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Outubro Rosa: 5 situações em que a dor depois da mastectomia merece atenção

Anestesiologista explica sintomas que podem indicar dor crônica pós-cirúrgica e quando buscar avaliação especializada

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O tratamento do câncer de mama chega ao fim, mas a dor nem sempre vai embora. A síndrome dolorosa pós-mastectomia costuma se manifestar como queimação, choques, formigamento e alterações na sensibilidade, e atinge uma parcela expressiva das mulheres operadas.

O Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama por ano entre 2026 e 2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer e a maioria das pacientes passa por cirurgia.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Plastic, Reconstructive & Aesthetic Surgery, que reuniu 91 estudos e 26.132 pacientes, estimou prevalência média de 41,8% de dor crônica após mastectomia e reconstrução mamária.

A causa mais frequentemente identificada é a lesão do nervo intercostobraquial, manipulado no acesso à axila durante a avaliação dos linfonodos, etapa necessária ao tratamento oncológico. A dor pode aparecer horas, semanas ou meses depois do procedimento.

No Outubro Rosa, o alerta também vale para o período após a cirurgia. "A paciente pode acreditar que a dor faz parte do processo e que precisa simplesmente conviver com ela. Mas quando o sintoma persiste ou muda de característica, é importante conversar com o médico, porque existem formas de tratamento", explica o Dr.

Jorge Luiz Andrade, médico anestesiologista, especialista em Dor e vice-presidente executivo da Unimed Nova Iguaçu.

1. A dor continua por mais de três meses

Uma dor que persiste ou retorna por mais de três meses após a cirurgia é considerada crônica e merece avaliação, principalmente quando interfere no sono, na movimentação ou nas atividades do dia a dia.

2. Surge uma sensação de queimação ou ardência

Queimação ou ardência no tórax, na axila ou no braço do lado operado pode estar relacionada a alterações nos nervos envolvidos na cirurgia e deve ser relatada ao médico.

3. A dor parece um choque ou uma fisgada

Sensações semelhantes a choques elétricos, pontadas ou fisgadas são características descritas em quadros de dor neuropática e podem aparecer espontaneamente ou durante determinados movimentos.

4. Um toque leve passa a provocar dor

Quando o contato da roupa ou outro estímulo que normalmente não causaria desconforto passa a provocar dor, pode haver alteração na sensibilidade da região. Formigamento e dormência também são sintomas que merecem atenção.

5. O desconforto começa a limitar a rotina

Evitar movimentar o braço, ter dificuldade para dormir ou deixar de realizar atividades habituais por causa da dor são sinais de que o quadro já está afetando a qualidade de vida e precisa ser investigado. A limitação do movimento, quando se prolonga, pode levar a rigidez de ombro e contribuir para o agravamento do linfedema.

"Descrever a dor ajuda muito na avaliação. Saber onde ela aparece, há quanto tempo, se é uma queimação, um choque ou uma pontada e se existe alteração de sensibilidade são informações importantes para identificar o tipo de dor e definir o tratamento", afirma o especialista.

O cuidado começa antes da cirurgia

A anestesiologia participa do controle da dor antes, durante e depois do procedimento, e diferentes estratégias podem ser utilizadas para melhorar a recuperação. A diretriz de prática clínica publicada em janeiro de 2026 na revista Anesthesiology, da American Society of Anesthesiologists, recomenda fortemente o uso de bloqueios de plano fascial para reduzir a dor e a necessidade de opioides nas primeiras 24 horas após a mastectomia, considerando as características de cada paciente e procedimento.

Para as mulheres que desenvolvem dor persistente, o tratamento é individualizado e pode combinar medicamentos, procedimentos para controle da dor, fisioterapia e reabilitação.

"Dor depois da mastectomia não deve ser normalizada. Se ela persiste, interfere na rotina ou apresenta características diferentes do desconforto esperado no pós-operatório, vale buscar avaliação para entender a causa e tratar", completa o Dr. Jorge.

Cinema Correio B+

Galinha Pintadinha: do acaso no YouTube à tela grande, 20 anos depois

Criadores Juliano Prado e Marcos Luporini contam como um vídeo rejeitado pela TV virou fenômeno brasileiro e, duas décadas depois, chega ao cinema

03/10/2026 13h00

Galinha Pintadinha: do acaso no YouTube à tela grande, 20 anos depois

Galinha Pintadinha: do acaso no YouTube à tela grande, 20 anos depois Foto: Divulgação

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Há vinte anos, ninguém precisava apenas mandar um link. Era necessário explicar o que aconteceria depois do clique. Quando Juliano Prado e Marcos Luporini terminaram o primeiro vídeo da Galinha Pintadinha, em 2006, queriam apresentá-lo a produtores de televisão.

