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Após oito dias de debates, oficinas, shows e muitos filmes, festival encerrou-se no sábado

Após oito dias de debates, oficinas, shows e muitos filmes de toda a América do Sul, festival foi encerrado no sábado, com projeção de vídeos e leitura de manifesto de apoio ao audiovisual do país vizinho; público total foi de 4.200 pessoas

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Talvez Javier Milei, o candidato de ultradireita que enfrentará Sergio Massa no segundo turno das eleições à presidência da Argentina no domingo, já esperasse por uma reação a mais uma de suas declarações polêmicas.

Mas não uma mobilização de tamanho fôlego se comparada à importância de diversas outras promessas – ou ameaças – de campanha proferidas pelo deputado e líder da coalizão La Libertad Avanza, nome que se torna irônico, para dizer o mínimo, diante do perfil assumidamente conservador de sua candidatura.

A proposta em questão é incluir o Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (Incaa) no pacote das instituições a serem extintas em um eventual governo sob a sua liderança.

Favorável ao rompimento das relações comerciais com gigantes como China e Brasil, fundamentais para a economia argentina, Milei também já prometeu, entre outras propostas desvairadas, o fechamento do Banco Central do país.

A ameaça de encerramento das atividades do instituto, criado em 1954 e de importância vital para o audiovisual produzido na Argentina, provocou, desde o mês de agosto, um movimento de resistência que vem se adensando, inclusive além-fronteira.

Reunindo diretores, produtores, intérpretes, pesquisadores e gestores ligados ao cinema, além de um público total estimado em 4.200 pessoas, o Bonito CineSur teve um dos pontos altos da sua noite de encerramento, no sábado (11), na defesa do cinema argentino e no apoio aos cineastas hermanos que seguem na luta pela sobrevivência do Incaa a partir de 2024.

O manifesto de apoio ao instituto, que financia produções e dá suporte a novos cineastas, foi lido pela roteirista Josefina Trotta após a exibição de dois vídeos, um viralizado a partir da primeira projeção, em 2/11, na abertura do Festival Internacional de Cine de Mar del Plata, que, aliás, é organizado pelo Incaa, e outro produzido pelo festival de MS, com depoimentos de vários dos nomes presentes no Bonito CineSur subscrevendo a resistência hermana, que está no site e nas redes sociais do festival.

Os discursos da cerimônia de premiação seguiram na sintonia do apoio ao Incaa e ao cinema argentino. As produções escolhidas pelo júri oficial das duas mostras competitivas – filmes sul-americanos (categorias curta e longa-metragem) e filmes de MS – foram contempladas com o Troféu Pantanal, criado por Lula Ricardi e confeccionado por Buga Peralta, além de premiação em dinheiro.

FUTURO TREMENDO

“É uma luta constante, igual à de todos os colegas latino-americanos, é uma luta conjunta”, afirmou o produtor boliviano Alvaro Olmos, que levou para casa o troféu de Melhor Longa-Metragem Sul-Americano por “El Visitante”, dirigido por Martín Boulocq. 

O enredo aborda a via-crúcis de um ex-presidiário, interpretado pelo uruguaio César Troncoso, para se reaproximar da filha, que foi adotada por um pastor neopentecostal e sua esposa.

“Este é um prêmio muito importante, a parte de que é muito bonito, maravilhoso, por tudo o que representa para a cinematografia boliviana, que ano a ano luta por canais, espaço e visibilidade, não só no continente mas no resto do mundo”, declarou Alvaro Olmos.

“Estou em demasiado feliz. Foi uma experiência muito preciosa ter estado aqui, em um festival de muita humanidade, onde nos sentimos muito acolhidos. Um futuro tremendo espera o Bonito CineSur. Que sigam apoiando um festival que preza pela integração com tanta humanidade e empatia, que tanta falta fazem ao nosso mundo”, disse a diretora chilena Katherina Harder.

A cineasta conquistou o Troféu Pantanal de Melhor Curta-Metragem Sul-Americano com o seu curta “Estrellas del Desierto”, uma trama infantojuvenil, de apelo para todas as idades, que combina amizade, paixão por futebol e os anseios de uma turminha com a escassez de água em um vilarejo do Deserto de Atacama, no norte do Chile. 

