Virna é o retrato de uma geração de mulheres que não aceita mais rótulos ou limites. Se reinventa depois dos 40,50, 60, conquistando seu próprio pódio. Aos 54 anos, Virna Dias continua em movimento. O corpo segue forte, o sorriso é o mesmo das quadras, mas agora carrega uma serenidade nova, a de quem entendeu que o tempo não é o fim, e sim o recomeço de uma mulher inteira.
"É do meu DNA me reinventar. A atleta de alta performance se aposentou, mas a mulher continua em evolução. Hoje me sinto linda, viva, curiosa e pronta para viver muita coisa ainda." Mas esta ainda é uma conquista a ser alcançada por muitas outras mulheres. Pesquisas recentes mostram um cenário desafiador ao longo da maturidade feminina: mais de 30% relatam sintomas de ansiedade, insônia ou desmotivação, e boa parte sente dificuldade em se reinventar após os 50.
Em uma fase marcada por transformações hormonais, familiares e profissionais, muitas ainda convivem com o peso do etarismo e da cobrança estética. Virna fala desse lugar com autoridade e empatia. Para ela, o movimento é a cura mais poderosa. A atividade física, diz, não é sobre performance, é sobre presença. É o que mantém o corpo ativo, a mente serena e o coração pulsando no compasso certo. "O corpo é o nosso primeiro lar. Se eu cuido dele, cuido de tudo o que amo."
A menina ousada que trocou a festa de 15 anos por uma passagem só de ida ao Rio de Janeiro para apostar em sua carreira como jogadora de vôlei, continua a mesma: destemida, inquieta e apaixonada por desafios. Nascida e criada em Natal e filha de um engenheiro e de uma Miss Brasil Objetiva, Virna cresceu entre disciplina, afeto e ousadia. Enfrentou seus medos ao se tornar mãe aos 18. Encarou de frente a sensação de culpa ao viver a maternidade de 3 filhos sempre trabalhando.
Dona de medalhas relevantes no esporte e também na vida, mãe de Vitor, de 34 anos, de Pedro (14) , e Maria, de 12; comemora sua nova fase como avó de uma menina de 11 meses: "Ser avó me ensinou o valor dos afetos e do tempo presente. Ver minha neta sorrir me lembra que cada papel novo é uma chance de recomeçar. A maternidade foi minha melhor superação e reinvenção. Hoje descubro uma Virna mais inteira, que se permite limites, que ama com presença, que cuida de si para poder cuidar dos outros."
Além do corpo, da mente e dos afetos, Virna também destaca a importância de uma vida equilibrada financeiramente para mulheres maduras. "Muitas colegas minhas, mesmo depois de uma carreira vitoriosa, enfrentam dificuldades por não terem planejado o futuro. Também me reinvento diariamente com disciplina financeira: sou empresária, palestrante e comentarista. Cuidar da saúde financeira é tão importante quanto cuidar do corpo e da mente", encerra Virna.
Virna é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana, e em entrevista ao Caderno ela fala sobre carreira, escolhas, transformações, maternidade e o poder de se reinventar.
Virna Dias é a Capa exclusiva do Correio B+ - Foto: Lennon Silva - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia VianaCE - Você sempre foi uma mulher de movimento. Em que momento percebeu que o "fim" da carreira de atleta era, na verdade, o começo de uma nova fase?
Virna: Eu sempre fui uma mulher em movimento, muito proativa, sempre gostei de me reinventar. O fim da minha carreira coincidiu com uma gravidez eu tinha problema de saúde, de trompas e de útero e engravidei. Eu tive que parar de jogar porque já tinha 39 anos e não ia colocar em risco a gravidez. Foi um pós-carreira não programado, mas, coincidentemente, me reinventei. Após o nascimento do Pedro, virei comentarista de vôlei e já entrei nesse momento em que começava essa vida de ex-atleta e comentarista. Também me reinventei sendo palestrante.
CE - O que significa, pra você, "ser uma atleta da vida"? Há algo do espírito esportivo que você leva pra tudo o que faz hoje?
