Após conquistar plateias em todo o País e ultrapassar a marca de 150 mil espectadores em dois anos, o espetáculo “Prima Facie” desembarca em Campo Grande para três apresentações especiais, nos dias 15, 16 e 17 de maio, no Teatro Glauce Rocha.
A montagem, protagonizada por Débora Falabella e dirigida por Yara de Novaes, chega à capital sul-mato-grossense cercada de expectativas, após temporadas esgotadas e forte repercussão crítica.
Escrita pela dramaturga australiana Suzie Miller, a peça é considerada um dos textos mais impactantes do teatro contemporâneo.
Ao abordar questões sensíveis como violência sexual, desigualdade de gênero e os limites do sistema judicial, “Prima Facie” extrapola o entretenimento e se estabelece como uma experiência teatral que provoca reflexão e debate.
ASCENSÃO E QUEDA
No palco, Débora Falabella dá vida a Tessa, uma advogada criminalista de origem humilde que construiu uma carreira sólida defendendo homens acusados de agressão sexual.
Inteligente, pragmática e confiante, a personagem acredita no sistema jurídico e nas regras que o sustentam até que sua experiência pessoal coloca essas convicções em xeque.
Atuação intensa de Débora Falabella resultou em sessões esgotadas e temporadas prolongadas ao longo dos dois anos em que a peça está em cartaz - Foto: ReproduçãoA partir de um episódio traumático, Tessa passa a enxergar o Direito sob outra perspectiva. O que antes parecia uma estrutura lógica e imparcial revela falhas profundas, especialmente no tratamento dado às vítimas de violência sexual.
A narrativa, conduzida em formato de monólogo, acompanha essa transformação interna com intensidade crescente, conduzindo o público por um percurso emocional que mistura indignação, empatia e questionamento.
O título da peça, expressão latina que significa “à primeira vista”, dialoga diretamente com o universo jurídico, no qual decisões muitas vezes se baseiam em evidências iniciais.
No contexto da obra, no entanto, a expressão ganha novas camadas de significado, ao expor as limitações de um sistema que exige provas irrefutáveis em situações marcadas pela subjetividade e o trauma.
Ao questionar o funcionamento do sistema judicial e dar voz às experiências de vítimas de violência, o espetáculo convida o público a repensar conceitos de verdade, prova e justiça.
A força do monólogo, sustentado exclusivamente pela presença de Débora Falabella em cena, intensifica essa proposta. Sem distrações, o público é colocado frente a frente com a narrativa, em uma experiência que muitas vezes provoca desconforto, mas também empatia e consciência.
RECONHECIMENTO GLOBAL
A trajetória de “Prima Facie” começou em 2019, na Austrália, mas foi em 2022, com sua montagem no West End londrino, que a peça alcançou projeção internacional. Protagonizada por Jodie Comer, a produção foi aclamada pela crítica e venceu importantes prêmios, incluindo o Laurence Olivier de Melhor Nova Peça.
O sucesso se repetiu na Broadway, em Nova York, onde a obra também recebeu críticas majoritariamente positivas e consolidou sua relevância no cenário teatral global.
Desde então, o texto de Suzie Miller vem sendo encenado em diversos países, como Alemanha, Estados Unidos, Turquia e Nova Zelândia, além de ganhar adaptações em diferentes idiomas e contextos culturais.
Mas o impacto da peça vai além dos palcos. A autora foi convidada a participar de debates internacionais, incluindo uma assembleia da ONU sobre violência contra a mulher. Em alguns países, a repercussão chegou a influenciar discussões sobre mudanças na legislação relacionada a crimes sexuais.
MONTAGEM BRASILEIRA
No Brasil, a estreia de “Prima Facie” ocorreu em abril de 2024, no Rio de Janeiro, e rapidamente se transformou em um fenômeno de público.
A combinação de um texto potente com a atuação intensa de Débora Falabella resultou em sessões esgotadas, temporadas prolongadas e uma série de debates realizados após as apresentações.
Em Brasília, por exemplo, a peça reuniu importantes nomes do Judiciário, como a ministra do STF Cármen Lúcia, o ex-ministro Ayres Britto e a subprocuradora-geral Raquel Dodge.
As conversas abordaram temas como a dificuldade de comprovação em casos de violência sexual, a revitimização de mulheres nos tribunais e a necessidade de maior representatividade feminina no sistema de Justiça.
A montagem também passou por cidades como Belo Horizonte, Salvador e Curitiba, além de uma longa temporada em São Paulo, onde permaneceu em cartaz por oito meses com ingressos esgotados. O sucesso consolidou o espetáculo como um dos principais acontecimentos teatrais do País nos últimos anos.
PREMIAÇÕES
O trabalho de Débora Falabella em “Prima Facie” foi amplamente reconhecido por premiações importantes.
A atriz venceu o Prêmio Shell de Melhor Atriz, o Prêmio APCA e o Prêmio Bibi Ferreira, além de receber o Prêmio Arcanjo de Melhor Solo.
A montagem também se destacou no Prêmio APTR, conquistando cinco troféus, incluindo Melhor Atriz, Direção, Cenografia, Iluminação e Figurino. Esses reconhecimentos evidenciam a qualidade artística do espetáculo, que combina uma atuação visceral com uma encenação cuidadosamente construída.
Elementos técnicos desempenham papel fundamental na experiência cênica. O cenário de André Cortez, a iluminação de Wagner Antonio e o figurino de Fabio Namatame contribuem para criar uma atmosfera que acompanha a jornada emocional da protagonista, reforçando a imersão do público.
>> Serviço
“Prima Facie” em Campo Grande
Datas: 15, 16 e 17 de maio.
Horários: às 20h (sexta e sábado) e às 18h (domingo).
Local: Teatro Glauce Rocha.
Ingressos pelo Sympla.
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Foto: Divulgação/UFMS
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