O júri oficial internacional foi composto pelo cineasta brasileiro Walter Lima Jr., pela atriz paraguaia Ana Ivanova e pela roteirista argentina Josefina Trotta.

PANTANEIROS

O curta gaúcho “Sigma”, de Alan Rigs, que versa sobre o surto neonazista na internet, e o longa cearense “Mais Pesado É o Céu”, de Petrus Cariry, integraram essa mostra competitiva sul-americana. 

Protagonizado por Matheus Nachtergaele e Ana Luiza Rios, o filme de Cariry recebeu uma menção honrosa, “em reconhecimento ao forte discurso cinematográfico e ao modo como estabelece diálogo com o público”, concedida pela imprensa especializada que acompanhou o festival em Bonito. A cineasta Jade Rainho e o professor de cinema Sérgio Moriconi, além deste que vos escreve, formaram o júri oficial da Mostra MS.

A diretora Jamille Fortunato recebeu o troféu de Melhor Filme Sul-Mato-Grossense pelo curta-metragem documental “Cordilheira de Amora II” (2015), fábula da vida real protagonizada por Cariane Martines, uma menina de nove anos da etnia guarani-kaiowá que faz do brincar instrumento de superação das agruras de quem não tem brinquedos e acesso a quase nada do que uma criança precisa para crescer dignamente, na Aldeia Amambai, no lado MS da fronteira do Brasil com o Paraguai.

Filmado com um celular, o curta surpreende pela condução leve, precisa e inventiva de Jamille Fortunato, que morou por seis anos em Campo Grande e atualmente vive na ponte Bahia-Europa-MS.

“Agradeço pelo acolhimento dessa terra. Eu, como baiana, vivi aqui uma parte de minha vida, colhi bons frutos na área de cinema e estou muito feliz de ter voltado”, disse Jamille, visivelmente emocionada.

A emoção também tomou conta de Marinete Pinheiro, diretora do documentário em longa-metragem “A Dama do Rasqueado” (2017), sobre a trajetória de Dona Delinha (1936-2022).

Além de vencer no júri popular, o filme deu à cineasta uma menção honrosa concedida pelo júri oficial, que destacou, no doc, “o resgate cultural e da memória de uma mulher fundamental para a cultura musical de Mato Grosso do Sul”.

“Sou sul-mato-grossense, e a Delinha é realmente a grande dama da música de Mato Grosso do Sul. Foi um privilégio para mim conviver com ela. Em 2023 está fazendo 10 anos que eu tive o primeiro contato com ela. A Delinha faleceu no ano passado e deixou uma significativa carreira musical e uma história de vida que eu pude trazer um pouco nesse filme”, afirmou a cineasta em seu discurso de agradecimento.

“É muito interessante que nós possamos ter mais janelas para o filme sul-mato-grossense, e essa é uma boa oportunidade, com certeza”, disse Marinete, que arrematou a fala fazendo menção à letra de “O Voo do Condor”, um dos muitos sucessos de Dona Delinha: “Eu voei graças a ela e nós estamos agora voando juntas”.

WALTER LIMA JR.

E haja emoção. Além de ter integrado o júri oficial MS e, como representante do Correio do Estado, o pool de jornalistas que atribuiu a menção honrosa a “Mais Pesado É o Céu”, tive a alegria de ser o responsável pela curadoria da sessão do longa “Inocência” (1983), baseado no romance de Visconde Taunay (1843-1899) com direito à presença de seu diretor, Walter Lima Jr., um verdadeiro gigante do nosso cinema, dono de uma trajetória de seis décadas e autor de “Menino de Engenho” (1965), “A Lira do Delírio” (1978) e outros clássicos das telas.

“O Walter enche o nosso coração de alegria, por sua presença e pela importância que ele tem para o cinema brasileiro”, destacou Andréa Freire, coordenadora-geral do Bonito CineSur. 

“Muito feliz de estar aqui durante essa semana. Acho que é um festival que veio para ficar, um ponto de encontro necessário de convivência do cinema sul-americano, e acho que vai trazer um benefício muito grande para o cinema brasileiro e para os cinemas que estão em torno do Brasil todo. Que esse diálogo necessário se mantenha por muito tempo, se possível nesse festival”, disse o cineasta, ao receber o Troféu Memória.

