atualizadas sobre a situação dos alvarás, licenciamentos e eventuais pendências relacionadas ao empreendimento.

A reportagem também entrou em contato com a empresa responsável pelo Shopping Cidade Morena para questionar o estágio atual do projeto, os motivos dos sucessivos adiamentos e a nova previsão para o início e a conclusão das obras.

Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.

 

Coleta Seletiva

MPMS cobra R$ 1 milhão e pagamento mensal a catadores de Campo Grande

Mais de 110 trabalhadores atuam na cadeia da coleta seletiva da Capital; ação quer contratação das organizações em até 90 dias e aponta que apenas 2,25% dos resíduos chegam à coleta seletiva

01/10/2026 17h41

Catadores realizam separação de materiais recicláveis em unidade de triagem de Campo Grande; ação pede remuneração pelo serviço prestado.

Catadores realizam separação de materiais recicláveis em unidade de triagem de Campo Grande; ação pede remuneração pelo serviço prestado. Foto: Divulgação MPMS.

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O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) e o Ministério Público do Trabalho (MPT-MS) recorreram à Justiça para obrigar a Prefeitura de Campo Grande a contratar e remunerar formalmente as organizações de catadores responsáveis pela triagem de materiais recicláveis na Capital. A ação aponta ainda que a coleta seletiva alcança apenas 2,25% dos resíduos produzidos no município.

Os órgãos estimam em R$ 194,2 mil por mês o valor necessário para remunerar os trabalhadores e manter as atividades das entidades e pedem ainda a condenação do Município ao pagamento de R$ 1 milhão por danos morais coletivos e socioambientais.

A medida foi adotada depois de meses de tentativas de negociação com a administração municipal. Conforme o MPMS, as tratativas não resultaram em acordo para a contratação das organizações, o que levou o caso à esfera judicial.

A ação pede que as entidades sejam contratadas em até 90 dias. Em caso de descumprimento das obrigações eventualmente determinadas pela Justiça, os órgãos ministeriais requerem a aplicação de multa de R$ 100 mil por mês.

Atualmente, três cooperativas e uma associação realizam a triagem dos materiais na Unidade de Triagem de Resíduos (UTR), estrutura disponibilizada pelo município. São elas Atmaras, Coopeemaras, Novo Horizonte e Cata-MS.

Mais de 110 catadores e catadoras atuam na cadeia da coleta seletiva de Campo Grande, conforme levantamento divulgado em setembro pela Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (Ancat).

A entidade apontou o contingente após visita à UTR e reuniões com organizações que atuam na reciclagem da Capital.

Apesar do serviço desempenhado na cadeia de manejo dos resíduos sólidos e reciclagem, as organizações não recebem da Prefeitura pela atividade de triagem, conforme sustentam MPMS e MPT.

Com isso, a renda dos trabalhadores depende principalmente da comercialização dos materiais recuperados. Os documentos que embasam a ação apontam que os rendimentos são variáveis e, em diferentes situações, ficam abaixo do salário mínimo.

R$ 194 mil por mês

O cálculo apresentado pelos Ministérios Públicos tem como referência metodologia desenvolvida para estimar quanto custa efetivamente o serviço realizado pelas organizações de catadores.

Catadores realizam separação de materiais recicláveis em unidade de triagem de Campo Grande; ação pede remuneração pelo serviço prestado.Trabalhadores fazem triagem de resíduos recicláveis; mais de 110 catadores atuam na cadeia da coleta seletiva da Capital. Foto: Divulgação MPMS.

A proposta utiliza o chamado Método Valoriza, baseado no conceito de “tonelada justa”. Em vez de considerar somente quanto os trabalhadores conseguem arrecadar com a venda de papelão, plástico, metais e outros materiais recuperados, o modelo leva em conta os custos necessários para manter toda a operação.

Entram no cálculo despesas de funcionamento das organizações, manutenção de equipamentos, estrutura operacional, medidas de segurança e remuneração dos próprios trabalhadores.

A estimativa apresentada na ação aponta a necessidade de aproximadamente R$ 194, mil mensais para custear a contratação das organizações que atuam na triagem e garantir remuneração aos catadores.

Considerando apenas como referência os mais de 110 trabalhadores identificados pela Ancat, o valor mensal previsto na ação equivale a cerca de R$ 1,7 mil por catador.

Isso não significa, porém, que cada trabalhador receberia diretamente esse montante, uma vez que os R$ 194,2 mil também contemplam custos operacionais necessários ao funcionamento das organizações.

Caso a contratação não possa ser implementada imediatamente, MPMS e MPT também querem que o Município apresente um plano detalhado para colocar a medida em prática, com cronograma, metas, impacto orçamentário e indicação das fontes de recursos.

