Durante o período de férias escolares, é comum que crianças passem mais tempo em casa e, consequentemente, sejam mais expostas ao uso de telas. Embora pareça uma solução prática para entreter os pequenos, especialistas alertam para os riscos desse hábito.
Segundo a psicóloga Leyisa Cardoso, coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do bairro Vila Almeida em Campo Grande, o impacto do uso excessivo de celulares, tablets e televisores vai muito além do entretenimento.
"As telas têm efeito direto no desenvolvimento psíquico.Uma criança que é exposta demasiadamente à telas vai ter um comportamento mais agitado, mais inquieto, e com certeza será mais sensível às frustrações. Não vai saber lidar muito bem quando for frustrada", afirma.
O perigo está, principalmente, quando as telas se tornam o principal ou único passatempo da criança.
"A criança que se acostuma ao uso de telas como lazer e recorre a isso como primeira opção para tudo, ela acaba por consumir aquilo muito imediatamente. Como é um estímulo muito grande de imagem, sons, para o cérebro da criança, aquilo se torna algo imediato. Então ela tende muito ao imediatismo. Não é igual a uma criança que é estimulada a jogar, brincar, desenhar, pintar", explica a profissional.
Impacto no sono e no humor
Além do comportamento agitado, o uso de telas também afeta diretamente a qualidade do sono infantil. "O uso de telas também vai influenciar no sono dessas crianças.
Elas vão demorar um pouco mais para se aquietar porque a tela é um estímulo e, como ela estimula muito o cérebro, vai ter mais dificuldade para acalmar, pra entrar num estágio de preparação para o sono."
Leyisa explica que, para uma melhor qualidade do sono, as crianças precisam começar a se preparar com antecedência. Por exemplo, se uma criança precisa estar às 8 horas da noite na cama, às 6 horas da tarde ela precisa se desligar de tudo.
"Não é saudável pensar 'vou dar janta pro meu filho e deixar ele vendo TV, até ele dormir'. Adormecer com telas gera um sono inquieto, um sono que não é saudável nas crianças."
O alerta maior é para os bebês e crianças pequenas, na idade que profissionais classificam como "primeira infância, que vai até os três anos de idade.
Nessa fase, explica Leyisa, "os pais não deveriam nem dar telas para os filhos porque o desenvolvimento neurocognitivo da criança está a todo vapor e naquele momento ele necessita ser estimulado."
Sinais de alerta
A profissional alerta para sintomas comuns gerados pelo do uso excessivo de telas, que incluem a irritabilidade e o desinteresse por outras atividades.
"Geralmente o desinteresse às atividades de rotina, por exemplo, atividades que antes eram prazerosas para aquela criança que gerava um prazer como interagir com os amigos, estar com a família, pintar, jogar bola. A gente percebe que a criança se desinteressa das outras atividades e troca qualquer coisa pelo uso das telas. Tem criança que nem quer sair de casa porque acha chato."
"Nas crianças menores, é mais uma questão comportamental mesmo, a questão do humor. Aquela criança que fica emburrada facilmente com qualquer coisinha, ela já chora, e aí a gente percebe que a única coisa que acalma é a tela", completa.
À reportagem, a especialista explica que existem limites claros indicados por faixa etária:
- De 0 a 2 anos: o tempo de tela nem deveria existir;
- De 2 a 5 anos: o recomendado é uma hora por dia;
- De 6 a 10 anos: o ideal é até duas horas por dia;
- De 11 a 18 anos: o limite sugerido é de três horas por dia.
"Lembrando que, para cada faixa etária, a gente tem outras atividades prioritárias. Então os pais devem se preocupar em oferecer outras coisas que não sejam telas para essas crianças", orienta.
"Você oferece tinta com papel, brinquedos, interação social, atividade de socialização, esporte, música, porque são atividades que vão desenvolver na criança para cada faixa etária."
Prejuízos no desenvolvimento
Segundo a psicóloga, o uso excessivo pode comprometer o desenvolvimento físico, motor e até cognitivo da criança, já que em quanto mais exposição às telas, menos habilidades as crianças conseguirão desenvolver, já que tentem a demonstrar desinteresse nas atividades que são oferecidas.
