Na correria do dia a dia, a praticidade fala mais alto na hora de escolher o que comer. Por exemplo: em vez de tomar um café da manhã à moda antiga, com direito a frutas, sucos naturais, um ovinho na manteiga e outros preparos caseiros (bolos, cuscuz, mandioca, etc.), muita gente acaba sendo movida pela pressa e sai de casa sem comer para arriscar um salgado com refrigerante já perto do trabalho ou da escola.
Salgados e refrigerantes pertencem ao grupo de alimentos ultraprocessados, custando, assim, mais barato do que os itens in natura ou que passam por processos industriais de menor impacto.
Eles doem menos no bolso, mas afetam a saúde do organismo de modo mais agressivo do que se pode imaginar, abrindo a porta para doenças fatais, como o câncer e o diabetes, além de problemas mentais e digestivos.
O consumo em alta de ultraprocessados é um quadro disfuncional que vem se consolidando já há algum tempo em várias partes do mundo, inclusive no Brasil e em Mato Grosso do Sul. Mas, a cada novo estudo científico publicado, a coisa piora e deixa nutricionistas, médicos e outros especialistas ainda mais preocupados. Desta vez, o alerta vem de uma pesquisa divulgada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O estudo foi conduzido por dois grupos de pesquisa da UFMG, em parceria com o Instituto de Defesa dos Consumidores (Idec), e mapeou os valores dos alimentos entre 2018 e 2024, apontando que, em 2026, os ultraprocessados custarão menos que os alimentos in natura ou minimamente processados.
No início do período em recorte, os alimentos saudáveis custavam, em média, R$ 18,90 por quilo, contra R$ 22,20 dos ultraprocessados. Para o ano que vem, o levantamento aponta que os produtos saudáveis atingirão o valor médio de R$ 19,60 por quilo, contra R$ 17,90 dos ultraprocessados.
Salsichas, nuggets, bolachas recheadas, refrigerantes, salgadinhos, sorvetes e refeições prontas congeladas estão entre os principais alimentos ultraprocessados que fazem parte da rotina do brasileiro, segundo a nutricionista Paula Saldanha Tschinkel.
“São formulações industriais feitas a partir de substâncias derivadas de alimentos, combinadas com aditivos alimentares e cosméticos, apresentando pouco ou nenhum alimento in natura ou minimamente processado em sua composição”, define a especialista.
Custam menos porque, segundo a também nutricionista Michelle Koltermann, “a indústria consegue produzir em massa com ingredientes muito baratos [açúcar, óleo, amidos], tem menos perdas, maior prazo de validade e logística mais simples”.

ESCALA E IMPOSTOS
“Já os alimentos frescos estragam rápido, precisam de refrigeração e têm custos maiores de produção e transporte. No fim das contas, isso faz o preço da ‘comida de verdade’ ficar mais alto nas prateleiras”, explica Michelle, que atua no Sesc Mesa Brasil, programa que se dedica à promoção de uma alimentação mais saudável e acessível e a campanhas de doação.
Segundo dra. Paula, as políticas fiscais que favorecem a produção em massa também estão entre os fatores principais que barateiam os ultraprocessados.
“Alguns setores dessa indústria têm acesso a isenções ou impostos reduzidos que não se aplicam aos alimentos frescos. Um exemplo é a água e o refrigerante. Em muitos casos, temos mais barato o refrigerante na gôndola do supermercado do que a água. Um absurdo isso, pois é um estímulo à obesidade e à alimentação por ultraprocessados e produtos químicos”, diz Paula Tschinkel.
“Temos várias interferências. Entre elas, a economia de escala industrial. A produção em larga escala permite redução de custos fixos e de matéria-prima por unidade produzida”, acrescenta.
Além de custar mais caro, alimentos in natura, por serem frescos, demandam mais cuidados na colheita, transporte refrigerado e distribuição rápida para evitar perdas, conforme a nutricionista observa.
“Temos variação sazonal e menor escala industrial, que aumentam o custo por unidade. Ainda: a produção agrícola pode ser mais intensiva em mão de obra e insumos variáveis, elevando custos. O menor prazo de validade eleva desperdício e custos indiretos. Esses fatores, juntos, criam um ambiente em que ultraprocessados se posicionam como opção economicamente mais viável no curto prazo para o consumidor, apesar de apresentarem riscos nutricionais e de saúde pública quando consumidos em excesso”, diz Paula.
DOENÇAS
A nutricionista afirma que ultraprocessados, por possuírem baixo valor nutricional real, “matam a fome” ao fornecer calorias, mas não nutrem adequadamente o organismo.
