A Casa de Cultura recebe até o dia 21 de agosto a exposição “Cartografias do Atravessamento”, primeira mostra individual do artista visual Renan Reis realizada na Capital.
Reunindo trabalhos produzidos ao longo de mais de 10 anos de pesquisa, a exposição apresenta um panorama da trajetória do artista por meio de diferentes linguagens e suportes, propondo ao visitante uma experiência que atravessa memória, território, espiritualidade, tecnologia e relações humanas.
A exposição funciona como um inventário afetivo da produção de Renan Reis, revelando como suas investigações foram se transformando ao longo do tempo.
Em vez de seguir uma linha cronológica, o percurso evidencia encontros, rupturas e sobreposições entre técnicas, materiais e conceitos, fazendo da própria galeria um espaço de travessia.
Artista visual, curador, educador e arteterapeuta, Renan construiu uma trajetória marcada pela experimentação. Em suas obras, convivem desenho, pintura, bordado, colagem, escultura, instalação e impressão digital.
O resultado é uma produção que coloca em diálogo o artesanal e o tecnológico, o íntimo e o coletivo, o corpo e a memória.
CONTRASTES
O ponto de partida da exposição remonta ao projeto Galáctica, criado em 2013 durante sua formação em Artes Visuais na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Na época, Renan desenvolveu um universo visual marcado por grafismos de inspiração pop e referências cósmicas, linguagem que permanece presente em parte de sua produção.
Anos depois, em 2019, um novo elemento passou a ocupar lugar central em sua pesquisa: o bordado. O contato com a prática manual abriu caminhos para investigações sobre tempo, cuidado, memória e afeto, incorporando novas texturas às obras.
Esses dois universos – o gráfico e o têxtil – se encontraram em 2021 na série “Afloramento”, um dos núcleos da exposição. Formado por polípticos em formato A3, o conjunto reúne desenho, pintura, bordado e colagem para construir autorretratos simbólicos, onde o coração aparece como elemento recorrente.
A série nasceu a partir de reflexões inspiradas nas ideias do psiquiatra Carl Gustav Jung sobre os chamados “lugares do divino”, entendidos como manifestações profundas da alma humana.
Em vez de representar uma religiosidade institucional, as obras procuram despertar a percepção da divindade presente em cada indivíduo.
EXPERIMENTAÇÃO
Logo na primeira sala da exposição, o visitante encontra um diálogo entre dois extremos aparentemente opostos.
De um lado está “Galáctica Oráculo”, trabalho composto por imagens geradas por inteligência artificial (IA).
Para produzi-las, o artista utilizou prompts capazes de simular as pinturas desenvolvidas por ele ainda em 2013. O experimento não pretende substituir a criação artística, mas refletir sobre as novas relações estabelecidas entre os seres humanos e a tecnologia.
Ao tratar a IA como uma espécie de oráculo contemporâneo, Renan propõe uma discussão sobre como esses sistemas vêm influenciando decisões, interpretações e processos criativos na sociedade atual.
Em contraste direto, surge “Os Rios que Atravessam Meu Coração”, uma colcha de retalhos que valoriza o trabalho manual, a memória compartilhada e a construção coletiva.
Enquanto uma obra nasce de algoritmos, a outra evidencia o tempo, a costura e os gestos humanos, estabelecendo uma tensão que passa por toda a exposição.
OBRA PARTICIPATIVA
No centro da primeira sala está uma das obras mais interativas da mostra: a instalação “Alógeno – Peça (me ensine algo)”.
A obra faz referência direta à performance “Alógeno”, realizada por Renan em 2017, quando investigou sensações de isolamento, imobilidade e aprisionamento utilizando papel filme e fita adesiva envolvendo o seu corpo.
Agora, esses mesmos materiais reaparecem em uma instalação formada por um grande coração confeccionado com plástico bolha e fita adesiva.
A proposta rompe a distância tradicional entre obra e espectador. Cada visitante é convidado a revestir o coração utilizando fita crepe vermelha, tornando-se parte da criação.
A ação transforma a instalação continuamente e reforça a ideia central da exposição: ninguém atravessa a vida sozinho. O contato com o outro modifica pessoas, memórias e afetos, tornando inevitável o processo de transformação coletiva.
COTIDIANO SAGRADO
Na segunda sala, a atmosfera muda completamente. O ambiente convida ao silêncio e à contemplação, reforçando a dimensão espiritual presente na pesquisa do artista.
O destaque fica por conta da série “Cabeça Coração”, composta por grandes ilustrações impressas sobre veludo.
As imagens remetem aos tradicionais azulejos portugueses e dialogam com as pesquisas desenvolvidas pela artista Adriana Varejão. Entretanto, Renan promove uma inversão simbólica ao substituir a superfície fria da cerâmica pela textura macia do veludo.
Essa escolha altera completamente a percepção da obra. O que antes evocava rigidez se torna acolhimento; o que remetia à arquitetura transforma-se em organismo vivo.
No mesmo espaço encontra-se a série “Origem”, em que o coração aparece sob diferentes perspectivas e significados.
Para o crítico de arte Oscar D’Ambrosio, as obras de Renan funcionam como verdadeiros altares contemporâneos.
Segundo ele, os trabalhos criam espaços em que o sagrado se manifesta não por meio de uma divindade distante, mas por meio da beleza, da experiência cotidiana e da possibilidade de comunhão entre as pessoas.
O crítico define ainda a série como um “útero de ideias”, capaz de oferecer múltiplas interpretações conforme o olhar de cada visitante.
INTERPRETAÇÃO ABERTA
A etapa final da exposição apresenta as aquarelas da série “Sete Chaves”, formadas por corações ciclopes, além de uma pequena escultura em madeira com apenas 15 centímetros de altura.
Na peça, uma cabeça em formato de ampulheta provoca reflexões sobre tempo, desejo, segredo e limites morais.
Ao longo de toda a exposição, Renan evita oferecer respostas prontas. Muitas obras permanecem abertas, deixando espaços vazios entre imagens, símbolos e narrativas para que cada visitante complete a experiência a partir de suas memórias, emoções e referências.
Essa opção transforma a mostra em um percurso profundamente subjetivo, em que o significado não está apenas nas obras, mas também na forma como cada pessoa se relaciona com elas.
Renan Reis trabalha a subjetividade em suas obras, deixando muitas delas abertas à interpretação do público - Foto: DivulgaçãoSOBRE O ARTISTA
Nascido em 1991, Renan Reis é graduado em Artes Visuais pela UFMS e especialista em Arteterapia Analítica.
Além da atuação como artista, desenvolve trabalhos como curador, educador e gestor cultural. Atualmente ocupa o cargo de gerente de Políticas Públicas e Fomento Cultural da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), onde é autor do Manual Técnico de Museografia e Mediação Cultural, documento adotado como referência pelas instituições museológicas do Estado.
Também é coautor do livro “Entre Materialidades e Afetos”, publicação que reúne pesquisas sobre o uso dos materiais artísticos na construção da subjetividade.
Sua produção artística acompanha essa trajetória multidisciplinar, transitando entre diferentes técnicas – do desenho digital ao bordado, da madeira ao veludo – sempre investigando o afeto como instrumento de transformação, cura e posicionamento político.
>> Serviço
Exposição: “Cartografias do Atravessamento”, de Renan Reis
Período de visitação: até o dia 21 de agosto;
Local: Casa de Cultura, na Avenida Afonso Pena, nº 2.270, Centro, Campo Grande;
Funcionamento: segunda-feira a sexta-feira, das 9h às 18h; sábados, das 9h às 12h.
A empresária Fernanda Fernandes - Divulgação