“Agradeço extremamente de coração por ter sido convidado a participar do júri e a trazer o meu filme ‘Inocência’, que aos 40 anos de idade pode ser visto aqui, o lugar onde aquela história nasceu. Isso foi muito rico para mim. Ele, na verdade, é um filme daqui, embora tenha sido filmado no Rio. Aqui é o Brasil, e a gente estava representando exatamente isso. Essa brasilidade que vem daqui”, afirmou Walter Lima Jr.

“O audiovisual tem um papel a desempenhar neste momento na América Latina, e especialmente de integração da América do Sul”, afirmou o produtor Nilson Rodrigues, mentor e diretor do Bonito CineSur, quase no fim da cerimônia, que foi encerrada com um show de Charo Bogarín e Juan Sardi (Argentina).

“É uma indústria muito relevante. Significamos algo em torno de 4% da média do PIB dos países sul-americanos. Isso não é pouco. Geramos emprego e apontamos para o futuro de uma economia limpa, sustentável, que não destrua”, disse Rodrigues.

A segunda edição do festival foi prometida pelo produtor para 2024, cacifado pelo apoio da classe política presente: o prefeito de Bonito, Josmail Rodrigues, o deputado federal Vander Loubet (PT), autor da emenda parlamentar que viabilizou o Bonito CineSur, e o ex-ministro da Cultura Juca Ferreira, atualmente assessor da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

diálogo

Foi dada a largada da campanha eleitoral nas redes sociais... Leia na coluna de hoje

Confira a coluna Diálogo desta segunda-feira (24)

24/08/2026 00h02

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François La Rochefoucald - escritor francês

"A verdadeira coragem está em fazermos
sem testemunha o que seríamos
capazes de fazer diante de todo mundo".

Felpuda

Foi dada a largada da campanha eleitoral nas redes sociais, que prometem ser o carro-chefe da propaganda,
e também nas ruas. Alguns candidatos estão irreconhecíveis nos "santinhos", como se tivessem descoberto
as fontes da "formosura" e da "juventude". Outros apostaram nos jingles, alguns de qualidade bastante duvidosa. Há ainda os que, para não correr riscos, preferiram a segurança da imagem estática, acompanhada de uma rápida biografia. É a campanha deste ano mostrando que, na política, vale quase tudo para chamar a atenção do eleitor. E, pelo jeito, criatividade não faltará...

Ponto

Na Assembleia Legislativa, a jornada dos servidores ganhou uma pitada de flexibilidade. Agora, a critério da chefia imediata, o horário poderá variar, desde que respeitada a jornada mínima prevista. A mudança promete
adaptar o expediente às necessidades de cada setor.

Mais

Ou quem sabe às necessidades de cada chefe. Afinal, ninguém conhece melhor a rotina da repartição do que quem manda nela. O novo formato também revoga um anexo do antigo ato que disciplinava a questão.
No papel, é modernização, nos corredores, campanha eleitoral.

Marcelo Alfredo Kroetz e Renata de Rezende Kroetz
Bruna Floriano

Abelhas

Nos meios políticos, já se comenta que boa parte dos candidatos de hoje pode estar apenas ensaiando os primeiros passos rumo à cadeira de prefeito da Capital em 2028. Afinal, 2027 será o ano de aquecimento
para uma eleição que promete movimentar o tabuleiro municipal.

No atual cenário, a prefeita Adriane ainda não teria um nome claramente competitivo para entrar no páreo.
E, sem um candidato forte, o Paço Municipal poderá se transformar numa espécie de pote de mel, atraindo políticos de A a Z.

Cobrança

O deputado José Teixeira levou à tribuna da Assembleia Legislativa de MS um problema que afeta diretamente quem depende da saúde pública: a dificuldade de conseguir vagas nos hospitais. Integrante da base aliada do governador, Teixeira fez questão de deixar clara sua posição. Disse que a crítica não significa
rompimento, mas a necessidade de buscar uma solução. Afinal, quando o problema envolve saúde,
a cobrança não deveria ter partido. E vaga hospitalar continua sendo urgência que não pode esperar. Só!