Juliano não conseguiria estar na reunião em São Paulo e a alternativa seria mandar o material de Campinas por motoboy. Resolveu experimentar uma novidade chamada YouTube. “Você vai clicar aí e vai passar um vídeo direto no seu browser”, lembra ele, rindo hoje da explicação que parecia necessária naquele momento.

O vídeo foi mostrado e não interessou ao canal. Juliano perguntou se já podia apagá-lo e ouviu que sim. Não apagou. O que aconteceu depois transformou aquela pequena desobediência digital em uma das histórias mais improváveis do audiovisual brasileiro. O público encontrou a Galinha antes que a indústria percebesse que havia alguma coisa acontecendo ali.

Vieram novos clipes, uma primeira tiragem de mil DVDs — quantidade que os dois já considerariam uma vitória se conseguissem vender —, distribuição nacional, produtos licenciados, outras plataformas, outros países e gerações inteiras de crianças.

Duas décadas depois, a personagem chega a um território que, de certa maneira, parecia muito mais distante em 2006 do que o próprio YouTube: a tela do cinema. Galinha Pintadinha: O Filme estreia em 1º de outubro celebrando os 20 anos de uma personagem que nasceu digital antes mesmo do termo fazer parte da nossa rotina e chega ao cinema depois de sobreviver não apenas à passagem do tempo, mas a uma transformação completa na maneira como crianças assistem, escolhem e repetem aquilo de que gostam.

Juliano gosta de lembrar que o primeiro vídeo surgiu quase no final da era do VHS, quando o DVD ainda não estava na casa de todo mundo e não existia iPhone. Naquele momento, produzir para a internet não parecia uma estratégia de futuro.

“Era um mercado meio marginal. Não era televisão, não era cinema, não era TV a cabo, não era nada. Só que estava acontecendo por ali”, lembra. E estava mesmo.

A Galinha Pintadinha cresceu até se tornar uma das propriedades infantis brasileiras de maior alcance, atravessando plataformas, idiomas e países sem deixar de permanecer sob o controle de seus criadores.

Juliano Prado e Marcos Luporini continuam à frente da marca por meio da Bromelia Produções, numa trajetória pouco comum em um mercado no qual propriedades de sucesso frequentemente acabam absorvidas por grandes conglomerados. Mais curioso ainda é perceber que a Galinha não precisou permanecer exatamente a mesma para continuar reconhecível.

Marcos conta que nem mesmo o visual hoje imediatamente identificável surgiu pronto. A personagem foi sendo construída por várias mãos, como costuma acontecer na animação. A primeira pessoa a pintá-la de azul foi a artista Ana Paula Indalêncio. As pintinhas, a forma e os demais elementos foram sendo refinados ao longo dos anos.

“Não somos o Maurício de Sousa da Galinha Pintadinha”, diz Marcos, justamente para ressaltar essa construção coletiva. Ainda assim, reconhece nele uma referência inevitável para qualquer pessoa que trabalhe com animação no Brasil. A simplicidade do desenho, as cores chapadas e a facilidade de identificação fazem parte dessa tradição. Hoje bastam uma galinha azul, bolinhas brancas e uma crista vermelha para que uma criança saiba quem está vendo.

Mas talvez a verdadeira força da personagem não esteja apenas no desenho. Está na música. Desde o começo, o projeto se apoiou no cancioneiro popular brasileiro, repertório que Marcos considera uma das grandes riquezas culturais do país. São músicas que chegaram até nós atravessando décadas — algumas, séculos — antes mesmo de dependerem de qualquer registro audiovisual. “Imagina o que é para uma música não ser esquecida sem precisar ser escrita”, diz.

Galinha Pintadinha: do acaso no YouTube à tela grande, 20 anos depois                 Divulgação

A Galinha Pintadinha acabou funcionando como uma nova ponte para esse repertório. Pais e avós reconheceram músicas da própria infância enquanto as crianças passaram a conhecê-las pelo YouTube, pelo DVD, pelo streaming e, agora, pelo cinema. Essa talvez seja uma das razões de a marca ter adquirido algo que seus criadores definem hoje como uma característica transgeracional.

“O avô canta, o tio canta, a música já é isso. E agora a Galinha tem 20 anos”, observa Juliano. Ele já percebe adolescentes e adultos dizendo que querem assistir ao filme, mesmo quando precisam brincar que vão “pegar uma criança emprestada” para justificar a ida ao cinema.

