Mudar a alimentação vai muito além de receber uma lista de alimentos permitidos e proibidos. Hábitos alimentares são construídos ao longo da vida e podem estar associados a emoções, experiências, crenças, relações sociais e até a diferentes formas de funcionamento do cérebro. Por isso, estratégias de aconselhamento e o reconhecimento de transtornos alimentares são cada vez mais importantes no acompanhamento de pacientes.
O tema esteve entre as discussões do 30° Congresso Brasileiro de Nutrologia (CBN), realizado de 24 a 26 de setembro, em São Paulo (SP). Promovido pela Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), o evento reuniu profissionais e pesquisadores para discutir avanços no diagnóstico e no tratamento da obesidade e de outras questões relacionadas à saúde e à alimentação.
Durante as palestras, especialistas chamaram atenção para situações que podem ser confundidas com falta de disciplina, “frescura” ou simplesmente dificuldade para seguir uma dieta.
Mudança de hábito
Segundo os especialistas, uma das dificuldades no tratamento da obesidade é justamente compreender que o comportamento alimentar não é determinado apenas pelo conhecimento sobre nutrição.
Mesmo quando o paciente sabe o que deveria comer, isso não significa que conseguirá modificar seus hábitos imediatamente.
Nesse processo, estratégias utilizadas em intervenções motivacionais e na terapia cognitivo-comportamental podem ajudar o paciente a reconhecer a distância entre a maneira como se comporta e a forma como gostaria de agir.
A abordagem passa, por exemplo, pela empatia. Em vez de confrontar alguém que não conseguiu seguir determinada orientação, o profissional pode investigar o que aconteceu, quais sentimentos estavam envolvidos e quais obstáculos apareceram na rotina.
A chamada “resistência” também deve ser compreendida como parte do processo. Para quem está acostumado a determinados sabores, horários e formas de comer, uma mudança brusca pode parecer inviável. Por isso, metas menores e possíveis de serem cumpridas tendem a ser mais úteis do que uma série de restrições difíceis de manter.
Outra estratégia é identificar os estímulos associados ao comportamento alimentar. Um paciente pode, por exemplo, comer diante do estresse, do cansaço ou da ansiedade sem necessariamente reconhecer essas situações como gatilhos. Com o tempo, pode passar a confundir fome com vontade de comer.
Recaídas acontecem
A prevenção de recaídas também foi apontada como parte fundamental do tratamento. Um episódio fora do planejamento pode provocar a sensação de fracasso e desencadear um ciclo de compensação, culpa e abandono.
A proposta, nesse caso, é transformar o episódio em informação: entender o que aconteceu, quais fatores contribuíram e o que pode ser feito de maneira diferente na próxima situação.
O apoio social também tem papel importante. Família e amigos podem facilitar ou dificultar mudanças de comportamento, especialmente quando não compreendem o tratamento. Por isso, esclarecer as pessoas próximas sobre a condição e sobre as estratégias utilizadas pode melhorar a comunicação e a adesão.
Pós-bariátricos exigem atenção
A necessidade de olhar além do peso também foi destacada durante a discussão sobre pacientes submetidos à cirurgia bariátrica.
A médica Fernanda Miranda, pediatra e psicoterapeuta especializada em transtornos alimentares, chamou atenção para mudanças que podem aparecer principalmente após o primeiro ano da cirurgia. Segundo ela, o reganho de peso nem sempre representa uma falha do procedimento. Em muitos casos, pode estar relacionado a alterações no comportamento alimentar.
A especialista destacou que pacientes com obesidade grave apresentam elevada frequência de diagnósticos psiquiátricos ao longo da vida e que transtornos alimentares e sintomas relacionados à perda de controle sobre a alimentação precisam ser investigados antes e depois da cirurgia.
Entre os comportamentos que merecem atenção estão a compulsão com perda de controle, o grazing, caracterizado pelo chamado beliscar repetidamente ao longo do dia, além de padrões restritivos e relacionados ao medo de recuperar peso.
Um dos desafios é justamente identificar o grazing. O paciente pode não perceber ou não se lembrar da quantidade de pequenos episódios de alimentação que acontecem durante o dia. Por isso, a especialista recomenda ferramentas como diários alimentares e registros das refeições para ajudar a reconstruir o comportamento.