“São ricos em ingredientes como açúcar, sódio, gorduras saturadas e trans, e pobres em fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos importantes para o equilíbrio metabólico e imunológico do corpo. Os ultraprocessados têm cálculo acidificante no nosso corpo, o que evolui para doenças”, afirma.
“Sim, eles enchem o estômago, mas não alimentam o corpo de verdade”, endossa Michelle Koltermann. “São cheios de calorias ‘vazias’. O corpo até recebe energia, mas não o que precisa para funcionar bem. Por isso, dão pouca saciedade, bagunçam a glicemia, inflamam o organismo e deixam você com fome de novo. O corpo absorve tudo rápido demais, a insulina dispara, o intestino perde qualidade e, com o tempo, isso vira um terreno perfeito para ganho de peso e inflamação crônica. O corpo fica ‘alimentado’, mas malcuidado”, descreve.
Baseando-se numa série de publicações científicas, Paula Tschinkel afirma que, além de alterações renais e problemas mentais como depressão, o consumo elevado de ultraprocessados aumenta em 26% o risco de obesidade, em 79% o risco de síndrome metabólica e tem associação significativa com doenças cardiovasculares e até aumento de mortalidade por doenças crônicas.
“O ultraprocessamento altera a matriz alimentar natural, afetando negativamente a biodisponibilidade de nutrientes e promovendo desregulação do apetite. O gasto anual para o sistema público de saúde brasileiro por conta das doenças relacionadas ao consumo desses produtos é de pelo menos R$ 10,4 bilhões”, destaca a nutricionista, que exemplifica com números outros males, e até o risco de morte, ocasionados pelos ultraprocessados.
O consumo desses alimentos está associado a um aumento em até 50% do risco de mortalidade por doenças cardiovasculares, como infarto e AVC, em razão do excesso de sódio e gorduras saturadas e trans.
Eles estão associados a maior risco de vários tipos de câncer, como mama, próstata e cólon, ligados às substâncias químicas usadas no processamento e aos desequilíbrios metabólicos.
“Estudos indicam risco aumentado de 20% a 40% na mortalidade total em pessoas com alta ingestão desses alimentos”, afirma Paula.
PARA MUDAR
A reversão do atual quadro de facilidades tributárias deveria ser a primeira providência para uma redução da presença dos ultraprocessados nas prateleiras e nos cardápios.
“Começar por mudanças políticas. Colocar imposto alto, e não isenção [de tributos], em alimentos industrializados e ultraprocessados. Colocar custo quase zero nos alimentos naturais para a população geral”, afirma a nutricionista, que, além de atuar como pesquisadora, presta atendimento em uma clínica em Campo Grande.
“Manter uma instrução adequada de educação nutricional sobre o que é comida de verdade e proibir divulgação e marketing de todos os produtos ultraprocessados”, defende Paula. Além das políticas públicas, a colega Michelle Koltermann, do Mesa Brasil, destaca a importância das medidas que podem ser tomadas no dia a dia, como “cozinhar mais, ter opções saudáveis fáceis em casa, reduzir aos poucos os ultraprocessados e ler mais os rótulos”.
Marcando uma oposição ferrenha às redes de fast food, “vindas principalmente dos EUA”, Paula Tschinkel aposta que “voltar às origens” do quebra-torto matinal – por exemplo, com um carreteiro com ovo – poderia ajudar a população sul-mato-grossense a restabelecer hábitos de alimentação mais saudáveis. É preciso, portanto, reorganizar a agenda pessoal e recuperar o tempo perdido com a ingestão das chamadas “porcarias”.
Hábitos alimentares – Campo Grande e MS*
>> 19% dos homens e 14% das mulheres consumiram cinco ou mais grupos de alimentos ultraprocessados no dia anterior à entrevista (ao Vigitel, em 2023), enquanto no estado de MS essa proporção foi de 13% da população geral. O consumo é mais elevado entre jovens de 18 a 24 anos (22,2%) e menor entre idosos (6%).
>> Em Campo Grande, o consumo de ultraprocessados contribui para o aumento da obesidade, presente em mais de 25% dos adultos na cidade, e impacta a cultura alimentar local em altos níveis.
>> O Estado registra avanços no combate à insegurança alimentar, com mais de 34 mil famílias saindo da vulnerabilidade alimentar em 2024, o que apresenta um cenário misto de desafios e progressos em saúde e nutrição.
*Fonte: sistema de vigilância Vigitel, que monitora fatores de risco para doenças crônicas, e Paula Saldanha Tschinkel.

Dr. Afonso Simões Corrêa, que está participando do programa de residência médica em Oncologia Clínica na USP, em São Paulo
Flávia Ceretta
Espiritualidade é duas vezes mais relevante para a felicidade dos brasileiros do que para a média global - Foto: Freepik