A geração que conheceu os primeiros vídeos cresceu e alguns já levam os filhos. Isso cria para a Galinha Pintadinha uma situação curiosa: seu público principal continua se renovando rapidamente porque crianças pequenas crescem e deixam aquela fase, mas a personagem começa a acumular também a memória afetiva de quem já passou por ela. “Por 20 anos, a gente passou aquela barreira em que acabou a novidade e acabou a Galinha”, diz Juliano.

O cinema talvez seja a maior prova disso. A ideia de fazer um longa não surgiu de repente. O projeto levou cerca de cinco anos, e os criadores dizem que esperaram até sentirem que a marca e eles próprios haviam alcançado maturidade suficiente para enfrentá-lo. Havia ainda um risco que queriam evitar. “A gente não queria fazer um filme oportunista, só pegar e dar uma arremessada nas coisas que já tem”, diz Juliano.

Transformar pequenos clipes musicais em uma narrativa capaz de sustentar pouco mais de uma hora exigia reaprender a trabalhar com personagens que durante anos funcionaram perfeitamente em poucos minutos.

A experiência mais próxima havia sido o teatro, mas sua linguagem também era completamente diferente. O filme precisava ser, de fato, um filme, e precisava manter a atenção de uma geração que nasceu cercada por múltiplas telas, vídeos curtos e escolhas instantâneas.

Talvez por isso seja especialmente simbólico levar a Galinha para uma sala escura onde a experiência volta a ser coletiva. Juliano vê justamente aí um dos encantos do cinema para crianças: elas estão diante de uma única história, em um espaço concebido para a imersão e cercadas por outras pessoas vivendo a mesma experiência.

Visualmente, a mudança também é grande. A personagem deixa o universo essencialmente 2D e chega ao longa em animação 3D. Marcos admite que o processo traz limitações completamente diferentes. Em 2D, se é necessário um castelo, desenha-se um castelo.

No 3D, é preciso construí-lo: modelagem, textura, detalhes, luz. Ainda assim, considera essa transposição um dos grandes méritos do filme. “Você olha e vê o personagem 2D ali em 3D, com textura, tudo. Acho que é um dos trunfos do projeto.”

A equipe evitou, porém, uma estética que aproximasse demais o filme de um videogame. Juliano explica que buscaram uma linguagem que também dialoga com o stop motion, inclusive na maneira como os personagens se movimentam e são enquadrados. A escolha faz parte de uma decisão maior: encontrar uma identidade própria em vez de tentar competir visualmente com aquilo que os grandes estúdios internacionais fazem.

Marcos é direto sobre isso. Para ele, entrar numa disputa para fazer algo simplesmente parecido com uma grande produção da Pixar não faria sentido. “É uma luta muito desigual. Não é inteligente. Então vamos pelo nosso caminho.”

E o caminho escolhido também aparece na história. No longa, a Galinha Pintadinha e o Galo Carijó esperam o nascimento de seu primeiro filho. Uma troca de ovos faz o Pintinho Amarelinho acabar no ninho do Gavião, enquanto outro filhote chega à família da Galinha.

Antes de chegar a essa ideia, muita coisa foi considerada. Uma das possibilidades era usar uma criança que atravessaria um portal para entrar no universo da personagem. O problema, segundo Marcos, era que naquele momento o cinema parecia viver “um surto de portais”. Descartaram.

A inspiração para a troca dos ovos veio de um lugar surpreendentemente adulto. Marcos se lembrava de reportagens sobre bebês trocados em maternidades e da pergunta que sempre lhe vinha ao assistir àquelas histórias: como duas famílias voltavam a viver normalmente depois de criar, durante algum tempo, o filho uma da outra? “Você está ligado para sempre com aquela criança. Não tem mais jeito. E tem outra família que cuidou do seu filho.”

Dentro de uma aventura infantil, essa premissa permitiu falar de diferenças, aceitação, cuidado e pertencimento sem transformar o filme em uma aula. “Dá para falar de diferença, dá para falar de aceitação, dá para falar de várias coisas”, explica Marcos.

Juliano destaca outra preocupação: manter a própria Galinha no centro da ação. Pode parecer óbvio num filme que leva o nome dela, mas não é tão simples quando existe um universo cheio de outros personagens. Para os criadores, era importante que ela não fosse apenas alguém cercada por personagens que resolvessem os problemas em seu lugar. É a maternidade que a coloca em movimento e, ao longo da aventura, também a transforma.