Ela faz uma comparação prática: "Qual a diferença de você assistir uma série ou um filme com os amigos e você jogar um jogo de tabuleiro com seus amigos? Jogando tabuleiro você desenvolve, você aprende, você pode ganhar, pode perder, e na vida a gente também precisa aprender isso. Também aprende a deixar o outro jogar, a esperar, ter uma paciência, a gente interage, a gente conversa, a gente aprende sobre regras."
O papel dos adultos
Para a profissional, os adultos têm papel fundamental. "Nós, adultos, que estamos em volta dessas crianças, precisamos oferecer muito mais outras atividades do que telas. Não é que não possa ser usado, a gente anda com o celular na mão o tempo todo, a tecnologia está no cotidiano de muitas famílias, mas precisamos ter atenção de, primeiro, ofertar outras opções."
"É muito triste porque a gente nota que é um número cada vez maior de crianças sofrendo mesmo, com muita dificuldade de lidar socialmente com outras crianças, com dificuldade de se divertir com outras coisas.Vemos crianças muito retraídas e muito parecidas com pessoas dentro do espectro autista, porque não desenvolveram as habilidades próprias da idade. Então a gente precisa prestar muita atenção nisso."
Dicas para as férias
Apesar da rotina corrida, a psicóloga aconselha que os adultos precisam tentar oferecer alternativas durante as férias.
"É difícil para os pais, porque as crianças estão em casa e a gente está trabalhando. Mas separar um tempinho para oferecer algo diferente como um passeio no parque, um jogo de bola, uma pintura em casa, enfim, o que você puder estar oferecendo que seja diferente para sua criança, seja seu sobrinho, seu filho, seu neto, vai ser benéfico para que essa criança desenvolva habilidades e aprenda a ter prazer em outras coisas na vida e para que a gente ajude a construir adultos mais saudáveis."
Colônias de férias
Conciliar férias escolares e recesso escolar é uma tarefa e tanto para os pais em tempo integral, já que as crianças estão em casa por mais tempo e necessitam de atenção redobrada. Isso reforça a importância e o benefício das colônias de férias na formação dos pequenos, proporcionando bem-estar, sociabilidade e desenvolvimento.
De acordo com um levantamento da American Camp Association (ACA), que avaliou mais de 5 mil famílias, 96% das crianças que participaram de colônias de férias fizeram novos amigos, 92% se sentiram mais confiantes, e 74% enfrentaram medos e desafios pessoais ao longo da experiência. A mesma pesquisa apontou que 70% dos pais notaram aumento da autoestima em seus filhos após o programa.
Além disso, de acordo com outros estudos internacionais publicados pelo NCBI e Harvard Heath, atividades organizadas durante o período de férias escolares ajudam a reduzir sintomas de ansiedade e depressão, além de promover hábitos saudáveis e contribuir para desenvolvimento de bons sentimentos, como a empatia e a autonomia.
Em vários pontos de Campo Grande, estão sendo oferecidas opções de atividades para os alunos nesse período sem aula. Na unidade da Educação Adventista localizada no bairro Vilas Boas realizou, dos dias 7 a 18 de julho, uma colônia de férias planejada especialmente para alunos da Educação Infantil e anos iniciais.
Com uma média de 12 alunos por dia, as crianças foram acompanhadas por auxiliares de sala e participaram de atividades organizadas pela coordenação pedagógica e direção da escola. A programação incluiu brincadeiras dirigidas, oficinas criativas, momentos de espiritualidade e interação em grupo.
"A colônia de férias proporciona um espaço seguro e estimulante, onde as crianças podem aprender de forma leve, fazer novas amizades e desenvolver competências socioemocionais essenciais para a vida", destaca Tiana Amorim, diretora da unidade Vilas Boas.
Outra opção é oferecida pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que dos dias 21 a 25 de julho, oferece 80 vagas para as crianças de 6 a 12 anos se divertirem na tradicional colônia de férias. Neste ano, o tema mistura o novo e o nostálgico com jogos tradicionais antigos e jogos eletrônicos, com atividades voltadas para cada faixa etária.
A Casa da Cultura realiza até o dia 31 de julho o projeto "Férias com Arte", com oficinar, atividades literárias e aulas introdutórias de ballet infantil. O projeto se encerra no dia 31 de julho com sessões de cinema às 15h e às 17h.
Para quem tem mais recursos e prefere uma programação mais personalizada, várias brinquedotecas da cidade oferecem programas até o final desta semana, com valores a partir de R$50 o período.