Palanque

Aproveitando o debate sobre a dificuldade de conseguir vagas nos hospitais, o deputado José Orcírio
fez um aparte. A manifestação, porém, foi recebida com certa ironia. Em conversas reservadas, alguns
colegas classificaram o comentário como um verdadeiro "óbvio ululante". Ou seja: nada que já não fosse de conhecimento de quem acompanha a realidade da saúde pública. Mas, na política, até alerta é usado como palanque por adversário. Principalmente em ano eleitoral.

ANIVERSARIANTES

  • Rosa Maria Pedrossian,
  • Dr. Marcelo de Castro Fortes,
  • Luzia Abes Bello,
  • Leonardo Arthur Marchini Veiga,
  • Paulina Severino de Souza Xavier,
  • Paulo Ezio Cuel,
  • Najla Mameri Faria,
  • Alberto Benedito da Silva,
  • Laércio Kiomido,
  • Ivone Nimer,
  • Antônio de Barros Filho,
  • Ovalto Rodrigues,
  • Dorival Fernandes,
  • Neize Borges dos Santos,
  • Tânia Cristina Moraes Gaviglia,
  • Atílio Hermann,
  • Eny Godoy Beltran,
  • Júlio Marcondes Netto,
  • Jorge Helito Mendes,
  • Maira Alves de Oliveira,
  • Irene Gonçalves da Cruz,
  • Lise Helena Muller Martins,
  • Alexandre Alves Corrêa,
  • Ari Paes Corrêa Junior,
  • Larissa Weiber de Oliveira,
  • Dra. Cristiane Gregori Mazzafera Iunes,
  • Graciett Ishy Cândia,
  • Jenifh de Souza Andrade,
  • Dr. Roberto Bezerra do Nascimento,
  • Alexandra Maria Favaro,
  • Lúcia Ferreira Falcão,
  • Stela Laura Teixeira Coelho Villalva,
  • Carlos Pinto de Almeida,
  • Luiz Tadeu Filartiga,
  • Cássia Sena de Azevedo,
  • Guttemberg de Castro Martins,
  • Valdevino da Silva Lima,
  • Andréa Quadros,
  • Enilda Gonçalves Duque,
  • Nélio Diniz,
  • Givanildo Eleu de Paula,
  • Janaina Oliveira Ribeiro,
  • Joel Vilas Boas Granges,
  • Tito Livio Canton,
  • Francismar Vidal de Arruda,
  • Dr. Gianfranco Gomes dos Santos,
  • Luiz Augusto de Moraes,
  • Daniel Marques Gomes Dias,
  • Gracia Maria Hosken Soares,
  • Clory Martinez Silva,
  • Cristina Rocha do Vale,
  • Marcelo Dutra Ferreira,
  • Antônio Mário da Silva,
  • Célia Maria Garcia,
  • Ana Maira Flôres,
  • Gisele Martins,
  • Maria Cristina dos Santos,
  • Neli Fontana Faria,
  • Helena Carlona Hitz,
  • Arlindo Fernando dos Santos Vale,
  • José Carlos de Souza Moreira,
  • Mara Lúcia do Nascimento,
  • Lia Monteiro,
  • Vera Lúcia Fernandes Xavier
  • Rossatti,
  • Kele Cristina Leite de Melo,
  • Oraci Maria Garcez,
  • Edna Gonçalves da Silva,
  • Marcelo Seiki Inamine,
  • Leonor Vieira de Azevedo,
  • Maria Helena Batista,
  • Ivone Saraiva,
  • Maria Beatriz Soares,
  • Élcio Manzano Gonçalves Moleiro,
  • Vicinio Vieira Jardim,
  • Ricardo Alexandre Ledesma Fonseca,
  • Juaribe Gonçalves Lanzarine,
  • Fernando Canedo da Silva,
  • Claudete de Sena Cabral,
  • Conceição dos Santos Leal,
  • Altair Pereira de Souza,
  • Isabel Cristina Nolasco Rodrigues,
  • Rosimeyre Alves Rodrigues,
  • Arnaldo Vicente Filho,
  • Cláudio Antônio Lima de Freitas,
  • Márcia Ferreira,
  • Ewangela Aparecida Pereira
  • da Cunha,
  • Jefferson Siqueira dos Santos,
  • José Francisco Sampaio Júnior,
  • Dra. Nely Nakao Iha,
  • Vanessa de Pina Lopes,
  • Karine Todeschini Vieira,
  • Joycelene Yamada,
  • Mônica Macedo das Neves,
  • Jayme Antônio Barbosa,
  • Isabel Cristina Lemos,
  • Anne Caroline Charles Pinto de Carvalho,
  • Liliane Vilanova Rodrigues,
  • Áurea Rezende Gatto,
  • Elizete dos Santos Balta,
  • Jaqueline Silveira da Silva,
  • Mariângela Hertel Cury,
  • Rosana Maciel da Cruz Costa,
  • Josiane Vargas de Carvalho,
  • Ruggiero Piccolo,
  • Maria Aparecida Barros de Almeida,
  • Carolina Maciel Nogueira,
  • Ronaldo Ferreira Pereira.