Há humor, música e personagens familiares, mas existe uma camada emocional que conversa de maneira diferente com os adultos que acompanham as crianças. Para quem viveu recentemente o nascimento de um filho, observa Juliano, algumas dessas emoções estarão especialmente próximas.

O longa chega ainda num momento quase perfeitamente coreografado. Ao mesmo tempo em que a Galinha Pintadinha completa 20 anos e estreia no cinema, uma área temática dedicada à personagem acaba de ser inaugurada no Beto Carrero World. São projetos independentes, desenvolvidos durante quatro ou cinco anos, que acabaram chegando ao público praticamente juntos. “Se a gente tivesse contratado a NASA, talvez não desse tão certo”, brinca Marcos.

Ele diz que, neste momento, prefere pensar no filme como celebração. Já existe interesse do mercado em novas possibilidades para esse universo visual, inclusive uma eventual série, mas os criadores parecem menos interessados em anunciar os próximos 20 anos do que em desfrutar os primeiros. “Agora a gente está pensando mais nas férias mesmo. Celebrar e tirar férias.”

Talvez tenham direito. Afinal, houve um tempo em que o sonho era vender mil DVDs. Agora, Juliano e Marcos chegam a uma sala de cinema e encontram crianças, adolescentes e adultos diante de uma galinha azul que, por muito pouco, poderia ter desaparecido quando alguém disse que aquele vídeo já podia ser apagado.

No fim da entrevista, pergunto a Marcos se, depois de ouvir as mesmas músicas durante duas décadas, ainda é possível escutá-las realmente como música ou se o “pó pó pó” já se instalou definitivamente em alguma parte do cérebro. Ele lembra da sessão recente, quando as canções tocavam enquanto o público entrava na sala. “Me traz um prazer imenso ouvir as músicas”, responde. “Eu não consigo enjoar delas.”

Vinte anos depois, talvez essa seja uma das explicações mais simples para tudo: eles ainda gostam da Galinha. E o público também.

crônica

Tudo como era antes só que pior

03/10/2026 08h15

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Estou lendo o livro “Lacerda: Coração de Tempestade”, de Mário Magalhães, há uma semana. Todas as noites leio de 20 a 30 páginas do volume que fica na minha cabeceira. É o primeiro tomo de uma história instigante que se passa nas décadas de 1914 a 1955. Fala sobre o envolvimento do pai de Lacerda, Maurício, na política brasileira e relata uma série de acontecimentos naquele Brasil cingido por paixões febris, revoltas tenentistas, cabeças quentes e discursos que pareciam incendiar as esquinas.

É inevitável a comparação e a percepção de um paradoxo desconcertante. A tecnologia avançou um século. Cruzamos dados na velocidade da luz, criamos inteligências artificiais capazes de emular a voz humana e carregamos supercomputadores no bolso. No entanto, o nosso comportamento tribal parece ter retrocedido aos tempos mais obscuros da velha República.

O que está acontecendo com as pessoas? Nas últimas semanas, o que se convencionou chamar elegantemente de “guerra de narrativas” transformou o cenário eleitoral em um pântano de ruídos e distorções explícitas. Mas, ao contrário dos comícios históricos que arrastavam multidões pela curiosidade ou pela revolta, o efeito atual na alma do cidadão comum tem sido o anestésico. As pessoas estão cansadas.

A desinformação industrializada não serve apenas para fazer alguém acreditar em uma mentira; sua função mais perversa é fazer com que as pessoas deixem de acreditar em qualquer verdade. Diante do bombardeio, o cérebro desliga para se proteger. Silenciam-se os grupos de mensagens, muda-se o canal de televisão, desvia-se o assunto no almoço de domingo. A apatia que vemos nas ruas não é ausência de civilidade, é exaustão mental.

Cem anos atrás, a mentira política dependia da perna curta do boato de boca em boca. Hoje, ela tem alcance global instantâneo e ganha fã-clube. Não há mais o pudor do desmentido. Se a ficção atende aos interesses da nossa “tribo”, nós a adotamos como brasão.

Maurício, Lacerda e seus contemporâneos sabiam que a política era o palco do conflito humano. Mas eles disputavam o destino do País com palavras, ideias e, sim, muita virulência. O que testemunhamos hoje não é paixão política; é um canibalismo digital que esvazia o debate e adoece quem assiste.

Caminhamos pela modernidade tecnológica com os mesmos instintos primitivos daqueles que viam fantasmas no início do século passado. Talvez o maior desafio desta eleição não seja decidir quem irá governar, mas sim como resgatar a nossa capacidade coletiva de respirar, discernir e, acima de tudo, voltar a confiar.

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