Virna: A vida de um atleta é muito regrada, muito sacrificante. Você abre mão de vida social, muitas vezes da família. Mas o legado que o esporte deixa os valores, as experiências, as frustrações, aprender a ganhar e a perder, se reinventar eu levo tudo isso pra minha vida. O esporte me deu resiliência, resistência, vontade de superar, vontade de me reinventar. No esporte não existe replay: ou você faz, ou você faz. Isso tem sido muito bacana pra mim.
CE - O que te inspira atualmente e o que ainda te desafia?
Virna: O que me inspira e me desafia é o dia a dia. Eu sempre quero ser a melhor mãe, a melhor amiga, a melhor empresária. Sou virginiana, tenho um signo altamente perfeccionista. Sou uma pessoa que tem o olhar do mundo da bondade, da generosidade e da perfeição. Sempre quero poder inspirar as pessoas e levar a melhor mensagem de vida, a melhor motivação. Gosto de ler muitos livros motivacionais e de entender a mente humana.
CE - Você fala muito sobre envelhecer com leveza, vaidade e equilíbrio. O que mudou na sua relação com o corpo e com a beleza depois dos 50?
Virna: Eu sou uma pessoa muito vaidosa e curto muito a minha idade. A beleza depois dos 50 é saber envelhecer e se amar. Sempre fui muito vaidosa isso vem da minha mãe, que sempre foi muito bonita e vaidosa. Acho que, quando a gente encontra esse equilíbrio, a vaidade sem exagero, a boa alimentação, a qualidade de vida e o descanso, tudo flui. A gente é o que come, o que fala. Tenho a cultura do esporte muito forte, me cuido bastante: faço exercícios físicos todos os dias, musculação duas vezes por semana, pilates, adoro fazer massagem, ir ao cabeleireiro, hidratar o cabelo e cuidar da mente com meditação. Sou muito religiosa.
Antigamente, eu via uma mulher de 50 anos e achava velha a referência que eu tinha era da minha avó, nordestina, que fazia crochê. Hoje, me vejo com 50, cheia de saúde, vitalidade e prazer de viver. Me lido muito bem com o etarismo. Acho que a gente tem que aceitar a idade e curtir as limitações. Me acho gata, linda, me curto, tenho autoestima elevada e aceito muito bem minhas rugas. Curto viver e tenho uma sede de viver muito grande.
CE - A sociedade ainda é dura com mulheres maduras, especialmente em relação à aparência. Como você lida com o etarismo e com essa pressão estética?
Virna: Eu lido muito bem com isso. Acho que o esporte me beneficiou muito. Meu corpo é mais jovem que o de muitas mulheres da minha idade por causa da prática esportiva, mas o mais importante é o equilíbrio. Eu aceito minhas rugas, o tempo de descanso que preciso, e sigo me cuidando e me amando.
CE - Se pudesse dar um conselho para mulheres que têm medo de envelhecer, qual seria o primeiro passo para encarar essa fase com prazer e não com medo?
Virna: Acho que a gente não tem que ter medo de envelhecer a gente tem que ter prazer de viver. Temos que trocar essa palavra "medo" por "prazer". Passamos por tantas dificuldades, até uma pandemia, e se estamos aqui hoje, temos que usufruir da melhor forma e levar mensagens de otimismo e autoestima pra essa mulherada. Elas têm que se aceitar como são, mas sempre cuidando da saúde, que pra mim é primordial.
CE - Você foi mãe muito jovem e agora vive a experiência de ser avó. Como essas duas maternidades a da juventude e a da maturidade te transformaram?
Virna: Eu fui mãe do Victor aos 18 anos e realmente não fui tão presente como gostaria. Hoje, com o Pedro, de 15, e a Maria, de 12, tenho mais tempo e disponibilidade. Consigo me dividir entre as palestras e a maternidade. E, como avó, estou completamente apaixonada. Falo que é um coração que bate fora da gente. É um amor incondicional, surreal, maravilhoso de viver.
Virna Dias é a Capa exclusiva do Correio B+ - Foto: Lennon Silva - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia VianaCE - Você fala sobre aprender a "amar com presença". Como tem colocado isso em prática no dia a dia com seus filhos e sua neta?
Virna: Tenho colocado isso em prática sendo mais presente. Hoje eu tenho tempo e disponibilidade pra estar com eles de verdade. Consigo dividir melhor o meu tempo e viver esse amor com presença.