“Não é simplesmente uma questão de força de vontade”, é a lógica defendida durante a palestra: é necessário compreender qual comportamento está acontecendo para, então, definir a intervenção.
A avaliação deve ainda considerar possíveis alterações anatômicas relacionadas à cirurgia. Uma queixa do paciente não deve ser automaticamente atribuída a um transtorno alimentar. Caso exista dificuldade para comer, por exemplo, é necessário investigar também possíveis causas clínicas e encaminhar o paciente ao cirurgião responsável quando necessário.
Tratamento multidisciplinar
Outro ponto destacado no congresso foi a importância do acompanhamento multidisciplinar. Pacientes com alterações importantes do comportamento alimentar podem precisar de nutricionista, psicólogo, psiquiatra, nutrólogo e, dependendo do caso, outros profissionais.
A terapia cognitivo-comportamental aparece como uma das estratégias utilizadas no tratamento de diferentes transtornos alimentares. A ideia é trabalhar pensamentos, emoções e comportamentos que mantêm o problema.
Para os especialistas, o profissional que acompanha a obesidade não deve tentar conduzir sozinho um quadro de transtorno alimentar. O rastreamento deve ser contínuo, já que diferentes comportamentos podem aparecer ou se modificar ao longo do tratamento.
Medo de comer
Outro tema abordado foi o transtorno alimentar restritivo evitativo (Tare). Diferentemente de transtornos como anorexia nervosa, o problema não está necessariamente relacionado ao medo de engordar ou à insatisfação corporal.
O Tare pode se manifestar por diferentes motivos. Um deles é a sensibilidade a características dos alimentos, como textura, cheiro, sabor ou aparência. Outro é o medo de consequências relacionadas à alimentação, como engasgar ou vomitar. Também existe o perfil marcado pelo desinteresse pela comida ou pela dificuldade de perceber sinais internos de fome e saciedade.
A consequência pode ser uma redução importante da variedade alimentar, deficiência nutricional, dependência de suplementos ou prejuízos na vida social.
Um exemplo discutido durante a apresentação foi o de pessoas que, após um episódio de engasgo, passam a evitar determinado alimento ou até grupos inteiros. O medo pode se generalizar e fazer com que a pessoa restrinja progressivamente a alimentação.
Por isso, chamar alguém de “fresco” ou “enjoado” pode contribuir para o estigma e atrasar a procura por ajuda. A orientação apresentada no congresso é para investigar o motivo da restrição e encaminhar o paciente para uma terapia específica quando necessário.
A seletividade alimentar, por sua vez, não significa necessariamente que exista um transtorno. Uma pessoa pode ter preferência por um número menor de alimentos sem apresentar prejuízo nutricional, funcional ou social. O diagnóstico depende justamente da presença de consequências relevantes.
O saudável que prejudica
Outro comportamento discutido foi a ortorexia nervosa, caracterizada por uma preocupação excessiva e rígida com a qualidade e a “pureza” dos alimentos.
A busca por uma alimentação saudável, por si só, não representa um problema. A questão surge quando a preocupação se transforma em uma fixação que provoca sofrimento, ansiedade, isolamento social ou restrições cada vez maiores.
O paciente pode passar horas planejando, comprando e preparando alimentos, além de eliminar progressivamente grupos considerados “impuros”, como produtos com conservantes, corantes, açúcar, glúten ou outros ingredientes.
Com o tempo, a lista de alimentos proibidos pode se tornar maior do que a de alimentos permitidos, aumentando o risco de deficiências nutricionais.
As redes sociais podem contribuir para esse processo ao reforçar continuamente determinados discursos sobre alimentação “limpa” e estilos de vida considerados superiores. O problema não está em escolher alimentos naturais ou evitar determinados produtos, mas na rigidez e no impacto que essas escolhas passam a ter sobre a vida.
O isolamento também pode aparecer quando a pessoa deixa de frequentar restaurantes, encontros ou eventos porque não consegue controlar a origem e a composição da comida oferecida.
A empresária Fabiana Tchalian é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Divulgação - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana
A empresária Fabiana Tchalian é a Capa exclusiva do Correio B+ desta semana - Foto: Divulgação - Diagramação: Denis Felipe - Por: Flávia Viana
A empresária Fabiana Tchalian - Divulgação
Fabiana ao lado do primo e sócio Rodrigo Gedankien - Divulgação