Capa da semana Correio B+

Entrevista exclusiva com o produtor musical e empresário João Marcello Bôscoli

Inspirado em seu livro Elis & Eu, documentário recupera a mãe, amiga e dona de casa além da cantora

23/08/2026 13h30

Entrevista exclusiva com o produtor musical e empresário João Marcello Bôscoli

Entrevista exclusiva com o produtor musical e empresário João Marcello Bôscoli Foto: Reprodução

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É difícil imaginar que ainda exista uma Elis Regina a ser descoberta. Sua voz, seus discos, suas entrevistas, seus encontros históricos e até suas contradições foram revisitados tantas vezes que a impressão é de conhecermos tudo sobre uma das artistas mais importantes da música brasileira.

Elis & Eu parte justamente do que ficou fora desse registro: não tanto a cantora que o Brasil conhece, mas a mulher que existia quando o palco desaparecia.

O documentário, dirigido por André Bushatsky, estreia em 25 de agosto no Universal+ e foi inspirado em Elis e Eu: 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe, livro de João Marcello Bôscoli.

A produção combina imagens raras de arquivo, dramatizações e depoimentos de pessoas que atravessaram diferentes momentos da vida de Elis, entre elas Wanderléa, João Bosco e César Camargo Mariano, além de recuperar registros de Rita Lee, Tom Jobim, Milton Nascimento e Ronaldo Bôscoli.

A atriz Lílian Menezes interpreta Elis nas recriações, enquanto Antônio Menqui e Victor Constantino vivem João Marcello em diferentes idades.

É importante, porém, uma distinção que o próprio João Marcello faz questão de estabelecer: ele não realizou o documentário. Bushatsky leu o livro, procurou o autor e decidiu transformar aquelas lembranças em uma obra cinematográfica.

João não participou da elaboração do roteiro, das escolhas de depoimentos ou das decisões artísticas e só assistiu ao filme depois de pronto.

“A minha contribuição foi fazer o livro”, resume em um papo para o Caderno B+. Para ele, essa distância acabou tornando a experiência ainda mais inesperada. Memórias que durante décadas existiram apenas dentro de sua cabeça passaram a ter uma representação visual.

Não existe, por exemplo, registro da mãe encontrando o filho na praia ou do episódio em que, depois de roubar a carteira de Elis, o menino foi expulso de casa e acabou vivendo por algum tempo em uma barraquinha. Ver algo alusivo a essas lembranças transformado em cinema foi, segundo ele, profundamente emocionante.

O filme também acrescentou histórias que nem João Marcello conhecia. Ele cita o depoimento de Wanderléa, que reorganizou lembranças esparsas de sua infância, e relatos ligados a momentos da trajetória musical de Elis que ampliaram sua própria percepção. 

Entrevista exclusiva com o produtor musical e empresário João Marcello BôscoliO produtor musical e empresário João Marcello Bôscoli é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Divulgação - Diagramação: Denis Felipe - Por: Ana Claudia Paixão 

É justamente essa soma de olhares que faz o documentário ultrapassar o livro sem tentar substituí-lo.

Mas o que mais interessa a João é aquilo que essa combinação permite revelar sobre a mãe. Elis Regina foi extensamente registrada como artista.

Existem entrevistas, apresentações, fotografias, gravações e relatos suficientes para reconstruir praticamente cada etapa de sua carreira. Dentro de casa, a documentação é muito menor.

E essa diferença importa porque, para João Marcello, a vida doméstica não era uma dimensão separada da artista. Era parte daquilo que alimentava sua criação.

