Ilustrador há décadas e incentivador da produção local, o idealizador do projeto Tereré e Quadrinhos em Mato Grosso do Sul, Emmanuel Merlotti, criador do personagem Lázaros Hunter, está indo rumo à sua quarta participação no Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ) de Belo Horizonte, em Minas Gerais, que será realizado entre esta quarta-feira e domingo, é considerado um dos principais palcos nacionais para produtores do gênero.
Ainda em agosto, Emmanuel Merlotti transformou seu evento Tereré e Quadrinhos em um formato de "rolê" em uma cervejaria da capital sul-mato-grossense. Agora, o quadrinista busca levar essa produção de MS e destaca os desafios enfrentados por ele e toda a classe artística quando a intenção é viajar do Estado para participar do circuito.
"Essas viagens são muito caras, e acredito que dá para contar nos dedos o número de artistas selecionados que vão representar nosso estado no evento este ano", comenta ele.
Ao Correio B, Merlotti expõe que apoios como viagem, hospedagem e curadoria contribuem, e muito, para que artistas locais consigam participar desse tipo de evento. Porém, no sentido de políticas públicas, reforça que, se até mesmo atletas sofrem do mesmo descaso, os incentivos deveriam priorizar a todos.
Profissional da ilustração há aproximadamente 25 anos, Emmanuel Merlotti acompanhou a explosão do digital e toda a popularização das redes sociais, até mesmo como forma de vitrine para seus trabalhos, e comenta sobre como a participação em festivais auxilia a comercialização de suas obras, já que, pessoalmente, viu as vendas on-line despencarem nos últimos anos.
"Para um ilustre autor independente desconhecido como eu, vendo pouco, mas, quando meu quadrinho foi vendido na Amazon, pela distribuição da Skript Editora, vendi bastante, se não me engano, quase 300 cópias da mesma edição. Eventos como o FIQ são muito importantes para vender diretamente para seu leitor. Ali é a oportunidade perfeita para você vender, cativar seu leitor, ganhar seguidores e garantir um possível apoiador para futuras campanhas no Catarse de novas edições".
Por esse motivo, Merlotti frisa que, apesar das despesas de viagem e do valor da mesa, é fundamental participar de eventos como o FIQ.
Sendo esta sua quarta participação no festival, ele comenta o que mudou na sua relação com o evento desde a primeira ida. Conforme o ilustrador, para um quadrinista que vem de fora do eixo, a presença num evento como esse abre uma série de conquistas concretas.
"Acredito que vendas, novos leitores, consequentemente seguidores, e, o principal, marcar presença. O mercado respeita mais o artista que comparece aos eventos; editores, artistas, gibitubers, enfim, todos os pilares da indústria comparecem a esses eventos", diz.
Além disso, ele complementa reforçando que o FIQ ofereceu uma Rodada de Negócios, realizada em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o que ele e outros produtores puderam aproveitar nos últimos anos.
"O fato é que é extremamente profissional. Você preenche uma ficha on-line, escolhe as editoras com as quais você gostaria de trabalhar. Entre umas 15 editoras, você pode escolher apenas quatro, só que, como alguns artistas faltam, você pode tentar um encaixe com outra editora, daí é só se inscrever na hora.
E aí eles organizam esse encontro e os artistas comparecem à reunião com cada rodada para as respectivas editoras que você escolheu mostrar seu portfólio. Detalhe, na inscrição, a editora tem que te escolher de volta também", explica.
OBRA NA ERA DIGITAL
Como ilustrado por Merlotti, há um levante em oposição ao uso de inteligência artificial (IA) em detrimento da arte humana, com o trabalho dos quadrinistas sendo uma forma também de resistência dos artistas e produtores tradicionais.
Essa luta contra a produção de arte generativa (peças produzida a partir de IA) levanta aspectos de qualidade e da personalidade das produções artísticas.
Sobre sua rede de contatos e parcerias, o quadrinista comenta como fez para solidificar um bom network estando em Mato Grosso do Sul, ressaltando quais caminhos funcionaram para que ele pudesse furar a bolha geográfica e reforçando que participar de eventos sempre foi fundamental, mas isso nem sempre se reflete em retorno imediato.
"É mais para um investimento a longo prazo e, mesmo assim, é fundamental participar. Nas rodadas de negócio, você conhece os editores pessoalmente e, ali, as oportunidades podem surgir. Eu não diria que a maior parte desses encontros com editores renderam alguma coisa, mas algumas oportunidades, sim", conta.
Merlotti lembra que durante a pandemia ilustrou uma charge que o ajudou a furar a bolha, o que fez com que um editor encomendasse uma de suas artes em razão da publicação, o que ainda lhe rendeu novas oportunidades.
"Desse mesmo editor veio um convite para uma coletânea com temáticas lovecraftianas eu fiz uma história em quatro páginas. Logo depois, fui convidado para fazer meu primeiro grande trabalho, 'A Maldição da Pedra Escarlate', da editora Skript, uma história com Salomão Kane no Brasil colonial, com personagens de 'O Alienista', de Machado de Assis. O roteiro não foi meu, eu participei apenas como artista", relembra.
No que diz respeito a produzir quadrinhos localmente, ele brinca que Campo Grande é uma cidade "longe de tudo", o "charme" da Cidade Morena, que até parece capital, "mas não passa de uma cidadezinha provinciana, calma, arborizada e rica em diversidade na fauna das espécies do Pantanal", o que Emmanuel Merlotti considera um privilégio.
Enquanto artista, ele diz que uma formação não garante ser um bom autor de quadrinhos, sendo necessário para cada um a constante atualização em técnicas e melhorias no próprio trabalho.
"E sou dessa época que não tinha, era mais difícil, mas hoje em dia ficou mais fácil. E ficar por dentro do seu universo ajuda muito também. Uma boa leitura, experimentar muitas técnicas, ser politizado e se manter longe da IA garantem seu desenvolvimento", afirma.
Para sua quarta participação na FIQ, Emmanuel Merlotti levará uma nova aventura de seu personagem principal, Lázaros Hunter, figura que já protagonizou a HQ "O Silêncio dos Inocentes" e retorna agora para "bicudar" supremacistas brancos.
"O artista só existe no mercado se der as caras nos eventos e fizer seu próprio quadrinho autoral, que é como seu cartão de visita. E quanto a ser afastado dos grandes polos, te dá mais chances de ser original", aponta.
A figura, que já foi ilustrada em crossovers ao lado de figuras icônicas de quadrinhos, como o personagem Lobo, da DC Comics, Super-Homem, metralhando o serial killer Jason Voorhees e em capas, junto de Spawn, e mais, agora retorna ao combate a integrantes da Ku Klux Klan.
"Farei o lançamento da nova revista 'Lázaros Hunter Crimes de Guerra", e tenho muito orgulho dessa edição, porque ela é extremamente atual. Lázaros enfrenta uma célula da Ku Klux Klan numa delegacia de polícia de uma cidadezinha em pleno Natal. É uma história mais curta do que minha última edição, 'Lázaros Hunter: O Silêncio dos Inocentes', que também estarei vendendo lá. Na mesa terá outras revistas também, mas são trabalhos que fiz para outros autores e editoras com os quais trabalhei", conclui o quadrinista local.



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Jordanna Maia