CE - Que legado você gostaria que sua família levasse da mulher que existe por trás da atleta?
Virna: Acho que o legado da mulher que existe por trás da atleta é uma Virna batalhadora, humilde, que tem prazer de viver e está cercada de pessoas balões que voem comigo.
CE - Você costuma dizer que cuidar da saúde financeira é tão importante quanto cuidar do corpo. Que aprendizados o esporte te deu sobre disciplina e planejamento que hoje aplica nos negócios?
Virna: Quando se fala de saúde financeira, dá pra fazer um paralelo com a saúde do corpo. Tudo na vida tem que ter equilíbrio. Eu sempre tive um pai que me orientou muito na carreira. Lembro que, quando ganhava um salário, meu pai tirava 30% e eu tinha que viver com o resto. Ele me ajudava a investir. Sou muito conservadora, não sou de correr riscos, mas tenho equilíbrio, sem ostentação e com olhar de ajudar o próximo. Nós somos uma minoria privilegiada, e se estamos nesse mundo hoje, temos o propósito de fazer o bem.
CE - Você se autointitula "embaixadora da longevidade ativa". Que sonho ainda quer realizar pessoal ou profissionalmente nessa nova fase da sua vida?
Virna: Acho que a gente nunca pode deixar de sonhar. Tenho projetos interessantes com o esporte, inclusive com a Mireya Luis, cubana que foi minha maior adversária e hoje é minha amiga. Queremos despertar nos jovens a importância da prática esportiva. E tenho um sonho pessoal: falar inglês fluentemente. Falo italiano, mas o inglês ainda é uma língua que preciso aprimorar. Quero fazer uma imersão fora pra dominar a língua. A gente não tem tempo nem idade pra desistir dos nossos sonhos.
CE - Como foi para você ser eleita a melhor jogadora do mundo em 1999 e quais lembranças dessa conquista você carrega até hoje?
Virna: Eu fui a melhor jogadora do mundo em 1999. Eu acho que são as lembranças da vida de um atleta, em que tudo é desafiante para a gente. É muito treinamento, é abdicar de muita vida social, muitas vezes da família, em busca de representar o seu país. E as melhores lembranças é que, quando a gente ganha um título desses, a gente não ganha sozinho, né? Vem de um esporte coletivo no qual todas têm a sua participação, né? A gente depende de uma boa recepção, de um bom levantamento para a gente finalizar a bola. Mas esses anos todos foram três Olimpíadas, 25 anos de carreira, e as amizades. As amizades, as viagens, os legados, as dores, as vitórias, as derrotas. É muito bacana.
Camisa 10 da seleção brasileira - DivulgaçãoCE - Você participou de três Olimpíadas e acompanhou suas colegas conquistando medalhas de ouro. Que momentos dessas Olimpíadas marcaram mais a sua carreira e a sua vida pessoal?
Virna: Eu não fui campeã olímpica. Tenho duas medalhas de bronze. Quando eu parei de jogar, as meninas foram campeãs olímpicas, e eu falo que eu sou bicampeã olímpica como comentarista, porque já estava comentando o vôlei. Um ano estava pela TV Bandeirantes com Luciano do Valle, outro ano estava com Maurício Torres pela Record, e eu tive a honra de poder comemorar e vivenciar essa conquista com as meninas, que foi na Olimpíada de Londres e na Olimpíada de Pequim."
CE - Além das conquistas pessoais, como você acredita que o esporte pode transformar a vida das pessoas, seja na autoestima, na disciplina ou no bem-estar?
Virna: O esporte é transformador, não só transforma vidas, mas também disciplina, educa, principalmente para os jovens, sabe? Tira as crianças desse mundo virtual, desse mundo ocioso, e além da autoestima, você cria hábitos saudáveis de rotina, de alimentação, de descanso. É um legado para toda a minha vida.
A eterna campeã mundial Virna Dias - Divulgação

Dr. Afonso Simões Corrêa, que está participando do programa de residência médica em Oncologia Clínica na USP, em São Paulo
Flávia Ceretta
Espiritualidade é duas vezes mais relevante para a felicidade dos brasileiros do que para a média global - Foto: Freepik