Elis gostava, segundo ele, do termo “dona de casa”. Em determinado período, mesmo tendo condições financeiras para manter ajuda permanente, passou meses cuidando pessoalmente da casa na Serra da Cantareira: lavava roupa, limpava e se envolvia com a rotina doméstica.

Olhando para trás, João interpreta esse movimento não como uma interrupção da carreira, mas quase como um mergulho.

“A artista se alimenta muito da figura como um todo. A Elis é uma figura, é uma mãe, é uma amiga, tem o trabalho dela e tem a face pública. Essa face pública é a mais conhecida”, explica. A oposição entre a grande profissional e a mulher que cuidava da casa, portanto, talvez diga mais sobre a maneira como costumamos olhar para mulheres extraordinárias do que sobre Elis. Para ela, aparentemente, uma dimensão alimentava a outra.

Há ainda uma Elis que João Marcello gostaria particularmente de preservar: a mulher forte sem que força significasse necessariamente dureza.

Ele se lembra de episódios em que a mãe descobriu que amigos enfrentavam dificuldades financeiras e os ajudou sem transformar o gesto em notícia.

Recorda a história contada por Aldir Blanc de que Elis, antes de uma apresentação em um ginásio — quando toda a tensão estaria naturalmente concentrada no espetáculo — ainda encontrou tempo para passar pelo hospital, visitar a mãe do compositor, cantar e rezar com ela.

Já adulto, João ouviu de Lenine outra lembrança: em Recife, Elis reuniu compositores para conversar sobre a importância de protegerem seus direitos.

São histórias pequenas diante da dimensão pública de sua carreira, mas talvez justamente por isso sejam reveladoras. João cresceu em uma casa em que, como ele próprio descreve, “o poder todo estava na mão da Elis”. E o aprendizado que ficou não foi o de associar poder à violência ou à opressão.

A mãe podia ser firme, rígida, organizada, dizer palavrões e desconcertar quem estivesse perto dela, mas também era capaz de gestos de afeto enormes e inesperados. Ele encontrou uma definição especialmente bonita para essa combinação: “uma força quente”.

“Eu senti que você não precisa necessariamente ter força e essa força machucar as pessoas que estão ao lado”, diz. Na infância, aquela potência era tamanha que se transformava também em sensação de proteção.

João conta que, mesmo quando viu Elis sair de casa desacordada no dia de sua morte, sua primeira reação foi acreditar que nada poderia acontecer. “Elis Regina não morre”, pensou. A constatação posterior de que nem aquela força poderia torná-la invulnerável é uma das memórias mais dolorosas que carrega.

Entrevista exclusiva com o produtor musical e empresário João Marcello BôscoliO produtor musical e empresário João Marcello Bôscoli é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Divulgação - Diagramação: Denis Felipe - Por: Ana Claudia Paixão 

Talvez seja por isso que, tantos anos depois, a preocupação com a permanência da mãe continue presente. João Marcello admite que uma de suas inquietações sempre foi impedir que Elis fosse esquecida.

O documentário, assim como o livro, é mais uma peça nessa transmissão de memória, agora alcançando também públicos que não viveram sua época.

E ele observa com especial entusiasmo quando artistas de gerações muito posteriores se aproximam de Elis. Na conversa, a recente homenagem da cantora espanhola Rosalía em seu show no Rio de Janeiro é recebida quase com euforia.

Para João, cada artista internacional que menciona ou canta sua mãe representa uma possibilidade de que aquela voz atravesse mais uma fronteira e encontre uma geração diferente.

“A Elis Regina é uma das últimas joias a serem descobertas pelo planeta no campo da música. E será, em algum momento”, afirma.

Depois de tantas Elis — a intérprete revolucionária, a estrela da televisão, a artista politicamente inquieta, a parceira de Tom Jobim, a voz que transformava uma canção assim que começava a cantá-la —, Elis & Eu propõe acrescentar outra sem diminuir nenhuma das anteriores.

A mãe. A amiga. A mulher que escrevia cartas, protegia compositores, lavava a própria casa, cuidava de quem amava e depois subia ao palco. Talvez não seja exatamente uma nova Elis. É a parte dela que o público teve menos oportunidades de conhecer.

Elis & Eu estreia em 25 de agosto, exclusivamente no Universal+, disponível por Prime Video, Claro TV+, Vivo TV, Meli+ e UOL Play.

 

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