Só 2,25% dos resíduos

A ação também expõe o tamanho do desafio da coleta seletiva em Campo Grande.

De acordo com os dados apresentados pelos órgãos, apenas 2,25 de todos os resíduos sólidos produzidos no município são alcançados pela coleta seletiva.

O volume recolhido representaria somente 6,7% do potencial de materiais recicláveis existente na Capital, indicando que uma parcela significativa de produtos que poderia retornar à cadeia produtiva acaba fora do sistema de reciclagem.

MPMS e MPT argumentam que a contratação das organizações não deve ser analisada apenas como uma nova despesa para o Município.

As projeções apresentadas na ação indicam que a formalização do serviço, acompanhada de metas para aumentar a recuperação de recicláveis e reduzir a quantidade de resíduos encaminhada para disposição final, pode proporcionar cerca de R$ 2,9 milhões em economia e bonificações ao Município no período de quatro anos.

A lógica apresentada é que o aumento da reciclagem reduz o volume destinado ao aterro sanitário e, consequentemente, os custos associados à destinação final dos resíduos.

Além do impacto financeiro, os órgãos sustentam que a contratação pode elevar os índices de reciclagem, melhorar as condições de trabalho, ampliar a renda e reconhecer formalmente o serviço ambiental desempenhado pelos catadores.

Segurança na UTR

A discussão levada à Justiça vai além da remuneração.

A ação também cobra medidas relacionadas às condições de trabalho e à segurança na Unidade de Triagem de Resíduos.

Entre as providências estão fornecimento regular de equipamentos de proteção individual (EPIs), formação de brigada de incêndio, adequações elétricas e implementação de medidas de saúde e segurança ocupacional.

Outro ponto apontado na ação é a situação da documentação de prevenção contra incêndios da unidade. Conforme os elementos apresentados pelos órgãos, o alvará do Corpo de Bombeiros estaria entaria e Cido desde 2019, e sua regularização integra as providências cobradas.

Os problemas estruturais da UTR já haviam sido alvo de atuação do Ministério Público neste ano.

Em março, uma vistoria do MPMS identificou condições consideradas críticas na unidade, principalmente durante períodos de chuva. Relatório elaborado pelo Núcleo Ambiental apontou problemas na cobertura e falta de vedação lateral, permitindo que a água atingisse os barracões utilizados pelos trabalhadores.

Também foram constatadas deficiências no sistema de drenagem, com formação de áreas alagadas justamente nos espaços onde ocorre a separação dos materiais.

A situação que mais chamou atenção envolveu a proximidade entre água e equipamentos elétricos. Durante a vistoria, foram encontrados catadores trabalhando junto a prensas e esteiras com os pés em áreas tomadas pela água, condição que levou o MPMS a alertar para risco de descarga elétrica.

Os problemas atingiam ainda a própria renda dos trabalhadores.

Sem espaço coberto suficiente para armazenar todos os materiais recebidos, parte dos recicláveis permanecia exposta à chuva. Quando molhados, esses produtos podem perder valor comercial e, consequentemente, diminuir o rendimento obtido pelas organizações.

Na ocasião, o Ministério Público recomendou intervenções na cobertura, instalação de proteção lateral, manutenção do sistema de drenagem, retirada de equipamentos elétricos das áreas sujeitas a alagamentos e ampliação do espaço coberto destinado ao armazenamento dos materiais.

Contratação pode criar precedente

Segundo o MPMS, a iniciativa está entre as primeiras ações judiciais de abrangência geral no País destinadas a buscar a contratação de organizações de catadores por uma capital brasileira.

O objetivo é alterar a forma como esses trabalhadores são inseridos na cadeia municipal de resíduos. Atualmente dependentes principalmente do dinheiro obtido com a comercialização dos recicláveis, eles passariam também a receber pelo serviço de triagem e pelo trabalho ambiental prestado ao município.

Além das obrigações relacionadas à contratação e à estrutura da UTR, MPMS e MPT pedem que Campo Grande seja condenado ao pagamento de R$ 1 milhão por danos morais coletivos ser socioambientais.

O processo agora dependerá da análise da Justiça, que decidirá sobre os pedidos apresentados pelos órgãos ministeriais.

O que diz a Prefeitura

O Correio do Estado procurou a Prefeitura de Campo Grande para saber se o Município já foi oficialmente notificado da ação, se pretende contratar e remunerar as organizações de catadores nos moldes propostos pelo MPMS e pelo MPT, como avalia o custo mensal estimado em R$ 194,2 mil e quais providências foram adotadas em relação às condições estruturais e de segurança da UTR.

Até a publicação desta reportagem, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação.

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