O focinho grisalho, as horas de sono mais longas, a dificuldade para subir no sofá ou a ausência na porta quando alguém chega podem ser sinais de que o cão entrou em uma nova fase da vida.
O envelhecimento dos animais não envolve apenas mudanças físicas. A rotina, o comportamento e a relação com os tutores também podem se transformar.
Juliana Sato, psicóloga especialista em vínculo humano-animal e luto pet - Foto: Helton NóbregaPara a psicóloga Juliana Sato, especialista em vínculo humano-animal e luto pet, perceber que o cão está envelhecendo pode ser um momento emocionalmente marcante para a família. Muitas vezes, a percepção acontece a partir de uma mudança aparentemente pequena.
“Esse reconhecimento raramente é gradual. Ele costuma vir de repente, a partir de um detalhe. Nesse instante, a família entende que o tempo passou, e isso mexe com ela”, explica.
Na chamada fase sênior, alguns cães podem ficar mais quietos e seletivos na interação, enquanto outros passam a procurar mais a companhia dos tutores. Ansiedade, irritabilidade, isolamento e maior dependência também podem aparecer. No entanto, nem toda mudança deve ser automaticamente atribuída à idade.
MUDANÇA DE COMPORTAMENTO
Um dos principais cuidados nessa fase é observar alterações que fogem do padrão habitual do animal.
Mudanças no sono, apetite, disposição, interação ou comportamento podem estar relacionadas a problemas de saúde e precisam ser avaliadas por um veterinário.
“Chamamos de teimoso o cão que talvez não esteja ouvindo, de manhoso o que pode estar sentindo dor e de birrento o que está desorientado. Toda mudança de comportamento deve ser levada ao veterinário antes de virar traço de personalidade”, alerta Juliana.
A orientação é que os tutores acompanhem o animal de perto e registrem alterações percebidas no dia a dia. Essas informações podem ajudar o profissional a identificar mudanças que nem sempre ficam evidentes durante uma consulta.
A RELAÇÃO TAMBÉM MUDA
O envelhecimento não significa, necessariamente, que o vínculo entre cão e tutor esteja enfraquecendo.
O que muda é a maneira como essa relação acontece. Um animal que durante anos acompanhou a família em caminhadas, brincadeiras e outras atividades pode passar a apresentar limitações físicas ou sensoriais.
Nesse momento, a expectativa dos tutores também precisa ser revista.
“A família precisa deixar de esperar que o cão se adapte a ela e passar a se adaptar a ele. O cão não está ficando difícil, ele está vivendo com um corpo e uma percepção diferentes”, afirma a psicóloga.
Isso significa, por exemplo, compreender que um cão que já não consegue acompanhar um passeio longo pode continuar aproveitando a atividade de outra forma. O tempo fora de casa pode ser mais curto e respeitar o ritmo do animal.
“O passeio deixa de ser exercício e passa a ser presença, exploração, tempo de farejar sem pressa”, explica.
MUDANÇAS QUE AJUDAM
A adaptação da casa também pode contribuir para o bem-estar do cão idoso. Manter os móveis nos mesmos lugares, estabelecer horários mais previsíveis e oferecer um espaço tranquilo para descanso são algumas medidas que podem proporcionar mais segurança ao animal.
A convivência, entretanto, não precisa desaparecer. Brincadeiras, passeios e momentos de interação podem continuar fazendo parte da rotina, desde que sejam adequados às condições físicas do cão e às orientações do veterinário.
Preservar hábitos conhecidos também é importante. Sempre que possível, o animal deve continuar participando da vida da família, ainda que algumas atividades precisem ser modificadas.
A autonomia também deve ser respeitada. Permitir que o cão faça escolhas dentro de suas possibilidades e mantenha seus próprios rituais pode contribuir para preservar a qualidade de vida e o vínculo com os tutores.
MUDANÇAS NOS HUMANOS
A velhice do animal pode provocar mudanças emocionais não apenas no cão, mas também em quem convive com ele.
Segundo Juliana, é possível que os tutores experimentem o chamado luto antecipatório, caracterizado pelo sofrimento diante da percepção de que o animal está envelhecendo e de que a despedida, em algum momento, acontecerá.
Esse processo pode vir acompanhado de tristeza, preocupação, medo e cansaço. A rotina de cuidados também pode se tornar mais exigente conforme surgem limitações ou necessidades específicas.
“Quem cuida também precisa de espaço para falar do que sente, inclusive do cansaço e da tristeza”, afirma.
Reconhecer essas emoções pode ajudar a família a lidar de maneira mais consciente com a nova fase, sem transformar sentimentos como irritação ou culpa em motivo de julgamento.
CONVERSA PREVENTIVA
O acompanhamento veterinário se torna ainda mais importante à medida que o animal envelhece. Além de investigar mudanças de comportamento, as consultas permitem acompanhar as condições de saúde e discutir adaptações necessárias para a rotina.
Outro assunto que pode ser abordado previamente é o fim da vida. Para Juliana, conversar com o veterinário sobre possibilidades, cuidados e decisões antes de uma situação de crise pode diminuir a pressão emocional enfrentada pela família quando o momento chegar.
“Essa conversa não antecipa a morte. Ela protege o tempo que ainda resta”, conclui a especialista.

Neiba Ota e Múcio Marinho
Roberta Miranda


